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Cap. 29: LABIA MAJORA

Havia alguns minutos que Raul, debruçado sobre Teresa na cama, acariciava e beijava a sua escrava, que dava pequenos gemidos e retribuía brandamente as carícias dele. Pouco a pouco, as mãos e os lábios dele foram-se aproximando da vagina de Teresa, que começou lentamente a afastar as coxas para lhe facilitar o acesso. Raul acariciava-lhe os pequenos lábios e o clítoris, beijando-os e sugando-os com toda a leveza de que era capaz.

− Deixa-me ver bem a tua coninha, minha escrava.

Teresa, flutuando no mar morno da sua excitação, não entendeu: então ele não a estava a ver bem? Viu-o levantar-se, sair do quarto, e voltar com um candeeiro, que colocou aos pés da cama e acendeu.

− Abre mais as pernas.

Teresa obedeceu. Isto não era excitante, não dava prazer, não significava nada que ela entendesse, mas, para quem se deu a alguém, confiar é obedecer: Raul sabia com certeza o que estava a fazer. Parte da excitação que Teresa sentira regressou, apesar da luz forte, quando Raul recomeçou a tocar-lhe a vulva, afastando com os dedos os grandes lábios, tocando-lhe o clítoris, examinando o capucho que o escondia parcialmente, apalpando por fora a parte que se oculta no interior do corpo. Era como o toque do ginecologista, que a deixava fria, mas ao mesmo tempo era o toque do amante, que a deixava em brasa: mais uma sensação nova para juntar às que Raul lhe provocava. Raul sabia que o clítoris de Teresa era bem mais longo do que parecia, e se parecia pequeno, era porque só a ponta aflorava à superfície do corpo. Procurou seguir-lhe a raiz com os dedos e conseguiu-o em parte, mas não teve a sensibilidade suficiente para se dar conta do ponto em que a raiz do clítoris se bifurca, rodeia a uretra pelos dois lados e se vai ligar à vagina. Depois seguiu-lhe com os dedos os pequenos lábios, beijando-os de vez em quando, mas aparentemente mais atento ao exame que estava a fazer do que ao prazer que pudesse dar ou obter. Apertou-lhe os lábios exteriores um contra o outro: eram bastante carnudos, e apesar da excitação de Teresa, ocultavam por inteiro os lábios interiores, que eram mais estreitos do que o habitual, e frisados como pétalas de cravo.

− Perfeito – murmurou para si mesmo.

Era bom que Raul considerasse que ela tinha uma vulva perfeita, mas perfeita para quê? Teresa ignorava a razão deste exame a frio, que começava a excitá-la quase tanto como a excitaria uma verdadeira carícia; mas não ousou fazer qualquer pergunta. Em todo o caso, o exame não durou muito mais: Raul levantou-se, desligou o candeeiro e retomou as carícias de havia pouco, até que o corpo de Teresa se contorceu numa convulsão de prazer. Raul manteve-a no cume durante tanto tempo quanto foi capaz, para depois a trazer de volta muito lentamente. Teresa sentia-o muito excitado – bastava sentir-lhe a dureza do pénis – mas, como era típico dele, sem pressa nenhuma de a penetrar. O que queria ele agora dela? Começou a beijá-lo na cara, nos ombros e no pescoço. Raul começou a tocar-lhe sucessivamente os seios, os flancos, as ancas, testando-lhes a textura e a firmeza.

− Meu senhor, posso fazer-te uma pergunta? – disse Teresa. − O que foi aquilo há bocado? Estavas a brincar aos médicos?

Raul riu-se, beijou-a na comissura dos lábios e respondeu:

− Não é bem isso, minha escrava. São duas coisas que tenciono mandar fazer-te. Uma depilação definitiva…

– Hmmm… – respondeu Teresa. – Não sei se vou gostar… mas tu é que decides, claro.

– Claro – concordou Raul. – Amanhã tens uma consulta marcada. Andei a ver qual era a melhor clínica do Porto. O tratamento completo vai demorar de um a dois anos, até que os pelos não voltem a crescer, mas os resultados vão começar a ver-se logo a partir do primeiro.

− Sei como é – disse Teresa. – E qual é a outra coisa que me vais fazer?

− Vou mandar pôr-te piercings na vulva, nos lábios maiores. Mas isso é para mais tarde, e vai ter que ser feito em S. Paulo.

− Em S. Paulo? Que piercings tão especiais são esses? Pensei que bastava chegar ali à Baixa a qualquer casa de tatuagens e sair de lá meia hora depois com os piercings postos…

Raul começou a acariciar-lhe a vulva com a mão enquanto lhe respondia.

− Estes vão ser mesmo especiais. Vão ser em titânio e desenhados para o fim que tenho em vista.

Teresa soltou um gemido:

− Meu senhor… sou tua, farás de mim o que quiseres… mas agora estou a imaginar que me vais fazer as coisas mais inconcebíveis, sem eu saber o que é… Não vai ser nada que te impeça de me possuir, pois não?

Raul deu uma risada branda:

– E eu alguma vez ia querer deixar de te possuir? Não, meu amor, não vai ser nada disso. O que pode, é impedir que outros te possuam… Não te importas?

– Eu? Não, meu senhor. Até fico excitada… saber que sou só tua, mesmo fisicamente… que não me pertenço, mas a ti… mas gostava que me mostrasses outra vez isso mesmo; posso-te pedir isso?

Como poderia Raul não perdoar? Antes de a penetrar, recomeçou a acariciá-la e a beijá-la longamente na vagina, nos pequenos lábios e no clítoris, e, em cada ponto em que ele tocava, Teresa perguntava a si mesma: vai ser aqui? Vou ser furada aqui? Não a perturbava usar piercings: já tinha tido furos nos mamilos que depois tinham acabado por cicatrizar e desaparecer. Minutos mais tarde, quando lhe pediu licença para gozar, ele negou-lha; e ela ficou acordada durante horas, trespassada daquela estranha energia, daquele estranho prazer que não sabia explicar, sentindo-o dormir ao seu lado, saciado. Em cada dia que passavam juntos, parecia a Teresa que a sua escravidão se aprofundava mais um pouco. Tinha consentido nas modificações que Raul se propunha fazer-lhe no corpo, sem mesmo perguntar quais eram; apenas lhe pedira que lhe mostrasse mais uma vez que não se pertencia a si própria, mas a ele. Mas Teresa reflectia também que o que se aprofundava não era tanto a sua escravidão como o domínio de Raul sobre ela, um domínio cada vez mais envolto em ternuras e cuidados, como dizia Carolina, mas cada vez mais livre de culpas e de escrúpulos.

Noutra noite, numa noite de castigo, Teresa jantou à mesa com Raul – com a sua saia mais sumptuosa, e coberta de jóias como era regra, mas nua da cinta para cima. Milena, que servia a refeição, sorria-lhe de vez em quando e acariciava-lhe o ombro, como para lhe dar coragem; e Teresa bem precisava de coragem para suportar o que lhe estava reservado para daí a pouco.

Com efeito, Raul, depois de ter bebido o seu whisky e fumado o seu charuto, com ela todo o tempo a beijar-lhe os pés, mandou-a esvaziar a bexiga e esperar por ele, toda nua e sem jóias, no quarto dos castigos. Teresa esperou de pé, com a cabeça baixa e os braços caídos ao longo do corpo. Quando Raul entrou, não ergueu os olhos para ele, mas reparou que tinha mudado de roupa e estava agora de chinelos, pijama e roupão. Quando ele lhe pôs a mão no queixo para a obrigar a erguer a cabeça e lhe dar um beijo na face, Teresa fechou os olhos, virou-se para ele e ofereceu-lhe docemente os lábios.

− Deita-te na banca da esquerda, de barriga para cima.

Era a banca abaulada: deitada sobre ela, Teresa ficava com a pélvis mais alta que a cabeça e os pés. Tinha ido nessa tarde à consulta marcada na clínica de beleza: depois de a examinarem, tinham-na rapado com uma lâmina e feito vários testes antes de lhe fazerem o primeiro tratamento com luz pulsada. Era uma sensação estranha estar assim exposta, com o sexo completamente depilado, mais nua do que alguma vez se tinha sentido. Sentiu que Raul lhe amarrava o pulso direito, apertando a corda com força e atando-o a uma das argolas de bronze no canto da banca. Depois amarrou-lhe os tornozelos, escolhendo as argolas de bronze que a faziam afastar mais as pernas. Entretanto, ajeitando o corpo em direcção à cabeceira da banca, Teresa tinha conseguido aliviar a tensão da corda que lhe prendia o pulso; mas, com as pernas presas, isto já não lhe foi possível quando ele lhe amarrou o pulso esquerdo. Voltando aonde tinha começado, Raul desatou o pulso que tinha amarado em primeiro lugar e puxou a corda antes de o atar outra vez; e assim deu várias voltas à banca, esticando as cordas mais um pouco, sempre pela mesma ordem, até não ser possível a Teresa aliviar a tensão.

As cordas, assim apertadas, faziam-lhe doer. Quando Teresa pensou que já estava imobilizada, Raul ainda a prendeu com mais cordas nas coxas, junto aos joelhos, obrigando-a a escarranchar ainda mais as pernas. Não a amordaçou nem a vendou: embora a posição incómoda em que ela tinha a cabeça não lhe permitisse seguir todos os movimentos do dono pela sala, permitia-lhe ver alguns. Agora é que ele vai buscar o chicote, pensou Teresa; ainda bem que ele a tinha mandado esvaziar a bexiga, caso contrário talvez não pudesse evitar encharcar-se de medo. Mas Raul, quando voltou para junto dela, não trazia chicote nem vergasta, mas sim dois pequenos objectos que ela só identificou quando ele lhos prendeu aos mamilos: duas molas que a fizeram arquejar de dor. O que quer que ele tencionasse fazer a seguir, era preciso esperar que a dor abrandasse, caso contrário não sentiria mais nada. Enquanto esperava, ele alisou-lhe os cabelos e ofereceu-lhe a mão aos lábios para que ela a beijasse. Isto deu-lhe tempo a sentir algo mais do que a dor nos mamilos, que era agora uma sensação surda. Raul passou um dedo a todo o comprimento da vulva exposta de Teresa, que se deu conta de que estava completamente molhada. Meteu-lhe o dedo na boca, para que ela provasse os seus próprios sucos, e trepando para cima da banca, introduziu-lhe o pénis na vagina.

Pompoar – ordenou-lhe.

Teresa já estava suficientemente adiantada nas lições de pompoar para que alguns dos movimentos se lhe tivessem tornado quase instintivos, mas desta vez era-lhe exigido mais do que isso. Concentrou-se nas técnicas que ainda não tinha automatizado; e esta concentração, conjugada com o desconforto da sua posição, fez com que a onda do orgasmo, ainda pequena, que mal lhe começava a crescer ao largo do corpo, se aplanasse de novo. Não pediu autorização para ter orgasmo; para quê, se mesmo sem orgasmo o prazer que sentia era tão intenso, e se o prazer que soubesse dar Raul o compensaria amplamente? Sentiu que os movimentos dele se tornavam cada vez mais fluidos e que exigiam dele cada vez menos esforço, apesar de serem cada vez mais amplos e mais fortes; ouviu-lhe a respiração cada vez mais sonora, mas também cada vez mais solta; e preparou-se para acolher dentro de si, com alegria e amor, o jacto de esperma em que ele se esvairia em breve. Mas Raul, quase no momento de atingir o clímax, ainda lhe ordenou:

− Vem-te agora, escrava. Dá-me o teu prazer.

E, em obediência esta ordem, a prega de mar que antes, ao largo, se aplanara, a pequena onda que fora para Teresa uma promessa, cresceu de novo, agigantou-se, adquiriu no topo uma crista de espuma, curvou-se sobre a praia do seu corpo e desabou sobre ela, arrastando-a, virando-a em todas as direcções, mais uma vez perdida. Escrava, puta, galdéria, pensou, que me venho assim só porque um homem manda. Mas estes insultos que dirigia a si mesma não eram sinceros: não podia enjeitar a alegria e o orgulho que a invadiam; e puta não era de certeza, a não ser de Raul.

Mal acabou de a possuir, Raul levantou-se e limpou o pénis com dois toalhetes húmidos, tirados de uma embalagem que Milena tinha guardado para esse efeito num dos armários. Calçou os chinelos, vestiu-se, e começou a desamarrar Teresa tão metodicamente como a tinha amarrado. No fim, tirou-lhe as molas dos mamilos, causando-lhe uma dor bem maior do que lhe tinha causado ao pô-las.

− Não te levantes ainda, espera um pouco – ordenou.

Dirigindo-se para a cabeceira da banca, pôs uma mão por baixo da nuca de Teresa e outra por baixo dos ombros e soergueu-a devagar.

− Sentes-te bem? – perguntou.

Ao som afirmativo dela, ergueu-a mais um pouco e disse:

− Agora roda o corpo devagar e põe os pés no chão.

Teresa assim fez e Raul perguntou-lhe de novo se estava bem.

− Estou bem, meu senhor.

Raul ordenou-lhe que ficasse sentada mais uns segundos; depois ajudou-a a levantar e conduziu-a ao quarto de banho, onde tomou duche com ela. Teresa viu-se ao espelho. As marcas das cordas eram fundas e estavam muito vermelhas, e demorariam por certo algum tempo a desaparecer. Se passados dois dias, quando tivesse aula de dança do ventre, ainda se notassem, teria que revelar mais um pouco da sua condição.

Mais tarde, deitados na cama, Raul recomeçou a acariciar-lhe o corpo. Ao tocar-lhe os mamilos foi especialmente gentil, mas Teresa, que os tinha muito doridos, arquejou de dor. Mas continua, meu amor, continua… Raul continuou a acariciá-la, voltando de vez em quando aos mamilos. Teresa respondia-lhe com carícias e com beijos cada vez mais apaixonados.

− Meu senhor… meu dono… – disse Teresa por fim. – Não queres voltar a possuir a tua escrava?

Raul possuiu-a com vigor e ternura, não apressando os preliminares, nem a privando depois duma copiosa porção de beijos e carícias; e autorizou-lhe o orgasmo quando ela o pediu. Raul demorou muito tempo: quando o sentiu gozar, Teresa já tinha terminado completamente, mas disse-lhe:

− Sim, meu senhor, sim, goza em mim, goza sozinho na tua escrava… goza muito, meu querido…

Imaginou que Raul, cansado como devia estar, havia de querer a cama toda só para si e a mandaria dormir aos seus pés. Mas ele, em vez de a mandar embora, estendeu-lhe os braços, e nessa noite dormiram enlaçados.

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Eram oito da noite de sexta-feira e Mariana estava a pôr a mesa para Ricardo. Só para ele, porque hoje ia servi-lo sem participar na refeição como se fosse uma criada. Quanto a ela, já tinha comido: uma salada com cubos de queijo, pão torrado e um molho à base de iogurte magro.

Ricardo, calculava Mariana, devia estar neste momento a sair do seu gabinete em Heidelberg e a fazer-se à estrada num carro alugado, para estar com ela o mais cedo possível. Ia chegar cansado e sem jantar, depois de um dia de trabalho duro e de duas ou três horas a conduzir na Autobahn.

Não valia a pena cozinhar-lhe uma ceia completa, ele ficava sempre sem apetite quando viajava. Em vez disso Mariana preparou tostas, uma tábua de queijos e uma tacinha com framboesas e abriu uma garrafa de vinho, que deixou num aparador a respirar. A seguir dispôs velas aromáticas na sala, deixou a caixa de fósforos à mão, subiu a temperatura no termóstato, ligou o dispositivo de aquecer as toalhas na casa de banho e preparou os óleos para a massagem que tencionava dar ao amante se ele não se agarrasse logo a ela e não a arrastasse para a cama.

Tomou duche antes de tomar banho, como as gueixas; lavou a cabeça, enrolou o cabelo molhado numa toalha, meteu-se na banheira com sais aromáticos, enxugou-se, amaciou o corpo com um creme perfumado, secou e escovou o cabelo.

Tinha-se depilado toda de manhã. Quando o dono lhe ordenara que fizesse isto, tinha protestado, mas agora estava a gostar de se ver lisa como uma menina impúbere.

Pintou as unhas dos pés e das mãos com a mistura de vernizes de que ele gostava: metade transparente, um quarto cor de rosa pálido, um quarto branco-pérola. Vestiu-se e maquilhou-se como ele tinha dito que queria: saia comprida e rodada em tons de terra e laranja, semi-transparente, sem calcinhas; corpo nu da cinta para cima; cinto de fantasia; bijutaria profusa nos pés, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas e sobre o peito; um pouco de rouge, muito pouco, na cara; baton cor de framboesa nos lábios e nos mamilos. Pôs umas chinelas, para usar até ao momento em que ele tocasse à campainha de baixo: Ia recebê-lo como ele tinha mandado, com os pés nus em sinal de respeito; mas também, em sinal do mesmo respeito, com eles limpos.

Quando a campainha tocou guardou as chinelas e foi-se pôr à porta do apartamento para ele não ter que esperar no patamar. Ao sentir-lhe os passos abriu-lhe a porta; lá vinha ele, arrastando o seu velho trolley de viagem azul. Na mão esquerda trazia um ramo de rosas vermelhas atadas com um fio de ráfia: devia ter-se picado nelas ao sair do carro ou ao tocar à campainha, porque trazia um arranhão entre o polegar e o indicador que ainda ressumava perolazinhas de sangue.

Mariana franqueou-lhe a entrada, fechou a porta atrás dele e, mal lhe dando tempo a pousar o trolley, lançou-se-lhe ao pescoço. Ricardo correspondeu apaixonadamente a este beijo, atrapalhado apenas por ter só um braço livre; com o outro mantinha afastado dela o ramo das rosas, para que não a picassem. Quando ele por fim lhe entregou o ramo Mariana levou-o ao nariz, aspirou-lhe o perfume, e ajoelhou com um gesto natural e gracioso para beijar a mão do amante.

– Anda para a sala. Tens fome?

– Não tenho muita…

Mas depois de tirar o casaco e de ir à casa de banho sentou-se à mesa. Mariana, ajoelhada, pousava a cabeça nas coxas dele beijava-lhe a mão quando ele a acariciava. Só se levantou uma vez, para lhe servir o vinho. Duas tostas, dois cubos de queijo, algumas framboesas que ele ia comendo ou dando a comer à amante, e meio copo de Barolo: a isto se resumiu a refeição de Ricardo.

– Estás cansado, meu querido.

– Um pouco. Preciso de tomar um duche.

– Senta-te no sofá, eu dispo-te.

Ricardo fechou os olhos e deixou-se despir como um menino ensonado. A meio do duche Mariana foi ter com ele para acabar de o ensaboar. No fim ajudou-o a secar e levou-o de novo para a sala.

– Deita-te no sofá. Vou dar-te uma massagem para te tirar essa tensão dos ombros.

– Se fizeres isso ainda adormeço aqui mesmo e depois não te sirvo para nada – respondeu ele com um sorriso.

– Não faz mal. Deita-te. Espera, vou pôr aí uma toalha.

Mariana tirou todos os ornamentos que trazia no corpo e pôs-se nua para ter mais liberdade de movimentos. À massagem que deu ao dono com as mãos acrescentou umas carícias com os seios e com o sexo depilado que o fizeram ronronar como um gato.

– Hmmm, tão bom…

A previsão que Ricardo tinha feito de adormecer não se cumpriu completamente. Terminada a massagem rolou do sofá para cima do tapete, pôs-se de barriga para cima, fechou os olhos e estendeu os braços como uma criança a pedir mimo:

– Vem cá, minha escrava…

Mariana trepou para cima dele, montou-o e começou a acariciar-lhe o pénis ainda flácido com a vulva acetinada e húmida. Ricardo sorriu, consolado:

– Tão bom…

A erecção que tinha tido lugar intermitentemente desde que Ricardo tinha entrado em casa de Mariana não tardou a estabelecer-se de novo com renovada pujança, e Mariana empalou-se nela com um suspiro de prazer.

Começou então uma noite memorável, com Mariana a movimentar vigorosamente os quadris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, para os lados, em círculos, e com Ricardo a erguer-se ao encontro dela, mais fundo, mais fundo.

Por vezes ela inclinava-se toda para trás para conseguir o ângulo que mais a excitava, mas o pénis dele estava tão retesado que lhe doía ao ser vergado para baixo. Então puxava-a com força para si de modo a sentir-lhe os seios contra o peito; ela soprava como um gato assanhado mas obedecia, e deixava pender a cabeça para a frente de modo a poder acariciá-lo também com os cabelos.

Ricardo sentia o orgasmo quase a chegar mas, fosse pelo cansaço que sentia, fosse por estar por baixo, ou fosse ainda pela dor que Mariana lhe provocava quando se inclinava para trás, a excitação em que estava só crescia sem se resolver num desenlace. Por vezes o cansaço dos músculos levava-o a ficar passivo enquanto Mariana dançava por cima dele, mas logo o desejo, louco, o obrigava a acelerar e ampliar as estocadas que dava na amante.

Mariana veio-se. E veio-se outra vez. E veio-se outra e outra, tantas vezes que não as pôde contar, tantas vezes que a certa altura já não tinha orgasmos separados, tinha um único orgasmo que continuava e continuava e parecia nunca mais acabar.

Por fim – depois, quando olharam para o relógio, viram que passava das quatro da manhã – Ricardo deu um urro cavernoso, e num último, prodigioso arranque esvaiu-se todo dentro dela, que arquejava «dá-me, dá-me tudo» e se veio também pela última vez nessa noite.

Nem se lavaram. Conseguiram ir os dois, aos tropeções, da sala para o quarto, onde se deitaram em cima da cama e adormeceram imediatamente. Quando acordaram tinham, ele o pénis quase em carne viva, ela a vagina em idêntico estado, e no tapete sobre o qual tinham feito amor vieram a encontrar uma pequena mancha de sangue que nunca vieram a saber se era dele ou dela.

Mariana acordou tarde e viu o amante ainda adormecido ao seu lado. Durante a noite tinham arranjado maneira de puxar o edredon para cima deles, e ainda bem porque a casa estava um pouco fria. Começou preguiçosamente a dar pequenos beijinhos na cara de Ricardo e viu como mesmo a dormir o rosto dele se adoçava num ligeiro sorriso. Depois pousou a cabeça no travesseiro e deixou-se ficar numa deliciosa indolência até o ver acordar e espreguiçar-se.

Esta visão deu-lhe vontade, como que por contágio, de se espreguiçar também e de bocejar longamente.

– Tens fome, meu querido?

– Mais que fome, estou esfaimado. Se não me dás de comer, como-te a ti.

– Então deixa-me tomar duche primeiro, depois tomas tu enquanto eu te preparo o pequeno-almoço.

Ricardo ainda fechou os olhos por uns minutos. Depois levantou-se, vestiu o roupão, calçou os chinelos de quarto e dirigiu-se para a casa de banho, de onde Mariana estava a sair embrulhada numa toalha.

Ao enxugar-se – vigorosamente, como era seu costume – reparou que lhe doía ao esfregar o pénis com a toalha, apesar de esta ser invulgarmente fofa e macia. A pele estava muito vermelha e sensível. Tinham sido horas seguidas de fricção no corpo da amante, e ainda bem que ela estava depilada e macia, porque aquele tempo todo a roçá-lo com os pelos púbicos teria sido mais do que poderia aguentar.

Quando entrou na sala de roupão e chinelas, Mariana já estava vestida, com uma saia preta pelos tornozelos e uma blusa de seda branca. A mesa estava posta e da cozinha vinha um cheiro bom de café e torradas com manteiga.

– Senta-te. Vai bebendo o sumo, que eu já te trago o resto.

À porta da cozinha estavam umas chinelas.

– Vou calçar-me. A tijoleira da cozinha está muito fria. Posso?

– Sim, hoje podes, mas só na cozinha.

Um ruído de louça e talheres a remexer, um súbito aroma a ovos fritos a a bacon, e lá vinha Mariana com um cesto enorme de torradas.

– Vai comendo enquanto estão quentes.

Sentou-se em frente ao dono para beber o sumo de laranja e depois levantou-se, com uma torrada na mão para ir de novo à cozinha. Quando regressou trazia uma travessa de ovos mexidos com bacon e salsichas, e mais torradas. Pôs música a tocar no leitor de CD’s (a sonata de violino e piano «Primavera», de Beethoven), e sentou-se a comer. Por vezes dava-lhe na boca um pedacinho de torrada, ou ele a ela. Serviu muesli misturado com iogurte de cereja, que comeu com um apetite igual ao do amante. Por fim foi à cozinha buscar o café.

– Queres mais?

– Só se for mais café.

– Então vou buscá-lo quente, não bebas esse.

Ficaram mais de meia hora à mesa, a beber café, a pegar nas mãos um do outro e a conversar de coisas sem importância. Quando viram as horas era quase uma da tarde.

– Ai… Ainda vou ter que arrumar isto tudo…

– Eu ajudo-te.

– Não, vai-te vestir.

Ricardo vestiu as suas calças de bombazina cor de mel e uma camisa de flanela aos quadrados, com uma T-shirt por baixo. Não demorou muito a vestir-se e a calçar as peúgas: ainda teve tempo de arrumar a sala e o quarto e fazer a cama enquanto Mariana terminava de lavar a louça e limpar a cozinha.

De tarde foram passear em Brugges, ao longo dos canais. Pararam em frente ao edifício gótico da Câmara Municipal, viram as montras nas ruas centrais, fizeram algumas compras num supermercado. O Equinócio da Primavera já tinha passado, a hora tinha mudado, os dias estavam mais longos e estava sol, mas não se demoraram na rua: depois de lancharem numa confeitaria voltaram para o apartamento de Mariana, onde ficaram sentados a ouvir música e a conversar enquanto lhes apeteceu.

– Daqui a pouco vou fazer o jantar – disse Mariana, abraçando o amante e dando-lhe um beijo. – Queres tomar alguma coisa antes?

– Sim, meu amor. Tens um whisky?

– Já to vou dar. Deixa-te estar sentado.

Mas em vez de se dirigir para o armário das bebidas Mariana meteu-se no quarto, de onde emergiu uns minutos depois com um vestido que Ricardo não lhe conhecia: cintado, preso aos ombros por alças, com uma saia pelos tornozelos muito rodada, e todo às riscas verticais em vários tons de rosa. Na sua versão original devia ter um forro, mas era fácil de ver que Mariana o tinha tirado e que não trazia nada por baixo.

– Gostas do meu traje de escrava?

– Muito. Vestiste-o para me servires o whisky?

– O whisky e não só. Mas espera, primeiro vou-te calçar os chinelos.

Os chinelos de Ricardo estavam no armário da entrada. Mariana foi-os buscar, ajoelhou-se e descalçou o dono, beijando-lhe cada um dos pés depois de tirar a respectiva peúga e antes de lhe pôr o chinelo. Concluída esta tarefa pôs música no leitor de CD’s – Shepherd Moons, da cantora irlandesa Enya – trouxe um tabuleiro que enganchava no sofá, e sobre este pôs um naperon, um copo de cristal e um cinzeiro.

– Um cinzeiro? – admirou-se Ricardo

– Sim. Hoje vais fumar. E não discutas.

A seguir tirou duma gaveta um estojo de cabedal para dois charutos, uma caixa de fósforos e um aparelho de cortar as pontas, e pousou tudo no tabuleiro ao lado de Ricardo. O estojo continha dois Cohibas.

– Não tinhas mais em que gastar o teu dinheiro? – ralhou Ricardo.

Mariana riu-se, foi ao armário das bebidas, tirou uma garrafa de whisky por abrir e mostrou o rótulo ao amante

Cigar? – disse ele. – Não conhecia essa marca.

– Na loja disseram-me que era muito bom. E que era o ideal para acompanhar um bom havano.

Ricardo riu-se e preparou-se para abrir a garrafa, mas a amante deteve-o:

– Não. Tu não fazes nada. Eu sirvo.

Obediente, Ricardo recostou-se no sofá e ficou a contemplar com um olhar de ternura a sua escrava que se esforçava, ajoelhada, por abrir a garrafa. Depois de o ter conseguido deitou no copo dois dedos de whisky, cortou as pontas a um dos charutos, meteu-o na boca e acendeu-o, rolando-o entre os dedos como tinha visto o dono fazer. Ricardo viu-a sugar as bochechas para dentro para puxar o fumo, exactamente como fazia qundo lhe chupava o sexo, e com um brilho nos olhos acariciou-lhe o cabelo.

Levadas a bom termo todas estas tarefas Mariana sentou-se no chão aos pés de Ricardo e começou a contar-lhe todos os pormenores da sua mais recente exposição. De vez em quando levantava-se, animada, e ia buscar um quadro que se tinha esquecido de lhe mostar antes, ou fotografias de outros quadros, que lhe ia dispondo sobre os joelhos para ele ver. Entusiasmada, explicava-lhe as novas técnicas que tinha aprendido desde a última visita: as tintas, os betumes, os vernizes, as areias coloridas, as espátulas, os pincéis, as folhas e as bagas recolhidas no bosque e coladas na tela.

Ao esmorecer da conversa Ricardo inclinou-se para a frente, segurou-lhe o queixo e beijou-a ternamente nos lábios.

– Agora vou-te possuir, minha escrava.

– Sim…

Mariana num instante se pôs nua, o vestido saía pela cabeça e ela não trazia mais nada sobre o corpo.

– Deita-te aqui no sofá – disse Ricardo. Quando a viu deitada ajoelhou-se sobre o tapete, debruçou-se sobre ela e começou a cobri-la de beijos, começando nos ombros, subindo ao pescoço, aos olhos, às orelhas e à comissura dos lábios, e descendo aos seios. Por longos minutos não fex mais nada além de lhe lamber e chupar os mamilos enquanto lhe insinuava a mão entre as coxas. Mariana começou logo a abrir um pouco as pernas, ou melhor, as pernas abriam-se-lhe por si próprias, sem que ela sequer o notasse. Sem pressa nenhuma Ricardo foi descendo com os lábios ao longo do corpo dela, às vezes voltando para cima em direcção aos seios e ao pescoço, mas indo sempre um pouco mais abaixo de cada vez que descia. Meteu-lhe a língua no umbigo, beijou-lhe os flancos do sovaco à anca, explorando-lhe com a língua os espaços entre as costelas, e ao lamber-lhe o monte de Vénus depilado sentenciou:

– Sim, estás mesmo macia, com a língua é que se nota…

… e depois, cruelmente, começou de novo a subir-lhe pelo corpo acima.

Se a boca que Mariana tinha entre as pernas tivesse voz, teria gritado de frustração. Mas não por muito tempo, porque de repente Ricardo afastou-lhe as coxas com as mãos e beijou-lhe o sexo como se lhe beijasse a boca, para logo moderar este ímpeto e começar a procurar-lhe com os lábios e a língua todas as dobras e minúsculas refegas. A língua procurava, dardejante, o botão do amor, para logo o abandonar e tentar insinuar-se no interior da vagina ou para lamber todo o comprimento da vulva.

Quando começou a chupar-lhe o clítoris mais vigorosamente, como se o quisesse sugar e engolir, ouviu-a dizer:

– Meu senhor… Posso-me vir?…

Ricardo nunca tinha imposto a Mariana que pedisse autorização para ter orgasmo e agora ela própria, sem que ele entendesse bem porquê, inaugurava esta regra.

– Não, minha escrava, não podes.

Mas continuou a beijá-la até já não poder distinguir se os sons que ela fazia eram de prazer ou de sofrimento. Por fim, cansado, parou, e começou a percorrer com os lábios e a língua o caminho oposto ao que tinha feito antes até lhe chegar de novo à boca, que beijou, enleando a língua na dela apaixonadamente. Só então se levantou, devagar, mantendo a boca unida á dela e esperando até ao último segundo para a largar.

– Espera um pouco – disse, e dirigiu-se para o quarto.

Saiu de lá pouco depois, competemente nu, e trazia na mão uma fita vermelha que Mariana reconheceu imediatamente: era a prenda que ela lhe tinha dado por ocasião dum encontro anterior, também em Brugges.

– Dá cá as mãos.

Mariana estendeu-lhe as mãos com os pulsos cruzados. Ricardo atou-as rapidamente com uma ponta da fita, mandou-a esperar, foi ao trolley buscar a máquina fotográfica e começou a ordenar-lhe que assumisse poses: de joelhos, posternada, exibindo as marcas e as equimoses da vergasta, de pé, com os braços erguidos, mostrando os pulsos amarrados… Mariana acedia a tudo, obediente, meiga, apaixonada. Ricardo apercebeu-se nela dum estado de espírito invulgar: um dengue, uma excitação, um roçar-se por ele como que por acaso, uma intensidade, uma atenção ardente ao momento vivido…

– Não me deixaste ter orgasmo… Meu amor…

Isto disse Mariana a certa altura, baixando os olhos, num momento em acabava de se ajoelhar e mostrava à objectiva os pulsos atados. E Ricardo sentia nela, por baixo da mansidão e da obediência, o fogo larvar dum desejo que se satisfazia na insatisfação.

Quando acabou de a fotografar, não a desamarrou: mandou-a deitar de costas no tapete e amarrou a outra ponta da fita de seda ao cano do aquecimento, no ponto em que este saía do chão. Estendido sobre ela sem lhe fazer peso, voltou a beijá-la e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos numa carícia firme como se faz aos animais.

– Meu senhor…

– Diz.

– Vais possuir-me?

– Vou, sim, minha escrava.

– Queria pedir-te…

Ricardo apertou-lhe o seio esquerdo e chupou-lhe o mamilo antes de a encorajar a continuar:

– Querias pedir-me…

– Queria pedir-te que fosses meigo. Estou tão dorida de ontem…

Ricardo deu uma risada:

– Vou ser meigo, sim. Até porque eu também estou dorido, tenho tudo em carne viva…

Mariana já tinha as pernas abertas: Ricardo penetrou-a numa carícia longa e, sem chegar a ir até ao fundo, começou a mover dentro dela a ponta do pénis, beijando-a ao mesmo tempo profusamente nos lábios e nos seios. Com as mãos amarradas, Mariana não o conseguia abraçar, por isso o envolvia com as coxas, acariciando-lhe com os calcanhares a barriga das pernas e a parte de trás dos joelhos.

– E desta vez posso vir-me, meu senhor?

– Não, minha escrava, não podes. Ocupa-te só do meu prazer.

No gemido que Mariana soltou misturava-se um imenso lamento com um prazer novo, um prazer que ela não conhecia. Começou a mover as ancas e a tentar controlar os músculos da vagina de maneira a apertar e a chupar o sexo do amante, a dar-lhe o prazer que ele lhe exigia e ao qual tinha obviamente todo o direito, a erguer os seios de encontro ao peito dele para o acariciar brandamente, até que o sentiu acelerar os movimentos e ejacular dentro dela com um gemido que parecia, também ele, um lamento.

Admirou-se por não sentir frustração nem ressentimento por não ter gozado, mas sim uma enorme vontade de continuar a servir. «Serei na verdade assim tão fêmea e tão escrava?», pensou; e quando o dono rolou de cima dela para o chão começou a chegar-se para ele, a acariciá-lo com as pernas e com os pés, já que tinha as mãos amarradas. Todo o corpo dela era movimento, e todos os seus movimentos iam no sentido de se chegar ao dono, de o acariciar, de lhe suplicar um toque ou uma palavra. Lembrou-se de ter dito uma vez a Ricardo que ele a tinha «desligado»; pois bem, agora estava «ligada», com toda a sua energia de fêmea apaixonada a fluir-lhe no corpo e todos os sistemas a funcionar em alerta máximo.

– Desamarra-me, meu senhor…

Assim que Ricardo a desamarrou Mariana começou a fazer-lhe festas e beijá-lo por todo o corpo

– Estou tão louca… Não me deixaste ter orgasmo, e estou tão louca…

– É, estou intrigado com uma coisa… Porque é que me pediste autorização? Eu por mim era capaz de nunca me ter lembrado de to proibir– disse Ricardo..

– Não sei o que é que me deu. Disseste-me muitas vezes que uma escrava não tem direito ao prazer, se calhar foi por isso.

– Disse, e tu concordaste. Mas fizeste bem em lembrar-me … De hoje em diante tens que pedir sempre autorização.

Mariana revirou os olhos e fez uma careta, logo desmentida pela grinalda de beijos com que cobriu o peito do amante:

– Oh, não, o que é que eu fui dizer! – exclamou, numa aflição fingida. – O que pode uma pobre escrava fazer para servir o seu senhor, se ele até até a proíbe de se vir?

– Uma pobre escrava, não sei, mas se esta rica escrava que aqui está está assim tão empenhada em servir o seu senhor, pode muito bem ir para a cozinha, por exemplo, e fazer o jantar para ele, que está cheio de fome…

Mariana, a rir-se, começou a bater com os seus pequenos punhos no peito de Ricardo

– Cafajeste… sem vergonha… Escravidão é escravidão, não é?!

– Pois é… – disse Ricardo.

E quando viu Mariana levantar-se quase de um salto, vestir o roupão, entregar-lhe o dele e dirigir-se à cozinha, acrescentou:

– E descalça, se fazes favor. Não quero cá essa história de tijoleira fria, como de manhã. Lugar de fêmea é descalça na cozinha.

Mariana deteve-se o tempo suficiente para lhe deitar a língua de fora, mas afastou com o pé as chinelas que estavam no chão à saída da sala.

De dentro da cozinha levantou a voz:

– Tenho aqui Quiche Lorraine, é só pôr no micro-ondas. Queres?

– Pode ser, gosto bem de quiche. E o vinho de ontem ainda deve estar bom, era uma pena deitar fora uma garrafa quase inteira.

Ao pôr a mesa, ao servir o jantar, durante a refeição, Mariana continuou a exibir o comportamento que tanto intrigava e encantava Ricardo. A todas as oportunidades havia um seio a roçar um braço, ou então apenas um sorriso, um suspiro, um baixar de olhos, um rubor…

– Anda cá, escrava.

– Para quê?

– Anda cá. Levanta a saia.

Quando Mariana chegou junto dele Ricardo introduziu-lhe a mão entre as coxas.

– Estás toda molhada…

– Pois estou… Não me deixaste vir, patife…

– Não estás bem?

– Estou bem, estás farto de saber que estou mesmo muito bem… Não sei como é que isto me pode dar tanto prazer… Mas se daqui a pouco eu entrar em combustão espontânea, já sabes porque foi. Nunca te devia ter pedido autorização.

– É… Pela boca morre o peixe… Mas não te preocupes: amanhã não vai acontecer o mesmo porque vais ter castigo em vez de sexo.

– Está bem… Podes castigar-me, mas também quero sexo.

– Também, o quê?

– Eu sei, não tenho quereres. Vou dizer doutra maneira: também gostava que o meu senhor possuísse a sua escrava. Está bem assim?

– Melhor. Mas ao castigar-te também estou a possuir-te, não te esqueças. Em todo o caso, o castigo amanhã é por ser o nosso último dia. Quero deixar-te marcas que durem até ao próximo encontro.

– Sim, meu querido, também quero ficar marcada. Mas para as marcas nunca desaparecerem o melhor era eu fazer uma tatuagem…

– E hás-de fazê-la, com as minhas iniciais.

Antes de responder, Mariana bebeu um gole de vinho.

– Hmmm, isso deixa-me louca… Louca para ser possuída outra vez pelo meu senhor…

– Primeiro vamos acabar de jantar. E desconfio que mesmo depois disso vais ter um bocado de trabalho para me provocar outra erecção.

O jantar foi rápido, e Mariana arrumou a cozinha num instante. Quando regressou à sala encontrou Ricardo sentado no sofá. Sem hesitação nem preliminares ajoelhou-se no tapete à frente dele, afastou-lhe para os lados as abas do robe e tomou-lhe o sexo na boca. Assim que sentiu bem rijo, atirou o roupão para cima do sofá deitou-se de costas no tapete:

– Anda…

Entre o momento em que saiu da boca da amante e o momento em que se colocou entre as coxas dela em posição de a penetrar, Ricardo quase perdeu a erecção: Mariana teve que o chupar de novo para que ele finalmente lhe penetrasse a vagina – com o pénis um pouco flácido, mas que uma vez dentro dela recuperou a rigidez dos embates anteriores. Estavam ambos bastante doridos, mas mesmo assim Ricardo possuiu Mariana sem hesitação ou demora, indo e vindo nela até que a viu ficar vermelha: primeiro a cara e depois o pescoço, o peito e os seios. Viu-a abrir a boca como se fosse gritar, ouviu-lhe a rápida e forte inalação de ar, cavalgou-lhe o frenesim urgente dos quadris e finalmente assistiu, empolgado, ao gozo da sua escrava: um orgasmo sumptuoso, uma convulsão sísmica que lhe soltou todas as energias acumuladas no corpo e na alma desde que ele a tinha mandado deitar no sofá duas horas antes.

O dia seguinte amanheceu com bom tempo. Algumas nuvens, poucas, juntavam-se ocasionalmente e faziam chover umas raras gotas de água. Ricardo e Mariana foram passear para junto do canal e dos moinhos de vento: ele de calças castanhas com vinco, pullover cor de mel, casaco de cabedal castanho escuro e chapéu de feltro, ela de saia comprida, blusa de seda e casaquinho vermelho. Almoçaram num pavilhão com vista para o canal, conversando sobre o fim de semana que projectavam passar em Paris quando o tempo estivesse um pouco mais quente.

Lá fora a relva estava húmida e muito verde.

– Apetecia-me descalçar-me e correr nesta relva – disse Mariana.

– E a mim apetecia-me mandar-te descalçar.

– Mas não posso, estou de collants e não posso tirá-los diante de toda a gente.

– De collants?! Na presença do teu dono?! Vais mas é já ao quarto de banho para os tirar, e de castigo não voltas a calçar-te hoje.

Mariana ainda alegou o frio, o incómodo, as pessoas à volta; mas acabou por obedecer, um pouco embaraçada no princípio, mas pouco tempo depois corria o jardim descalça com a singeleza impudente duma criança à solta. Ricardo não voltou a permitir-lhe que se calçasse nem no jardim, nem no caminho de casa. E se no jardim o espectáculo duma senhora bem vestida mas de pés nus pareceu banal a quem o viu, o mesmo não se passou percurso que mais tarde fizeram de braço dado nas ruas cheias de gente. Mas o garbo altivo de Ricardo desarmava os olhares e, comunicando-se a Mariana, convertia-lhe o pejo em euforia.

Jantaram pelo caminho. Quando entrou em casa Mariana levava os pés gelados. Mas antes de ir tomar um duche quente ainda se apresentou diante de Ricardo com uma bacia de água quente para lhe lavar os pés cansados, lhe calçar os chinelos, lhe servir uma bebida e lhe acender um charuto.

Depois de tomar duche não se vestiu, envolveu-se em véus transparentes e dançou para ele, tirando-os um a um.

Ricardo assistia beberricando o seu whisky e puxando uma fumaça ocasional. Só os olhos a rir denotavam a atenção com que seguia todos os movimentos da sua amada.

– Vem cá.

– Sim, mas ainda me deves um castigo – disse Mariana.

E Ricardo viu que sem ele notar ela tinha ido ao quarto buscar a vergasta vermelha e lha tinha posto ao alcance da mão.

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Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas […].

Camilo Pessanha

[…] J’eusse aimé vivre auprès d’une jeune géante[…];
Parcourir à loisir ses magnifiques formes;

Ramper sur le versant de ses genoux énormes,

Et parfois en été, quand les soleils malsains,

Lasse, la font s’étendre à travers la campagne,

Dormir nonchalamment à l’ombre de ses seins,

Comme un hameau paisible au pied d’une montagne.

Baudelaire

Circe surgiu no apartamento de Mariana em resposta a um anúncio: “Artista (f) procura modelo feminino. Não precisa de ser magra nem jovem. Deverá ser capaz de posar nua, em posições incómodas e por períodos prolongados. Belezas menos convencionais serão especialmente bem-vindas.”

O anúncio, em francês e holandês, apareceu durante três dias no jornal de maior circulação de Brugges; e um igual esteve afixado durante uma semana no supermercado onde Mariana fazia as suas compras. Mas durante muito tempo as respostas que houve vieram de mulheres e raparigas tão feias e tristes, ou pior, tão banalmente bonitas, que Mariana quase desanimou. Um dia finalmente, à hora de jantar, quando já começava a acreditar que não existia em toda a região uma figura de mulher que lhe interessasse, encontrou o que procurava.

Primeiro foi uma voz ao telefone, mais uma numa longa série. Mas se por uma voz se pode tirar uma aparência, a desta mulher devia ser notável. Era uma voz grave como a de um homem, mas feminina na cor e na textura: uma voz de veludo negro. Se Mariana fosse desafiada a explicar como é que uma voz pode ter cor, não saberia fazê-lo; mas insistiria em que esta a tinha claramente. E de resto: se no rigor abstracto da óptica o negro é ausência de cor, na concreta materialidade dos pigmentos ele pode ser, pelo contrário, a sua saturação extrema: de modo que bastará a mais ligeira diluição para que um pó aparentemente negro se revele no seu verdadeiro azul, carmim, castanho, roxo.

Era assim o negro desta voz. Mariana pôs-se a imaginar como seria a sua possuidora, e a imagem que se lhe formou na mente foi a duma Madona de Murillo, leitosa e túrgida, com longos cabelos negros apartados ao meio. Mas menos meiga e menos doce: a voz era acariciante e carinhosa, mas também havia nela autoridade. Uma enfermeira, talvez, ou uma professora, experiente e segura de si, competente a gerir emoções e a domar rebeldias.

Mas na manhã seguinte quem se lhe apresentou à porta foi uma negra enorme, com quase dois metros de altura, ombros massivos e ancas que ameaçavam não caber nos umbrais. Estava toda vestida de azul-escuro: os tons eram vários, mas todos opacos, alguns quase negros; e em todos os tecidos a pureza do azul era quebrada por um leve matiz de poeira, como se o próprio deserto se tivesse misturado nas tintas de os tingir. As roupas ocultavam-lhe as formas do corpo: véus e écharpes, um turbante, um caftan, numa profusão de panos artesanais que só lhe deixavam ver a face, as mãos, e os pés calçados de sandálias. A pele era dum negro perfeito, com reflexos azulados, e mal contrastava, a não ser pela textura luzidia, com a escuridão das roupas. Não trazia jóias nem outros enfeites, e não sorriu ao cumprimentar Mariana. No todo sombrio só se diferençavam os olhos enormes e luminosos, com pupilas de um castanho dourado.

Bonjour. Je m’apelle Circe, et je viens pour l’annonce.

Seja qual for a língua que de momento falamos, o nosso nome dizemo-lo quase sempre com a pronúncia da nossa: Circe pronunciou o dela em português e Mariana respondeu-lhe na mesma língua.

– Bom dia, faça favor de entrar.

Para passar a soleira da porta Circe baixou um pouco a cabeça, embora não tivesse necessidade de o fazer. Com ela em pé lá dentro a sala parecia mais pequena; Mariana, meio maravilhada, e consciente do contraste que a sua pequena estatura fazia com a da visitante, apressou-se a convidá-la a sentar-se no sofá. Este era um móvel sólido e espaçoso, capaz de acolher nas suas funduras qualquer corpo humano, por grande que fosse; e a sala pareceu que recuperava as suas dimensões habituais.

Mas depressa se tornou evidente que Mariana e Circe tinham mais em comum do que as suas diferenças físicas fariam supor. No falar eram ambas calmas, comedidas, e nos modos mostravam uma reserva benevolente que contribuiu, mais do que o teria feito uma loquacidade indiscriminada, para que depressa se sentissem à vontade uma com a outra. Quando Mariana lhe mostrou os seus quadros os comentários da jovem foram pertinentes e sem elogios excessivos. Tratava-se de alguém com gosto e cultura, o que agradou a Mariana.

Circe falava português sem qualquer sotaque que Mariana pudesse identificar: nem sotaque africano, nem brasileiro, nem de qualquer região de Portugal, nem ainda qualquer dos sotaques que uma longa permanência no estrangeiro faz adquirir. Pela fala, portanto, não era possível determinar-lhe a origem. Nem pela aparência: passada a surpresa inicial Mariana começou a reparar que excepto pela cor a sua gigantesca visitante não tinha traços de africana; nem de índia, ou indiana, ou melanésia, ou aborígene australiana. Na forma da cabeça, na ossatura da face, fazia antes lembrar uma gitana andaluz, ou talvez, pensou Mariana, uma actriz italiana do pós-guerra: Sofia Loren, Claudia Cardinale.

Enquanto se observavam reciprocamente, as duas mulheres tomaram chá, conversaram, falaram de horários e de remunerações; e no momento de decidir foi a própria jovem que disse, com a naturalidade de alguém a quem a profissão de modelo não é estranha:

– Quer que me ponha nua?

Agora, sem os panos de Tuaregue que a escondiam, a sua compleição era mais obviamente europeia: um corpo mítico de valquíria. Não era gorda, mas sim apenas a versão em ponto grande de uma bela jovem saudável e em forma. Os pulsos, que seriam robustos numa pessoa de estatura normal, eram delicados em proporção com o seu corpo gigantesco; os dedos eram longos e finos; o pescoço gracioso. Tinha a cinta alta, o tórax curto; e não tinha os calcanhares salientes duma africana. Todo este conjunto assentava firmemente em dois grandes pés de tipo grego, redondos e grossos como os duma lavradeira mas bonitos e bem proporcionados.

Mas nenhuma deusa escandinava ou grega, ragazza romana ou camponesa ibérica, ou mesmo cigana andaluz, poderia, por mais sol que tivesse apanhado ao longo da vida, ter a pele de um negro tão carregado. Que um corpo tão caucasiano na estrutura estivesse revestido por uma pele tão retintamente africana era sem dúvida motivo de espanto; e Mariana teve de se esforçar por compreender porque é que encontrava nele qualquer coisa de familiar. Por fim lembrou-se das formas idealizadas das estátuas gregas: Vénus de Milo, Vénus de Cirene, todas as deusas nuas do Louvre: bastava imaginá-las esculpidas em basalto negro em vez de mármore branco para reconhecer em Circe as suas formas.

Mais espantoso, porque sem relação com nada que Mariana alguma vez tivesse conhecido, era o volume deste corpo, sustentado na sua postura erecta por uma larga, sólida ossatura. Os braços, as pernas, o tronco deixavam entrever as formas dos bíceps, deltóides, peitorais maiores e menores, abdominais, glúteos, trapézios, toda uma pletora de formas e relevos que se lhe moviam e deslizavam por baixo da superfície do corpo como se cada um tivesse a sua vida própria. As nádegas eram firmes e imponentes: por baixo da pele era possível adivinhar a disposição dos músculos, como num mapa anatómico, apenas velados por uma fina camada de gordura subcutânea. A cintura varonil parecia estreita em contraste com as ancas e os ombros; os seios generosos eram nela pequenos; e as sandálias, quando as tirou, ficaram em evidência no vestíbulo, vastas, sólidas, conspícuas, impossíveis de arrumar num canto como os discretos sapatinhos de Mariana.

De onde poderia ter vindo este ser prodigioso? Dias mais tarde, quando Mariana finalmente se atreveu a perguntar-lho, a resposta foi: – Do Egipto, nasci no Egipto, mas levaram-me de lá ainda menina.

Depois vivera em Portugal, perto de Coimbra, e já nem sequer falava árabe. Mariana conhecia bem Coimbra, e não se lembrava de alguma vez ter visto mencionar uma figura como a de Circe, que dificilmente passaria despercebida numa cidade tão pequena. E não queria que um ser assim pudesse ter vindo prosaicamente de Coimbra, ou mesmo do Cairo: só podia ter vindo doutra dimensão, doutra galáxia, duma civilização mais forte e mais justa do que a nossa; ou então, por meio de uma qualquer máquina do tempo, do futuro distante; ou ainda do passado longínquo, de quando as raças humanas ainda não se tinham separado e sobre a terra caminhavam gigantes.

Começou a desenhá-la logo no primeiro dia, a pintá-la em todas as posições, nua ou vestida, sentada, deitada, de pé, com os braços erguidos de modo a realçar a musculatura das costas e dos ombros; ou então em posições contorcidas, esforçadas, a ponto de as formas representadas no papel ou na tela se tornarem dificilmente reconhecíveis como partes dum corpo humano e assumirem os traços duma paisagem fantástica. Tudo isto Circe aceitava com uma paciência infinita, como se o movimento e a imobilidade, o conforto e o desconforto, lhe fossem iguais. Nunca falava, a menos que para comunicar uma informação necessária; e tudo o que dizia era claro, articulado e directo, o sim sim, o não não, cada conclusão extraída das premissas sem relutância nem esforço. Nos intervalos da pose vestia o caftan azul, e punha-se por vezes a arrumar a casa, com uma economia de movimentos que transfigurava a lida doméstica numa serena coreografia. Mariana limpava os pincéis, punha em ordem os crayons, os boiões, os tubos de tinta, e punha música a tocar; e entretanto Circe dava a volta à casa, cuidadosa e interessada, arrumando, ajeitando, limpando. Quando falava era para dizer “estas janelas já estão outra vez a precisar de ser limpas ” ou “não sei de onde vem tanto cotão”; e ao fazer estas observações práticas a sua voz grave tornava-se ainda mais macia.

Em breve Mariana viu tanta ordem na sua mansarda boémia como a que reinava na sua casa em Lisboa; e embora não tivesse a certeza que este estado de coisas lhe agradasse totalmente, gostava de ser assim mimada, de não ter que lavar sempre a louça, limpar tantas vezes o chão, a casa de banho, as janelas. E de resto toda esta actividade deu-lhe assunto para uma série de quadros que mais tarde veio a ter grande êxito: Circe com os braços esticados, prendendo as cortinas nas sanefas; ou curvada sobre a vassoura; ou sentada no chão com as pernas cruzadas, pregando um botão.

Mariana sentia-se grata pela ajuda mas constrangida. Por fim foi a jovem ela própria quem formalizou a situação:

– Eu podia fazer-lhe as limpezas, se a senhora quisesse.

E não era preciso que Mariana lhe pagasse muito; já ganhava bem a posar para os quadros.

Mariana nunca teria ousado fazer ela própria esta proposta, e sentiu-se aliviada. Mas depressa se viu que os horários de Circe como empregada doméstica e modelo nem sempre eram compatíveis. Nem de resto as prioridades das duas: Mariana tendia a sacrificar as tarefas domésticas à pintura, enquanto que Circe não tolerava deixar sequer um prato a escorrer no lava-loiça.

Até que uma manhã quem apareceu a Mariana foi, não uma, mas duas jovens gigantes.

– Esta é a minha irmã. Chama-se Atena e vem-me ajudar.

E acrescentou, desnecessariamente:

– Ela e eu somos gémeas.

Dizer que Mariana ficou surpreendida seria dizer pouco. Sabia que Circe tinha uma irmã; mas não imaginara que fossem gémeas idênticas, e ao ver ali em duplicado, no patamar estreito dum prédio citadino, uma figura que mesmo no singular era suficientemente vasta para não passar despercebida nas amplidões do Valhalla, sentiu que algo de fundamental se alterava na sua noção do possível.

Atena. Circe e Atena. Os olhos garços da recém-chegada tinham um tom mais acinzentado do que os da irmã, mas esta foi a única diferença entre elas de que Mariana se pôde aperceber naquele momento. Ao princípio a função de Atena consistia em ocupar-se ocasionalmente da casa quando a irmã estava demasiado ocupada com o seu dever principal, mas com o tempo as funções das duas foram-se tornando intermutáveis. Não foi pedido a Mariana que pagasse a Atena, nem ela se ofereceu para o fazer. A sua combinação era com Circe, a quem afinal pagava dois salários; e Circe por sua vez combinava com a irmã a divisão do dinheiro e do trabalho. O sistema era vantajoso para todas: Mariana nunca sabia de antemão qual das duas irmãs lhe ia comparecer no apartamento, ou se iam comparecer as duas, mas sabia que podia contar sempre pelo menos com uma. O cozinhar reservava-o Mariana quase sempre para si própria, especialmente quando o amante a visitava: preparar-lhe o comer, servir-lho à mesa, eram prazeres a que não renunciava.

Poucos dias depois de ser apresentada a Victor, Circe chegou ao apartamento com uma muda de roupa num saco e fechou-se imediatamente no quarto de banho. Quando saiu vinha completamente transformada: o vestido, num xadrez miúdo cor de salmão e branco, ficava-lhe dois centímetros abaixo do joelho, e era rematado no pescoço por um colarinho branco de pontas redondas. Branco era também o avental, com duas alças largas que se cruzavam nas costas. Nos pés, umas alpergatas de pano-cru. Era até ao último pormenor um uniforme de empregada doméstica numa casa portuguesa. Mariana admirou-se que Circe o tivesse encontrado numa loja de Brugges, e à sua medida.

No dia seguinte foi a vez de Atena vir fardada. Sem dizer nada a Mariana tinham adquirido ou confeccionado uma colecção de uniformes, iguais em tudo menos nas cores do xadrez: cor-de-rosa e branco, beije e branco, amarelo e branco, azul claro e branco. Quando uma se vestia assim a outra conservava os seus panejamentos sombrios; e era sempre esta que se despia para servir de modelo a Mariana.

Os papéis desempenhados estavam assim claros: num canto do palco o modelo, noutro a criada. Mas porque se haviam elas de dar a tanto trabalho e despesa? Só para definir os seus papéis? Em Lisboa as empregadas de Marta nunca tinham usado uniforme. E agora eram precisamente estas duas, estas deusas ou feiticeiras surgidas das brumas, que pelas suas próprias razões se vestiam como duas criadinhas de Cascais ou do Restelo.

O que tornava o disfarce inverosímil, porém, era a sua escala massiva: e comparando uma no seu uniforme doméstico com a outra nos seus panos exóticos ninguém podia deixar de ver na primeira a figura mais incongruente.

Quanto à intenção deste jogo, tinha alguma coisa a ver com Victor, ou melhor, com Mariana e Victor. Por alguma razão os uniformes tinham aparecido logo a seguir à primeira visita deste. Em breve se tornou aparente que as duas irmãs estavam na disposição de permanecer no apartamento, a desempenhar as suas tarefas, mesmo na presença do amante de Mariana: como se se tivessem apercebido duma vontade desta de lhe oferecer à chegada todo um teatro feminino em que o cenário, a iluminação e o guarda-roupa se encontrassem ao serviço de um mesmo encantamento.

Mariana não sabia se queria ou não oferecer a Victor este teatro, mas intuía que o amor, no seu luxo maior, na sua mais elaborada tradição, requer criadas, ajudantes, intendentes, se não mesmo pajens e eunucos; e era claramente este papel que Circe e Atena tinham reservado para si próprias. De discreta, a sua presença foi-se transformando em tutelar, como se tivessem assumido como seu encargo particular o favorecimento dos amores a que assistiam. De resto era sempre possível deixar os amantes sozinhos no quarto ou na sala, que tinham boas e sólidas portas de carvalho, e procurar que fazer noutra parte da casa. Deste modo podiam reaparecer no momento oportuno com um sumo de frutos, um copo de água, uma chávena de chá: luxos orientais para quem descansa de refregas amorosas.

Numa destas ocasiões Circe entrou no quarto, silenciosa e descalça, quando os dois amantes repousavam nus depois do amor. Estava calor, e não queriam sobre o corpo nem o peso dum lençol. Circe pousou o tabuleiro, pegou num leque que Mariana tinha posto na parede como decoração, sentou-se sobre os calcanhares junto da cama e começou refrescá-los suavemente, entoando baixinho uma cantilena que podia ser de embalar ou de outra coisa. Sonolentos, os amantes não eram capazes de distinguir as palavras, só de sentir a frescura do ar sobre a pele nua como mais uma carícia.. E foi assim que recomeçaram a acariciar-se, uns minutos ou talvez uma hora mais tarde, sem se importarem com a presença da jovem, tão silenciosa, tão discreta.

Nesse ano, em meados de Maio, Victor fez a Mariana uma visita prolongada. Tão prolongada, desta vez, que não sentiram a necessidade de dedicar cada minuto a abraçar-se, a beijar-se, a fazer amor, num frenesim que mal deixa de ser o da chegada já é o da despedida; tiveram tempo de passear, de ir às compras e aos espectáculos, de caminhar ao longo dos canais. E tiveram tempo, para deleite de ambos, de fazer a sua vida quotidiana na presença um do outro. Sentado ao computador, com os óculos de ver ao perto empoleirados na ponta do nariz, um monte de fichas em cima da secretária, Victor escrevia; e perto dele, diante dum cavalete, enfiada numa decrépita sweat-shirt, Mariana desenhava ou pintava. Durante longos minutos não falavam; e quando algum deles saía da sua concentração era para encontrar o olhar do outro e trocar com ele um sorriso de perfeito contentamento.

O único embaraço, e ainda assim momentâneo, neste idílio resultou de Mariana estar por esta altura a trabalhar num quadro de Circe. Neste quadro, um nu de grande formato, a jovem aparecia reclinada, de frente para o espectador, usando apenas o seu turbante azul, e Mariana não se sentia no direito de lhe pedir que posasse nua na presença de Victor.

A própria Circe resolveu este dilema ao dizer que naquela semana Atena estava sem nada que fazer e podia vir arrumar a casa, que já estava a precisar.

– E entretanto, se o senhor não se importar que eu me ponha nua, eu e a senhora podíamos continuar com o quadro do turbante.

Quando chegou o momento de Circe se estender no divã, Victor mostrou-se circunspecto, mas não desdenhoso ou indiferente, perante a sua magnífica nudez; e passado um olhar admirativo inicial continuou a trabalhar com a mesma concentração. Mariana ainda experimentou um certo escrúpulo, misturado com uma réstia de ciúme; mas estes sentimentos depressa se dissiparam à medida que o trabalho se ia tornando mais absorvente. E Atena, nas suas alpergatas silenciosas, entrando e saindo do atelier com chávenas de café, contribuía para o ar de normalidade de toda a cena dando-lhe um ar de domesticidade confortável.

Assim se foi estabelecendo, a pouco e pouco, uma convivência a quatro. Discretas, silenciosas, hieráticas, as duas irmãs foram participando cada vez mais na intimidade dos dois amantes: duas sombras enormes e benévolas que pareciam protegê-los, ao mesmo título que as paredes e as cortinas, do frio exterior e do olhar dos vizinhos.

A única pequena modificação nesta rotina veio a dar-se quando as raparigas se aperceberam da verdadeira natureza da relação entre Mariana e Victor. Um ou outro beijo dela na mão dele, nem sempre tão discreto que passasse despercebido; um circunspecto ajoelhar, uma secreta deferência no servir das refeições; um murmúrio apenas audível, meu senhor, meu dono; tudo isto junto teve para as gémeas um significado que não as escandalizou nem repeliu; e por sinais igualmente subtis tiveram artes de exprimir a sua aprovação.

Menos discretas eram as saias rodadas de Mariana, os pés descalços, a bijutaria profusa e os decotes extremos que punha para receber o amante; e nestas ocasiões Circe e Atena habituaram-se a ficar também elas descalças, uma no seu uniforme de criada, a outra nos seus panejamentos azulados; não em deferência a ele, mas a Mariana, a quem serviam.

No princípio desse Verão choveu muito em Brugges, e esteve frio e nevoeiro. Para as férias Mariana tinha arrendado uma casa no Algarve, e mal podia esperar pelo dia em que caminharia com Victor sob o sol escaldante, respirando um ar perfumado e seco, vibrante com o zumbir dos insectos. Também Circe e a irmã estavam fartas do frio e da humidade, e ofereceram-se para os acompanhar. A casa arrendada era espaçosa; e com as gémeas a assegurar as tarefas domésticas os dois amantes sempre teriam as compras feitas e a comida pronta quando chegassem da praia. Além disso Mariana continuaria a dispor de um modelo, o que permitiria prolongar as férias por um mês ou mais; e depois de um ano sob os céus cinzentos da Flandres estavam todos a precisar dumas longas férias ao sol.

A casa tinha-a Mariana arrendado a um amigo, um pintor de origem algarvia que a herdara dos pais. Era uma casa antiga, tradicional, caiada de branco com uma faixa azul na parte de baixo. A toda a volta cresciam alfarrobeiras, e a partir do meio-dia um enorme pinheiro manso projectava no pátio a sua sombra densa. Neste pátio, protegido por uma densa sebe de olhares estranhos, Victor e Mariana recuperaram o seu gosto antigo de fazer amor ao ar livre. Um carreiro dava acesso à praia: e a mesma praia servia uma urbanização de luxo. Algumas famílias, particularmente se tinham crianças, levavam as criadas em uniforme completo para a areia, onde lhes era permitido tirar os sapatos e sentar-se debaixo do guarda-sol. As patroas mais liberais permitiam-lhes mesmo que se pusessem em fato de banho, mas só ao fim de uma hora ou duas de permanência: tempo suficiente para não haver engano quanto aos estatutos sociais.

Passado o primeiro dia também Circe e Atena começaram a ir para a praia vestidas de criadas. Se este quase disfarce tinha como objectivo exprimir um comentário irónico aos hábitos locais, conseguia-o perfeitamente: o efeito que as jovens produziam, pela estatura, pela cor da pele, pela altivez do porte, era o exacto oposto do apagamento imposto às outras criadas. E ao circularem pelos acessos à praia, descalças, à vontade; ao pisarem com firmeza e displicência, com os seus vastos pés de virgens guerreiras, os pavimentos do condomínio e o carreiro pedregoso do acesso, exibiam mais desenvoltura do que geralmente se admite em serviçais.

Mas o objectivo maior do traje era outro, mais subtil mas igualmente conseguido: criar um pano de fundo para a história de Mariana. Por isso se encarregaram de lhe meter nas malas, além dos vestidos de Verão e das saias rodadas que gostava de usar à beira-mar, um guarda-roupa em tudo semelhante ao de Circe no primeiro encontro; e foram estas as roupas de Tuaregue que ela acabou por usar quase sempre durante o tempo que duraram as férias.

Quem as observasse às três – Mariana muito pequena, muito morena, com os olhos muito brilhantes a espreitar da fundura dos véus; e um pouco atrás dela, flanqueando-a como duas guarda-costas disfarçadas, duas negras, silenciosas e enormes – pensaria talvez numa princesa árabe ou milionária levantina, rigorosamente vigiada, em férias no Ocidente. Mas esta fantasia era desmentida assim que Mariana tirava os panejamentos azuis que a cobriam como um tchador e surgia num diminuto bikini amarelo ou branco, muitas vezes sem a parte de cima, num impudor de europeia emancipada. E havia Victor, com os seus cabelos e olhos claros, sorrindo-lhe, atencioso e cúmplice, trocando com ela comentários e carícias. A este ninguém o tomaria por árabe, arménio, libanês ou egípcio.

Quanto aos homens que frequentavam a praia, não tinham olhos senão para as jovenzinhas felinas e bronzeadas que por vezes paravam junto deles: filhas, sobrinhas, amigas, namoradas de luxo, segundas ou terceiras esposas. Mariana e Victor não lhes interessavam; nem, passado o frisson inicial, Circe e Atena, que embora atraentes eram demasiado exóticas para serem apresentáveis no universo provinciano das elites portuguesas.

Os dois amantes chegavam sempre cedo à praia. Com eles vinham as gémeas, carregando sem esforço aparente os dois guarda-sóis, o tapa-vento, o saco com as toalhas, os protectores solares, a espreguiçadeira de lona para Victor se estender a ler. Tiradas as roupas, Victor ficava com uns calções de praia aos quadrados, Mariana com o seu bikini, e as raparigas com uns grandes fatos de banho pretos e baços, muito subidos no peito e nas costas, que conjuntamente com o negro da pele pareciam absorver a luminosidade do dia.

Por volta das dez e meia, quando começava a haver gente demais, Mariana e Victor pegavam nas toalhas e no guarda-sol mais pequeno e começavam a caminhar ao longo da praia, que naquela zona tinha vários quilómetros de extensão. Passadas poucas dezenas de metros a multidão começava a ser mais esparsa; e, passada mais uma aglomeração ou duas de banhistas, a praia ficava suficientemente deserta para que nela não houvesse outras pegadas além das dos quatro, e das várias espécies de aves que a visitavam vindas da laguna próxima.

Uma vez seguiram por mais de um quilómetro um grupo de aves que corriam ao longo da praia, ao rés da salsugem, levantando voo para aterrar mais adiante quando os humanos se aproximavam demais ou quando uma onda se lhes atravessava no caminho.

Assim que Mariana e Victor se viam sós armavam o guarda-sol, despiam-se completamente e entravam na água de mãos dadas. Assim, nus, o mar parecia-lhes mais quente e acolhedor do que quando eram obrigados a usar fato de banho; e uma réstia de frio que tivessem dissipavam-na num abraço.

Entretanto Circe e Atena voltavam a casa, recolhiam no caminho o outro guarda-sol, punham sanduíches e bebidas numa geleira e regressavam, nos seus uniformes claros, para junto de Mariana e Victor. A atenção que despertavam não parecia afectá-las: carregadas, possantes, impassíveis, seguiam serenamente o rasto dos patrões. Chegadas ao seu destino montavam o guarda-sol maior e o tapa-vento, punham a geleira à sombra, armavam a cadeira de lona e despiam-se calmamente, dobrando e guardando cada peça de roupa à medida que a tiravam. Depois entravam no mar sem a mínima jóia ou enfeite, ou qualquer apontamento de cor: só com os seus fatos de banho negros.

Nestes primeiros dias Mariana e Victor vestiam também os fatos de banho quando saíam da água. Mas voltar a vestir-se, depois de se ter estado gloriosamente nu nas águas castas do mar, é uma humilhação e uma indecência; e nos dias seguintes, à medida que os dois amantes foram adiando cada vez mais o momento de se cobrirem, também Circe e Atena foram fazendo menos questão de baixar os olhos perante a sua nudez.

Foi talvez este à-vontade que tornou possível a ordem que Victor deu uma vez a Circe, no pátio onde tinham acabado de jantar: que rapasse os pelos púbicos de Mariana. Mariana, que não tinha sido consultada, esboçou um pequeno gesto de recusa, ou talvez de surpresa, mas quando a criada trouxe a tesoura, uma gilette nova, o gel de barbear de Victor e o bálsamo hidratante estendeu-se obedientemente de costas sobre a mesa, que Atena tinha coberto com uma toalha de banho lavada.

Primeiro manteve as pernas juntas enquanto Circe desbastava o grosso dos pelos, que em Mariana eram esparsos de natureza. Depois teve que as abrir para que a tesoura lhe aparasse os pelos à volta da vagina e do ânus. E por fim, quando chegou a altura de aplicar o gel de barbear, teve que se escanchar toda, os joelhos contra os seios, como nunca até aí fizera na presença duma mulher.

Atena trouxera uma pequena bacia com água muito quente, uma pequena bacia de cobre, comprada em Marrocos, que até então tivera apenas fins decorativos, e algumas pequenas toalhas de pano turco que Circe começou a humedecer na água quente e a aplicar sobre a púbis de Mariana. Quando esta se habituou à temperatura e a água quente lhe começou a parecer morna, Circe espalhou-lhe o gel sobre a pele molhada da púbis, massajando-a com as pontas dos dedos em pequenos movimentos circulares até criar uma espuma branca e densa que pareceu a Mariana um pouco adstringente. Depois, cuidadosamente, esticando entre dois dedos os refegos da pele, começou a rapar-lhe os pelos, primeiro na barriga, e depois na zona mais sensível entre as coxas. Devagar, com infinito cuidado, de modo a não ferir as tenras mucosas mas também a não deixar ficar um único pelo, Circe foi passando a lâmina, repetidamente, primeiro num sentido e depois noutro, de modo a que os dedos, passando a seguir à lâmina, não sentissem a mínima aspereza. Pouco a pouco a espuma foi sendo retirada, e no fim, depois de Circe, e depois Atena, e por fim Victor terem passado a mão sobre o sexo de Mariana e declarado que estava suficientemente liso, a zona foi de novo lavada com água morna, secada com uma toalha felpuda e massajada com o bálsamo hidratante que Victor usava na cara.

A operação terminou com um beijo de Victor no sexo macio de Mariana. Só um pequeno beijo, sob o olhar impassível das gémeas. Mas depois, à noite, a sós com ela na cama, Victor deu a Mariana bem mais do que um beijo: introduziu-lhe a ponta da língua entre os lábios interiores do sexo, procurou-lhe o clítoris e fê-lo intumescer, para em seguida o sorver gulosamente juntamente com as pregas delicadas dos pequenos lábios, ou para lhe introduzir de surpresa a língua na vagina. Assim, alternando estas e outras carícias, Victor levou a sua escrava Mariana a uma série de orgasmos, tantos que ela lhes perdeu a conta, e gritou, gritou sem se importar que as gémeas ouvissem, ou que a ouvissem nas casas em redor.

No dia seguinte Mariana não sabia se se sentia humilhada ou não pela modificação que o dono tinha ordenado no seu corpo. Se era humilhação, aceitava-a de bom grado, como dizia a si mesma ser o seu dever; mas talvez não fosse humilhação, talvez fosse outra coisa de que não sabia o nome e que a deixava mais terna e mais doce diante de Victor. Num plano mais pragmático, depressa se apercebeu duma vantagem inesperada de ter o sexo rapado: a partir de agora, quando o dono a proibisse de usar calcinhas, não tinha mais que se preocupar com a maior ou menor transparência do vestido, já que não existiria a sombra da púbis para lhe denunciar a nudez. Mas um dia em que não tivesse uma acólita para lhe fazer esta toilette, como seria? Seria capaz de se rapar a si própria, talvez com o auxílio dum espelho? Ou fá-lo-ia o próprio Victor? Em todo o caso a operação teria que ser frequente, não queria o desconforto duns pelos curtos e duros entre as coxas macias.

Na praia, por fim, já que todos os quatro se tinham habituado a ver corpos dos outros, e já que os restantes frequentadores daquela parte da praia pareciam estar, tanto quanto a distância e a claridade excessiva o permitiam determinar, também eles nus, acabou por parecer mais natural despirem-se as duas jovens do que vestirem-se Mariana e Victor. Na segunda semana de férias Circe e Atena habituaram-se a já nem trazer os fatos de banho por baixo dos vestidos. Antes de se juntarem na água aos patrões ficavam as duas por uns momentos de pé a olhar para o mar, como duas estátuas de bronze no meio de um deserto.

Nuas, de tão negras, negro sobre negro os cabelos da púbis, davam à praia calcinada e plana a única sugestão de sombra; e Mariana reparava que onde o sol se lhes reflectia na pele o reflexo já não era azulado, como no Inverno em Brugges, mas cor de cobre.

Depois banhavam-se os quatro, nadavam, comiam. Mariana e Victor deitavam-se nas toalhas, ou sentavam-se, ele na cadeira, ela no chão aos pés dele, e conversavam. Circe procurava algas e moluscos que depois empregava em cozinhados de sabor estranho; e a irmã lia, olhava o horizonte, ou aplicava a Mariana o protector solar.

Ou então conversavam. Um dia Atena contou a seguinte parábola:

– Um homem estava nu na praia deserta. Tinha trazido consigo uns calções e uma toalha, mas ao chegar ao lugar que escolhera tinha-os arrumado fora de vista; e olhando à volta não via mais do que a areia, o céu, as aves, e o mesmo mar de há cinco mil anos. Nas dunas havia a vegetação própria do lugar; e debaixo da areia, sabia-o, havia vida: bivalves, crustáceos, insectos.

Tudo o que o homem desejava era ser parte deste mundo. Olhava para o seu próprio corpo e via-o feito de carne, como os corpos dos outros animais. No caminho para aquele lugar o homem tinha seguido, como Mariana e Victor, um pequeno grupo de aves que caminhavam ao longo da borda de água. As patinhas com que caminhavam eram rosadas e nuas como as mãos e os pés dos homens; e por baixo, na superfície com que pisavam a areia, estavam estriadas de linhas e rugas semelhantes.

Para o homem e para as aves a aspereza e a consistência da areia eram as mesmas; como eram as mesmas a temperatura e a salinidade da água, o brilho do sol e a velocidade do vento. E contudo quem se atreveria a dizer que o homem e as aves estavam a passar pela mesma experiência?

Os olhos com que o homem olhava para o mar eram os mesmos com que tinha lido Homero, Camões, Melville e Conrad. O coração que se lhe sobressaltava com o rugido das ondas era o mesmo que se comovera com o naufrágio de Sepúlveda. O que ele via e sentia, o que ouvia e cheirava, era inseparável dessas memórias. As negras naus de Ulisses, Sila e Caríbdis, as velas brancas do Gama, Marlon Brando no papel de Mr. Christian, amotinado contra o capitão Bligh; Eneias abandonando Dido; o Holandês Voador e a sua jura tremenda; Sandokan, o Tigre da Malásia; as palavras da mãe, não vás ao banho ainda, não fizeste a digestão; e do lado da terra: a areia, o deserto, Beau Geste, Lawrence da Arábia, o calor, a sede sofrida e narrada por gerações de viajantes – de tudo isto se faziam os sentidos com que o homem sentia a textura da areia, o sopro do vento, a frescura do mar, a queimadura do sol. Se em vez de estudioso fosse pescador ou marinheiro, mesmo assim tudo o que agora sentia estaria codificado em gírias, condicionado por disciplinas, ancorado em lembranças.

Despido de todas as roupas, separado de todos os artefactos visíveis, o homem trazia ainda dentro de si um artefacto invisível feito de símbolos, palavras e memórias, com que via, ouvia, saboreava, cheirava e tocava o mundo. Nenhum homem, concluía Atena, pode experimentar directamente a Natureza. A natureza é no homem cultura, e a cultura é no homem Natureza. Mas nem por isso o sonho de enfrentar sem protecção o sol, o vento, o mar, a sede, deixa de ser um belo e nobre sonho; e possam sempre os homens livres partilhar a nudez esplêndida dos deuses.

Nos dias seguintes a esta fábula a rotina do grupo mudou perceptivelmente: os gestos de tirar a roupa, estender-se ao sol, entrar na água, comer, beber, adquiriram um matiz cerimonial, como se tudo se fizesse em homenagem aos elementos. Tudo se tornou mais lento e moderado. A água na geleira já não precisava de estar tão fria, nem a comida de ser tão abundante. Os movimentos, especialmente os de Circe e Atena, pareciam coreografados. E quando as duas se deitavam na areia faziam-no sempre, num rito invariável, uma de cada lado dos amantes: Circe a nascente, a irmã a poente, com o tapa-vento e os guarda-sóis a completar um círculo protector.

E por vezes, ao fim da tarde, quando as carícias preguiçosas de Mariana e Victor lhes acendiam nos corpos o desejo, viravam-se as duas de costas para eles, imperscrutáveis como esfinges. E se o sol ia baixo, e não havia mais ninguém na praia; se as sombras se alongavam; se o vento tinha deixado de soprar; se ao rugido do mar, transformado em murmúrio, se juntava o canto das cícadas; então, por vezes, os amantes – sedentos de humidade, sedentos um do outro, repassados de sol e de espaço – uniam lentamente os corpos; e faziam amor à sombra de Atena.

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