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Posts Tagged ‘sexo entre os seios’

( Do capítulo 18 )

Tinham acabado o exame, tinham decidido tudo o que tinham a decidir, e agora Teresa, deitada de costas na cama, brincava distraidamente com os seus próprios seios enquanto Raul, apoiado num cotovelo, a observava.

− Meu senhor… − disse ela por fim, apertando os seios um contra o outro.

− Sim? – disse Raul.

− Acreditas que possa haver alguma coisa que uma puta nunca tenha feito?

Raul desatou a rir:

− Ora deixa ver, meu tesouro. Nem sei o que te responda. Para te dizer a verdade, nunca pensei muito nisso. Porquê?

− Nada, uma tolice. Nunca nenhum homem gozou entre as minhas mamas. Dá para acreditar?

Raul riu-se de novo:

− É claro que dá para acreditar. Eu também nunca gozei entre os seios duma mulher. É por isso que estás a apertar os teus um contra o outro? Dava-te prazer que eu te fizesse isso?

− O meu prazer não conta, sabes bem – disse Teresa. – Mas sim, acho que me daria prazer ver a cabeça do teu pénis a aparecer e a desaparecer, muito rosada, entre as minhas mamas… E depois ver o teu esperma a sair… E tu, meu senhor? Terias prazer em te servires de mim assim?

− Talvez tivesse. Mas teria de ser com uma lubrificação qualquer, não gosto de esfregar pele seca em pele seca. Vai buscar vaselina ao quarto de banho.

Teresa correu a cumprir esta ordem. Quando regressou, Raul colocado duas almofadas no centro da cama.

− Para apoiares a cabeça – explicou. – Deitas-te do meio da cama para baixo, com as pernas de fora, eu deito-me por cima de ti. As almofadas são para apoiares a cabeça de modo a poderes ver o que está a acontecer. Agora passa um bocado de vaselina entre as mamas, e a seguir sobre o meu sexo.

− Sim, meu senhor – disse Teresa.

Ao passar-lhe vaselina no pénis, Teresa fechou a mão e fez-lhe um movimento masturbatório, que Raul achou mais agradável do que se tivesse sido feito com a mão seca. Teresa deitou-se na posição indicada, Raul estendeu-se por cima dela com os braços esticados de modo a deixar espaço para que ela pudesse erguer a cabeça e ver o seu próprio corpo. Teresa pressionou os seios um contra o outro, apertando entre eles o sexo de Raul: ficou com a glande dele diante dos olhos, e mais uma vez se deu conta de como ela era bonita. Preconceito de amor, sem dúvida: mas Teresa já tinha visto muitos órgãos masculinos, e a muitos tinha-os achado feios e repugnantes, com as suas glandes bulbosas ou as suas formas mal definidas. A glande de Raul era, vista de cima, quase triangular, como a ponta duma seta. Vista de frente, como ela agora a via, mostrava uma abertura suficientemente larga para que o esperma jorrasse dela aos borbotos e não aos esguichos. Na base, no ponto de união com a haste, circundava-a um rebordo muito marcado e ligeiramente rendilhado, como um colarinho quinhentista ou como a rebarba de um dardo, que a fazia mais grossa do que o comum e talvez contribuísse, ocorria agora a Teresa, para o prazer intenso que ele lhe provocava ao penetrá-la. Quando Raul se começou a mover, Teresa pôs-se a imaginar que este movimento se realizava dentro dela: ao ver a glande aproximar-se, imaginava-a a tocar-lhe o colo do útero; quando a via recuar e esconder-se completamente entre os seus seios, imaginava-a a acariciar-lhe os pequenos lábios e a entrada da vagina; e alegrou-se de poder ver com os seus próprios olhos o que se passava nas suas entranhas quando ele a possuía.

Quando Raul atingiu o clímax, Teresa assistiu, fascinada, ao jorrar do sémen em borbotos, um dos jactos tão forte que lhe atingiu o queixo e os lábios. Esperou que ele rodasse de cima dela para a cama antes de se limpar com um toalhete húmido. Depois limpou-o a ele, primeiro com a boca e a língua, depois com outro toalhete. Veio-lhe de novo à ideia aquele jacto de esperma mais forte, e de repente imaginou o sémen a entrar-lhe no útero, a fecundá-la… Isso agora nunca poderia acontecer, essa possibilidade tinha-lhe sido roubada para sempre pelas sevícias a que tinha sido sujeita em Itália. E os monstros que lhe tinham causado este dano irreversível continuavam livres de fazer o mesmo a quantas mulheres quisessem, enquanto as mesmas autoridades a que competia detê-los ousavam acusar de maus tratos aquele homem bom que a segurava nos braços e nunca a tinha tratado com outra coisa que não fosse todo o amor e todo o respeito.

Vieram-lhe as lágrimas aos olhos; escorreram-lhe pelo rosto. Raul, inquieto, perguntou-lhe:

− Que foi, meu amor? Que tens?

Teresa pegou num lenço de papel e assoou-se antes de responder:

− Nada, meu senhor, uma tolice… Nunca vou poder ter um filho teu…

Diz-se que para bom entendedor meia palavra basta. Nesta queixa de Teresa entendeu Raul tudo o que ela tinha sentido e pensado no instante anterior. Abraçou-se a ela com mais força, sem falar, e pôs-se a entristecer juntamente com ela até que ambos adormeceram.

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Mariana estava à espera do amante em Bruxelas, na estação de caminhos-de-ferro. Depois de alguns minutos viu-o surgir-lhe apressado de entre os outros passageiros. Vinha embrulhado numa grande gabardina mal abotoada, batida por um vento que parecia soprar só sobre ele; e Mariana lembrou-se que sempre tinha sido assim, que em havendo vento o cabelo dele era o que mais depressa se despenteava, as suas roupas as que mais esvoaçavam, o seu guarda-chuva o que mais dificilmente se segurava aberto.

Assim que Victor a viu, pousou a maleta, tomou-a nos braços e beijou-a longamente na boca.

– Hmmm, – fez Mariana, e procurou enroscar-se nele tanto quanto as grossas roupas de Inverno o permitiam.

Quando pararam para respirar, Mariana sorriu para Victor:

– Meu querido… Que bom…

– Este foi um beijo de namorado, – respondeu ele. – Agora vou dar-te um beijo de dono.

E assim fez. Quem estivesse a olhar para eles não notaria a diferença, mas eles notavam, ou pensavam que notavam. Era um jogo que tinham inventado meses antes, e agora “um beijo de namorado”, “um beijo de dono”, “um beijo de escrava” eram parte do seu vocabulário amoroso.

Para Mariana era uma deliciosa embriaguês poder beijar Victor assim em público, no anonimato de uma cidade distante, como nunca o tinha podido fazer em Lisboa. No mesmo dia em que tinham inventado este jogo, Mariana tinha dito a Victor que gostaria que um dia ele se lhe derramasse sobre o corpo, em vez de dentro dela, para ela ver.

– Nunca viste?

Mariana corara:

– De frente, não…

Ele sorrira-lhe um sorriso de assentimento; depois tinha-a beijado ainda mais profusamente do que de costume.

– Presta atenção, Mariana. Este beijo foi um beijo de namorado, ou de dono?

– De namorado…

– Não, foi de dono. De namorado é assim:

E dava-lhe um novo beijo, em nada diferente do anterior:

– Já percebeste?

Mariana ria e entrava no jogo:

– Acho que sim… Agora dá-me outro de dono, para eu ter a certeza.

– Sim… Mas a seguir dás-me tu um de escrava.

Mariana rira e obedecera, mas misturada no riso ia alguma tristeza, porque este jogo lhe lembrava que todos os beijos que dava a Victor eram de escrava. Uns dias depois, numa carta, lançara o desafio para um novo jogo: “Também eu sou capaz de te dar beijos de dona.”

– Veremos. – Respondera Victor ao telefone.

Agora que estava de novo nos seus braços, embrulhados os dois em várias camadas de roupa de Inverno, entregava-se de novo toda nos beijos que dava a Victor. E talvez fosse esta a resposta dele ao desafio: um longo beijo, terno mas firme, carregado de desejo; outorgado sem vergonha nem hesitação mas com uma ténue ponta de reserva, como que a dizer-lhe que o melhor estava para vir. Um beijo, ainda, de namorado.

– Agora beija-me tu, – disse Victor no fim.

Mariana obedeceu com toda a ternura de que era capaz naquele momento, mas uma pequena gargalhada de felicidade e malícia brincava-lhe no fundo do peito. Era a hora de saída dos empregos; à volta deles uma multidão apressada dividia-se como uma torrente à volta duma rocha, atenta apenas aos horários e aos relógios.

– E agora um beijo de dona. Daqueles que também tu és capaz de dar.

Como descrever a paixão que Mariana pôs neste beijo? Sabia que estava a ser testada: com um pequeno soluço de sofreguidão colou-se toda a Victor, tentando fazê-lo seu, sorvê-lo todo, incorporá-lo todo e para sempre dentro de si.

– Ui, – disse ele por fim. – Se fosse há vinte anos, um beijo assim, e os nossos pais obrigavam-nos a casar. Mas não foi um beijo de dona, foi um beijo de escrava.

E para mostrar a diferença deu-lhe ele um beijo de dono, este sim, fundo, insolente, impiedoso, como ela nunca seria capaz de lhe dar.

Era verdade: o beijo dela tinha sido de escrava. Mas que arrogância a dele em dizê-lo! Não interessa: Mariana estava feliz. Abraçou-se a Victor ainda mais estreitamente, o corpo todo contra o dele, seios, tórax, ventre, sentindo-lhe a erecção mesmo por baixo das roupas grossas; e que lhe importava a ela que os seus beijos fossem de dona, de namorada ou de escrava, desde que nunca mais terminassem?

Foram para Brugges no pequeno automóvel utilitário que ela tinha comprado para as suas deslocações na Bélgica. Contrariamente ao que era hábito, Mariana pediu a Victor que conduzisse. Antes de sentar ao lado dele tirou o casacão comprido e estendeu-o no banco de trás; e depois de saírem da cidade subiu a saia, abrindo ligeiramente as pernas num convite a que ele a acariciasse. Victor depressa verificou que ela não trazia calcinhas. Nem soutien, de resto, como era evidente pelo cair do pullover.

– Vês como te obedeço? – Disse-lhe Mariana.

– Vejo como me serves, meu amor.

Victor não se importava, antes pelo contrário, que Mariana tivesse mais prazer em servi-lo do que em obedecer-lhe; e não era necessário dizer que a vontade de servir implicaria sempre um dever de obediência.

– Levanta a camisola, – ordenou; e quando ela lhe fez a vontade pôs-lhe a mão por dentro da roupa e tomou-lhe um mamilo entre os dedos.

Assim a foi acariciando, alternando os toques no corpo dela com os gestos necessários à condução. Quando a largava era para lhe falar numa voz velada do que tinha sido o seu dia a dia durante o tempo em que tinham estado separados. Mas a conversa acabava sempre por recair no que fariam um ao outro quando chegassem a casa; e quando se davam conta de que tinham voltado a este assunto riam-se da impaciência que os consumia, tão pouco própria da sua idade e do seu conhecimento do mundo.

No átrio de entrada do seu apartamento, a primeira coisa que Mariana fez foi tirar os sapatos e as meias. Descalçar-se logo que entrava em casa com o dono era para ela já um gesto automático, e fazia-o sempre sem hesitar e sem esperar que lhe fosse ordenado; mas nunca sem se lembrar daquele dia no Algarve: De agora em diante, será para ti impensável – uma falta de respeito – ficares calçada quando estiveres sozinha comigo.

Depois de tirarem os casacos, e do primeiro beijo dentro de casa; e depois de ela se lhe ter ajoelhado aos pés, e de ele a ter erguido para a beijar de novo na boca – a primeira ordem de Victor a Mariana foi que vestisse uma saia rodada.

– E põe o aquecimento mais forte.

Pôr uma saia rodada sim, pensou Mariana. Mas por agora ainda não. Não estaria Victor cansado da viagem? Não quereria tomar nada?

– Quero-te a ti, e sem demora, – respondeu ele. – Oh, e um copo de água, pode ser da torneira; mas isso pode esperar até estares apresentável para mo servires.

Mariana sentiu que a excitação que lhe tinha vindo a crescer durante a viagem diminuía um pouco; ou melhor, que era substituída por uma excitação diferente, mais cerebral, e temperada por uma ténue ansiedade. Decidida ainda a não obedecer depressa demais, aproximou-se de Victor e abraçou-o:

– Sim, meu querido. Já vou mudar de roupa. Senta-te. Podes pôr música se quiseres.

Victor apertou-a nos braços e olhou-a fundamente nos olhos, sorrindo-lhe um sorriso cúmplice. Sem demasiada pressa de ser obedecido, começou a beijá-la nos olhos, na face, nas comissuras dos lábios. Mariana nunca tinha tido um amante que a beijasse tanto, nem que se satisfizesse tanto com beijá-la. E embora em relações anteriores não fosse dada a exageros neste tipo de manifestação amorosa, acolhia agora com avidez os beijos de Victor. Os beijos à volta da boca começaram a parecer-lhe uma tortura de Tântalo: porque não a beijava ele a sério, boca contra boca, língua contra língua? Tentou fazer-lho ela a ele, mas ele, mais alto e mais livre de movimentos, esquivou-se sem dificuldade. E sorria-lhe com os olhos, impudente, cruel.

Por fim, quando Mariana se sentia prestes a gritar de frustração, sentiu-o descer sobre ela como um predador sobre a presa, os lábios esmagando os dela, a língua abrindo-lhe a boca e invadindo-a sem pedir licença, apaixonadamente, longamente. Um beijo de dono.

– Agora vai, minha escrava. Vai fazer o que eu te mandei.

Antes de a largar levantou-lhe ainda a saia. Por um segundo acariciou-lhe as nádegas nuas; e por fim Mariana, corada, sem fôlego, dirigiu-se ao quarto com o seu passo rápido de mulher pequena. Despiu-se rapidamente, lavou-se no quarto de banho, penteou-se, e pôs uma saia preta de algodão até aos pés, muito rodada. Por baixo vestiu as calcinhas e o soutien que tinha escolhido antes de sair de casa, duas peças minúsculas em renda preta. As calcinhas agradavam-lhe especialmente por terem a cinta alta e serem decotadas sobre a anca, de modo que lhe alongavam as pernas.

Hesitou em pôr uma blusa transparente, mas decidiu escolher uma que fosse opaca: queria que o soutien fosse uma surpresa para o amante.

Foi assim vestida que entrou na sala. Victor estava sentado no sofá.

– Anda cá, – chamou-a.

Mariana curvou-se para o beijar na boca e quando ele lhe puxou pela mão sentou-se ao lado dele. A casa estava a aquecer rapidamente, e nem mesmo Mariana, friorenta como era, sentia qualquer desconforto em encontrar-se vestida com roupas de Verão e descalça sobre os ladrilhos da sala. E de resto tudo na sala era agora aconchego, as luzes veladas, as persianas corridas para baixo, o tapete felpudo diante do sofá.

Dieu, qu’on est bien, cantava Brel no leitor de CD’s.

– Tens fome? – perguntou Mariana.

Victor não tinha fome, mas ela sim.

– Estou cheia de preguiça, – disse-lhe, dengosa. – Posso pedir-te uma coisa, meu amor?

Victor riu-se e disse que sim.

– Podias trazer-me um iogurte. Mas quero que mo dês na boquinha.

Na cozinha Victor tirou um iogurte do frigorífico, abriu-o e misturou-lhe uma colher de mel, como sabia que Mariana gostava. A brancura opaca do iogurte misturou-se com a transparência acastanhada do mel para dar um creme esbranquiçado e translúcido. Depois, sentado no sofá ao lado dela, começou a dar-lho às colheres, dizendo-lhe como se diz às crianças:

– Come, come tudo, vamos lá; agora é um Porsche a entrar na tua garagem; e agora é um comboio a entrar na estação: vem de Heidelberg, e eu venho nele. Agora… agora é o meu sexo a entrar na boquinha do teu corpo.

–Mmmm! – Dizia Mariana. – Que bom!

E quando ele terminou sentou-se-lhe ao colo, de frente para ele, com a saia levantada e as pernas escanchadas de modo a sentir-lhe a excitação. Sob os joelhos sentia a cobertura do sofá, macia mas enrugada, e entre as coxas as calças grossas que Victor tinha vestidas. Quanto a ele, meio preso entre ela e as costas do sofá, tinha a liberdade de movimentos apenas suficiente para lhe passar as mãos pelo corpo, acariciando-lhe as costas e a nuca e descendo-lhe pelos flancos até aos quadris. A carícia tão depressa era leve como firme; mas nunca tão vigorosa e impaciente como a que ela lhe fazia a ele por sobre a roupa, com o sexo todo, girando as ancas num movimento redondo e largo.

– Sim, meu amor, – ouviu-o dizer. – Dança para mim.

Victor tinha-lhe posto as mãos por baixo da saia e acariciava-lhe as barrigas das pernas, as solas dos pés. Mariana esfregou-se sobre a erecção do amante, numa vigorosa dança do ventre, até que lhe sentiu as mãos por baixo da blusa: era altura de se despir, a blusa e a saia antes do soutien e das calcinhas. Mas antes disso queria despi-lo a ele.

Para lhe desabotoar a camisa não precisava de sair da posição em que estava; mas quando quis tirar-lhe os sapatos e as calças teve de se sentar ao lado dele no sofá. Preparava-se para lhe pegar numa perna e atravessá-la sobre os joelhos de modo a poder descalçá-lo quando outra ordem a deteve:

– Assim não. De joelhos dá-te mais jeito.

Mariana sorriu. Tinha sido apanhada a fazer batota e foi com uma pequena risada que se ajoelhou aos pés do amante, que lhe retribuiu com um sorriso. Victor trazia umas botas forradas, com solas de borracha, próprias para a chuva e para a neve. As peúgas eram grossas, de lã, tão apertadas que custaram um pouco a sair. Depois de o descalçar Mariana pegou-lhe num dos pés e ergueu-o até aos lábios para lho beijar.

– Sim, meu amor, – disse Victor; mas quando ela ia fazer o mesmo ao outro pé ele fez força para baixo e não deixou.

– Vou-te ensinar uma coisa, minha escrava.

– O quê? – murmurou Mariana indistintamente, a boca colada aos pés dele.

Mas Victor entendeu-a:

– Isto: de futuro, quando me beijares os pés, não mos levantes do chão; baixa-te tu até eles.

Mariana riu-se:

– Está bem.

Não era uma mulher humilde, como já tinha feito notar ao amante; pelo contrário, era orgulhosa; mas uma boa parte desse orgulho, punha-o em ser uma escrava perfeita, como também lhe tinha dito. Inclinando-se até ao chão beijou-lhe os pés, terna e aplicadamente; depois ergueu-se sobre os joelhos e puxou-lhe as calças para baixo. As cuecas eram uns calções de popeline às riscas, abertos à frente e sem botões. O melhor era deixar-lhas vestidas: entrever-lhe o sexo semi-erecto a espreitar de entre as sombras do púbis era mais excitante do que tê-lo já, todo nu e exposto, à sua frente.

Foi com algum divertimento que notou o gesto discreto com que ele procurou tapar-se. Por pudor? Talvez; mas Victor nunca fora especialmente dado a esta virtude, pelo menos na presença dela. Ou por vontade de vê-la nua primeiro?

A ordem que se seguiu confirmou a segunda hipótese:

– Agora despe-te tu, minha escrava. Toda nua. Mas primeiro serve-me o copo de água que te pedi.

Na cozinha Mariana aproveitou para ajeitar as roupas descompostas. Os ladrilhos brancos estavam frios, mas não tanto que os não pudesse suportar. Vestida para o servir, trouxe-lhe a água, que ele bebeu de um trago. Depois de lhe tirar da mão o copo vazio começou a despir a blusa, de pé à frente dele, atenta a que ele lhe visse bem o soutien: as rendas, as transparências, os brilhos acetinados, a florzinha vermelha bordada entre as copas. Victor sorriu-lhe, agradado:

– Ah, puseste um soutien. E preto, ainda por cima. Mas acho que gosto mais do que tinhas posto quando tomei posse de ti: aquele cinzento com as florzinhas cor-de-rosa.

Mariana também achava que o outro soutien era mais bonito do que este; mas as calcinhas deste conjunto ficavam-lhe melhor.

– Não concordas?

Victor continuou a olhá-la atentamente enquanto ela tirava a saia. E com efeito: à minúscula flor vermelha no soutien, entre os seios de Mariana, respondia outra, ligeiramente maior, nas cuecas, no ponto exacto em que as rendas transparentes deixavam ver o início dos pelos púbicos; e tudo em harmonia com os cabelos negros, as sobrancelhas carregadas, os olhos brilhantes de Mariana.

Assim ficaram os dois, aparentemente esquecidos de que tinham começado a despir-se para fazer amor. Sentada aos pés do dono Mariana conversava e ria; de vez em quando levantava-se cheia de vivacidade para lhe mostrar uma fotografia ou um quadro, para pôr outro CD no leitor, ou simplesmente para o beijar na boca.

O sofá era fundo, o tapete macio, o aquecimento eficaz. Dois candeeiros, dispostos em diagonal em cantos opostos da sala, davam uma meia-luz velada e quente. A excitação de Mariana e Victor não era menos intensa agora do que quando tinham começado; mas tinha perdido toda a urgência, e era agora algo para ser gozado lentamente mais do que imediatamente resolvido. Victor acariciava a face e os cabelos da amante, encantado com ela e tonto de felicidade.

– Anda cá, – disse-lhe por fim.

Mariana foi-se-lhe sentar de novo ao colo: desta vez atravessada sobre os joelhos dele, virando-se de modo a que ele não tivesse que lhe desapertar o soutien às cegas. Com a mão esquerda Victor procurou-lhe o sexo: as calcinhas eram tão exíguas que não foi preciso tirar-lhas, e bastou afastar-lhe para o lado a tira de tecido entre as pernas para lhe poder acariciar o sexo nu.

Mariana, por sua vez, procurou com a sua pequena mão quase de criança o sexo do dono e acariciou-lho devagar, como ele gostava. Sentiu-o macio e confortável sob os dedos, quente do sangue que o enchia; e rijo como não tinha deixado de estar desde que se tinham beijado na estação, mas a essa rigidez não correspondia o vigor de movimentos e de gestos com que tinha entrado em casa dela pouco antes. Perscrutou-lhe o rosto: viu-lhe os olhos a começarem a raiar-se de vermelho, as olheiras a despontar.

– Estás cansado, meu querido? Da viagem?

– Um pouco. E o dia também não foi muito bom. Mas isto passa: agora estou contigo.

– Espera um pouco. Vou-te fazer um chá e vamos conversar.

Enquanto Victor tomava o chá preto que Mariana tinha preparado ao gosto dele – muito forte e sem açúcar nem leite – foram conversando sobre as suas vidas quotidianas, os filhos, os afazeres profissionais, os colegas, os problemas, os projectos. Durante o tempo que esta conversa durou, Mariana não parou de acariciar ao de leve o sexo de Victor, sentindo-o ficar alternadamente mais duro ou um pouco mais flácido conforme a atenção se lhe ia focando mais na carícia ou na conversa. Enquanto Mariana preparava o chá e uns biscoitos para o acompanhar, Victor tinha posto o seu robe de cetim vermelho escuro, mas ela tinha-se deixado ficar nua.

Victor bebeu várias chávenas de chá – chávenas de chá, nem menos de três, nem mais de trinta, costumava dizer a mãe de Marta – mas quase não tocou nos biscoitos. Mariana sabia que esta falta de apetite era nele sinal de cansaço, e depois de ele lhe entregar a chávena ordenou-lhe:

– Agora vais tirar o robe, tomar um duche e deitar-te no sofá, para a tua escrava te dar uma massagem.

Quando Victor começou o duche, Mariana juntou-se a ele:

– Deixa-me lavar-te.

Victor fechou os olhos, suspirou de contentamento e entregou-se nas mãos da amante, que o ensaboou e enxaguou três vezes da cabeça aos pés sem lhe descurar nenhuma prega do corpo. De cada vez, depois de o enxaguar, Mariana ajoelhava-se diante dele e tomava-lhe o sexo na boca enquanto ele, de olhos fechados, ia relaxando o corpo e murmurava:

– Sim, minha querida… Meu amor… Minha escrava…

No fim secou-o com uma grande toalha felpuda que tinha posto previamente a aquecer no radiador: não com os movimentos vigorosos com que ele se esfregaria se fosse ele próprio a secar-se, mas com o cuidado e com a ternura com que se seca um bebé depois do banho.

– Agora vai deitar-te no sofá, de barriga para baixo.

De regresso à sala, Victor viu que Mariana tinha posto outro toalhão sobre o sofá. Deitou-se de bruços em cima dela e esperou com os olhos fechados, a cabeça apoiada sobre o antebraço, que Mariana pegasse no frasco de óleo para para bebé que utilizava para o massajar. Sentiu Mariana ajoelhar-se no sofá com uma perna de cada lado do corpo dele: o sexo dela sobre a sua pele era uma carícia complexa que combinava a macieza das mucosas húmidas com a relativa aspereza dos pelos púbicos. Também o calor do corpo feminino contrastava com a frescura do óleo quando ela lhe derramou sobre os ombros uma pequena porção. Depois as mãos dela, pequeninas, quase infantis, ternas, mas fortes e firmes a procurar-lhe os nódulos de tensão nos músculos do pescoço e dos ombros.

Victor soltou um suspiro de prazer e abandonou-se às mãos de Mariana.

A seguir foram os braços, músculo a músculo, e as mãos, dedo a dedo, desfazendo pacientemente tensões; e à medida que a amante lhe massajava cada membro, Victor sentia que essa parte do corpo lhe ficava como que mais pesada, abandonada à força da gravidade que a puxava de encontro à superfície mole mas firme do sofá.

As costas foram exploradas vértebra a vértebra, numa carícia que por vezes o magoava um pouco, e só por via dessa ligeira dor é que Victor não era vencido pela sonolência que o tomava. Mariana moveu o corpo em direcção dos pés de Victor de maneira a deixar-lhe as nádegas livres para as massajar, mas antes de começar esta fase inclinou-se sobre ele e passou-lhe pelas costas, repetidamente, os bicos dos seios ao mesmo tempo que lhe dava pequenos beijos nos ombros e na nuca, numa carícia tão leve como o bater de asas duma borboleta.

As nádegas foram trabalhadas primeiro com movimentos circulares, depois amassadas como que a fazer pão, e por fim repetidamente percorridas com um longo e vigoroso deslizar de ambas as mãos, do alto das coxas até aos rins, que não foram poupados a uma série de pancadas dadas com as arestas das mãos como golpes de karate.

Para tratar das pernas do amante Mariana teve que o cavalgar de novo, sentando-se sobre as nádegas dele, mas desta vez virada para os pés. Victor tinha as coxas e as pernas duras, musculadas e muito tensas. Foi necessário que ela as acariciasse, que as beliscasse músculo a músculo, as amassasse e por fim lhes batesse com os punhos fechados, com toda a força, numa rápida chuva de golpes entremeados de beijos e carícias.

– Estás a gostar?

– Sim… É bom…

– Estavas tão tenso… Estás a ficar melhor?

Victor sentia-se flutuar. Às solas dos pés, dedicou-lhes Mariana quase tanto tempo como tinha dedicado a tudo o resto, insinuando os dedos finos por todas as reentrâncias e relevos

Mas vem sempre um momento em que as lentidões mais lânguidas e aconchegadas dão lugar a frenéticas urgências: os beijos que os amantes trocavam agora, cada vez mais ávidos, deixavam para trás as outras carícias, que se mantinham suaves e lentas; e finalmente Mariana sentiu que não podia esperar mais. Tentou mudar de posição, acabar de despir o amante e sentar-se-lhe ao colo com as coxas abertas, de modo a empalar-se nele; mas ele, com sábia crueldade, prendeu-a pela cintura, obrigou-a a manter-se na posição em que estava e continuou a acariciar-lhe o sexo. Mariana não queria esta carícia cheia de delongas: não queria este prazer vazio, este orgasmo que se aproximava sem que ela o pudesse evitar ou retribuir. O clímax, quando lhe veio, veio-lhe entre risos e lágrimas. Durante todo o tempo que lhe durou, e depois durante o refluxo, Victor apertou-a nos braços, cobrindo-a de beijos, consolando-a.

Mariana sentia-lhe a erecção contra a coxa e começou a roçar-se meigamente contra ele.

– Sim, meu amor, – disse-lhe Victor quando a viu de novo sorridente. – Quero vir-me assim, contra o teu corpo. Como me convidaste a fazer no outro dia, lembras-te?

E mais tarde, enquanto ela, toda aninhada nele, o beijava ternamente, segredou-lhe ao ouvido:

– Vou possuir-te agora entre os seios. Dás-mos, meu amor? Dás-me os teus seios?

Dava; certamente que dava. Pois não se tinha dado já toda, de corpo e alma?

A uma ordem dele tirou as calcinhas e deitou-se de costas no tapete, em frente do sofá. Mariana considerava-se uma mulher com experiência e mundo, e era-o de facto, mas nunca tinha visto o esperma a jorrar dum pénis. O contentamento que sentia vinha da oportunidade de ver com os olhos um fenómeno que até aí só tinha conhecido por senti-lo dentro do corpo. E vinha também de poder servir o amante sem reservas, de sentir que ele se lhe entregava todo, finalmente. Seguiu-o com os olhos enquanto ele se dirigia, com os shorts ainda vestidos, à mala que tinha trazido e voltava para junto dela com uma pequena lata de vaselina na mão. Para não lhes doer, disse ele.

– Mas isto não dói, – disse Mariana.

– A ti, não, mas pode-me doer a mim.

Mariana nunca tinha tido na cama um homem tão delicado de pele. Parecia uma mulher ou uma criança, e das mais mimosas. Viu-o tirar da lata, com as pontas dos dedos, uma porção de vaselina e sentiu uma ténue impressão de frio quando ele começou a espalhar-lha nas faces interiores dos seios. Depois sentiu-se requebrar sob as mãos quentes que lhe deslizavam, lúbricas, por todo o peito. Quando ele se lhe deitou por cima apertou os seios com as mãos, tentando criar para ele um canal tão fácil como o de que ele se servia habitualmente, mas mais apertado se possível.

Levantando a cabeça podia ver em primeiro plano a glande rosada que lhe avançava em direcção à cara e se lhe recolhia de novo entre os seios, num vaivém cada vez mais rápido. Vista assim de perto a abertura na ponta parecia tão larga como uma mangueira de jardim, e Mariana fantasiou toda uma torrente que jorrando dela a havia de avassalar. Para assistir mais confortavelmente a esta erupção estendeu o braço para o sofá e pegou numa almofada, que pôs por baixo da nuca.

Victor levou largos minutos a atingir o orgasmo. Mariana sentiu-o antes de o ver, um jacto cremoso e quente que lhe atingia o peito e o pescoço, e depois, expandida a maior força, um fluido branco que se derramava em borbotos cada vez mais débeis. Logo que o amante parou de se mover Mariana limpou-se com um lenço de papel.

– Não porque os teus fluidos me incomodem, meu senhor; pelo contrário. Mas não vale a pena sujar o tapete. Não te importas?

– Não me importo que te limpes com o lenço, mas a mim quero que me limpes com a tua boca.

Mariana riu-se. Depois de se limpar inclinou-se sobre Victor e começou a lamber-lhe e a chupar-lhe o sexo, delicadamente. Mas não deixou por isso de o lavar como era seu costume depois de fazerem amor – quando o sentia preguiçoso demais para tomar duche – com um toalhete perfumado e água morna.

Com isto começaram uma conversa longa, lânguida e bastante tonta sobre os cheiros e os sabores do sexo.

– A que sabe então o meu esperma?

– Hmmm… Deixa ver… A pêssegos. E a minha cona?

– A caviar.

– Não vale, essa tiraste-a da Dona Flor!

– Então sabe a bacalhau.

– Estúpido! Diz-me a que é que sabe a minha cona, ou então começo a fazer-te cócegas até te obrigar a pedir misericórdia!

– Está bem, agora a sério. A tua cona… A tua coninha querida… sabe à água da chuva, durante uma tempestade de Verão, a escorrer-me pela cara.

E esta conversa conduziu-os, em devido tempo, a um renovar do desejo; e este desejo levou a que de novo fizessem amor; mas o amor que fizeram dessa vez pertence a outra história.

Debaixo deles o espesso tapete beige titilava-lhes os corpos. À volta, se estendessem a mão, sentiriam o ladrilho que revestia o chão; e no calor da sala a frescura deste toque era um conforto. O sofá onde tinham estado antes era cor de tabaco, e erguia-se-lhes diante dos olhos como uma montanha. Nas paredes brancas, os quadros de Mariana: nus femininos, alguns auto-retratos, naturezas mortas, pintadas com cores fortes e pinceladas vigorosas.

E um retrato a óleo de Victor numa cervejaria famosa de Bruxelas, sentado a uma mesa de madeira cor de mel. No retrato aparecia ligeiramente corado, vestido com uma T-shirt preta: a única indicação de que era Inverno lá fora era o grosso sobretudo pendurado num canto, juntamente com as luvas, o cachecol e o boné de tweed. Sobre a mesa um cinzeiro de latão vazio, um candeeiro Tiffany aceso, uma base de copos em cartão e o amarelo cádmio duma caneca de cerveja. Uma gota de líquido escorrera para a mesa.

Via-se que tinha acabado de pousar a caneca, e que estaria talvez a cumprimentar alguém que tivesse acabado de chegar. O olhar com que olhava para fora do quadro tinha a mistura de ironia e ternura que lhe era peculiar. O cabelo era uma melena romântica, revolta e comprida. Os lábios estavam húmidos da cerveja; e por baixo do nariz tinha uma réstia de espuma, branca e translúcida, da cor do esperma que Mariana lhe tinha visto sair aos borbotos do sexo entumescido.

(Publicado no Blogger a 20/08/06)

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