Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘sexo seguro’

Cap. 38: VAIVÉM

[ … ] Depois da aula, em casa, Teresa serviu o almoço a Raul; à tarde viu um filme, sentada aos pés dele, sem saber o que aconteceria a seguir. À noite, Milena serviu o jantar sozinha porque Teresa recebera ordem de se arranjar com especial cuidado para o jantar.

– Fica de seios nus, mas não os maquilhes – disse Raul. – Põe os teus rubis.

Para acompanhar o jantar, Raul escolheu Mozart: a Sinfonia nº 38, o Concerto de Piano nº 23 e Eine Kleine Nachtmusik. Terminada a comida e a música, ordenou a Teresa que fosse buscar Ana, que estaria à sua espera, a casa de Miguel.

– Veste o teu casaco mais quente por cima do tronco nu, põe um cachecol e um gorro, mas não te calces. Deixa aqui a Ana, volta para casa do Miguel e fica à disposição dele até ele te mandar para casa.

Atordoada, Teresa nem sequer foi capaz de dizer “sim, meu senhor”, mas também não pensou em desobedecer. Estava desvendado o mistério: ia ser emprestada a outro homem; o seu dono, o seu senhor querido, de quem pensara ser a única escrava, ia servir-se doutra mulher; e não sabia qual das duas coisas lhe doía mais. Foi ao quarto de banho e arranjou-se para sair, sempre com aquele “sim, meu senhor,” que não dissera, a soar-lhe aos ouvidos como um mantra. Agasalhou-se, pegou nas chaves do Smart, desceu ao estacionamento, entrou no carro e foi onde Raul a enviara.

A própria Ana lhe abriu a porta, muito agasalhada mas, tal como Teresa, com os pés nus.

Durante o percurso não falaram. Cada uma estava perdida na contemplação do futuro imediato: iam ser cedidas, iam ser traídas. Não: traídas, não. Ambas se davam conta, mais agudamente que nunca, que Raul e Miguel não lhes pertenciam. Talvez tenha passado pela cabeça de Ana revoltar-se; mas, ao ao ver a expressão de Teresa – pálida, orgulhosa e decidida a obedecer custasse o que custasse – resolveu-se a orientar o seu comportamento pelo dela. Teresa entrou com o carro na garagem subterrânea e acompanhou Ana até à porta do apartamento para a entregar a Raul.

– Entra, Ana – disse este. – E tu, Teresa, podes ir. Obedece ao Miguel em tudo.

Sim, meu senhor, pensou Teresa. Fez o segundo percurso até casa de Miguel num estado de perturbação ainda maior do que tinha feito o primeiro. Já não contemplava apenas o seu futuro próximo, mas o presente que se desenrolava atrás de si, entre Raul e Ana. Sim, meu senhor. Estariam estas palavras, neste momento, a ressoar também na cabeça de Ana? Ou, mil vezes pior, estariam a sair-lhe dos lábios, dirigidas a Raul? Apertou o volante com as mãos até os nós dos dedos lhe ficarem brancos: Não, não era possível. Tudo, menos isso.

Miguel recebeu-a à porta. Ajudou-a a tirar o casaco, pegou-lhe no cachecol e no gorro, que arrumou, e quando a viu nua da cinta para cima não fez qualquer comentário.

– Anda comigo – disse.

O aquecimento central não era tão eficiente aqui como no apartamento de Raul, mas a temperatura não era demasiado desconfortável, nem para os pés nus, nem para o tronco nu de Teresa. Seguiu Miguel para o quarto, onde ele lhe ordenou que acabasse de se despir e tirasse as jóias.

Teresa obedeceu prontamente e em silêncio. Miguel encostou-se à ombreira da porta a vê-la tirar a saia e as jóias.

– Anda cá – disse Miguel.

Teresa avançou até ficar de pé a meio metro dele, que lhe tomou as mãos para as aquecer por um momento entre as suas e depois a beijou na boca, que ela não abriu mas também não fez força para manter fechada.

– Despe-me – disse ele.

Teresa começou por lhe tirar a T-shirt preta e arrumou-a nas costas duma cadeira. Como devo agir, pensou Teresa, com um homem que não é o meu senhor, mas a quem tenho que obedecer? Não lhe beijaria os pés, a não ser que ele lho ordenasse, nem lhe daria quaisquer outras mostras duma humildade que não sentia em relação a ele; mas obedeceria em tudo, e esforçar-se-ia o mais que pudesse para lhe dar prazer. Ajoelhou-se para o descalçar: as sapatilhas eram difíceis de tirar, tinham muitos cordões e era preciso fazer força. Ainda de joelhos, desapertou-lhe o cinto e as calças. Miguel ajudou-a a tirar-lhas, levantando alternadamente os pés; ela endireitou-as e arrumou-as junto com a T-shirt. As cuecas tinham uma mancha húmida que as tornava transparentes. Ajoelhou-se para lhas tirar, mas desta vez não se voltou a erguer: atirou as cuecas para junto da outra roupa e só então olhou para o membro erecto à sua frente. Era diferente do de Raul, mais comprido e mais fino, e completamente a direito. Como não tinha sido circuncidado, a glande era mais vermelha e parecia molhada.

– Chupa-me o pénis.

Sim, meu senhor, disse ela intimamente a Raul; não te deixarei ficar mal. Tomou na boca este pénis que não conhecia: havia de usar as carícias que Raul lhe tinha ensinado, ou as que tinha aprendido nos seus anos de puta? Qual destas opções honraria melhor o seu senhor? A primeira, claro: Raul tinha emprestado a Miguel a sua própria escrava, não uma puta qualquer apanhada na rua. Miguel gemeu de prazer com esta carícia, que ela continuou até ele lhe ordenar que se deitasse na cama e abrisse bem as pernas, entre as quais se ajoelhou para lhe ver o sexo. Viu os anéis de titânio que o transfixavam, fê-los oscilar um a um com a ponta do dedo e suspirou:

– Se eu pudesse, mandava fazer o mesmo à Ana…

Passou-lhe a mão lentamente pelo ventre, pelas ancas, beijou-lhe os seios, e finalmente ordenou:

– Estás seca, masturba-te um pouco.

Teresa enrubesceu até ao peito, mas obedeceu. Se estivesse com Raul, não estaria seca; estaria já quase à beira dum orgasmo. Mas Miguel tinha direito a que ela lhe apresentasse uma vagina bem lubrificada, que ele pudesse penetrar à vontade. Começou a acariciar o clítoris, imaginando que eram os dedos de Raul, até que ficou pronta a ser possuída. Miguel pôs um preservativo, deitou-se sobre ela, penetrou-a sem brutalidade – mas também sem uma ternura excessiva que só a humilharia – e começou a mover-se dentro dela. Teresa não teve qualquer dificuldade em usar as técnicas do pompoar, que se estavam a tornar automáticas para ela. Os movimentos dele tornaram-se mais rápidos e vigorosos e a respiração mais ofegante. E foi neste momento que Teresa sofreu a maior humilhação da sua vida:

– Vem-te agora – disse Miguel.

E ela teve o orgasmo que não tencionara ter, um orgasmo intenso que a obrigou a abraçar Miguel, a colar-se a ele apaixonadamente, a procurar-lhe a boca e a língua como procurava a boca e a língua de Raul; e tudo isto desencadeado por duas pequenas sílabas, uma ordem seca dada por outro homem. Já sabia que o seu corpo obedecia a Raul sem intermediação da sua vontade, e tinha orgulho em tê-lo treinado para isto; mas nunca imaginara que este treino o fizesse obedecer assim a outro homem. Quem era ela, a quem o seu próprio corpo não obedecia? Em que se estava ela a transformar? Passara os últimos meses a transformar-se, deliberada e metodicamente, na escrava de Raul; mas nunca tinha sido sua intenção tornar-se no seu próprio ser uma escrava, obediente por reflexo a certas ordens, dadas num certo tom fosse por quem fosse. Não tinha sido ela a transformar-se nisto; tinha sido Raul que a transformara. Sentiu uma indignação que lhe subia ao peito, logo cancelada pelas palavras que tantas vezes dissera, e não em vão: sou tua, faz de mim o que quiseres. Se estava a transformar-se, não no que planeara, mas no que Raul queria, isto não podia ser senão justo. Era humilhante, esta obediência reflexa a outro homem; mas não a fazia escrava dele: fazia-a, sim, mais escrava de Raul. Virou a cara para não ver Miguel, mas sentiu com agrado as suas carícias. Ficou-lhe grata quando ele, pudicamente, foi tomar duche sozinho e lhe permitiu que fizesse o mesmo. Já não o encontrou no quarto, onde vestiu a saia e pôs as jóias. Foi encontrá-lo na sala, já vestido, e sentiu vergonha dos seus seios nus como não tinha sentido ao entrar. Miguel deu-lhe um beijo leve na boca, a que ela correspondeu, e disse:

– Podes ir, o Raul telefonou. Não entres na garagem: espera à porta do prédio. Tranca o carro. Abre-o só para deixar entrar a Ana.

Mas Miguel ajudou-a rapidamente a vestir-se e deu-lhe um beijo à despedida, desta vez na cara.

Ao ficar sozinho com Ana, Raul pegou-lhe na mão e conduziu-a à sala.

– Entra, Ana. Põe-te à-vontade. Dá cá o casaco.

Ana tirou os agasalhos, que ele entregou a Milena para que os arrumasse.

– Dá uma volta para eu te ver – disse Raul.

Ana rodou sobre si mesma e voltou-se de novo para ele.

– Estou bem? – perguntou.

Estava linda, pensou Raul. Não estava de seios nus, como Teresa, mas sim com um top que lhe descobria o umbigo. A saia, preta e um pouco transparente, tinha a cinta muito descaída, e caía em pregas largas até aos tornozelos. Todos os adornos eram de prata, e o cabelo estava cuidadosamente penteado de modo a parecer que o não estava.

– Senta-te – disse Raul.

Ana sempre tinha visto Teresa sentada no chão, nunca no sofá, mas sentiu um certo acanhamento que a impedia de fazer o mesmo. Ia sentar-se na borda do sofá quando Raul lhe disse:

– Podes sentar-te no chão. Queres tomar alguma coisa?

Ana acenou que não. Raul pegou-lhe na mão, sentou-se no sofá, muito perto dela, e perguntou-lhe:

– Sabes para o que estás aqui?

– Para fazer tudo o que o senhor mandar – disse Ana.

– Então anda comigo, minha querida.

Quando chegaram ao quarto, Ana quis dar-se algum tempo. Não se sentia pronta para se despir já, como uma puta; e tinha necessidade de falar, de se justificar.

– O senhor vai-me possuir?

– Sim, querida, vou-te possuir – respondeu Raul, pronto a dar-lhe o tempo de que ela precisasse.

– Sabe, o Miguel é o único homem a quem me submeti até hoje… Já não era virgem quando comecei com ele, mas nunca tinha sido submissa de ninguém.

– E agora vai difícil obedecer-me.

– Um pouco – respondeu Ana. – Mas com o senhor sou capaz. Foram o senhor e o Miguel que decidiram sozinhos, não foram? A Teresa não entrou nessa decisão…

– Fomos nós sozinhos – respondeu Raul.

Esta resposta tornava tudo mais fácil. Se Teresa tivesse conspirado contra ela…

– Estão no seu direito… – murmurou. – Quer que me dispa agora?

Raul mandou-a tirar só o top. Ana tinha os seios um pouco mais pequenos que os de Teresa, de forma cónica, e com as aréolas dum rosado muito claro que quase não fazia contraste com a pele. Tapou-se com as mãos, mas logo se destapou, como se tapar-se fosse uma falta. Raul sorriu:

– Uma escrava não tem direito ao pudor, não é, minha querida?

– É verdade… – murmurou Ana, corando.

Raul mandou-a tirar a saia e deitar-se na cama, onde ficou apoiada sobre um cotovelo, olhando para ele enquanto ele se despia. Raul era o homem mais velho que Ana já tinha visto nu: não soubera o que esperar, mas afinal era um homem como os outros, mais atraente que muitos. A primeira carícia que ele lhe fez, entre o pescoço e o ombro, fê-la estremecer; mas devolveu-lha, tocando-lhe no peito; e beijou-o timidamente na boca. Raul deitou-se de costas, cruzou as mãos sob a nuca e disse:

– Anda tu por cima, Ana. Mostra-me o que sabes fazer.

Ana tinha a certeza que sabia fazer tudo. A experiência que tinha com homens era muito pouca, limitava-se quase só a Miguel. Sabia dar prazer a Miguel, e portanto devia ser capaz de dar o mesmo prazer a Raul. Pôs-se de gatas por cima dele, deixando pender os colares e as correntes, e começou a beijá-lo nos olhos, nas orelhas, na boca, nos mamilos… Quando estendeu a mão para lhe agarrar no pénis, ele disse que não, ainda não… Ainda não, porquê? Miguel gostava… Mas obedeceu e continuou a beijá-lo, progredindo devagar até lhe chegar ao sexo depilado, tão confortável de meter na boca. Quando começou a chupá-lo, sentiu a mão dele entre as pernas, que abriu para lhe dar espaço.

Raul começou por lhe tactear os lábios exteriores da vulva, de comissura a comissura, primeiro de um lado e depois do outro. A seguir, percorreu a fenda entre eles e, quando chegou ao extremo desta, continuou a acariciá-la entre as pernas, no rego entre a vulva e o ânus. Regressando à vulva, mais fina e mais comprida que a de Teresa, separou-lhe com os dedos os lábios exteriores e começou a afagar-lhe os interiores, que eram nela muito rosados e um pouco proeminentes. O toque de Raul era duma delicadeza extrema: Ana nunca tinha sido acariciada neste lugar por uma mulher, mas imaginava que seria assim, e era muito bom… Por um momento perdeu a concentração, mas ouviu Raul, que lhe dizia:

– Ana, presta atenção, não pares…

Não podia parar de chupar Raul. Estava ali para o servir: tinha sido essa a ordem, muito clara, que Miguel lhe dera. Mas como podia ela ignorar aqueles dedos que se lhe insinuavam pelos folhos da vulva, lubrificados pelos sucos da vagina? Raul descobria-lhe agora o pequeno capuz que lhe escondia o clítoris; este já tinha a pontinha de fora, mas Raul, com infinitos cuidados, afastou o capuz para trás de maneira a descobri-lo mais, e começou a titilar com movimentos rápidos o botãozinho que tinha deixado a descoberto. Ana não sabia o que queria, se queria que ele continuasse a fazer isto por toda a eternidade ou que a penetrasse e possuísse sem delongas. Mas sabia o que Miguel havia de querer: que ela se concentrasse e continuasse, até ordem em contrário, a chupar o melhor que soubesse o pénis de Raul. A ordem em contrário não se fez esperar muito:

– Vem agora, minha querida. Empala-te em mim.

Ana assim fez, com um pequeno gemido. Coleou por Raul acima, deitou-se sobre ele com as pernas abertas, pegou-lhe no pénis para o apontar exactamente à abertura da vagina, e baixou-se sobre ele, sentindo como ele a enchia por dentro. Os movimentos de Raul dentro dela foram, ao princípio, quase imperceptíveis: queria dar-lhe oportunidade de mostrar do que era capaz; e ela, que não queria outra coisa, começou a combinar o que sabia que agradava a Miguel com o que sabia de pompoar.

Raul, deliciado, reteve o orgasmo. Começou a acariciar Ana nas nádegas e nas costas, beijando-lhe a boca, os mamilos, o pescoço sempre que ela se inclinava o suficiente para lhe chegar ao alcance dos lábios. Viu-lhe corar o rosto e o peito, ouviu-lhe a respiração transformar-se num gemido e logo a seguir num arquejo; sentiu como os músculos da vagina se apertavam, já não como no pompoar, mas num tremor involuntário; e esvaiu-se dentro dela com três estocadas fortes, ouvindo-a exclamar:

– Sim, Miguel, sim, vem-te em mim, meu querido!

Mais tarde, com ela estendida sobre ele, escondendo o rosto na curva do braço, ouviu-a dizer:

– Que vergonha, Raul… Chamei-lhe Miguel…

Raul riu-se, obrigou-a a encará-lo e respondeu:

– Tolinha… Pensas que isso me ofendeu? Pelo contrário, até me lisonjeou. Mas agora vá, toca a lavar e a vestir, que tens o teu dono à espera.

Teresa parou o Smart à porta do prédio. Alguém devia ter coordenado as coisas muito bem, porque não passaram mais do que uns segundos até Ana aparecer. Um grupo de rapazes e raparigas, à conversa ali perto, devem ter ficado um pouco admirados ao vê-la dirigir-se para o carro toda agasalhada, mas descalça. Teresa ligara o aquecimento: esperou que Ana se ajeitasse com o cinto de segurança e arrancou: a quinta vez que fazia o mesmo percurso nessa noite. Ao princípio não disseram nada, embora por vezes Ana desse a impressão de querer dizer alguma coisa. Por fim, não se conteve:

– Como te tratou o Miguel?

Teresa não compreendeu: queria Ana saber se Miguel a tinha tratado bem? Que importância tinha isso? Não eram ambas escravas?

– Não é isso – disse Ana. – O que é que ele te chamou? Chamou-te minha escrava?

– Não – disse Teresa, elucidada. – Chamou-me sempre Teresa.

Teresa gostou de sentir Ana relaxar ao seu lado, como que aliviada de um peso.

– E o Raul – perguntou. – Chamou-te minha escrava?

– Não, chamou-me Ana e minha querida. E eu também não lhe chamei meu senhor.

Teresa envolveu-se toda no prazer desta resposta: Raul fizera com Ana o que quisera, mas não lhe chamara minha escrava.

– Também me chamou tolinha…

Então puseram-se as duas a rir, em paroxismos tais que Teresa teve que parar o carro até recuperar o controlo sobre si mesma. Tolinha… e de cada vez que uma delas dizia esta palavra, a outra respondia:

– Cala-te, não me faças rir.

E assim foram até casa de Miguel, onde Teresa esperou que Ana entrasse, gelando de novo os pés.

Read Full Post »

Quando Rui propôs a Joana que fizessem exames médicos para poderem ter sexo sem preservativo, ela viu nisto a vontade dele de dar estabilidade à sua relação. Ficou contente mas não quis mostrar este agrado; e a cabra que havia nela fê-la perguntar:

– Porquê? Queres fazer-me algum menino, é?

Rui ignorou o sarcasmo:

– Se alguma vez te quiser fazer um menino, informo-te primeiro. Para já, o que quero é criar as bases para que haja uma confiança absoluta entre nós.

Joana não tinha nada contra fazerem análises, pelo contrário; a reacção que tivera viera-lhe duma vontade súbita de espicaçar Rui, e o facto de ele não se deixar espicaçar desarmou-a. Ficou ela de marcar a data para as análises, de preferência numa clínica onde poucas pessoas os conhecessem, e passaram a outros assuntos.

Joana viu nesta conversa uma para abordar uma questão em que andava a pensar:

– Posso perguntar-te uma coisa? O que querias tu dizer quando disseste à minha mãe e às amigas dela que da tua porta para dentro, só admitias uma escrava?

– Queria dizer isso mesmo – respondeu Rui. – Deixei-as pensar que aquilo era retórica para as calar, é claro, mas a ti digo-te que lhes estava a dizer a verdade sobre a minha orientação sexual.

– Não dás nada essa ideia – disse Joana.

– Não? Tens a certeza?

Joana corou, o que a fez zangar-se consigo mesma. Lembrou-se que nos primeiros dias da sua relação com Rui, ainda antes de o ter seduzido, ele lhe tinha dado a entender que não gostava muito de a ver de calças; e desde então ela passara a usar saias ou vestidos com cada vez maior frequência. Era a primeira vez que mudava a sua maneira de vestir por causa da vontade de um homem, ademais tão vagamente expressa. Quando se zangava consigo, Joana descarregava sempre noutra pessoa, e foi o que fez agora:

– Claro que tenho a certeza. Não te estou a ver a mandar numa mulher. Pelo contrário: até me parece que a minha mãe tem razão quando diz que te deixas dominar facilmente.

Rui sorriu:

– E tem razão, a tua mãe. Deixo-me dominar com a maior das facilidades quando o que está em jogo não me interessa. Com os mais fracos que eu, sou muito dócil: é uma ironia que me diverte. Mas também te quero fazer uma pergunta: que querias tu dizer quando confessaste à tua mãe que eras uma cabra e precisavas de dono? Também te devo dizer que não dás nada essa ideia.

– Como, não dou? Ainda há bocado…

– Ah, sim – disse Rui. – Há bocado, com efeito. Só tenho duas perguntas: porque diabo queres tu deixar de ser uma cabra, admitindo que o és? E se é isso que queres, porque diabo não o fazes sozinha? Para que precisas tu de um dono?

– E tu, para que diabo precisas tu duma escrava?

– Eu nunca disse que precisava duma escrava. Já precisei, já tive, e agora estou bem como estou. O que eu disse foi que só aceitava uma mulher em minha casa na qualidade de escrava; mas estou perfeitamente disposto a aceitar a alternativa mais provável, que é ficar sozinho.

Joana calou-se, olhando para baixo com os punhos cerrados. Como uma miúda birrenta, pensou Rui. Por fim, sem deixar de olhar para baixo, respondeu:

– Preciso de dono porque estou farta de lidar com homens que não respeito. Tu és o primeiro a quem respeito desde há muito tempo.

– Sim – sorriu Rui. – Ainda agora foste muito respeitosa para mim.

– Não é disso que se trata – disse Joana. – Não é por ser ocasionalmente sarcástica que preciso de dono: é porque sou mesmo uma cabra, e estou farta disso.

Rui ficou silencioso por tanto tempo que Joana pensou se não teria dito alguma coisa que o fizesse zangar. Mas disse, por fim:

– Olha, Joana. Há muitas espécies de dono, e nada garante que eu seja o dono de que precisas. Se alguma vez levar uma escrava para minha casa, nada garante que possas ser tu: podemos ter noções muito diferentes do que é uma escrava.

– Não me estou a oferecer como tua escrava – disse Joana.

– Nem eu como teu dono – disse Rui. – Pelo menos, ainda não. E pode ser que eu queira uma escrava já feita, e não uma a quem ainda seja preciso educar.

– E eras tu que me educavas?

– Dizes que és uma cabra, não dizes? Então, para continuar com metáforas de animais, terias que passar de cabra a cadela: isto seria uma educação. Seria também um esforço enorme e muito demorado, e eu teria de estar disposto a fazê-lo.

– Então não estás disposto.

– Posso vir a estar, mas teria de contar com a tua colaboração. Já não tenho idade para perder tempo com meninas que pensam que querem ser escravas.

Joana voltou um pouco atrás na conversa:

– Cadela, dizes tu? O que quer dizer isso, cadela?

– Quer dizer que quando eu te fizer sinal tens que vir com o rabo a abanar, mesmo que uns minutos antes eu to tenha feito pôr entre as pernas.

– Isso não vai ser nada fácil – disse Joana. – Nada fácil, mesmo.

– Não vai ser? – disse Rui – Já estás a pressupor que vamos tentar? Tem calma: primeiro vamos ver se a nossa relação resulta noutros planos, ao mesmo tempo que vemos se aquilo em que estamos a pensar é viável. Para já, vou-te dar três palavras para meditar, e um dia destes peço-te a tua reacção.

– Que palavras?

– Servir, obedecer, sofrer – disse Rui.

– Se é isso, posso dizer-te já…

– Não podes nada – disse Rui. – Podes dizer-me quando eu te perguntar.

Fizeram os exames médicos, esperaram pelos resultados, voltaram a fazê-los e esperaram de novo. Joana recomeçou a tomar a pílula. Começaram a ter relações sexuais sem preservativo, o que implicava já um primeiro compromisso, que era a fidelidade recíproca. Não se falou, porém, em viverem juntos. Veio o divórcio de Rui e resolveu-se a partilha dos bens, o que lhe permitiu remodelar uma casa que herdara, um pouco degradada e muito desconfortável: não o fizera antes para que a ex-mulher não pudesse dizer que o tinha feito com dinheiros comuns. Joana acompanhou esta remodelação, que foi completa: demolição de paredes internas, rearranjo das divisões, isolamento térmico e acústico, caixilharias novas, janelas com vidros duplos ou triplos, climatização, transformação em jardim do matagal nas traseiras.

A obra mais difícil foi na cave, onde o chão foi rebaixado um metro para aumentar a altura. Rui manteve as paredes em pedra tosca, mas revestiu o tecto com material isolante e instalou aquecimento a partir do soalho.

Joana, vendo que Rui não media despesas, perguntou à mãe:

– Como é que o Rui pode fazer aquelas obras todas com a pensão dele? Com a reforma antecipada, não pode ter ficado a receber muito.

– O Rui não depende da pensão – respondeu Arminda. – Com o que herdou, pode viver muito bem dos rendimentos.

Isto explicava uma decisão de Rui que Joana tinha considerado excêntrica: a de organizar a vida em função das temporadas de ópera do S. Carlos, do Scala, do Met, do Teatro del Liceo em Barcelona, do Covent Garden, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e de festivais como o de Glyndebourne e Bayreuth. Esta agenda incluía lugares tão remotos como Manaus ou Sidney e exigia bem mais que doze viagens por ano – o que chegava para não o deixar estupidificar. Comprava os bilhetes pela Internet com meses de antecedência, tal como as viagens e o alojamento.

– Compro sempre a dobrar – explicara. – Para o caso de ter companhia.

A companhia, embora ele não o dissesse expressamente, seria ela; se os afazeres profissionais não a deixassem ir, seria algum amigo ou amiga; ou em último caso iria ele sozinho, assumindo o prejuízo. Só uns dias depois desta conversa é que Joana notou que ele nem sequer tinha posto a hipótese de ela, podendo, não querer ir; e que ela própria também não a tinha levantado. Eis-me, portanto, a obedecer, concluiu. O curioso é que nunca era claro se o que ele lhe solicitava era uma sugestão, um pedido ou uma ordem; nem se a resposta dela era anuência ou obediência; mas era claro, em contrapartida, que Joana fazia tudo o que Rui queria como nunca fizera com ninguém. Servir, obedecer, sofrer, pensou. Sobre o obedecer, começava a estar elucidada; e, se quisesse ser honesta consigo própria, teria que reconhecer que também estava a aprender alguma coisa sobre o servir. Na cama, embora Rui lhe desse mais prazer do que qualquer outro homem lhe tinha dado, tornara-se óbvio desde o primeiro dia que o único prazer que contava era o dele; e ela, não só aceitara isto, como se sentira feliz por aceitá-lo. Restava o sofrer: sobre isto, Joana não fazia a menor ideia do que sentia, e não saberia responder se Rui a interrogasse.

Rui tinha erigido na cave duas grossas colunas de madeira, esculpidas com baixos-relevos eróticos.

– Mandei-as fazer na Índia – explicou.

E com efeito as imagens copiavam as dos templos hindus.

– Para que são as colunas? – perguntou Joana.

– Para amarrar uma mulher, por exemplo. Para a punir.

Joana deu uma volta lenta a cada uma das colunas, passando os dedos pela madeira esculpida.

– E pensas que serei eu essa mulher?

– Não faço ideia. Depende de alguma vez vivermos juntos ou não. Podes ser tu ou pode ser outra, mas continuo a dizer que o mais provável é não ser nenhuma. E enquanto andar contigo tenciono ser-te fiel.

Porque não lhe disse Joana, naquela altura que aquela mulher nunca seria ela? Porque se calou? Eis-me com o rabo entre as pernas, pensou; não demorou muito. Continuou a tocar aquelas imagens profusas de mulheres com os seios generosos e redondos e de homens com grandes falos erectos, unidos em todas as posições imagináveis; subiu as escadas com Rui; depois, ao caminharem em direcção ao carro, deixou que ele a abraçasse, e até se chegou mais a ele, sorrindo-lhe, e dizendo a si própria: e agora até estou com o rabo a abanar.

Esta visita à cave de Rui obrigou Joana a pensar na última das palavras que ele lhe tinha proposto para meditar: a palavra sofrer. Tratava-se aqui, como ela compreendia muito bem, de sofrimento físico provocado intencionalmente por outra pessoa. Nunca tivera, nem as tinha agora, fantasias sexuais com a ideia de ser punida fisicamente. Por outro lado, nunca partilhara a vertigem de pânico e revolta com que muitas mulheres encaravam a simples menção desta possibilidade. Teria medo, sim, da violência, do descontrolo; mas se estes elementos fossem retirados da equação, deixando isolada a dor física, verificava, com alguma surpresa, que era capaz de considerar friamente a hipótese de a sofrer.

Uma noite, quando estavam a fazer amor, Rui proibiu-a de ter orgsmo. Joana nunca tinha imaginado que esta ordem pudesse ser dada, e muito menos obedecida, mas deu por si a reprimir o orgasmo que se aproximava, e a conseguir evitá-lo por pouco. Surpreendente foi o prazer que teve nisto, que se prolongou pelo resto da noite e por todo o dia seguinte: uma excitação sexual surda e permanente, que nunca aumentava nem diminuía, nem exigia desenlace. Passou semanas a analisar este prazer inédito, mas não chegou a nenhuma conclusão. Suspeitava que Rui sabia deste prazer e o podia explicar, mas não conversaram sobre ele.

Num fim-de-semana em que tinham ido ao Teatro alla Scala para ver Cecilia Bartoli no papel de Cenerentola, sentaram-se numa esplanada da Galeria Vittorio Emanuele II a fim de comerem qualquer coisa antes do espectáculo. Era um dia quente de Junho, tinham ido com muita antecedência e o sol ainda ia alto. Foi este o momento que Rui escolheu para a inquirir, finalmente, sobre as três palavras que a convidara, meses antes, a considerar.

– Lembras-te delas?

– Lembro – disse Joana. – Servir, obedecer, sofrer.

– E…?

Joana virou a cara:

– Posso fazer isso por ti, se é o que tu queres.

– Já o tens feito – disse Rui.

Joana continuava com a cara virada para o lado.

– Ainda não sofri… – murmurou.

– Mas já me tens servido e obedecido, embora com  moderação. Diz-me: alguma vez tiveste prazer nisso?

Algumas vezes, mas Joana não o quis confessar. Baixou a cabeça, encolheu os ombros, e disse baixinho:

– Não sei…

– Não sabes. Hmmm… Diz-me outra coisa: daquelas três palavras-chave, qual achas que é a mais problemática?

– Não sei – respondeu Joana. – Ainda nenhuma foi problemática para mim.

Rui fez um gesto afirmativo com a cabeça, como que a reconhecer a pertinência da resposta.

– A mais problemática é obedecer – declarou. – É a que dá origem aos maiores mal-entendidos.

Joana sempre achara difícil obedecer a outra pessoa. Admirava-se da relativa facilidade com que obedecia a Rui, mas também era certo que ele nunca lhe pedira nada de difícil. O que ela não sabia era a que mal-entendidos se referia Rui.

– Pensa numa mulher – disse ele. – Numa mulher qualquer. Pensa que se trata duma pessoa com desejos muito fortes e fantasias sexuais muito definidas, mas com inibições e sentimentos de culpa que a impedem de as realizar. Imagina que ela começa a fantasiar com alguém que a obrigue a realizar esses desejos… alguém que lhe permita pensar que não tem culpa, que só está a obedecer, a ser obrigada… não lhe ocorre sequer que lhe possa ser ordenado algo que ela não deseje à partida. Supõe agora que esta mulher encontra um homem como eu, que espera dela obediência; e supõe que a certa altura ele lhe exige alguma coisa que ela nunca previu nem desejou, algo que para ela é doloroso, ou humilhante, ou embaraçoso, e não lhe dá qualquer prazer. E então recusa. Continua a fantasiar com situações em que é obrigada a obedecer, e tem-se sinceramente na conta de submissa; mas o homem pensa que ela está enganada e termina a relação. Qual dos dois achas tu que tem a melhor noção do que é obedecer?

– O homem, é claro – disse Joana.

E corou, porque Rui só uma vez lhe tinha pedido uma coisa que não correspondia a uma fantasia sua; e mesmo dessa vez tinha-lhe proporcionado um prazer cuja existência ela ignorava e que ainda agora não compreendia. Tanto quanto Joana sabia, a mulher hipotética descrita por Rui podia ser ela própria.

– Disseste que estavas disposta a obedecer-me se eu quisesse – disse Rui. – Vamos ver se é verdade: vai lá dentro aos lavabos e deita os sapatos para o lixo.

Joana estava arranjada para ir à ópera. O vestido, dum vermelho acobreado escuro, tinha sido comprado num costureiro da Via della Spiga, numa outra visita a Milão. Na bolsa de mão, minúscula, trazia os brincos, o anel e o colar que tencionava pôr quando estivesse em segurança no interior do teatro. Por ordem de Rui, não trazia calcinhas nem soutien: mas esta ordem não lhe custara a cumprir porque sabia que o vestido tinha sido concebido para ser usado sobre o corpo nu, coisa que ela nunca faria por sua própria iniciativa. Mas esta outra ordem era diferente: não a podia usar como pretexto para fazer o que queria e não ousava; pelo contrário, exigia dela que ousasse o que não queria. Tentou objectar:

– Mas… mas… vou descalça para a ópera?!

– Vais – respondeu Rui placidamente.

– E se não me deixarem entrar?

– Se houver algum problema, eu resolvo-o.

Para esta certeza, não tinha Joana resposta. Como último recurso, usou uma palavra que nunca lhe tinha sido proibida, mas que já lhe soava pouco lícita:

– Mas… mas porquê?!

Rui sorriu levemente antes de responder:

– Por duas razões: a primeira, como te disse, é testar a tua obediência. A segunda é que doravante os teus pés nus serão, aos teus olhos como aos meus, um sinal de humildade e respeito. Se isto não se harmonizar com o que sentes por mim, a minha recomendação é que recuses.

Joana não queria pensar, naquele momento, no que sentia por Rui. Sentia que estava numa encruzilhada: o que decidisse naquele momento determinaria muito do seu futuro, e do futuro dele.

Obedeceu. Na Galeria e na rua, ao atravessar para o teatro, sentiu-se embaraçada quase até à vertigem pelos olhares de curiosidade ou desdém que atraía. Ninguém lhe barrou a entrada no La Scala; e, depois de pôr as jóias, sentiu que atraía menos olhares dentro do teatro do que tinha atraído lá fora.

Isto talvez seja assim, pensou, porque esta gente que aqui está sabe muito bem ver quando um vestido é de luxo e uma jóia verdadeira.

Read Full Post »