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Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

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Cap.30: VIAGEM AO CENTRO DO CORPO

A caixa era bonita. Oblonga, em acrílico transparente, tinha as arestas facetadas. No interior do material tinha filamentos dourados que desenhavam rosas. A base estava protegida por uma camada de material brando e translúcido, de um rosa cor de carne.

− É para não riscar a mobília – explicou Teresa.

Tinha servido o jantar fardada de criada, coadjuvada por Milena, e, depois de se ter ido vestir para o serão com Raul, trouxera esta caixa que ele agora examinava. À transparência, viam-se duas esferas com quatro a cinco centímetros de diâmetro, da mesma cor que a base da caixa, unidas por um cordão. Quando Raul abriu a caixa, viu um tabuleiro, também em acrílico, com depressões circulares em que se fixavam as esferas. Os desenhos a ouro não o tinham deixado ver que uma das esferas, além de estar ligada à outra, estava presa a outro cordão mais fino que se dobrava sobre si mesmo e se unia a ela pelas duas pontas. Olhou para Teresa e pegou nas esferas: eram de silicone, muito macias, e davam-lhe, ao sopesá-las, uma estranha sensação de desequilíbrio.

− São ocas – explicou Teresa. – São bolas ben-wa. Estas têm outras esferas mais pesadas que se movem dentro delas. A minha professora de pompoar diz que é altura de começarmos a treinar com bolas, trouxe uma colecção delas para nós escolhermos, e pronto, eu trouxe estas para casa para tu veres. São as mais caras que ela trouxe, porque são em silicone e porque as de dentro são em aço inoxidável; também gostei muito da caixa, e tu?

Raul sabia o que são bolas ben-wa, mas nunca tinha visto nenhumas. Sabia que podiam ser usadas no pompoar ou nos exercícios de Kegel. Aprovava cordialmente o facto de estas serem em silicone, que do ponto de vista da higiene é o melhor material, e quanto aos pesos internos não tinha objecção.

− Os cordões são de nylon? – perguntou.

Eram de nylon: mais uma vez o ideal do ponto de vista da limpeza. Perguntou a Teresa o preço, deu-lhe o dinheiro e comunicou-lhe que as iam experimentar imediatamente.

− A professora ofereceu-nos um frasco de lubrificante juntamente com as bolas – disse Teresa. – Assim entram melhor. Está no quarto de banho: vou buscar?

− Vai – disse Raul.

Teresa saiu da sala e regressou com um frasco de plástico, equipado com uma cânula, como os que se vendem nas sex shops. A uma ordem de Raul, levantou as saias, deixando o sexo à mostra. Utilizando a cânula, lubrificou a entrada e o interior da vagina; depois untou as bolas e limpou as mãos a um dos toalhetes húmidos que tinha trazido consigo.

Raul foi lavar as mãos. Quando voltou, Teresa estava recostada no sofá, com o sexo à mostra e uma perna levantada. Quando Raul se sentou no outro sofá, Teresa colocou uma das bolas à entrada da vagina e empurrou-a com o dedo, introduzindo-a facilmente.

− Agora tenho que puxar a outra para dentro – explicou.

Mas, por mais que tentasse, não conseguiu sequer que a bola de dentro puxasse a de fora até a alojar junto da entrada. Raul levantou-se, lubrificou o indicador da mão direita e introduziu o dedo na vagina de Teresa, empurrando gentilmente a bola de dentro até a outra ficar em posição.

– Consegues agora? – perguntou.

Mas mesmo assim Teresa não conseguia. Por fim, sem deixar de tentar usar os músculos da vagina, empurrou a outra gentilmente com o dedo, até só ficar de fora o cordão.

− Levanta-te – ordenou Raul.

Teresa levantou-se, deixando cair a saia, que de novo a cobriu até aos tornozelos. Deu uns passos pela sala, mas de repente soltou um ai alarmado: uma das bolas tinha-lhe saído da vagina e puxava pela outra, que ela procurava desesperadamente reter mas que acabou também por cair no chão.

− A professora bem nos disse – observou Teresa. – Ao princípio não ia ser fácil, mas quando estivéssemos treinadas seríamos capazes de andar o dia inteiro com elas sem as deixar cair… Dá para acreditar? E eu, pronto, tive logo que escolher as maiores e mais pesadas… se calhar não vou conseguir.

− Se tu não conseguires – respondeu Raul – então mais nenhuma das tuas colegas consegue. Quando tens a próxima aula?

− Amanhã de manhã, às dez.

− Então a seguir almoças comigo e depois vamos buscar uma pessoa ao aeroporto.

− Quem? – perguntou Teresa.

Curiosity is not becoming in a kajira – respondeu-lhe Raul, dando-lhe uma palmada no rabo.

Teresa deu uma pequena risada e foram os dois lavar as bolas ben-wa: primeiro com água e sabonete, depois deixando-as imersas por uns minutos numa mistura de água da torneira e um pouco de água oxigenada, e por fim lavando-as de novo.

No dia seguinte, ao almoço, Teresa disse a Raul que tinha conseguido andar quase dez minutos pela sala de aula com as bolas postas, sem as deixar cair. A professora tinha ficado impressionada. O que ela não conseguia ainda, era puxar as bolas para dentro sem o auxílio do dedo; nem sequer a primeira, que segundo a professora era a mais fácil.

− E agora estou toda dorida. Se hoje me possuíres, não sei se te vou servir como deve ser.

− Eu dou um desconto – disse Raul, e pegou-lhe na mão para lhe beijar a concavidade da palma.

Depois, ainda no restaurante, mandou-a descalçar:

– Dá-me as havaianas.

Quando Teresa lhas deu, Raul embrulhou-as num saco de plástico e guardou-as na pasta. Teresa, que andava descalça com toda a naturalidade em lugares como Porto Cristo, não se conseguia habituar a fazê-lo no Porto, onde toda a gente olhava para ela e onde o chão não primava pela limpeza. A pessoa que foram buscar ao aeroporto vinha de São Paulo e chamava-se Clodomiro dos Reis, segundo o cartaz que Raul ergueu na zona de chegadas. Clodomiro dirigiu-se a Raul com um sorriso e estendeu-lhe a mão. Era um mulato pouco mais velho que Teresa, alto e bem constituído. Vinha vestido com umas calças azuis-escuras perfeitamente vincadas e um pólo azul-claro que parecia acabado de passar a ferro. Alguma coisa na aparência dele sugeria uma ligação às profissões médicas, e Teresa perguntou-se o que viria ele fazer ao Porto; mas como a curiosidade não fica bem a uma kajira, calou-se.

– Dr. Raul Morgado? – disse o viajante. – Como está o senhor?

– Dr. Clodomiro? Bem, obrigado, e o senhor? Esta é a minha escrava Teresa.

Era raro que Raul apresentasse Teresa a alguém como sua escrava; o facto de o ter feito agora sobressaltou-a e fez com que hesitasse antes de cumprimentar o recém-chegado com uma vénia. Mas este não pareceu surpreendido e disse, estendendo-lhe a mão:

– Ah, Teresa. Já ouvi falar muito de você, sabe, meu bem? Como está você?

Teresa não era acanhada, mas foi no tom sumido duma adolescente tímida que respondeu:

– Bem, obrigada, senhor…

Chegados ao carro, Raul mandou Teresa sentar-se no banco de trás para poder falar à vontade com Clodomiro, a quem começou por pedir desculpa por tê-lo feito vir de tão longe. A suite reservada no hotel estava pronta, um dos compartimentos com a marquesa, a mesa de apoio e os candeeiros que Clodomiro tinha especificado. Se Clodomiro não se importava, podiam ir já para lá. Chegados ao hotel, subiram os três ao último andar (Teresa agudamente consciente da curiosidade que os seus pés nus provocavam em todas as pessoas com quem se cruzavam), e Clodomiro abriu a porta da suite. Teresa viu-se num pequeno átrio com três portas, uma das quais abria para um vulgar quarto de hotel, outra para o quarto de banho e a terceira para um compartimento mobilado como um consultório médico.

Clodomiro pediu algum tempo para se preparar e Raul sugeriu voltar com Teresa meia hora mais tarde: estava bem assim? Estava, respondeu Clodomiro.

No bar do hotel, enquanto tomavam um café e uma água mineral, Teresa deixou escapar as palavras que tinha retidas no peito:

– Meu senhor, estou nas tuas mãos, mas diz-me: o que é que se vai fazer de mim lá em cima?

– Nada de difícil – respondeu Raul. – O Clodomiro vai-te tirar algumas medidas, e provavelmente fazer algumas recomendações. Depois vamos para casa, ele vai comer um almoço que para ele é jantar, e passado um bocado, se fizer como eu faria no lugar dele, toma um comprimido para dormir, uma dose reforçada de melatonina, e vai para a cama. Amanhã de manhã cedo, venho buscá-lo para o levar ao aeroporto e tu podes ficar a dormir.

– Não é dele que eu estou a perguntar, meu senhor, é de mim. Que medidas me vai ele tirar?

– Pronto, não te atormento mais – disse Raul. – O que o Clodomiro vai medir com toda a exactidão é a tua vulva. Sim, a tua vulva: o comprimento total, as dimensões do clítoris e do seu capuz, a protuberância e espessura dos grandes lábios e dos pequenos lábios, as distâncias entre a comissura superior dos grandes lábios e o clítoris, entre o clítoris e a uretra, entre a uretra e a vagina, entre a vagina e a comissura inferior, e outras medidas que sejam necessárias. As dimensões da vulva variam muito de mulher para mulher, como sabes, por isso é que é preciso tirar medidas. Depois, em São Paulo, é que o Clodomiro vai desenhar e fazer os piercings em titânio de que te falei.

– Só não compreendo porque é que esse desenho e essa colocação têm que ser tão exactas, meu senhor. Muitas mulheres põem piercings nos lábios vaginais sem ser preciso nada disso.

– Pois bem, minha escrava – disse Raul. – Chegou a altura de saberes um pouco mais. Vais ter quatro piercings nos grandes lábios, um de cada lado do clítoris e um de cada lado da vagina. Estes piercings vão estar concebidos de forma que cada um encaixe no do lado oposto de modo unir os grandes lábios sem os repuxar.

– Deixa ver se compreendo: quer dizer que com os piercings encaixados não vou ter acesso nem à minha vagina, nem ao clítoris…

– Não, mas é preciso deixar-te a uretra tão livre quanto possível, de modo a que possas fazer xixi sem grande dificuldade. Já estás a entender porque é que as medidas têm que ser exactas?

– Sim, estou a ver – disse Teresa. – Mas os anéis vão-se poder desencaixar, não vão?

– Claro que sim – respondeu Raul. – Caso contrário, como é que eu me ia poder servir de ti? Quando eu não quiser que os desencaixes, estão previstas aberturas para dois pequenos cadeados.

Cadeados?! Quem é que alguma vez tinha falado em cadeados?! Com o sobressalto, Teresa derrubou o copo de água que tinha à sua frente. Enquanto o empregado limpava o balcão do bar e trazia uma nova garrafa de água, Teresa teve de ficar silenciosa; e ainda bem, porque durante esta pausa teve tempo de se lembrar do que dissera minutos antes: que estava totalmente nas mãos de Raul; e que muitas vezes o tinha instado, sem qualquer hipérbole ou metáfora, a fazer dela o que quisesse; de modo que quando o empregado os deixou de novo a sós se limitou a perguntar como iam ser os cadeados.

– Vão ser fabricados na Suíça especialmente para ti, de acordo com o desenho que o Clodomiro fizer depois de teres os piercings no sítio. A ideia é que sejam o mais pequenos e mais leves possível, mas de alta segurança, e que não oxidem nem causem reacções alérgicas. Por isso vão ser feitos em titânio e aço cirúrgico.

Teresa ficou calada, numa espécie de melancolia feliz. Ter o sexo fechado à chave, e a chave nas mãos do homem que amasse, era uma fantasia que começara a ter, sabia lá, aos treze ou quinze anos, e que nunca a tinha abandonado. O que nunca esperara, era vê-la realizada tão de repente, tão sem consulta, tão sem aviso. Estou realmente nas tuas mãos, pensou; e quando ele subiu de novo para a suite acompanhou-o docilmente, sem sequer reparar, desta vez, nos olhares curiosos que os seus pés nus atraíam. Quando bateram à porta, foram recebidos por Clodomiro, vestido com uma bata branca. Tinha revestido a marquesa com uma protecção de papel e tinha-a colocado com a parte dos pés virada para a janela aberta. Perto da janela, Clodomiro tinha colocado dois potentes focos apontados à marquesa. Numa mesa ao lado repousavam, em tabuleiros de aço, vários instrumentos de medida: réguas, calibradores, compassos e outros objectos de que Teresa não sabia o nome nem a utilidade.

– Tire a saia, meu bem, e deite-se de barriga para cima com os pés para a janela – disse Clodomiro, enquanto calçava umas luvas de cirurgião. – Abra um pouco as pernas, mas não muito.

Durante vários minutos, Teresa sentiu o contacto frio de vários instrumentos com as suas partes íntimas. Nenhum destes contactos a excitou, e de resto parecia-lhe que Clodomiro tinha encenado tudo de modo a evitar qualquer excitação sexual da parte dela. Quando Teresa pensou que tudo estava terminado, ele mandou-a virar-se de barriga para baixo.

– As dimensões de sua vulva não são as mesmas em todas as posições, você sabia? Abra as pernas para eu medir de novo.

A cada medida que tirava, Clodomiro pronunciava algumas palavras para um microfone que trazia preso à lapela da bata. No fim foi chamou Raul:

– Chegue perto, por favor. Vou precisar de sua ajuda.

Raul aproximou-se da marquesa e perguntou em que podia ajudar.

– Fiz todas as medições em sua escrava sem a excitar. Agora preciso medir com ela excitada, e é para isso que preciso do senhor.

Teresa tremeu de indignação; e embora entendesse o despropósito deste sentimento, só a disciplina a que se obrigara a impediu de se recusar. Raul fez-lhe uma festa na face e beijou-a:

– Linda menina…

Depois começou a apalpar-lhe as nádegas expostas, depositando nelas, ora um pequeno beijo, ora uma ligeira palmada. O corpo obediente de Teresa começou logo a reagir: quando Raul lhe acariciou a vulva encontrou os pequenos lábios já húmidos e o clítoris que começava a sobressair do capuz. Passado não mais do que um minuto, disse:

– Venha ver, Dr. Clodomiro. Já chega?

Clodomiro disse que sim, pediu a Raul que acariciasse Teresa noutras partes do corpo de modo a que ela não perdesse a excitação, e reiniciou todo o processo, primeiro com Teresa virada para baixo, e por fim com ela virada para cima. As dimensões da vulva, explicou, variam também com a excitação da mulher. Teresa, que na fase anterior do processo não sentira vergonha, sentia-a agora, e intensa. Escrava, pensou, sou mesmo escrava… obedeço a tudo… Mas Clodomiro ainda não tinha terminado:

– Não se cubra ainda, meu bem, ainda tenho uma coisa para falar com seu senhor.

Era bom, disse Clodomiro, que Teresa já tivesse começado uma depilação definitiva. Mas precisava de saber que tipo de depilação ela estava a fazer, e se ainda estava no princípio ou se estava adiantada, porque depois dos piercings postos não ia poder fazer depilação a laser nem a luz pulsada muito perto deles. Quando Raul lhe deu esta informação, apertou os lábios e disse:

– Então lamento, mas se o senhor quiser que sua escrava fique depilada e com piercings, ela vai ter que sofrer um pouco nos próximos dias. Vou marcar na vulva dela duas zonas onde vai ter que fazer mesmo depilação eléctrica antes de ir para São Paulo. A um aceno de concordância de Raul, Clodomiro tirou da pasta um marcador e desenhou nos grandes lábios de Teresa duas ovais alongadas: aquela zona tinha que ficar depilada num mês, mesmo que para o resto dispusesse de um ano ou dois.

– Esse desenho não vai sair lavando uma vez ou duas, tem que lavar mais, mas eu deixo ficar a caneta para você renovar.

Teresa ficou a pensar como havia de explicar a urgência na clínica de depilação, e concluiu que o melhor era dizer a verdade: afinal, quando regressasse do Brasil, não poderia evitar que lhe vissem os piercings, portanto não valia a pena fazer segredo.

Nessa noite, Teresa voltou a dormir aos pés de Raul, sentindo-se de novo meio loba; mas conhecia muito bem o seu lugar na alcateia, e não era o último. De madrugada, quando o despertador tocou e o ouviu levantar, levantou-se também para lhe preparar o pequeno-almoço. Era tão cedo que Raul só quis uma chávena de café e uma bolacha.

– Não te vistas, fica nua – disse-lhe Raul ao vê-la de pé. – Depois volta a deitar-te, ainda é cedo.

Mas Teresa já não se deitou. Estar nua e em jejum causou-lhe um arrepio, apesar da casa aquecida. Depois de Raul sair, bebeu uma chávena de café com leite, comeu uma bolacha, lavou-se e vestiu a sua farda de criada para o receber com um segundo pequeno-almoço quando ele regressasse. Quando ouviu a chave na porta, correu para o átrio e sentou-se sobre os calcanhares com as coxas abertas e as palmas das mãos viradas para fora para que a primeira coisa que ele visse ao entrar fosse uma kajira, como lhe tinha chamado no dia anterior. No ar pairava já um perfume a café e a torradas com manteiga; Raul entrou, sorriu de a ver assim, inclinou-se para lhe dar um beijo e observou, sorrindo, que para compor a personagem Teresa deveria estar nua – ou vestida, quando muito, com um farrapo de seda ou de serapilheira: nunca com o seu uniforme engomado de empregada doméstica. Depois declarou-se faminto: Teresa deu uma risadinha feliz e correu descalça para a cozinha.

[ … ]

Em casa, Raul quis jantar sozinho, servido pelas suas duas empregadas. Quando acabou de jantar, não quis que Teresa ajudasse Milena a arrumar a cozinha, mas que fosse imediatamente para o quarto e o esperasse nua em cima da cama, só com uma toalha a proteger a coberta. Como a altura de arrumar a cozinha era a oportunidade de Teresa e Milena comerem alguma coisa, esta ordem levou a que Teresa ficasse sem jantar nessa noite, o que não acontecia pela primeira vez. Mas isso que importava? Pôs-se a esperar por Raul, que demorou. Ouviu música vinda do escritório: quem serviria o whisky a Raul, quem lhe acenderia o charuto? Milena não, certamente: fá-lo-ia ele próprio; e foi esta imagem, mais do que a demora de Raul, que a fez sentir-se abandonada. Ouviu Milena a usar o quarto de banho, a entrar no seu quarto e a fechar a porta. Depois, no escritório de Raul, parou a música. Ouviu-lhe os passos: seria finalmente para vir ter com ela? Mas não, os passos pararam noutro lugar; a chave Yale do quarto dos castigos rodou na fechadura, para voltar a rodar passados alguns segundos. Quando Raul chegou ao quarto, trazia na mão umas cordas e mais qualquer coisa que Teresa não chegou a ver, porque ele a pousou em cima da cómoda, que tinha o topo mais alto que a cabeça dela.

Raul inclinou-se sobre ela, beijou-lhe ternamente os lábios e ordenou-lhe que unisse os pulsos, o que ela fez sem hesitar. Atou-lhe os pulsos ao pilar direito da cabeceira da cama, deixando cerca de trinta centímetros de folga. A seguir, aos pés da cama, atou-lhe o tornozelo direito ao pilar direito, deixando-lhe uma folga igual; mas quando lhe atou o tornozelo esquerdo ao pilar correspondente, deixou-lhe uma folga muito maior, que lhe permitia fechar as pernas desde que ficasse deitada no lado esquerdo da cama. Feito isto, despiu-se calmamente, deitou-se ao lado dela e começou a acariciá-la por todo o corpo, evitando de início fazê-lo nos lugares do corpo que mais a excitavam. O facto de ele não a tocar nem beijar nos cabelos, na boca, no pescoço, nos seios ou no sexo (para não falar nos flancos, ao lado das costelas, que em Teresa eram também uma zona erógena) levava-a a sentir uma consciência mais aguda dessas partes do corpo. Era um tormento delicioso sentir a mão ou a boca dele a aproximar-se-lhe dos seios, só para se afastar de novo, no último momento, sem lhes tocar; ou mais tarde, depois de finalmente lhe ter acariciado ou beijado os seios, sentir-lhe a mão ou a boca passar-lhe ao largo dos mamilos sem lhes dar a atenção que eles exigiam. As carícias e os beijos desciam-lhe lentamente do tórax para o umbigo, do umbigo para o monte-de-vénus; por vezes voltavam atrás ou inflectiam para os lados, mas acabavam por voltar ao caminho certo; mas no momento que chegavam à comissura da vulva, ao início da racha, detinham-se e começavam um novo percurso: por fora das coxas ou por dentro, mas sempre, sempre, sem a tocar ou a beijar no sexo.

Quando viu que Teresa não aguentava mais, Raul foi buscar à cómoda o objecto que lá tinha deixado: era o vibrador que lhe tinha oferecido. Quando o viu, Teresa decidiu que suportaria mais do que das vezes anteriores, apesar de esperar que este mais não fosse muito mais.

– A regra é esta, minha escrava – disse-lhe Raul. – Vou usar este vibrador nos teus pequenos lábios e no teu clítoris, como tu gostas. De vez em quando vou introduzir-to um pouco na vagina, muito devagar, até chegar ao limite do que tu suportas; nessa altura começo a acariciar-te outra vez por fora. De acordo?

– Sim, meu senhor…

– Posso continuar a acariciar-te por muito tempo ou por pouco: quanto a isto, não atenderei a quaisquer pedidos teus.

– Sim, meu senhor…

– De vez em quando volto a introduzir-te o vibrador na vagina e a procurar outro limite. Poderá ser uma questão de maior profundidade ou maior duração; ou ambas as coisas, não sei. Mas da segunda vez tentarei ir um pouco mais longe. De acordo?

– Sim, meu senhor, sabes bem que sou tua…

– Isto repetir-se-á até eu entender que cheguei, por hoje, ao limite dos teus limites. Não serás tu a dizer-mo, serei eu a vê-lo nos teus olhos e no teu corpo. No fim servir-me-ei de ti de ti como me der mais prazer. De acordo?

– Sim, meu senhor, sim, sou tua, faz como quiseres…

Por toda a vida Raul havia de se lembrar desta noite. Viu Teresa empalidecer de medo ou enrubescer de excitação; viu-a retrair-se ou entregar-se, por vezes quase no mesmo gesto; ouviu-a gemer, suplicar, chorar, rir, suspirar que sim, gritar que não. Uma vez, duas vezes, várias vezes sentiu-a estremecer como sob um choque eléctrico. Por mais que uma vez viu-lhe nos olhos a expressão de loucura de um cavalo em pânico; e só quando a viu para além deste ponto é que pousou o vibrador na mesinha de cabeceira. Sabia que não podia fazer Teresa regressar de repente do lugar aonde a tinha levado: começou a tocá-la ao longo do corpo, com movimentos que eram parte carícia, parte massagem. Quando a sentia perto, murmurava-lhe meiguices; quando a sentia longe, chamava-a pelo nome. Quando sentiu que ela se começava a aperceber de onde estava e com quem estava, começou a beijá-la no sexo; para lhe provocar um pouco de dor, apertou-lhe os mamilos, e isto trouxe-a de volta mais um pouco. Finalmente encontrou nos olhos dela um olhar que o reconhecia.

– Meu senhor… és tu…

Mas ainda não tinha regressado completamente. Raul viu-lhe a breve expressão de surpresa quando quis mover as mãos e sentiu que estava amarrada; mas claro, estava amarrada, como tinha sido possível esquecer-se? Para Raul, este foi o momento de começar a desatar os nós que a prendiam, agora que a tinha de novo no mundo de toda a gente. Soltou-lhe primeiros os pulsos, que ela esfregou para reactivar a circulação, e depois os tornozelos.

– Vou limpar o vibrador – disse ela por fim.

– Tens muito tempo para isso – respondeu Raul. – Agora quero que fales.

– Que fale de quê, meu amor? Meu senhor querido?

– Do que quiseres – respondeu Raul. – Ou da experiência extremamente cruel a que acabo de te sujeitar.

Teresa não se lembrava de há quantos segundos ou minutos tinha começado a retribuir as carícias de Raul, mas no momento em que deu por si a fazê-lo sentiu um desejo enorme de se explicar:

– Não sei… Não sei bem – respondeu. – A parte fácil é que foi mesmo uma experiência extrema; cruel, não sei bem se foi. E é claro que tens sempre o direito de dispor de mim como quiseres, e porque dispuseste de mim estou feliz agora, mesmo que já não saiba se o estava há poucos minutos.

– Mas há a parte difícil…

– A parte difícil é que foi uma experiência extrema sem a menor semelhança com outras experiências extremas. Não se assemelhou a nada. Já falámos nisto uma vez, e continuo tão incapaz de explicar o que senti como nessa altura. Foi uma coisa insuportável como a dor extrema, mas não foi dor. Foi uma coisa com o sabor do prazer, mas não foi prazer: pelo contrário, se não me tivesses amarrado, eu era capaz de ter fugido.

– E que mais?

– Não sei, meu senhor, não sei mesmo… o melhor é fazer agora o que mandaste, ir limpar o vibrador e depois voltar para te servires de mim.

– Sim, é o melhor – disse Raul.

Poucos minutos depois, agachada sobre o seu senhor, Teresa recebia na boca o jacto de esperma com que ele se derramava nela. Ainda sentia toda a zona do sexo a pulsar: se tivesse tido escolha, teria sido penetrada pela vagina, e quanto mais brutalmente, melhor. Mas não tenho escolha, pensou. É essa a minha liberdade. Aplicou-se a limpar o pénis do dono com a língua e com os lábios, pondo nesta tarefa toda a entrega que teria posto se lhe tivesse sido permitido servi-lo doutro modo. Depois, sem que ele lho ordenasse, foi deitar-se no catre aos pés dele. Já com a luz apagada, ainda lhe falou:

– Obrigada, meu senhor…

– Obrigada porquê, meu tesouro?

– Pela dificuldade. Por não me deixares ficar presa ao fácil.

– Então também eu te agradeço, minha escrava, e pelo mesmo motivo. Agora dorme.

Teresa bocejou de tal maneira que Raul mal compreendeu quando ela lhe disse boa noite. Poucos minutos depois, estavam ambos a dormir.

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Cap. 29: LABIA MAJORA

Havia alguns minutos que Raul, debruçado sobre Teresa na cama, acariciava e beijava a sua escrava, que dava pequenos gemidos e retribuía brandamente as carícias dele. Pouco a pouco, as mãos e os lábios dele foram-se aproximando da vagina de Teresa, que começou lentamente a afastar as coxas para lhe facilitar o acesso. Raul acariciava-lhe os pequenos lábios e o clítoris, beijando-os e sugando-os com toda a leveza de que era capaz.

− Deixa-me ver bem a tua coninha, minha escrava.

Teresa, flutuando no mar morno da sua excitação, não entendeu: então ele não a estava a ver bem? Viu-o levantar-se, sair do quarto, e voltar com um candeeiro, que colocou aos pés da cama e acendeu.

− Abre mais as pernas.

Teresa obedeceu. Isto não era excitante, não dava prazer, não significava nada que ela entendesse, mas, para quem se deu a alguém, confiar é obedecer: Raul sabia com certeza o que estava a fazer. Parte da excitação que Teresa sentira regressou, apesar da luz forte, quando Raul recomeçou a tocar-lhe a vulva, afastando com os dedos os grandes lábios, tocando-lhe o clítoris, examinando o capucho que o escondia parcialmente, apalpando por fora a parte que se oculta no interior do corpo. Era como o toque do ginecologista, que a deixava fria, mas ao mesmo tempo era o toque do amante, que a deixava em brasa: mais uma sensação nova para juntar às que Raul lhe provocava. Raul sabia que o clítoris de Teresa era bem mais longo do que parecia, e se parecia pequeno, era porque só a ponta aflorava à superfície do corpo. Procurou seguir-lhe a raiz com os dedos e conseguiu-o em parte, mas não teve a sensibilidade suficiente para se dar conta do ponto em que a raiz do clítoris se bifurca, rodeia a uretra pelos dois lados e se vai ligar à vagina. Depois seguiu-lhe com os dedos os pequenos lábios, beijando-os de vez em quando, mas aparentemente mais atento ao exame que estava a fazer do que ao prazer que pudesse dar ou obter. Apertou-lhe os lábios exteriores um contra o outro: eram bastante carnudos, e apesar da excitação de Teresa, ocultavam por inteiro os lábios interiores, que eram mais estreitos do que o habitual, e frisados como pétalas de cravo.

− Perfeito – murmurou para si mesmo.

Era bom que Raul considerasse que ela tinha uma vulva perfeita, mas perfeita para quê? Teresa ignorava a razão deste exame a frio, que começava a excitá-la quase tanto como a excitaria uma verdadeira carícia; mas não ousou fazer qualquer pergunta. Em todo o caso, o exame não durou muito mais: Raul levantou-se, desligou o candeeiro e retomou as carícias de havia pouco, até que o corpo de Teresa se contorceu numa convulsão de prazer. Raul manteve-a no cume durante tanto tempo quanto foi capaz, para depois a trazer de volta muito lentamente. Teresa sentia-o muito excitado – bastava sentir-lhe a dureza do pénis – mas, como era típico dele, sem pressa nenhuma de a penetrar. O que queria ele agora dela? Começou a beijá-lo na cara, nos ombros e no pescoço. Raul começou a tocar-lhe sucessivamente os seios, os flancos, as ancas, testando-lhes a textura e a firmeza.

− Meu senhor, posso fazer-te uma pergunta? – disse Teresa. − O que foi aquilo há bocado? Estavas a brincar aos médicos?

Raul riu-se, beijou-a na comissura dos lábios e respondeu:

− Não é bem isso, minha escrava. São duas coisas que tenciono mandar fazer-te. Uma depilação definitiva…

– Hmmm… – respondeu Teresa. – Não sei se vou gostar… mas tu é que decides, claro.

– Claro – concordou Raul. – Amanhã tens uma consulta marcada. Andei a ver qual era a melhor clínica do Porto. O tratamento completo vai demorar de um a dois anos, até que os pelos não voltem a crescer, mas os resultados vão começar a ver-se logo a partir do primeiro.

− Sei como é – disse Teresa. – E qual é a outra coisa que me vais fazer?

− Vou mandar pôr-te piercings na vulva, nos lábios maiores. Mas isso é para mais tarde, e vai ter que ser feito em S. Paulo.

− Em S. Paulo? Que piercings tão especiais são esses? Pensei que bastava chegar ali à Baixa a qualquer casa de tatuagens e sair de lá meia hora depois com os piercings postos…

Raul começou a acariciar-lhe a vulva com a mão enquanto lhe respondia.

− Estes vão ser mesmo especiais. Vão ser em titânio e desenhados para o fim que tenho em vista.

Teresa soltou um gemido:

− Meu senhor… sou tua, farás de mim o que quiseres… mas agora estou a imaginar que me vais fazer as coisas mais inconcebíveis, sem eu saber o que é… Não vai ser nada que te impeça de me possuir, pois não?

Raul deu uma risada branda:

– E eu alguma vez ia querer deixar de te possuir? Não, meu amor, não vai ser nada disso. O que pode, é impedir que outros te possuam… Não te importas?

– Eu? Não, meu senhor. Até fico excitada… saber que sou só tua, mesmo fisicamente… que não me pertenço, mas a ti… mas gostava que me mostrasses outra vez isso mesmo; posso-te pedir isso?

Como poderia Raul não perdoar? Antes de a penetrar, recomeçou a acariciá-la e a beijá-la longamente na vagina, nos pequenos lábios e no clítoris, e, em cada ponto em que ele tocava, Teresa perguntava a si mesma: vai ser aqui? Vou ser furada aqui? Não a perturbava usar piercings: já tinha tido furos nos mamilos que depois tinham acabado por cicatrizar e desaparecer. Minutos mais tarde, quando lhe pediu licença para gozar, ele negou-lha; e ela ficou acordada durante horas, trespassada daquela estranha energia, daquele estranho prazer que não sabia explicar, sentindo-o dormir ao seu lado, saciado. Em cada dia que passavam juntos, parecia a Teresa que a sua escravidão se aprofundava mais um pouco. Tinha consentido nas modificações que Raul se propunha fazer-lhe no corpo, sem mesmo perguntar quais eram; apenas lhe pedira que lhe mostrasse mais uma vez que não se pertencia a si própria, mas a ele. Mas Teresa reflectia também que o que se aprofundava não era tanto a sua escravidão como o domínio de Raul sobre ela, um domínio cada vez mais envolto em ternuras e cuidados, como dizia Carolina, mas cada vez mais livre de culpas e de escrúpulos.

Noutra noite, numa noite de castigo, Teresa jantou à mesa com Raul – com a sua saia mais sumptuosa, e coberta de jóias como era regra, mas nua da cinta para cima. Milena, que servia a refeição, sorria-lhe de vez em quando e acariciava-lhe o ombro, como para lhe dar coragem; e Teresa bem precisava de coragem para suportar o que lhe estava reservado para daí a pouco.

Com efeito, Raul, depois de ter bebido o seu whisky e fumado o seu charuto, com ela todo o tempo a beijar-lhe os pés, mandou-a esvaziar a bexiga e esperar por ele, toda nua e sem jóias, no quarto dos castigos. Teresa esperou de pé, com a cabeça baixa e os braços caídos ao longo do corpo. Quando Raul entrou, não ergueu os olhos para ele, mas reparou que tinha mudado de roupa e estava agora de chinelos, pijama e roupão. Quando ele lhe pôs a mão no queixo para a obrigar a erguer a cabeça e lhe dar um beijo na face, Teresa fechou os olhos, virou-se para ele e ofereceu-lhe docemente os lábios.

− Deita-te na banca da esquerda, de barriga para cima.

Era a banca abaulada: deitada sobre ela, Teresa ficava com a pélvis mais alta que a cabeça e os pés. Tinha ido nessa tarde à consulta marcada na clínica de beleza: depois de a examinarem, tinham-na rapado com uma lâmina e feito vários testes antes de lhe fazerem o primeiro tratamento com luz pulsada. Era uma sensação estranha estar assim exposta, com o sexo completamente depilado, mais nua do que alguma vez se tinha sentido. Sentiu que Raul lhe amarrava o pulso direito, apertando a corda com força e atando-o a uma das argolas de bronze no canto da banca. Depois amarrou-lhe os tornozelos, escolhendo as argolas de bronze que a faziam afastar mais as pernas. Entretanto, ajeitando o corpo em direcção à cabeceira da banca, Teresa tinha conseguido aliviar a tensão da corda que lhe prendia o pulso; mas, com as pernas presas, isto já não lhe foi possível quando ele lhe amarrou o pulso esquerdo. Voltando aonde tinha começado, Raul desatou o pulso que tinha amarado em primeiro lugar e puxou a corda antes de o atar outra vez; e assim deu várias voltas à banca, esticando as cordas mais um pouco, sempre pela mesma ordem, até não ser possível a Teresa aliviar a tensão.

As cordas, assim apertadas, faziam-lhe doer. Quando Teresa pensou que já estava imobilizada, Raul ainda a prendeu com mais cordas nas coxas, junto aos joelhos, obrigando-a a escarranchar ainda mais as pernas. Não a amordaçou nem a vendou: embora a posição incómoda em que ela tinha a cabeça não lhe permitisse seguir todos os movimentos do dono pela sala, permitia-lhe ver alguns. Agora é que ele vai buscar o chicote, pensou Teresa; ainda bem que ele a tinha mandado esvaziar a bexiga, caso contrário talvez não pudesse evitar encharcar-se de medo. Mas Raul, quando voltou para junto dela, não trazia chicote nem vergasta, mas sim dois pequenos objectos que ela só identificou quando ele lhos prendeu aos mamilos: duas molas que a fizeram arquejar de dor. O que quer que ele tencionasse fazer a seguir, era preciso esperar que a dor abrandasse, caso contrário não sentiria mais nada. Enquanto esperava, ele alisou-lhe os cabelos e ofereceu-lhe a mão aos lábios para que ela a beijasse. Isto deu-lhe tempo a sentir algo mais do que a dor nos mamilos, que era agora uma sensação surda. Raul passou um dedo a todo o comprimento da vulva exposta de Teresa, que se deu conta de que estava completamente molhada. Meteu-lhe o dedo na boca, para que ela provasse os seus próprios sucos, e trepando para cima da banca, introduziu-lhe o pénis na vagina.

Pompoar – ordenou-lhe.

Teresa já estava suficientemente adiantada nas lições de pompoar para que alguns dos movimentos se lhe tivessem tornado quase instintivos, mas desta vez era-lhe exigido mais do que isso. Concentrou-se nas técnicas que ainda não tinha automatizado; e esta concentração, conjugada com o desconforto da sua posição, fez com que a onda do orgasmo, ainda pequena, que mal lhe começava a crescer ao largo do corpo, se aplanasse de novo. Não pediu autorização para ter orgasmo; para quê, se mesmo sem orgasmo o prazer que sentia era tão intenso, e se o prazer que soubesse dar Raul o compensaria amplamente? Sentiu que os movimentos dele se tornavam cada vez mais fluidos e que exigiam dele cada vez menos esforço, apesar de serem cada vez mais amplos e mais fortes; ouviu-lhe a respiração cada vez mais sonora, mas também cada vez mais solta; e preparou-se para acolher dentro de si, com alegria e amor, o jacto de esperma em que ele se esvairia em breve. Mas Raul, quase no momento de atingir o clímax, ainda lhe ordenou:

− Vem-te agora, escrava. Dá-me o teu prazer.

E, em obediência esta ordem, a prega de mar que antes, ao largo, se aplanara, a pequena onda que fora para Teresa uma promessa, cresceu de novo, agigantou-se, adquiriu no topo uma crista de espuma, curvou-se sobre a praia do seu corpo e desabou sobre ela, arrastando-a, virando-a em todas as direcções, mais uma vez perdida. Escrava, puta, galdéria, pensou, que me venho assim só porque um homem manda. Mas estes insultos que dirigia a si mesma não eram sinceros: não podia enjeitar a alegria e o orgulho que a invadiam; e puta não era de certeza, a não ser de Raul.

Mal acabou de a possuir, Raul levantou-se e limpou o pénis com dois toalhetes húmidos, tirados de uma embalagem que Milena tinha guardado para esse efeito num dos armários. Calçou os chinelos, vestiu-se, e começou a desamarrar Teresa tão metodicamente como a tinha amarrado. No fim, tirou-lhe as molas dos mamilos, causando-lhe uma dor bem maior do que lhe tinha causado ao pô-las.

− Não te levantes ainda, espera um pouco – ordenou.

Dirigindo-se para a cabeceira da banca, pôs uma mão por baixo da nuca de Teresa e outra por baixo dos ombros e soergueu-a devagar.

− Sentes-te bem? – perguntou.

Ao som afirmativo dela, ergueu-a mais um pouco e disse:

− Agora roda o corpo devagar e põe os pés no chão.

Teresa assim fez e Raul perguntou-lhe de novo se estava bem.

− Estou bem, meu senhor.

Raul ordenou-lhe que ficasse sentada mais uns segundos; depois ajudou-a a levantar e conduziu-a ao quarto de banho, onde tomou duche com ela. Teresa viu-se ao espelho. As marcas das cordas eram fundas e estavam muito vermelhas, e demorariam por certo algum tempo a desaparecer. Se passados dois dias, quando tivesse aula de dança do ventre, ainda se notassem, teria que revelar mais um pouco da sua condição.

Mais tarde, deitados na cama, Raul recomeçou a acariciar-lhe o corpo. Ao tocar-lhe os mamilos foi especialmente gentil, mas Teresa, que os tinha muito doridos, arquejou de dor. Mas continua, meu amor, continua… Raul continuou a acariciá-la, voltando de vez em quando aos mamilos. Teresa respondia-lhe com carícias e com beijos cada vez mais apaixonados.

− Meu senhor… meu dono… – disse Teresa por fim. – Não queres voltar a possuir a tua escrava?

Raul possuiu-a com vigor e ternura, não apressando os preliminares, nem a privando depois duma copiosa porção de beijos e carícias; e autorizou-lhe o orgasmo quando ela o pediu. Raul demorou muito tempo: quando o sentiu gozar, Teresa já tinha terminado completamente, mas disse-lhe:

− Sim, meu senhor, sim, goza em mim, goza sozinho na tua escrava… goza muito, meu querido…

Imaginou que Raul, cansado como devia estar, havia de querer a cama toda só para si e a mandaria dormir aos seus pés. Mas ele, em vez de a mandar embora, estendeu-lhe os braços, e nessa noite dormiram enlaçados.

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Ao entrar em casa de Raul, Carolina apertou-lhe formalmente a mão e deu um beijo na face da irmã. Ainda no átrio perguntou a Teresa onde podia guardar os sapatos; e entrou descalça no interior da habitação. Não explicou a razão deste gesto, nem deu lugar a que Teresa e Raul conjecturassem. Quando a convidaram a entrar para a sala, pediu:
– Posso ver a casa primeiro?
A visita começou pela cozinha, como quase sempre acontece quando tanto a visitante como a anfitriã são mulheres. A sala pareceu a Carolina um pouco nua demais:
– É fácil de limpar… – comentou.
O escritório de Raul fez-lhe lembrar o do pai. Tantos livros… Tinha passado horas felizes, em criança, no escritório do pai. No quarto, ao ver o catre aos pés da cama, levou a mão à boca:
– É aqui que dormes?! – perguntou, incrédula.
– Às vezes – respondeu Raul.
– Muito raramente – corrigiu Teresa. – O Raul gosta de mimos e eu também, dormimos quase sempre abraçados.
Restava o mais difícil.
– Agora, minha irmã – disse Teresa – só falta o quarto dos castigos.
Carolina não sabia se queria ver este quarto, mas também não sabia como negar-se a vê-lo.
– Quarto dos castigos?! – exclamou, aterrada.
– Não se passam lá só castigos – disse Teresa. – Passam-se também outras coisas. O nome, fui eu que o sugeri, e o Raul concordou. Anda ver.
Carolina ficou à porta, sem ousar entrar mais do que um passo, olhando à volta com uma mão a cobrir a boca.
– Além de o apartamento estar todo insonorizado, este quarto, que é interior, tem uma insonorização suplementar – disse Teresa. – Tiveste que subir um degrau para entrar porque instalámos um isolamento no chão por cima do que já existia. Foi instalado por uma firma especializada e é constituído por várias camadas de diferentes materiais, com uma espessura total de doze centímetros. Em cima disso tudo ainda tem o pavimento.
Carolina continuava a olhar em volta, espantada.
– Estás a ver as paredes? – continuou Teresa. – Também foram insonorizadas. Doze centímetros de materiais de alta tecnologia, a toda a volta. O tijolo maciço que reveste tudo foi ideia minha. Ajuda a absorver o som, mas não era preciso porque o que está por baixo é mais do que suficiente.
– É horrível… – murmurava Carolina. – É horrível…
– Seria horrível para ti – disse Teresa. – Sei isto porque te conheço bem. Mas tu também me conheces bem. Sabes muito bem que não sou nenhuma vítima inocente. Não te vou mentir, minha irmã: gritei muitas vezes de dor aqui dentro. Gritei e gritei até não poder mais, e não sei se hoje mesmo não voltarei a gritar até ficar rouca: tudo depende da vontade do meu dono e senhor. Também para isso me dei a ele, não foi só para os beijos e para as carícias, nem para lhe lavar a roupa e servir o jantar.
Carolina não podia suportar aquele lugar. Sentia que a respiração lhe faltava e que as pernas não lhe suportavam o peso do corpo. Não tinha nada contra o facto de Teresa lavar a roupa e fazer o jantar de Raul, ela fazia o mesmo ao Zé Tó e não lhe custava nada – por mais que algumas amigas suas ralhassem contra a sua submissão. Beijos e carícias, tomara ela muitos. Mas tortura?! Um quarto destinado a chicotear a sua irmã dilecta, a sua companheira de infância?! Um quarto que Teresa ajudara, para cúmulo, com a sua inteligência e o seu dinheiro, a adaptar a este fim?!
– Podemos ir para a sala? – perguntou em voz fraca.
– Claro – respondeu Raul, e segurou-a pelo cotovelo.
Quando se sentaram, serviu vinho do Porto às duas mulheres e um whisky a si próprio. Teresa, sentada no chão, tomou entre as suas as mãos da irmã.
– É difícil de compreender, não é?
– De compreender, sim, muito difícil; mas de aceitar, muito mais. Vi-os ontem na televisão e fiquei sem saber o que pensar. Foi por isso que me convidaram para jantar hoje?
– Em parte, sim – disse Teresa. – Tínhamos que nos assumir. Mas estamos ambos aterrados com a reacção das pessoas que gostam de nós.
– O Pai e a Mãe não viram o programa, sabem?
– Foi nessa esperança que o fizemos tão tarde.
– E eu espalhei palavra por toda a gente que o viu que quem falasse dele aos Pais teria que se haver comigo.
– Obrigado, por mim e pela Teresa – disse Raul. – E o que é que a Carolina achou?
– Achei-os sinceros, e isto é o que me perturba mais. Se fossem dois poseurs à procura do seu quarto de hora de fama, tê-los-ia achado desprezíveis… Achei a Teresa muito corajosa, por ir descalça e por lhe ter beijado a mão em público. Depois comecei a pensar que vocês afinal não eram muito diferentes de outras pessoas que eu tinha visto no mesmo programa, e que eu também tinha admirado pela sua coragem. Aquelas tuas opiniões sobre os vários feminismos pareceram-me muito reflectidas, muito lúcidas… Viam-se que eram tuas, que ninguém te tinha feito a cabeça. Fiquei com a ideia que eras contra todas as leis que impõem submissão ou desigualdade às mulheres…
– Como no Irão – interrompeu Teresa.
– Mas se um homem e uma mulher quiserem ter uma relação desigual, ou mesmo muito desigual, ninguém tem nada com isso…
– Ou dois homens, ou duas mulheres… – interrompeu Teresa.
– Sim – disse Carolina, corando. – É isto que é fácil de entender mas difícil de aceitar.
– Se algumas pessoas começarem por entender, para nós já é bom – disse Raul. – O aceitar pode vir depois. Algumas nunca aceitarão.
– Mas porque é que duas pessoas hão-de fazer um acordo desses? – disse Carolina. – E mesmo que o façam, quem nos garante que é livre? Pode ser imposto pela força. Um pode ser mais forte fisicamente, ou mais inteligente, ou mais violento, ou mais influente, ou mais integrado na sociedade, ou mais rico, ou mais assertivo…
– Achas que o Raul tem essas vantagens todas sobre mim? – disse Teresa.
– Só se for a força física – admitiu Carolina. – No resto, se alguém tem vantagem, és tu.
– Pois tenho – disse Teresa. – Na força física ele tem vantagem. No resto, ou estamos equilibrados, ou quem tem vantagem sou eu. Violentos não somos, nem eu, nem ele. E embora todos nós sejamos capazes de um acto violento, a verdadeira violência, a violência a sério, é relativamente rara. Eu sei, porque já me encontrei com ela, e sei que não tem nada a ver com aquilo a que a maioria das pessoas chamam violência. E felizmente que é rara, e que a que há está mais ou menos controlada, porque quem é realmente violento faz o que quer de quem quer. Por isso é que o Onoprienko conseguiu fazer de mim o que fez, embora eu não seja fraca. Hoje não conseguiria, mas apesar disso ainda tenho medo dele…. Mas estamos a desviar a conversa: estavas a dizer o que tinhas achado do programa.
– Uma coisa que me fez um bocado de confusão – disse Carolina – foi tu dizeres que eras feminista. As feministas que eu conheço não fazem vénias aos homens, nem lhes beijam a mão…
– Enquanto eu, ao Raul, em privado, até lhe beijo os pés… mas continua.
– Achei o teu feminismo muito simples. Ora deixa ver se me lembro do que disseste: que a autoridade pública não deve dar a ninguém direitos ou deveres especiais por ser homem ou mulher; nem deve ser usada para que outros imponham direitos ou deveres diferentes a homens e mulheres; e que cada um deve ter o direito de dispor de si próprio. Se ser feminista é só isto, então eu também sou feminista, e isso é uma coisa que nunca me considerei. E deixaste uma coisa de fora: as famílias não devem ter o direito de treinarem os meninos e as meninas para terem comportamentos diferentes.
– E se eles quiserem ter comportamentos diferentes? Devem forçados a ter comportamentos iguais? Não, prefiro manter a coisa assim simples, como disse na televisão. Se não for assim simples, torna-se uma coisa totalitária. Eu posso assumir os deveres que entender em relação ao Raul, e posso reconhecer-lhe os direitos que entender sobre mim. Se alguém me impedir disso, estará a forçar-me: a exercer violência sobre mim.
– E quando a relação é de força…
– Nesse caso – disse Raul – é irrelevante que a força seja exercida por um parceiro sobre o outro, ou que seja exercida de fora sobre os dois. Trata-se na mesma de violência. Foi o que nós dissemos no programa: não se trata aqui de violência minha sobre a Teresa, nem dela sobre mim, mas sim de uma ameaça de violência duma terceira parte sobre nós os dois.
– Terceira parte essa a que eu também pertenço…
– Podes deixar de lhe pertencer quando quiseres – disse Teresa. – Mas isso é decisão tua: nem eu, nem o Raul te pedimos nada.
– A apresentadora disse que vos tinha imaginado de cabedal preto, cheios de piercings, e a ti com uma coleira ao pescoço, meias de rede e saltos agulha… E eu confesso que também vos tinha imaginado com esse aspecto, apesar de nunca vos ter visto usar nada do género. Devo ter imaginado isso por ser o que as revistas mostram…
– As revistas mostram esse estilo por ser o mais vistoso, mas há no nosso meio quem adopte outros estilos, ou até estilo nenhum.
– Foi por isso que disseste à apresentadora que a tua coleira de escrava eram os pés descalços?
– Foi. Como símbolo de submissão, são uma coisa menos óbvia que uma coleira. E com raízes mais antigas na nossa cultura e nos nossos mitos. E mais ambígua, porque tanto podem significar submissão e humildade, como contestação, liberdade, ligação ao mundo natural… Mas já que me lembraste isso, diz-me uma coisa: porque é que te descalçaste ao entrar aqui?
– Não sei bem…Lembras-te que lá para cima, entre a gente do povo, era costume, se a dona da casa estivesse descalça, as outras mulheres que entrassem descalçarem-se também? Era uma questão de boas maneiras. Lembras-te?
– Lembro-me bem, sim… E foi por isso que tiraste os sapatos?
– É… Não sei o que me deu… De repente pareceu-me apropriado.
Teresa sentiu que lhe vinham as lágrimas aos olhos:
– Obrigada, mana… Foi um gesto bonito.
– Não quer dizer nada, até estou mais confortável assim. Só mais uma coisa: disseste na entrevista que os teus deveres para com o Raul eram servir e obedecer, e que nisso estava também o teu prazer. Mas aquele quarto que me mostraste não é um lugar de serviço nem de obediência, é um lugar de sofrimento. Se não tens prazer em sofrer, porque te submetes?
– Tu própria acabas de responder a isso. A palavra-chave é a submissão. Não é a dor que me interessa, é a submissão à dor. Aquele quarto é antes de mais nada um lugar de submissão, e se não fosse isto, não serviria para nada, nem para mim, nem para o Raul. Compreendes isto?
– Compreendo. Ou melhor; não, não compreendo. Entendo a lógica, o que é diferente, mas não há parte nenhuma de mim que se identifique com isso. Em minha casa quem manda é o meu marido, e eu nunca tive problemas com isso, mas nunca tirámos disso prazer, parece-me. Apenas nos pareceu mais… confortável. A vossa vida, essa, parece-me uma coisa estranha, uma coisa fora deste mundo.
– E criminosa, parece-te? Maléfica?
Carolina ficou alguns minutos silenciosa.
– Não – disse por fim. – Criminosa, não. E maléfica também não, Deus me perdoe.
Depois fez outro intervalo de silêncio, durante o qual Raul voltou a pôr vinho do Porto nos copos.
– Aquele quarto, utilizam-no muitas vezes? – perguntou Carolina.
– Não muitas – disse Teresa.
– E como é que fazem quando o utilizam? Combinam previamente?
– Não. O Raul decide sozinho. É o meu dono e dono do meu corpo.
– E és feliz assim?
– Só assim.
– Sabes o que eu imaginava? Imaginava que a vossa vida juntos consistia numa série ininterrupta de tormentos, que era disso e só disso que vocês tiravam prazer…
– E tiramos, indirectamente. Mas o meu verdadeiro prazer, a minha felicidade, está em servi-lo, em obedecer-lhe e em ser propriedade dele para todos os efeitos. Para isto não é preciso ele estar sempre a bater-me. Acreditas se eu te disser que ele nunca me chamou um nome feio na vida?
– Nem tu a mim – interrompeu Raul.
– Mesmo com o Ettore, que no aspecto físico era muito mais duro comigo, que me dava castigos muito mais frequentes e muito mais severos, havia outras dimensões na minha submissão.
Carolina abanou a cabeça:
– Então eras mais submissa ao Ettore…
Teresa ficou um momento a olhar para longe.
– Amei-o muito… Mas não: sou incomparavelmente mais submissa ao Raul.
– Talvez eu um dia entenda isso – disse Carolina. – E você, Raul, de onde lhe vem o seu prazer?
– Vem de muitas fontes – respondeu Raul. – É um prazer de homem, e por isso não é fácil explicá-lo a uma mulher.
– Nem eu o compreendo inteiramente – interrompeu Teresa. – Limito-me a aceitá-lo sem fazer muitas perguntas.
– A parte mais simples do meu prazer – prosseguiu Raul – e sem dúvida a mais egoísta, vem de a Teresa ser qualquer coisa de precioso que me pertence exclusivamente, como um quadro ou um livro.
– E atreve-se a dizer uma coisa dessas?! – Exclamou Carolina.
– Há uns meses talvez não se atrevesse – interveio Teresa. – Fui eu, com muito esforço, que o levei a atrever-se. Mas já estava na natureza dele, como a minha submissão está na minha.
– É verdade, Carolina, devo isso à sua irmã – disse Raul. – Isso, e muito mais. Quanto ao meu prazer: também me vem do prazer dela, mas esta parte funciona um bocado como dois espelhos virados um para o outro: a certa altura já não sabemos onde está a imagem original. É aquilo a que a Teresa e eu chamamos o labirinto. Às vezes entretemo-nos a explorá-lo, mas nunca vamos muito longe. Depois há a parte que me vem da dificuldade, de estar a fazer uma coisa que poucos tentam e menos conseguem.
– Nessa parte, sou igual a ele – disse Teresa.
– A parte principal – disse Raul – vem de sermos um para o outro, de encaixarmos perfeitamente um no outro. Mas aqui já não estou a falar de prazer, mas sim de felicidade.
Ao ouvir estas palavras, Carolina levantou-se, deu uns passos em direcção à janela e ficou a olhar para a cidade iluminada.
– Lá tinha a felicidade que vir à baila – disse, como se estivesse a falar para uma quarta pessoa. − Estes dois são completamente loucos.
E depois, virando-se para Raul:
− Tenho que lhes agradecer aos dois: aprendi muito hoje. Que a minha irmã era louca, eu já sabia desde criança, e nunca me incomodei com isso. Que o senhor é tão louco como ela, estou agora a saber. Disse-me que a sua loucura combina com a dela: só espero que assim seja. Agora está a ficar tarde: é altura de lhes agradecer e de me despedir.
À saída, depois de se calçar, beijou a irmã. A Raul, estendeu a mão:
− Saiba, senhor Raul Morgado, que não vou confiar facilmente em si, e que o responsabilizo pela felicidade da minha irmã.
O que também é, pensou Raul depois de fechar a porta, perfeitamente justo.

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(Nos últimos tempos tenho descurado muito este meu blog. O último excerto que publiquei foi do capítulo 29, quando depois disso já escrevi mais quinze. Esse trabalho a tempo inteiro explica em parte a minha falta de assiduidade neste site. Como pedido de desculpas aos meus leitores habituais, apresento neste post três passos do romance: um tirado do início do capítulo 31, outro do fim do mesmo capítulo, e finalmente ou tirado do fim do capítulo 32.)

Nos dias seguintes Teresa pensou muito neste estranho prazer de não ter prazer. Primeiro tentou explicá-lo pelo prazer da escravidão, da submissão, da obediência; mas estes eram prazeres de fundo, de baixa intensidade, e o que ela tinha sentido fora duma intensidade que raiava o insuportável. Depois tentou compreendê-lo através duma imagem: o prazer habitual do amor seria então como uma seta que voa solta, sobe muito alto e cai logo a seguir; enquanto o prazer inaudito que sentira era como um papagaio de papel que se mantinha no alto sem poder escapar ao fio que o prendia. Mas esta imagem não abrangia a diferença qualitativa entre as duas sensações: esta que acabava de descobrir nunca poderia, por mais intensa e prolongada que fosse, substituir a outra. O prazer de pairar, o prazer de nunca mais descer, era de natureza muito diferente do prazer de explodir numa flor de fogo que fugazmente iluminava a noite. O que os dois prazeres podiam ter em comum era o pedido de permissão: este, quando atendido, permitia dar mais brilho e amplitude à explosão e fazê-la durar um pouco mais, mas não a fazia qualitativamente diferente de qualquer outro orgasmo. Teresa sentia-se capaz de renunciar para sempre, sem pena, a ter um orgasmo sem autorização: só se um dia, um dia inimaginável, viesse a amar um outro homem que não fosse Raul.

De repente ocorreu-lhe que nesta taxinomia faltava, para que fosse exaustiva, o orgasmo obrigatório. Imaginou-se a responder de imediato, com um abalo violento e obediente, à ordem de Raul “vem-te”. Sentia-se capaz de o fazer se a ordem lhe fosse dada a tempo; já o tinha feito uma vez, de resto; mas agora era precisamente na falta de tempo que estava a dificuldade. Desde que era escrava de Raul começara a chegar ao orgasmo cada vez mais rapidamente e com cada vez menos preliminares, de modo que o prolongamento destes acabava por ser, quando Raul queria, uma refinada tortura. A maior parte das vezes, quando ele lhe ordenasse “vem-te”, já ela estaria a vir-se, não por efeito da ordem, mas por imposição do seu próprio corpo. “O que eu sou, é uma grande galdéria”, pensou, com mais comprazimento que remorso; e este pensamento levou-a a dar um passo de dança na rua, rodando a saia e fazendo com que um senhor elegante, de cabelos brancos e bengala de castão, se virasse para trás e lhe sorrisse.

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Agora que ia aprender mais, Teresa começou a sentir a necessidade de fazer o balanço do que tinha aprendido até aí como submissa e como escrava. A primeira aprendizagem é sobre a dor e o prazer, e faz-se logo na infância. A dor é um mal a evitar, é o anúncio de um perigo. Vem quando batemos com o joelho na esquina da mesa, ou quando estamos doentes, ou quando nos queimamos no fogão. O prazer é bom: vem de comer quando se tem fome, de dormir quando se tem sono, de correr pelo quintal fora quando a energia transborda, abraçar a mãe, de ser atirada ao ar pelo pai e de ser recolhida de novo nos seus braços, depois de um instante de delicioso terror. Até este ponto a aprendizagem de Teresa foi igual à de qualquer outra criança. A primeira divergência surgiu quando Teresa verificou que o maior prazer dos outros miúdos era dominar os seus parceiros – usando às vezes de métodos tão cruéis e requintados que os adultos, se se apercebessem deles, fugiriam com terror dos seus próprios filhos – enquanto o dela era servir e obedecer. Um dia descobriu que havia muitas pessoas capazes de transmutar a dor em prazer: mas ela própria nunca fez esta aprendizagem. Nunca aprendeu a ter prazer directamente na dor. Aprendeu, sim, com Ettore, a submeter-se à dor; mas era a submissão que ela amava, não a dor em si.

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– E o pompoar? [ -perguntou Raul. – ] Não me chegaste a explicar bem o que é isso.

Teresa franziu um pouco o sobrolho.

– Sabes o que é o músculo pubococcígeo?

– Não – respondeu Raul.

– Pois é… Há uma coisa que tu às vezes fazes quando estás com uma erecção, que é mexer o pénis para cima e para baixo sem mover os quadris… Sabias que não há muitos homens capazes de fazer isso?

– Não sabia. Pensava que todos os homens conseguiam.

– Pois é, o músculo pubococcígeo é o músculo que te permite fazer isso. É um músculo, ou melhor, um conjunto de músculos, que vai do osso púbico ao cóccix, e se o treinares sistematicamente vais tornar-te capaz de muito mais do que acenar com o pénis: vais ser capaz de orgasmos múltiplos, de controlar a ejaculação, de te protegeres contra doenças da próstata…

– Hmmmm… Estou a ver que vou ter que pensar nisso a sério. E para as mulheres, qual é a vantagem?

– Ficamos protegidas contra certas doenças e deformações, ficamos mais capazes de controlar os nossos orgasmos, e ficamos capazes de dar muito mais prazer aos homens.

– Aha! E já dá para me fazeres uma demonstração?

– Talvez – disse Teresa. – Porque não experimentamos?

E sem esperar pela resposta de Raul tirou a saia e a écharpe transparente que trazia a servir de blusa, ficando nua. Entretanto também Raul se livrou do roupão e do pijama. Teresa trepou para o colo dele, abriu as coxas e começou a descer até ter o membro viril introduzido até ao fundo.

– Fica quieto um bocadinho, meu senhor, por favor…

Raul começou a sentir que a vagina de Teresa lhe apertava ritmicamente o pénis. A pouco e pouco começou a mover-se para cima e para baixo dentro dela.

– Devagar, meu senhor… ainda não faço isto com facilidade…

Mas Raul não precisou de movimentos violentos para atingir o prazer. Teresa também não fazia outros movimentos que não fossem o apertar e relaxar rítmico da vagina. Poupou o esforço maior para quando Raul estivesse a atingir o climax, e quando tudo terminou perguntou-lhe, beijando-o:

– Foi bom, meu senhor?

Raul retribuiu-lhe o beijo:

– Foi muito bom, meu tesouro. Foi como uma mistura de quando te possuo pela vagina com quando me chupas o sexo.

− E ainda só aprendi a controlar a vagina como um todo, e mesmo assim com muito esforço. Quando aprender a controlar separadamente a entrada, o meio e o fundo, então é que vais ver o que é bom…

− Mal posso esperar – disse Raul. − Se calhar nunca mais vou querer penetrar-te por outro lado…

– Isso não, meu senhor – respondeu Teresa, alarmada. – Sou toda tua, com todas as aberturas do meu corpo. Não me desprezes… E agora que tenho outra vez o cuzinho bem apertado, vou querer que qualquer dia te sirvas também dele.

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(Do Capítulo 20)

O embrulho estava no quarto dos castigos. Teresa manteve-se de joelhos enquanto esperava, e Raul, retomando a solenidade com que tinha recebido a sua prenda, manteve-se de pé para lhe entregar a dela, que a recebeu nas duas mãos. Era um embrulho oblongo, que ela abriu para encontrar um cofrezinho de pau-rosa com embutidos de prata. Os embutidos formavam um desenho em trompe l’œil : visto duma maneira representava ramos e flores, visto doutra era uma paisagem de falos erectos que fizeram Teresa corar. No interior forrado a cetim Teresa encontrou, assente num suporte de prata, um vibrador como nunca tinha visto outro: o silicone de que era feito imitava jade, e a base, de enroscar, era em prata embutida com cristais Swarovski.

− Meu senhor, obrigada… é lindo…

Raul agachou-se para lhe dar um beijo.

− É lindo mesmo? Gostaste?

− Muito, meu senhor. É muito lindo.

E durante muito tempo ficou em silêncio, a passar os dedos pela macieza do silicone e a admirar a perfeição e a beleza do fabrico. Não tinha sido comprado numa sex-shop qualquer, de certeza, era demasiado bem feito e demasiado bonito para isso.

Raul sentou-se no sofá e ficou a admirar Teresa enquanto ela admirava a sua prenda. Sentia que ela tinha alguma coisa a dizer mas ainda não estava pronta a falar.

− Meu senhor… − disse ela por fim.

− Diz.

− Esta prenda… desculpa esta pergunta, é tão parva… Este vibrador é para eu usar, ou é para tu usares em mim?

− Nenhum vibrador que exista nesta casa é para tu usares – respondeu Raul. – Nem este, nem nenhum dos que estão guardados no quarto dos castigos. São todos para eu usar em ti. Não sei se já usaste algum, mas se usaste, ficas desde já proibida de o fazer de novo.

− Sim, meu senhor – disse Teresa.

Seguiu-se outra longa pausa, indicativa, para Raul, de que o assunto não estava encerrado.

− Meu senhor…

− Diz, meu amor – encorajou-a Raul.

− É que… É que quando estiveres a usar um vibrador em mim, vou ter que te dizer um segredo.

− Que segredo?

− Posso dizer-te só na altura? Posso, meu senhor?

Raul encolheu os ombros:

− Podes, mas a altura vai ser hoje mesmo. Esta noite vou usar em ti este brinquedo. Olha.

Raul pegou no vibrador, tirou-lhe a tampa, tirou do bolso uma embalagem e introduziu-lhe as pilhas, prestando atenção a que ficassem com as polaridades correctas.

− Anda – disse por fim. – Vamos para a cama.

No quarto, o vibrador ficou em cima da mesinha de cabeceira, no seu suporte de prata, enquanto na cama Raul e Teresa se acariciavam e beijavam. Não tinham televisão no quarto, mas tinham música, e Raul tinha posto um CD de Billie Holiday a tocar baixinho. O vibrador era de alta qualidade e muito silencioso: Teresa só o sentiu quando Raul lhe tocou com ele na comissura dos grandes lábios e a começou a massajar com ele ao longo dos grandes lábios, sempre pelo exterior da vulva. Depois, por um instante, sentiu-o nos lábios menores, e desejou que ele se demorasse por lá, mas a intenção de Raul era outra: com o vibrador assim lubrificado, massajou-lhe longamente o períneo antes de voltar a ocupar-se da vulva, que tinha entretanto florescido e apresentava, perfeitamente visíveis, os pequenos lábios e a abertura da vagina. O vibrador começou a percorrer-lhe os pequenos lábios, sempre de trás para a frente, passando ao lado ou por cima da uretra mas detendo-se todas as vezes, cruelmente, logo antes de chegar ao clítoris. Teresa tinha fechado os olhos, aberto as coxas o mais que podia, e entregava-se às sensações de prazer que Raul lhe provocava com sabedoria e crueldade. Por um momento, um momento só, sentiu que a ponta do vibrador lhe tocava o clítoris; só para a sentir recuar e procurar a entrada da vagina, onde começou a introduzir-se.

Foi neste momento que Teresa recuou com um espasmo e um grito, como se tivesse sido tocada, não por um instrumento de prazer, mas por um ferro em brasa.

− Que foi, meu amor? Fiz-te doer? – perguntou Raul, alarmado.

− Não, não é isso – respondeu Teresa. – É o tal segredo de que te falei…

− Diz-me.

− Sim, meu senhor. Mas continua a fazer por fora…

Raul continuou a acariciá-la com o vibrador, interrompendo a carícia apenas quando ela parecia impedir Teresa de falar.

− Devo ser única – disse Teresa. − Não suporto ser penetrada por um vibrador.

− Única? Nem penses – respondeu Raul. – Há muitas mulheres que também não suportam.

Teresa suspirou de prazer à medida que sentia o vibrador percorrer-lhe a zona genital.

− Mas essas não gostam muito de ser penetradas seja pelo que for. Aceitam um pénis um pouco porque tem que ser, desde que haja mais alguma coisa além da penetração. Mas eu gosto de ser penetrada, às vezes com preliminares, às vezes sem eles. Se sinto que pertenço a um homem, nem sequer sou capaz de distinguir o meu prazer do dele… Mas um vibrador na vagina provoca-me uma sensação que não consigo descrever.

− Sentes dor?

− Não, não é dor. Mas não consigo…

− Tenta explicar – decidiu Raul. – E vamos fazer assim: quando eu achar que não estás a conseguir explicar, meto-te o vibrador um pouco na vagina. Quando achar que estás a conseguir, acaricio-te o clítoris ou outros sítios bons…

− Não me faças isso, meu senhor…

Mas estas palavras só lhe valeram que ele cumprisse a sua ameaça. Descrever uma sensação física é sempre difícil, ainda mais quando outras se sobrepõem e embargam as palavras. Por fim Raul teve que se satisfazer com esta explicação: a sensação que Teresa não suportava era muito parecida com o mais intenso dos prazeres, mas era indubitavelmente um sofrimento; e embora não se parecesse em nada com alguma dor que ela alguma vez tivesse sentido, era mais insuportável que muitas delas.

− Pronto, meu amor – disse Raul, por fim. – Parece-me que já entendi tudo o que podia entender.

E começou a excitar-lhe o clítoris, entremeando esta carícia com breves incursões na zona da vulva e à sua volta, até a ver sacudir-se num orgasmo que se prolongou por minutos. Depois Teresa abraçou-se a ele, aos beijos:

− Agora tu, meu dono… Serve-te de mim…

− Vem tu por cima – disse Raul.

Teresa empalou-se nele, ainda um pouco dorida do orgasmo recente, e começou a fazer os movimentos de que sabia que ele gostava. Quando ele gozou, foi ao quarto de banho para se lavar e para se munir do necessário para o lavar a ele. Depois deitou-se ao lado dele e abraçou-o.

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close_collarAs condições da tua Escravidão

Pediste-Me que estabelecesse expressamente e por escrito as condições da tua Escravidão. Eis o que decidi:

1. Em princípio a tua Escravidão já é perfeita e não há nada a alterar n’Ela. Mesmo ao direito de deixar de ser escrava, que era o único que tinhas, quiseste renunciar. Cabe-te agora Amar, Servir, Obedecer e Sofrer enquanto tu e Eu formos vivos.

2. Na prática, contudo, ainda há muito que aperfeiçoar. Porque não te empenhas o suficiente; porque Me deixas em exclusivo o cuidado de te fazer escrava e não partilhas esse esforço, ainda há muitos dias em que não és mais escrava do que no anterior. Faltas assim ao teu dever e ao teu compromisso para coMigo.

3. Por vezes és insolente. Por vezes chegas a ser exigente. O teu corpo nem sempre obedece ao teu espírito. O teu Senhor compreende isto e não to leva a mal, mas precisamente porque compreendo é que exigirei de ti cada vez mais.

4. És escrava no teu espírito, que consente; és escrava no teu coração, que ama; és escrava no teu corpo, quando goza; mas ainda não aprendeste a ser cabalmente escrava no teu corpo, quando sofre.

5. Sei que não és masoquista e que a dor física não te dá prazer. Prefiro que assim seja: quando te provoco dor é para te castigar e não para te recompensar; ou então é para Meu prazer e não para o teu.

6. Quando aceitas com submissão a dor que te provoco, sei que estás a sofrer por Mim, e não para teu próprio gozo. É uma dádiva que Me fazes, e Eu tenho perfeita consciência de quão grande ela é.

7. Quando te castigo fisicamente estou a ser generoso. O castigo físico é o menos cruel dos castigos: faz sofrer naquele momento, mas rapidamente termina; as marcas que deixa são no corpo e duram pouco.

8. Por vezes tentas esquivar-te quando és castigada: é o teu corpo a desobedecer ao teu espírito. Isto é indigno de ti e do compromisso que assumiste coMigo. Como esperas obedecer ao teu Senhor se nem a ti mesma obedeces?

9. Quando te deixas amarrar tenho bem consciência do quanto estás a confiar em Mim. É essa confiança que exijo de ti: sei que não sou mau nem estúpido, que me sei controlar, e não te castigarei mais do que mereces e podes suportar.

10. Mas também não te castigarei menos do que mereceres e puderes suportar.

11. O teu Senhor sabe bem o quanto necessitas de ser amada. Mas não te permite que digas “quero ser amada”, porque nem nisso tens querer. O amor duma escrava aceita com gratidão a sua contrapartida, mas nunca a exige.

12. O mais que podes pedir, quando estás perdida de amor e necessitas absolutamente da atenção do teu Dono, é que Ele te possua. E Eu possuir-te-ei ou não, como entender, e permitir-te-ei ou não que tenhas prazer; e tu ficarás feliz porque é assim que deve ser.

13. Entre ser amada explicitamente e ser possuída vai uma enorme ausência repleta de Sofrimento. Por isso te chamo, com inteira propriedade, a Minha “escrava sofredora”, o que quer dizer que Me deves amar como se Eu não te amasse.

14. Se Eu te amo, raramente to direi, ou nunca. Preencherás tu própria este silêncio, dizendo-Me vezes sem conta, sem mentir nem ocultar seja o que for, tudo o que sentes por Mim: desde o amor até à raiva, desde a gratidão ao ressentimento. Apresentar-te-ás perante Mim tão nua de alma e sentimentos como de corpo. Permitirei assim que mitigues o Sofrimento que o Meu silêncio te possa provocar.

15. Também te imponho, frequentemente, o silêncio. Quero que estas ocasiões sejam para ti a oportunidade de dizeres sem palavras o que muitas vezes não pode ser dito através delas.

16. Às vezes ousas lembrar-Me que tens sentimentos. Eu sei que os tens, mas quero que manifestes os que exprimem a tua Escravidão antes de manifestares os outros.

17. Quando o Eu te perguntar se gostarias de alguma coisa, a tua resposta tenderá a ser “sim, se Tu mo ordenares”.

18. A tua Escravidão não é um jogo, nem uma brincadeira, nem uma fantasia, nem um teatro: é a tua condição de vida, a tua realidade assumida.

19. Quero que sejas feliz na tua Escravidão: obedece-Me também nisto. Não representes o papel de escrava: sê escrava.

20. Junto do teu Senhor estás em terreno sagrado: em Minha casa e no Meu automóvel estarás sempre descalça, esteja Eu presente ou não. Também estarás descalça em tua casa sempre que Eu estiver presente.

21. Na rua e noutros lugares ficarás descalça sempre que Eu to ordene, porque os teus pés nus são a Coleira de escrava que determinei para ti. Se a obediência a esta ordem te causar por vezes embaraço, humilhação ou vergonha, e se estes sentimentos te fizerem sofrer, aceitarás este Sofrimento de bom grado porque te vem de Mim.

(Nota: este texto é pura ficção, embora se modele num documento que a minha dunya me dirigiu há alguns anos. O carácter ficcional vem-lhe das alterações que lhe introduzi, desde logo a transformação de um texto em que a escrava se dirigia ao Senhor noutro em que o Senhor se dirige à escrava. Também aparecem nele mencionados sentimentos meus que na altura não manifestei; se eu algum dia, por algum improvável acaso, voltar a ter uma escrava a quem ame, não voltarei a cometer o erro de não o referir. E é ficcional, finalmente, porque o compromisso para toda a vida referido no original acabou por não se realizar.)

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