Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘spanking’

Arminda tinha a chave do apartamento da filha, mas raramente lá ia sem ela lá estar, e nunca sem autorização. Um dia, Joana pediu-lhe que passasse por lá e lhe levasse uma pasta que lá tinha; depois, quando jantassem as duas, poderia entregar-lha, evitando assim que ela tivesse ir a casa primeiro.

– Depois de jantar ainda vais para a Faculdade?

– Tenho que ir – respondeu Joana. – Há uma coisa que tem que ficar pronta ainda hoje.

Arminda pegou na pasta e já vinha a sair quando uma curiosidade súbita a levou a voltar para trás e ir espreitar o quarto. E viu, sobre a cama, uma vergasta. Era vermelha, revestida dum tecido que parecia o das velas dos barcos. O punho era de cabedal preto, em tiras entrançadas. Na ponta tinha outra tira de cabedal, dobrada sobre si própria. Estava atada a meio com uma fita de seda preta que formava um laço e a identificava como um presente.

O laço foi o que mais a chocou.

Conduziu o carro até casa tentando controlar o batimento do coração, concentrando-se no trânsito, tentando imaginar toda a espécie de explicações inocentes para o que tinha visto; mas não conseguiu imaginar nenhuma.

– Ouve lá – disse à filha, mal ela lhe entrou em casa. – O que é aquilo que estava em cima da tua cama?

Joana nem se deu ao trabalho de perguntar à mãe com que direito lhe tinha ido meter o nariz no quarto.

– É uma vergasta, mãe – respondeu serenamente.

– Que é uma vergasta, sei eu. O que não sei é o que está a fazer uma vergasta em cima da tua cama. Foi o Rui que ta deu?

– Não, mãe; eu é que a vou dar ao Rui.

Arminda retirou-se de rompante para a cozinha. A filha seguiu-a e começou a ajudá-la em silêncio.

– Nunca pensei que o Rui tivesse essa tara de ser vergastado. Nem nunca pensei que uma filha minha se prestasse a essas poucas-vergonhas.

Joana suspirou. Não devia ter deixado a vergasta tão à vista, mas a verdade é que nem sequer se lembrara. Alguma vez teria que ter esta conversa, mas não esperava tê-la tão cedo; e era muito difícil.

– O Rui não gosta de ser vergastado, mãe. Quem vai ser vergastada, sou eu.

Pronto, está dito, pensou; agora, seja o que Deus quiser.

Arminda voltou-se para ela, desvairada:

– Eu, nunca! Nunca, ouviste?! Nunca admitiria que o teu pai me pusesse um dedo em cima!

– Nem ele o faria, mãe.

– Lá nisso, tens tu razão! O fulano pode ser uma besta e um sacana, mas nunca me tocou!

– Ao passo que o Rui, que está longe de ser uma besta ou um sacana, é perfeitamente capaz de me dar meia dúzia de vergastadas no rabo.

A Arminda, no estado emocional em que estava, estas palavras da filha pareceram dum cinismo atroz. Remeteu-se a um espesso silêncio, que só foi quebrado quando a filha lhe disse que Rui lhe tinha proposto viverem juntos e ela aceitara.

– Ai sim? Felicidades – respondeu Arminda, secamente.

Joana suspirou e tentou conciliar a mãe.

– O pai nunca te bateu, e ainda bem. Tu nunca o admitirias. A mim, também não. E se calhar, algumas vezes, fez mal em não me dar umas palmadas.

Arminda voltou-lhe as costas e encolheu os ombros, recusando aplacar-se. As palmadas de que a filha precisara em criança, tinha-lhas dado ela; mas com uma criança é diferente, pensou.

– Até amanhã, mãe – disse Joana ao sair.

– Até amanhã.

Só muito depois é que ocorreu a Arminda que as palmadas que dera à filha, por justas e necessárias que fossem, tinham sido dadas a uma criança que não se podia defender, e que nunca tinha consentido nelas; mas que Joana, adulta, não só se sabia defender muito bem, como era competente para dar o seu consentimento. Nessa noite não dormiu, consumida por uma ira tumultuosa contra a filha, contra Rui e contra si própria.

Voltou a nunca se encontrar com Rui nas tertúlias semanais, mas desta vez não ocultou às suas amigas a animosidade que nutria contra ele e a filha: só lhes ocultou, por muito tempo, o motivo dessa animosidade. Rui, por seu lado, começou a aparecer com menos frequência, por vezes acompanhado de Joana, que algumas amigas da mãe conheciam desde criança. Nunca deram mostras de retribuir a amargura de Arminda; nunca revelaram o seu motivo, nem fingiram que não o conheciam; nunca deixaram que as outras senhoras pensassem que ela tinha ciúmes; e nunca permitiram que alguém lhe atribuísse as culpas pela desavença. Arminda não tinha razão, mas tinha as suas razões, que eles compreendiam; não tencionavam voltar atrás nas suas decisões pessoais – que não disseram quais eram – mas esperavam que um dia Arminda as aceitasse e se reconciliasse com eles. Em suma: a cabra que havia em Joana aflorava cada vez menos à superfície, e as amigas da mãe não sabiam se deviam atribuir isto a hipocrisia ou à influência de Rui.

Os meses seguintes foram dedicados, por parte de Joana, à minuciosa aprendizagem dos ritos e das regras da sua nova condição. Nesta aprendizagem encontrava, por vezes, prazeres novos e imprevistos; mas também humilhações que lhe seriam insuportáveis senão tivesse decidido, teimosamente, levar até às últimas consequências a experiência iniciada e o compromisso assumido. Descobrira, com surpresa, que o castigo físico a afectava pouco: não lhe dava prazer, mas só era difícil de suportar enquanto durava. Submeteu-se a ele desde o início e nunca recusou deixar-se manietar para o sofrer. Custou-lhe muito mais submeter-se a actos que a humilhavam ou embaraçavam, sobretudo perante terceiros. Também lhe custou muito a habituar-se a ordens ou a regras cujo propósito não compreendesse e às que lhe parecessem caprichosas ou fúteis. Rui nem sempre se explicava:

– Basta que seja este o meu prazer – dizia, por vezes, quando ela o questionava.

Joana começou a compreender que qualquer ordem ou regra, mesmo que aparentemente não tivesse sentido nem propósito, servia ao menos para lhe lembrar que estava sujeita ao prazer de Rui.

Mas o que mais lhe custou, de longe, a ponto de quase a fazer desistir, foi perder o direito de escolher as suas próprias roupas. Não é que Rui tivesse mau gosto, mas tinha um gosto diferente do dela; e ao transitar lentamente do seu estilo, que era o da profissional competente, para o estilo boémio construído por Rui, sentia que estava a perder identidade. Quando confessou isto a Rui, ele respondeu:

– Essa identidade que estás a perder é falsa; essa mulher não és tu.

Quando Joana ouviu isto, a cabra veio à superfície:

– E tu é que sabes quem eu sou, suponho?! A identidade que me deres é que é verdadeira?!

– Se não for verdadeira – respondeu Rui, placidamente – havemos ambos de nos dar conta disso, e bem depressa. Estaremos a tempo de construir outra. O que te posso garantir, é que essa outra não obedecerá a qualquer convenção pré-fabricada.

– E a tua vontade? E o teu prazer?

– Serão determinantes, é claro – disse Rui. – Não serás só o que já és, serás também o resultado da educação que eu te der.

Por muito brutais que estes propósitos parecessem a Joana, tinha que reconhecer que a primeira coisa que dissera a Rui – que dissera à mãe, para ser mais exacta – é que precisava de quem a educasse.

Este mesmo período foi, para Arminda, de lenta reconciliação com a filha. Por mais que o não quisesse ver, não podia deixar de notar que Joana andava melhor: mais serena, mais feliz, mais segura de si e menos agressiva. Mantinha a animosidade contra Rui: em parte por teimosia, em parte por ciúmes, em parte pela ideia de incesto que a relação, irracionalmente, lhe sugeria; mas também porque não conseguia suportar a ideia de ver a filha maltratada e humilhada às mãos de um homem de quem fora amiga e que sempre se lhe apresentara como gentil e inofensivo.

– E é mesmo gentil, mãe – dizia-lhe Joana. – Gentil, honesto e justo. Inofensivo não é, certamente: mas quanto a isto, foi ele que te iludiu, ou tu que te iludiste?

Foi muito a custo, e ao fim de muita insistência, que Arminda aceitou encontrar-se com a filha e com Rui em casa deste. Não se surpreendeu por Joana a receber descalça: numa das raras ocasiões em que, vencida pela curiosidade, sondara a filha sobre pormenores da sua vida, ela contara-lhe o que os pés nus simbolizavam e as ordens que tinha de nunca se calçar em casa. Recordava-se da tendência que Joana tivera, em criança e adolescente, de se descalçar sempre que podia; e de como ela tinha reprimido esta tendência, a ponto de a filha ter interiorizado a sua aversão a andar descalça e se ter habituado, como ela, a nunca sair da cama sem enfiar os pés nuns chinelos. Agora, ao obedecer a Rui, Joana estava finalmente a desobedecer à mãe; e esta não deixou de se aperceber deste facto.

Arminda cumprimentou Rui com alguma distância, distância esta que ele respeitou, embora deixasse claro que estava na disposição de a transpor. A casa pareceu-lhe decorada totalmente à homem: não notou a mão da filha em nenhum pormenor. Na sala, Rui convidou-a a sentar-se no sofá.

– Fica aqui com o Rui, mãe – disse Joana. – Eu vou buscar uma bebida.

Quando Joana regressou com três copos de vinho branco num tabuleiro, Arminda deu-se conta, de repente, que sempre tinha sido ela a servir a filha à mesa, e que mantivera este hábito mesmo depois de ela se tornar adulta. Rui agradeceu e fez sinal com os olhos a Joana que se sentasse no sofá ao lado da mãe, que ficaria assim entre os dois.

– Tenho uma notícia a dar-te, Arminda – disse Rui. – Vou casar com a Joana.

Arminda, que era cada vez mais contra o casamento como instituição e não desejava ver a filha mais presa a Rui do que já estava, não ficou contente com a notícia.

– E para que é que vão casar? – perguntou. – Não estão bem como estão? Para que querem vocês um papel passado?

– O papel não é importante – disse Rui. – O que é importante, para mim, é ter alguém a quem deixar o que é meu. Se eu morresse agora, iria tudo para os meus sobrinhos do Canadá, que mal conheço, e a Joana ficava a ver navios. Acho que tenho o direito de deixar as minhas coisas à pessoa de quem gosto.

Contra isto não havia argumentos, pensou Arminda. E a naturalidade com que Rui tinha falado em gostar de Joana… Sentiu um impulso de simpatia para com ele, mas logo o reprimiu: nunca fora interesseira e não queria sê-lo agora. Mas Joana não tinha nada o ar de se estar a sacrificar por dinheiro. Pelo contrário: ao olhar para ela, Arminda notou-lhe um ar resplandecente que a levou a perguntar, tomada duma súbita suspeita:

– Por acaso não estarás grávida?

Joana deu uma risada franca, como Arminda não lhe ouvira havia muito tempo:

– Grávida, mãe?! Não, está descansada. Por enquanto, o Rui e eu queremos ser só dois.

E se a filha estivesse grávida, que mal teria isso? Com um filho em casa, pensou Arminda, não se poderia entregar tão livremente a jogos eróticos que a mãe nem queria imaginar.

– Vê lá, não adies muito. Olha que já não és uma criança, e o tempo passa.

– Terei isso em conta – disse Rui.

Está a informar-me, pensou Arminda, que a decisão será dele. O impulso de simpatia que sentira começou a desvanecer-se. Mas também me está a informar que está disposto a dar à Joana o que ela sempre quis. O ex-marido de Joana nunca quisera filhos, e esta tinha sido uma das causas do divórcio.

– E vou deixar de trabalhar – disse Joana. – Já apresentei o meu pedido de exoneração.

Ah, não. Isto, não. Deitar fora anos de estudo e de formação profissional?! Abortar uma carreira que mal começara?! Ficar na dependência dum homem?!

– E o que és que vais fazer? Vais passar o resto da vida a estupidificar no meio dos tachos e das panelas?

– Ora, ora, mãe – disse Joana. – Sabes muito bem que nunca gostei do meu trabalho; e sabes que hoje em dia, no nosso país, para uma pessoa da minha idade, não há carreiras, só há empregos, e precários ainda por cima. Tu vais-te reformar quando fizeres sessenta anos; eu reformo-me aos trinta, é tudo. E não vou estupidificar, vou viajar com o Rui pelo mundo todo.

Durante o jantar, Arminda não parou de oscilar entre sentimentos contraditórios. Pedro, um homem trabalhador e pacato, que parecera ter todas as condições para fazer a filha feliz, fizera-a profundamente infeliz; Rui, que parecia ter tudo para a destruir e anular, fazia-a resplandecer; a filha parecia que estava a deitar fora tudo o que a geração de Arminda tinha conquistado para as mulheres, e no entanto dava mais a sensação de estar a ganhar terreno que a perdê-lo. Tudo isto era demasiado para ela assimilar rapidamente, mas teria que o assimilar sob pena de ficar isolada num mundo que deixara de compreender. Não é por aí que vou ficar velha, decidiu; e foi a partir desta decisão que começou a dar o benefício da dúvida a Rui e à filha.

Recomeçou a comparecer na tertúlia nos mesmos dias que Rui. As amigas foram convidadas para o casamento. A pouco e pouco, foi-lhes permitido que se apercebessem da natureza da relação entre Rui e Joana, e isto deu lugar a semanas de debate.

– Se é assim que eles querem, deixá-los – decidiu por fim a mais velha, que era madrinha de Joana.

É claro que não foram felizes para sempre. Tiveram doenças, tiveram conflitos, tiveram que enfrentar a velhice; dos dois filhos que Rui fez a Joana, um deu-lhes problemas muito graves durante a adolescência; e Rui, quando morreu, deixou na vida muitas pontas soltas que Joana teve de atar sozinha. Por outro lado, enquanto viveram, nunca se arrependeram de terem decidido ser senhor e escrava. Se morrer sem arrependimento é a única vitória possível do homem sobre a vida e sobre os deuses, a vida deles foi um êxito total.

Anúncios

Read Full Post »

Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

Read Full Post »

Finalmente, mais um excerto do meu romance. Corresponde à segunda metade do capítulo 5.

O tempo tinha arrefecido e foi-lhes agradável regressar ao aconchego do apartamento. Teresa tirou as sandálias e o casaquinho e perguntou a Gustavo:

– Que música queres ouvir?

– Hmmm… – disse ele. – Tens Miles Davis?

– Tenho para aí alguma coisa – disse ela, e pôs-se a procurar entre os CD’s.

Por fim encontrou o que queria.

– Vais gostar disto – disse.

E enquanto a música começava a tocar baixinho dirigiu-se para Gustavo e fez menção de se sentar de novo aos pés dele.

– Assim não – deteve-a ele. – Toda nua.

– Toda nua?! – sorriu ela.

– Toda nua.

Teresa abriu mais o sorriso:

– Se o meu Senhor manda…

E sem mais demora despiu e arrumou toda a roupa que trazia vestida, que se resumia afinal à saia e à blusa. Depois sentou-se na mesma posição em que estivera antes, e enquanto ele lhe ia acariciando ora os cabelos, ora os seios, ora qualquer outra parte que achasse à mão, começou a conversar com ele sobre as trivialidades do dia: as compras dela, a viagem dele, a maçada em que os aeroportos se vão transformando cada vez mais… Por vezes caíam em confortáveis silêncios, durante os quais não faziam mais do que ouvir a música e tocar suavemente um no outro. Quando o CD chegou ao fim Teresa trocou-o e assim ficaram os dois, a embeber-se lentamente da presença um do outro.

– Vamos para a cama? – disse Teresa, quando o viu bocejar.

– Vamos.

– Então anda.

Na casa de banho mostrou-lhe o que tinha previsto para o acolher:

– Este é o teu roupão… as tuas toalhas… os teus chinelos…

Enquanto um tomava duche, o outro lavou os dentes. Secaram-se um ao outro com as toalhas. E por fim, sem que Gustavo se preocupasse em fazer uso do roupão ou dos chinelos que Teresa tinha disposto para ele, dirigiram-se nus para a cama, que Teresa abriu rapidamente e onde colocou duas enormes almofadas.

Na cama abraçaram-se e começaram a percorrer com as mãos e os lábios o corpo um do outro. Desde o primeiro toque Teresa sentiu a erecção de Gustavo, mas como ele não se mostrou apressado ela também não. Via-lhe, porém, as olheiras e os olhos um pouco raiados de sangue: estava cansado da viagem, e da lauta refeição que ela lhe tinha dado.

– Estás cansado, meu Senhor.

Gustavo sorriu-lhe:

– Estou, mas não tanto que não possa fazer as honras à última iguaria deste banquete…

Teresa, apalpando-lhe o pénis, respondeu:

– Isso estou eu a ver. Mas deita-te para trás, queres? Deixa-me ficar por cima e fazer todo o trabalho…

Gustavo deitou-se de barriga para cima no meio da cama, apoiou comodamente a cabeça na almofada, fechou os olhos e dispôs-se a gozar os prazeres que Teresa lhe proporcionasse. Esta passou-lhe uma coxa por cima do corpo, pegou-lhe no pénis e guiou-o para dentro de si, começando a mexer os quadris com movimentos lentos mas seguros. Conforme a inclinação que ela dava o corpo, Gustavo sentia-lhe a carícia, por vezes dos cabelos, por vezes dos seios macios. Abandonando a sua atitude passiva, pôs os braços à volta dela e começou a acariciar-lhe com mão firme as costas, as nádegas e a parte de trás das coxas. Ao sentir estas carícias, Teresa inclinou-se sobre ele e murmurou-lhe ao ouvido:

– Dá-me umas palmadas…

Antes de lhe dar a primeira palmada, Gustavo ainda continuou a apalpar-lhe as nádegas durante algum tempo. Depois ergueu a mão direita a uma altura suficiente para que ela ganhasse velocidade ao descer sobre o corpo de Teresa. Não bateu com força: estava mais interessado no efeito sonoro do que na sensação provocada.

– Sim… – disse Teresa; e começou a beijar Gustavo no peito ao mesmo tempo que soltava os quadris numa dança fogosa.

Com a segunda palmada Gustavo procurou abranger ambas as nádegas de Teresa; esta reagiu como a um choque eléctrico, com um repelão de todo o corpo, e redobrou os beijos apaixonados com que cobria o corpo do amante. Mas a terceira palmada estragou tudo: no momento em que a palma da mão atingiu o corpo de Teresa, Gustavo sentiu uma angústia tão intensa como inexplicável. O ar pareceu-lhe subitamente gelado, o sexo ficou-lhe flácido, e recordou a imagem, que julgava ter esquecido, dum rosto de mulher no Kosovo. Com um som que era em parte suspiro, em parte gemido, e em parte grito de protesto, rolou na cama de modo a sair de dentro da amante.

– Que foi?! – perguntou ela, alarmada. – Que foi, meu querido?!

– Não sei… Não sei bem. Lembrei-me duma coisa, duma coisa de que não devia ter-me lembrado.

Teresa juntou de novo as pernas mas continuou inclinada sobre ele, numa posição de tanta intimidade como a anterior, mas inteiramente doutra ordem. Os seios, pendendo suavemente sobre o peito dele, continuavam a ser um afago; mas agora este afago confortava-o em vez de o excitar.

– Conta-me, meu amor. Conta-me tudo.

E Gustavo contou. A mulher chamava-se Merita. Nunca tinha sido possível apurar a sua idade exacta, mas devia ter entre os vinte e os trinta anos. Quando ele, acompanhado duma psicóloga e duma agente da polícia local, entrou na sala onde ela estava a fim de tomar algumas notas, ela correu para um canto e ficou lá encolhida a olhar para ele com os olhos dum animal acossado. Teve que sair. Explicaram-lhe depois que era sempre aquela a sua reacção na presença de um homem, e que se as duas mulheres o tinham levado com elas era porque tinham tido esperança que ela estivesse a ultrapassar este trauma. A história dela era como a de tantas outras: um oficial das forças de manutenção de paz precisava duma mulher e de um apartamento para a guardar. As máfias locais estavam em posição de lhe fornecer estas comodidades, por um preço razoável. Merita era uma jovem viúva de guerra, sem família nem amigos que a protegessem. Foi fácil raptá-la, adaptar à pressa uma casa isolada e levá-la para lá, e entregar a chave ao cliente. Segundo os testemunhos recolhidos pelos psicólogos, Merita tinha sido, antes de ser raptada, uma mulher voluntariosa e senhora do seu nariz, perfeitamente capaz de regatear duramente no mercado da aldeia e de responder taco a taco a qualquer agressão física ou verbal. A mulher que os soldados, na sequência duma denúncia anónima, encontraram na casa isolada não era nada disto: era um animalzinho aterrorizado, incapaz de se exprimir por palavras, obediente a meia dúzia de ordens específicas dadas em inglês, mas aparentemente incapaz de compreender quaisquer outras palavras, mesmo na sua própria língua. O facto de ela reagir a ordens em inglês permitiu que se descobrisse rapidamente que o oficial em causa era um americano; e como estes tinham as suas próprias estruturas de justiça militar, separadas da estrutura multinacional em que Gustavo estava integrado, o caso passou rapidamente para as mãos deles; e Gustavo, envolvido em muitos outros, tinha-o esquecido até agora.

– Ainda bem que a coisa passou para as mãos deles – disse Gustavo, enquanto Teresa lhe afagava levemente os ombros e o peito. – O tipo acabou por ser condenado a uma pena muito mais dura do que aquela a que nós o condenaríamos. Mas mesmo assim leve demais. E queres saber o que me deu mais volta à cabeça?

Teresa beijou-o ao de leve no peito:

– Diz…

– Fisicamente, esta mulher estava de boa saúde. Consegues imaginar isto? De boa saúde. Um pouco desnutrida, mas veio a saber-se mais tarde que o homem até era cuidadoso com a alimentação dela; ela é que muitas vezes não queria ou não conseguia comer. E não tinha quaisquer marcas de maus tratos: o fulano reduziu-a ao que a reduziu com base apenas em técnicas em pressão psicológica e em palmadas no rabo. Ainda agora não compreendo: vi outras mulheres com queimaduras, com marcas permanentes no corpo com vestígios das torturas mais inconcebíveis, e mesmo assim menos degradadas psicologicamente do que ela. Ela própria tinha suportado, durante a sua vida de casada, maus tratos piores, sem que a sua auto-estima fosse afectada por isto. E este gajo, só com a palma da mão, fez dela o que fez…

Ditas estas palavras, Gustavo calou-se. Teresa, vendo-o perdido em pensamentos, respeitou este silêncio e limitou-se a beijá-lo de vez em quando, enquanto ele a acariciava, quase distraidamente, nas costas.

– Foi disto que me lembrei – recomeçou ele subitamente. – E subiu por mim acima um asco, uma vergonha…

Teresa deixou que o silêncio se prolongasse de novo. Por fim, sem deixar de o acariciar como a um animal nervoso, disse:

– Mas antes de ires para o Kosovo já tinhas feito isto com mulheres…

– Tinha, claro que tinha – respondeu Gustavo.

– E não sentiste nojo, nem vergonha, nem culpa…

– Não, é claro que não. Senti prazer, e elas também.

Teresa recomeçou a beijá-lo e a acariciá-lo sem dizer nada. Quando entendeu que tinha passado tempo suficiente, perguntou-lhe:

– E com a tua mulher?

– Com a Isabel? A Isabel é um caso aparte. É diferente de qualquer outra pessoa que eu já tenha conhecido, homem ou mulher. Parece-me incapaz de sentir dor ou prazer… Não, não é bem isso: sente dor e prazer, mas com muito pouca intensidade.

– Fisicamente, queres tu dizer?

– Fisicamente, psicologicamente, moralmente… De todas as formas. De início não me apercebi disto. Mas com o tempo comecei a acreditar que para ela o único verdadeiro prazer é ter dinheiro e o único verdadeiro sofrimento é não o ter.

– Não é caso único…

– Que eu conheça, é. E depois há outra coisa, que não sei se é impressão minha: o corpo dela parece feito de borracha dura. Tem uma consistência diferente, que parece que não é de mulher nem de homem… Estou a explicar-me muito mal.

– Não faz mal. Continua.

– Uma vez assisti a uma coisa… trilhou-se a fechar a porta do carro. Ficou com um daqueles vergões vermelhos, muito brancos nas bordas… Sabes? Olha-se para aquilo e vê-se logo que causou uma dor horrível.

– E ela?

– Qualquer outra pessoa teria dado um grito, soltado um palavrão, segurado com a outra mão a parte atingida… Ela não. Olhei para a cara dela e o que vi foi uma expressão petulante, de contrariedade, como se alguém ou alguma coisa tivesse falhado uma obrigação qualquer para com ela…

– Deixava-te bater-lhe?

– Quando eu me portava bem, quer dizer, quando fazia alguma coisa que pudesse conduzir a uma promoção, ou a mais dinheiro. Mas deixava-me bater-lhe como me deixava beijá-la, ou fodê-la: tanto lhe fazia. E eu acabei por me desinteressar tanto duma coisa, como das outras. Nos últimos anos do nosso casamento deixámos de ter relações sexuais.

Chegada a conversa a este ponto, pareceu a Teresa que era chegada a altura de menos palavras e mais acções. Os beijos e as carícias que não tinha parado de dar a Gustavo tornaram-se de novo mais deliberados, e ele correspondeu concentrando-se mais no corpo dela. Mas não recuperou a erecção anterior, ainda que o pénis lhe pulsasse um pouco e ficasse meio direito. Teresa deixou que este período de carícias recíprocas se prolongasse como se estivesse disposta a contentar-se com ele a noite inteira. Mas por fim, quando o viu sorriu de prazer, disse-lhe:

– Meu Senhor… Se a tua escrava te pedir muito uma coisa, tu fazes-lha?

– O que é?

– É uma coisa que não vais querer.

– Como assim?! Julguei que os senhores é que pediam às escravas coisas que elas não queriam…

– Não pedem, ordenam. E as escravas obedecem. Eu não te estou a ordenar, estou-te a pedir…

– Seja, estás-me a pedir. E é uma coisa que eu não vou querer…

– Sim.

– E que tu me pedes por uma razão qualquer que não me dizes…

– Sim. Uma boa razão, disso estou certa. Terás que confiar em mim. Terás que confiar muito em mim. Prometes?

Aos ouvidos de Gustavo isto soou como um desafio ao qual se misturava um apelo e uma dádiva. E tinha-se comprometido a aceitar todas as dádivas, mesmo as mais imprevisíveis, que lhe viessem desta mulher imprevisível. Sorriu para si próprio: aquele pedido tão humilde era na realidade uma ordem. Bem merecia esta Teresa o seu nome. Respondeu:

– Sim, Teresa, prometo. Seja o que Deus quiser.

Teresa encarou-o, muito séria:

– Meu Senhor, vês ali, entre a zona de dormir e a de estar, aquela cadeira muito sólida. Repara que não tem braços. Peço-te por favor que me leves até ela, que te sentes, que me estendas de bruços sobre o teu colo e que me dês uma severa e prolongada tareia de palmadas. Peço-te que faças isto mesmo que não tenhas prazer. Peço-te que o faças mesmo que sintas vergonha ou culpa. E não é para eu ficar com as nádegas rosadas: é para ficar com elas vermelhas, vermelhas escuras. És capaz de fazer isto que a tua escrava te pede?

Ricardo afastou para o lado as roupas da cama, com um gesto tão violento que caíram no chão e os deixaram aos dois nus sobre os lençóis. Segurou Teresa rudemente pelos ombros e afastou-a de si a todo o comprimento dos braços, como que para a ver melhor. Fixou nela os olhos irados e encontrou em resposta um olhar sereno e directo. Com um gesto brusco saiu da cama e foi sentar-se na cadeira.

– Anda! – comandou. – De que estás à espera?

Teresa foi ter com ele sem pressa mas sem hesitação. Viu-o rígido na cadeira, a tremer de cólera mal contida. Ainda bem. Era exactamente assim que o queria naquele momento: furioso. Logo que chegou deitou-se de bruços sobre o colo dele e esperou pela primeira palmada. Esta, tal como ela previra, não foi meiga. Nem foram meigas as que se lhe seguiram; cada uma detonava no apartamento como um tiro, e se não fossem as paredes grossíssimas do edifício os vizinhos teriam motivos para ficar intrigados.

Logo aos primeiros golpes Teresa ficou a saber que Gustavo sabia bem castigar uma mulher. Dominada pela dor, mal conseguia estar atenta ao sinal de que estava à espera; mas finalmente sentiu o pénis do amante a enrijar e a erguer-se, obrigando-a a ajeitar-se para criar uma abertura entre o corpo dela e o dele de modo a acomodar esta erecção. As palmadas dadas por um Gustavo excitado não eram mais suaves do que as que lhe tinha dado o Gustavo furioso de minutos antes, mas eram mais espaçadas, mais dirigidas a zonas específicas. A dor, quase intolerável, levava-a a gemer, ou mesmo a soltar um pequeno grito de vez em quando. De que cor teria agora as nádegas? De um vermelho tão escuro como o que tinha pedido? Não sabia, mas o ritmo regular das pancadas indicava que o castigo estava para durar.

Quando ele parou, Teresa ouviu-lhe a respiração arfante e sentiu as pingas de suor que caíam sobre ela. Estava cansado. Mas em vez de terminar o castigo, passou a utilizar a mão esquerda – o que tornaria as palmadas menos dolorosas para Teresa se não tivesse as nádegas já tão sensíveis. Ouviu-o arfar cada vez mais alto, sentiu-lhe o suor cada vez mais abundante, mas mesmo assim as palmadas não pararam durante muito tempo. Teresa já tinha sofrido castigos mais dolorosos do que este, mas todos eles tinham sido aplicados com chicotes ou outros instrumentos. Nunca imaginara que um castigo aplicado com a mão pudesse ser tão severo.

Enfim, uma pausa. Ouviu, vinda lá de cima, a voz rouca, e ainda um pouco zangada, do amante:

– Já chega?

Ai chegava, chegava! E de que maneira! Tinha as nádegas em fogo, e parecia-lhe que não seria capaz de suportar nem o toque duma pena. Mas em vez de responder “sim”, arranjou força e ousadia para dizer:

– Tu é que sabes, meu Senhor.

A estas palavras, Gustavo mudou de novo para a mão direita e assentou-lhe uma série de palmadas que foram com toda a certeza as mais fortes dessa noite. Quantas? Seis, dez, doze; Teresa, perdida de dor, não pôde contá-las. Por fim levantou-se bruscamente da cadeira, sem cuidar que a atirava ao chão. Inclinou-se para lhe pegar por um pulso e puxou-a para a cama, obrigando-a a segui-lo meio a correr, meio aos tropeções. Ao aterrar de costas, Teresa sentiu a dor provocada pelo contacto entre os lençóis e a sua pele dorida. Mas mal teve tempo para soltar um ai, porque Gustavo já a penetrava duma estocada só, fazendo-a estremecer toda com o embate dos corpos. As estocadas seguintes não foram menos rudes, mas ela já não lhe sentiu a rudeza, nem a dor das nádegas doridas a embater na cama, porque desde a primeira penetração foi avassalada por uma sucessão de orgasmos, ou por um só orgasmo interminável, que lhe obliteraram qualquer vestígio de dor.

Gustavo, por seu lado, ao penetrar Teresa, já não estava movido por qualquer vestígio de cólera, mas sim por um puro, inocente desejo, por uma exultação avassaladora. O fogo em que ardia fogo que tinha-o purificado, pelo menos por agora, de toda a vergonha, de toda a culpa e de toda a ira. Dominou-se para prolongar o prazer, mas não tentou dominar o vigor nem a amplitude dos seus movimentos sobre o corpo receptivo da fêmea.

Depois de tudo terminar deixaram-se ficar, fazendo travesseiro e colchão do corpo um do outro. Quando por fim olharam de novo para o rosto um do outro, Teresa sorriu para Gustavo e disse:

– Hmmm… Meu Senhor, se soubesses como eu estava a precisar duma coisa assim…

Gustavo devolveu-lhe o sorriso:

– Eu também, podes ter a certeza.

Teresa deu-lhe uma sapatada de brincadeira:

– Ah, sim?! Andavas precisado, era? E deste conta do que me fizeste?

Ricardo encolheu os ombros:

– As palmadas? Claro que me dei conta. Ficaste com o rabo da cor daquele Barolo que bebemos ao jantar… Aliás, mais daqui a bocado tenciono inspeccioná-lo para ver se já está na cor certa ou se ainda é preciso ajustá-la.

Desta vez Teresa deu-lhe um murro:

– Não estou a falar das palmadas, estúpido! Estou a falar da maneira perfeitamente desaustinada como me possuíste a seguir. Amanhã nem sei se vou conseguir andar. Ou então vou andar por aí de pernas abertas… Achas isto bem?!

– Oops! – fez Gustavo.

– Deixa lá – disse Teresa. – Como já te disse, era disso que estava precisada.

Depois de um breve silêncio Gustavo recomeçou a conversa:

– Só não entendo uma coisa. Disseste-me várias vezes que a dor física não te excita nem te dá prazer…

– E é verdade.

– Mas quando eu te penetrei depois daquela tareia estavas tão excitada que começaste logo a vir-te. Afinal as palmadas excitaram-te ou não?

Teresa suspirou e ficou um momento a ordenar as ideias.

– Olha, Gustavo – disse por fim. – Se aquelas palmadas me tivessem sido dadas por um homem a quem eu não amasse, não me teriam dado prazer nenhum. Sei disto por experiência. Se me tivessem sido dadas para me forçar a uma submissão indesejada, não me teriam provocado outra coisa que não fosse revolta. Entendes isto?

– Claro que entendo.

– O meu prazer não esteve em ser castigada. Esteve em poder ser castigada. Esteve em tu teres esse direito. Nunca mais te pedirei um castigo como te pedi hoje, mas aceitarei sempre com gratidão todos os que me deres, por mais severos que sejam. Não me interessa que mos dês por eu os ter merecido, ou que mos dês porque te dá prazer. Em todo o caso dar-mos-ás porque tens esse direito. É isto que precisas de saber.

– E achas que ainda não sei?

– Não acho, tenho a certeza: ainda não o sabes suficientemente. Mas hoje fizemos progressos: o teu corpo, ao menos, já sabe muito bem que sou propriedade tua.

Estas palavras, disse-as Teresa já num bocejo. Gustavo ia responder-lhe, mas viu que não valia a pena: ela já estava a dormir. Levantou-se da cama, pegou nas roupas que tinha lançado ao chão, cobriu com elas a amante, deitou-se ao lado dela e adormeceu por sua vez.

Read Full Post »

Já aqui falei do blogue da sarinha: é o Abri a Porta, e merece uma longa visita. Quem é a sarinha? É uma menina que, nas suas próprias palavras, está longe de ser submissa, o que não a impede de ser uma “spankee” entusiástica nem de se ter dado como escrava ao namorado, por quem está apaixonada. Gosto dela por uma infinidade de razões: pelo apurado sentido da observação e do ridículo que a leva a rejeitar tudo aquilo no BDSM que é pré-formatado, pela frescura das suas abordagens, pela perspicácia com que detecta os poseurs, pela alegria com que se diverte à custa deles… A sarinha não gosta lá muito de guiões nem de liturgias impostas de fora. Pelo que escreve, parece-me senhora de um temperamento exuberante e irreprimível, o que provavelmente faz com que mereça umas palmadas no rabo várias vezes por dia… mas isto é assunto dela e do dono dela.

Pois a sarinha fez-me um elogio que me deixou desconcertado. Foi num comentário na versão WordPress deste blogue. Disse-me que o meu blogue era muito fashion e perguntou-me como conseguia.

Ora bem: até agora nunca na minha vida ninguém tinha chamado fashion a nada que eu tivesse feito. Fashion?! Mas eu nunca tive a intenção de ser fashion!

(Por esta altura lembrei-me das páginas finais do Peter Pan de J.M. Barrie, quando o Capitão Hook, que toda a vida se tinha esforçado por fazer tudo segundo as normas da good form, descobre ao lutar com Peter Pan que este tem good form sem nunca se ter esforçado por isso; pior, que tem good form precisamente porque nunca se esforçou por isso; e comecei a fazer uma ideia do que a sarinha queria dizer).

O que eu sempre me esforcei por fazer foi:

a) escolher imagens que ilustrassem minimamente (por vezes de forma muito indirecta ou até a contrario) os textos publicados e que não fossem uma repetição infindável da iconografia BDSM; as imagens podem ser escolhidas num ficheiro que tenho com o mesmo nome do blogue, ou posso pesquisá-las nas imagens do Google usando uma das palavras-chave do texto; por exemplo, no a imagem que escolhi para ilustrar a parte do ensaio de Polly Peachum em que ela se refere ao seu senhor como alguém com a vocação de curar foi encontrada digitando “healer” na pesquisa de imagens do Google;

b) escolher cores de texto que condissessem com os tons predominantes das imagens, mas obedecendo à regra das cores escuras sobre fundo claro – isto, em parte, porque na minha idade já não é muito fácil ler letras vermelhas sobre fundo preto e não quero exigir dos meus leitores que façam o que para mim é difícil.

c) encontrar uma forma de formatar textos do WordPress com recursos do Blogger – por exemplo, o Blogger permite-me determinar a cor do texto enquanto o modelo Mistylook do WordPress não tem botão para isso; então eu formato o texto no Blogger, com as cores que quero, copio o texto em HTML e colo-o, também em HTML, no WordPress. Isto funciona quanto às cores; quanto ao tipo de letra e à formatação dos parágrafos não funciona.

Falhanços: não encontro maneira de sair do menu de fontes muito limitado que tanto o Blogger como o WordPress fornecem. O meu post “Acta” foi feito (com muitas alterações) a partir de um documento que eu tinha no Word e que estava numa fonte toda às voltinhas, para ser impresso num papel tipo pergaminho antes de ser assinado por mim e pela dunya. Gostava de o ter publicado nessa mesma fonte, mas não deu; nem o Blogger, nem o WordPress assumiram essa fonte: ambos a interpretaram como um itálico, e foi assim que ficou.

E pronto, fiquei a saber que sou capaz de fazer uma coisa a que uma leitora que prezo muito chama fashion. Ó p’ra mim, todo inchado!

Read Full Post »

Vendo-se ao espelho enquanto fazia a barba, Miguel interrogava-se de onde lhe vinham aqueles sonhos – logo a ele, que se orgulhava de ser um homem moderno e progressista, sensível, respeitador das mulheres e incapaz de um gesto de agressão. Miguel era um feminista convicto. No gabinete de arquitectura de que era sócio tinha conseguido que se instituísse um sistema de quotas de modo a incluir mais mulheres. Ainda bem que na faculdade de Arquitectura a cultura dominante ia no sentido da igualdade entre os sexos (entre os sexos não: entre os géneros – corrigia-se Miguel, que mesmo nos seus monólogos interiores era escrupulosamente rigoroso). Se assim não fosse não seria ele, simples professor contratado, que teria estatuto ou autoridade para mudar a situação.

E Letícia, que pensaria ela destas coisas? Miguel conhecia Letícia desde o ano em que os pais dele se tinham separado e em que a tia Margarida tinha vindo viver com a irmã. Letícia tinha dez anos e era filha duma amiga íntima de Margarida. Na superioridade dos seus catorze anos, Miguel pouco ligara à miúda escanzelada que lhe entrava pela casa dentro em visitas cada vez mais frequentes e prolongadas, que em nada se destacava a não ser por umas medalhas em campeonatos de pingue-pongue, e que nada tinha de notável a não ser o facto de andar sempre de saias e de no tempo quente a mãe dela estar sempre a mandá-la calçar.

Incomodava-o, sim, que a sua própria mãe e a sua própria tia se referissem a Letícia, meio a brincar, como “a tua prima,” e à mãe dela como “tia Berta” – sobretudo tendo em conta que sempre fora encorajado a tratar a tia por “Margarida” e a mãe por “Maria João.”

À miúda, podia ao menos tratá-la pela alcunha que ele próprio inventara: Chica Cegonha, depois abreviada para “Chica.” Com o tempo, as “tias” Margarida e Maria João, e por fim a própria Berta, tinham começado a tratá-la pela alcunha, da qual nunca tinham conhecido a versão completa. E mesmo agora, depois de se ter transformado em adolescente e em mulher, de ter estudado e começado a trabalhar, de ter comprado a sua própria habitação e de ter mostrado a sua capacidade de levar uma vida independente e regrada, Letícia continuava a ser “Chica” para a mãe, para as amigas da mãe e para o filho das amigas.

Em dezoito anos de convivência, Miguel nunca tinha fantasiado uma relação amorosa com Letícia – ou pelo menos não mais do que tinha fantasiado, durante as convulsões hormonais da adolescência, com todas as raparigas e mulheres que conhecia. Miguel não gostava muito destas fantasias, nem compreendia o prazer que lhe vinha de se imaginar uma espécie de sultão com poder absoluto sobre o seu harém. O amor não devia ser uma questão de poder, dizia-lhe sempre a mãe, com a concordância expressa da tia Margarida e da “tia” Berta. O amor devia ser uma reciprocidade, uma troca entre soberanos, um dar e receber – um negócio calculado ao milímetro, ou pelo menos assim parecia a Miguel, para que nenhuma das partes ficasse em vantagem. O rapaz concordava com estes sentimentos, é claro, embora às vezes perguntasse a si próprio se não haveria equilíbrio possível fora desta rigorosa simetria. E à noite, quando se encontrava sozinho na cama, não havia simetria, nem razoabilidade, nem justiça que resistissem ao chamamento urgente da sua imaginação inflamada. Miguel deitava-se provido de um lenço; e este lenço, enrolado à volta do pénis, transformava-se no sexo húmido e macio duma odalisca, e Miguel esvaía-se nele uma vez, duas vezes, ou mais, antes de adormecer. Uma odalisca obediente a quem Miguel podia exigir tudo e de quem obtinha tudo.

Depois, com o início de uma série de namoros, estas e outras fantasias tinham dado lugar à realidade. Todas as sucessivas namoradas de Miguel se pareciam umas com as outras, e com Maria João: sérias, idealistas, politizadas, ambiciosas. O sexo com elas era perfeitamente aceitável e não deixava por satisfazer nenhuma necessidade que tivesse que ser compensada à noite, com recurso ao lenço. Também Letícia tinha tido vários namorados ao longo dos anos, e Miguel tinha conhecido alguns deles: rapazes sérios, inteligentes, urbanos, sensíveis, que mereciam quase sempre – tal como, de resto, as namoradas de Miguel – a aprovação sem reservas das três mulheres mais velhas.

Miguel olhou-se ao espelho e desejou, não pela primeira vez, ter um nariz menos aquilino, um olhar menos penetrante e um cabelo menos rebelde. “Pareço uma coruja,” pensou. E sorriu ao recordar-se da indignação que esta comparação tinha provocado na Diana – a namorada com quem tinha ficado mais tempo, quase dois anos.

– Qual coruja? – exclamara ela. – O que tu tens é um ar altivo, como um falcão. Coruja agora, que ideia…

– Pronto, está bem – rira-se ele. – Coruja ou milhafre é a mesma coisa.

Com essa namorada, recordou-se Miguel, tinha vivido um episódio que ainda hoje o perturbava. Estava com ela na cama e tinha-a penetrado, talvez com mais ímpeto do que habitualmente. Ela arquejara como que de dor; e Miguel tinha diminuído o ritmo, indeciso sobre se devia pedir desculpa. Mas ela tinha-o abraçado com força e tinha-lhe dito que sim, que lhe fizesse doer. Depois de uma hesitação, Miguel tinha-a beliscado nas nádegas, depois nos seios e nos flancos; e perante a reacção dela tinha-se aventurado a dar-lhe algumas palmadas, que lhe tinham soado tão alto que imaginou que se poderiam ouvir nos apartamentos vizinhos. Diana tinha tido um orgasmo que parecera nunca mais terminar; mas minutos depois, quando Miguel quisera falar sobre o acontecido, tinha negado que alguma vez tivesse feito tal pedido. E Miguel nunca mais tinha tido vontade de fazer o mesmo, nem com Diana, nem com ninguém. Mas lembrava-se do episódio com mais frequência e mais aprazimento do que lhe parecia correcto. Nos dias seguintes, enquanto duraram as nódoas negras provocadas pelos beliscões, Diana tinha evitado despir-se diante dele.

Semanas depois o namoro tinha acabado; mas tinha acabado, pensava Miguel, por razões que não tinham nada a ver com beliscões nem com palmadas.

Read Full Post »

E estava nesta galhofa quando a música, de repente, mudou. Vivaldi, As Quatro Estações. O Verão. Mariana pôs-se de pé num salto ágil e começou a caminhar em direcção a Ricardo em bicos de pés, em passinhos rápidos e a medo como se pisasse areia quente. Em vez do sorriso aberto e descarado de segundos antes, ostentava agora uma expressão de concentração, quase de dor; e naquele meio-andar, meio-correr, tremiam-lhe os seios.

A voz dos violinos era toda claridade e brilho. A um gesto de Mariana todas as luzes da sala se acenderam, um conjunto feérico de lâmpadas incandescentes, fluorescentes, de halogéneo, de luz negra; algumas tinham sido instaladas por Mariana – ou pelo menos assim pareceu a Ricardo – expressamente para aquele momento, de modo a fazer resplandecer tudo o que ali fosse branco. Sob a luz branca e forte, a própria tijoleira vermelha escura pareceu adquirir a cor de salmão clara que Ricardo recordava de uma certa casa no Algarve. Mariana, de frente para ele, colocava um pé diante do outro e abria os braços numa pose de equilibrista, e Ricardo viu-a de novo a caminhar sobre os seixos duros da praia que lhe resvalavam debaixo dos pés. Durante esse encontro tinha-a obrigado pela primeira vez a andar descalça em casa e na rua.

Durante o mesmo fim de semana Ricardo tinha ejaculado, pela primeira de muitas vezes, na boca de Mariana. Que também ela se recordava disto, mostrou-o ao ajoelhar-se (desta vez, porém, com as pernas escarranchadas, a exibir o sexo), formando um O com a boca e movendo a cabeça para trás e para diante ao som da música. Tinham sido dois dias com tantas coisas novas, tantas barreiras ultrapassadas… Lembrar-se-ia Mariana que nesse dia, antes de chupar o sexo do dono, lhe tinha beijado os pés? Sim, lembrava-se: Ricardo viu-a levantar-se, aproximar-se dele e ajoelhar-se de novo para repetir, com simulado constrangimento, um acto de submissão e homenagem que depois, com o tempo, se lhe tinha tornado natural.

A vontade de Ricardo, por esta altura, era agarrá-la pelos sovacos e forçá-la a erguer-se o suficiente para ele lhe poder enfiar o sexo na boca. O que o corpo lhe pedia não era que ficasse ali, molemente enterrado no sofá como um sultão saciado, mas sim que se lançasse como um tigre sobre a presa. Conteve-se, porém. Obrigou-se a ficar quieto enquanto Mariana agia, comandava, dirigia tudo. Quando ela se afastou de novo sem sequer lhe aflorar com os lábios a ponta do pénis, Ricardo quase gemeu de frustração; mas deixou-se estar respeitosamente sentado, espectador atento do acto de comemoração e homenagem que a sua escrava criara para ele e para si própria. Apenas os olhos lhe dançavam, competindo em vivacidade com a música que enchia a sala. As mãos, mal esboçavam um movimento em direcção àquele corpo que tão intensamente o tentava, logo se retraíam e uma voz dentro dele proibia:

– Não, ainda não; espera…

Ainda faltava muito para que Mariana dançasse toda a história do seu amor e da sua escravidão. Pois seja, pensou Ricardo. Vou aguentar até ao fim ainda que rebente de desejo.

Afinal não foi preciso esperar tanto. Mal se extinguiram os últimos acordes de Vivaldi, Mariana pegou no comando à distância e desligou a aparelhagem.

– Queres comer? Ou queres outra coisa?

– Anda cá, escrava – respondeu-lhe Ricardo. – Sabes muito bem o que eu quero.

Mariana correu para ele, risonha, ajoelhou-se-lhe aos pés e começou a desabotoar-lhe as calças.

– Ai sei, sei. Só se esta escrava fosse ceguinha é que não via esse volume dentro das calças do dono.

E começou a chupar-lhe o pénis: sem requintes, sem delongas, sem tentativas de prolongar o prazer, apenas com a preocupação de o fazer chegar ao climax o mais rapidamente possível. Mas o prazer de Ricardo não foi menos intenso por lhe ser ministrado de forma tão expedita: pelo contrário, manifestou-se num orgasmo que lhe veiodeveras das profundezas do corpo. Mariana engoliu tudo, continuou ainda por uns momentos a chupá-lo e a lambê-lo, levantou-se, e sugeriu-lhe que fosse tomar duche e vestir o roupão enquanto ela preparava alguma coisa de comer. Ao sair do quarto de banho, Ricardo viu que Mariana já não estava completamente nua: tinha posto um avental que a tapava à frente deixando ver os seios pelos lados, e por trás as nádegas roliças. Assim se manteve enquanto tomaram os dois uma refeição ligeira, ele sentado à mesa, ela de pé a a preparar e a servir a comida.

– Senta-te outra vez no sofá – disse-lhe ela no fim.

Ricardo ficou a vê-la enquanto ela levantava a mesa com a mesma eficiência e rapidez com que lhe tinha chupado o pénis; depois ouviu-a a cirandar na cozinha; e por fim viu-a voltar à sala.

– Agora, meu Senhor, vou continuar a dançar para ti. Posso?

– Dança, minha escrava.

Mariana tirou o avental. De novo toda nua, ligou a aparelhagem e o ar encheu-se das vozes esganiçadas de um coro de mulheres:

Também o mar é casado, ó ai,
…………Também o mar tem mulher.
…………É casado com a areia, ó ai,
…………Bate nela quando quer.

Era a Figueira da Foz, é claro. A noite que tinham passado no hotel, as palmadas nas nádegas que Ricardo tinha dado a Mariana e que tinham feito com que ela se desexcitasse – para se voltar a excitar logo a seguir com uma excitação nova e diferente, que nunca mais a tinha deixado… Mariana dançava com os braços no ar, rodopiava, corria, marcava o fim de cada verso com um bater do pé no chão. Mas sem aviso a música mudou, agora era Juliette Gréco a cantar Les Feuilles Mortes:

Mais la vie sépare ceux qui s’aiment,
…………Tout doucement, sans faire de bruit,
…………Et la mer éfface sur le sable
…………Les pas des amants desunis.

No embalo da música, Mariana ondeava os quadris, os ombros, os braços, e caminhava na direcção de Ricardo para logo refluir como o mar. Mas não por muito tempo, que não se queriam ali canções sobre amantes separados. A voz rouca de Gréco calou-se a meio da frase para ceder de novo o lugar às das varinas:

O mar enrola na areia,
…………Ninguém sabe o que ele diz.
…………Bate na areia e desmaia
…………Porque se sente feliz.

A desmaiar de felicidade sentia-se Ricardo, enquanto observava extasiado o voltear da amante, tão depressa junto dele a oferecer-se toda, como – subitamente esquiva – no canto oposto da sala. Esta liberdade que Mariana assumia, nos movimentos da dança, de se negar ao seu senhor e dono era pura ficção, que mais não fazia do que acentuar o facto, por assim dizer normal, de Ricardo a possuir e de ela ser possuída por ele. Um único gesto dele bastaria para que Mariana desligasse a música e se lançasse aos pés do amante, pronta a satisfazer-lhe o mínimo ou o mais exigente dos caprichos. Ambos sabiam isto muito bem, e porque o sabiam é que esta dança lhes parecia uma excursão para fora do mundo e das suas responsabilidades, um conto das Mil e Uma Noites contado e recontado ali bem perto, na Alhambra.

(Continua)

Read Full Post »

Prendas de Natal

Read Full Post »

Older Posts »