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Cap. 38: VAIVÉM

[ … ] Depois da aula, em casa, Teresa serviu o almoço a Raul; à tarde viu um filme, sentada aos pés dele, sem saber o que aconteceria a seguir. À noite, Milena serviu o jantar sozinha porque Teresa recebera ordem de se arranjar com especial cuidado para o jantar.

– Fica de seios nus, mas não os maquilhes – disse Raul. – Põe os teus rubis.

Para acompanhar o jantar, Raul escolheu Mozart: a Sinfonia nº 38, o Concerto de Piano nº 23 e Eine Kleine Nachtmusik. Terminada a comida e a música, ordenou a Teresa que fosse buscar Ana, que estaria à sua espera, a casa de Miguel.

– Veste o teu casaco mais quente por cima do tronco nu, põe um cachecol e um gorro, mas não te calces. Deixa aqui a Ana, volta para casa do Miguel e fica à disposição dele até ele te mandar para casa.

Atordoada, Teresa nem sequer foi capaz de dizer “sim, meu senhor”, mas também não pensou em desobedecer. Estava desvendado o mistério: ia ser emprestada a outro homem; o seu dono, o seu senhor querido, de quem pensara ser a única escrava, ia servir-se doutra mulher; e não sabia qual das duas coisas lhe doía mais. Foi ao quarto de banho e arranjou-se para sair, sempre com aquele “sim, meu senhor,” que não dissera, a soar-lhe aos ouvidos como um mantra. Agasalhou-se, pegou nas chaves do Smart, desceu ao estacionamento, entrou no carro e foi onde Raul a enviara.

A própria Ana lhe abriu a porta, muito agasalhada mas, tal como Teresa, com os pés nus.

Durante o percurso não falaram. Cada uma estava perdida na contemplação do futuro imediato: iam ser cedidas, iam ser traídas. Não: traídas, não. Ambas se davam conta, mais agudamente que nunca, que Raul e Miguel não lhes pertenciam. Talvez tenha passado pela cabeça de Ana revoltar-se; mas, ao ao ver a expressão de Teresa – pálida, orgulhosa e decidida a obedecer custasse o que custasse – resolveu-se a orientar o seu comportamento pelo dela. Teresa entrou com o carro na garagem subterrânea e acompanhou Ana até à porta do apartamento para a entregar a Raul.

– Entra, Ana – disse este. – E tu, Teresa, podes ir. Obedece ao Miguel em tudo.

Sim, meu senhor, pensou Teresa. Fez o segundo percurso até casa de Miguel num estado de perturbação ainda maior do que tinha feito o primeiro. Já não contemplava apenas o seu futuro próximo, mas o presente que se desenrolava atrás de si, entre Raul e Ana. Sim, meu senhor. Estariam estas palavras, neste momento, a ressoar também na cabeça de Ana? Ou, mil vezes pior, estariam a sair-lhe dos lábios, dirigidas a Raul? Apertou o volante com as mãos até os nós dos dedos lhe ficarem brancos: Não, não era possível. Tudo, menos isso.

Miguel recebeu-a à porta. Ajudou-a a tirar o casaco, pegou-lhe no cachecol e no gorro, que arrumou, e quando a viu nua da cinta para cima não fez qualquer comentário.

– Anda comigo – disse.

O aquecimento central não era tão eficiente aqui como no apartamento de Raul, mas a temperatura não era demasiado desconfortável, nem para os pés nus, nem para o tronco nu de Teresa. Seguiu Miguel para o quarto, onde ele lhe ordenou que acabasse de se despir e tirasse as jóias.

Teresa obedeceu prontamente e em silêncio. Miguel encostou-se à ombreira da porta a vê-la tirar a saia e as jóias.

– Anda cá – disse Miguel.

Teresa avançou até ficar de pé a meio metro dele, que lhe tomou as mãos para as aquecer por um momento entre as suas e depois a beijou na boca, que ela não abriu mas também não fez força para manter fechada.

– Despe-me – disse ele.

Teresa começou por lhe tirar a T-shirt preta e arrumou-a nas costas duma cadeira. Como devo agir, pensou Teresa, com um homem que não é o meu senhor, mas a quem tenho que obedecer? Não lhe beijaria os pés, a não ser que ele lho ordenasse, nem lhe daria quaisquer outras mostras duma humildade que não sentia em relação a ele; mas obedeceria em tudo, e esforçar-se-ia o mais que pudesse para lhe dar prazer. Ajoelhou-se para o descalçar: as sapatilhas eram difíceis de tirar, tinham muitos cordões e era preciso fazer força. Ainda de joelhos, desapertou-lhe o cinto e as calças. Miguel ajudou-a a tirar-lhas, levantando alternadamente os pés; ela endireitou-as e arrumou-as junto com a T-shirt. As cuecas tinham uma mancha húmida que as tornava transparentes. Ajoelhou-se para lhas tirar, mas desta vez não se voltou a erguer: atirou as cuecas para junto da outra roupa e só então olhou para o membro erecto à sua frente. Era diferente do de Raul, mais comprido e mais fino, e completamente a direito. Como não tinha sido circuncidado, a glande era mais vermelha e parecia molhada.

– Chupa-me o pénis.

Sim, meu senhor, disse ela intimamente a Raul; não te deixarei ficar mal. Tomou na boca este pénis que não conhecia: havia de usar as carícias que Raul lhe tinha ensinado, ou as que tinha aprendido nos seus anos de puta? Qual destas opções honraria melhor o seu senhor? A primeira, claro: Raul tinha emprestado a Miguel a sua própria escrava, não uma puta qualquer apanhada na rua. Miguel gemeu de prazer com esta carícia, que ela continuou até ele lhe ordenar que se deitasse na cama e abrisse bem as pernas, entre as quais se ajoelhou para lhe ver o sexo. Viu os anéis de titânio que o transfixavam, fê-los oscilar um a um com a ponta do dedo e suspirou:

– Se eu pudesse, mandava fazer o mesmo à Ana…

Passou-lhe a mão lentamente pelo ventre, pelas ancas, beijou-lhe os seios, e finalmente ordenou:

– Estás seca, masturba-te um pouco.

Teresa enrubesceu até ao peito, mas obedeceu. Se estivesse com Raul, não estaria seca; estaria já quase à beira dum orgasmo. Mas Miguel tinha direito a que ela lhe apresentasse uma vagina bem lubrificada, que ele pudesse penetrar à vontade. Começou a acariciar o clítoris, imaginando que eram os dedos de Raul, até que ficou pronta a ser possuída. Miguel pôs um preservativo, deitou-se sobre ela, penetrou-a sem brutalidade – mas também sem uma ternura excessiva que só a humilharia – e começou a mover-se dentro dela. Teresa não teve qualquer dificuldade em usar as técnicas do pompoar, que se estavam a tornar automáticas para ela. Os movimentos dele tornaram-se mais rápidos e vigorosos e a respiração mais ofegante. E foi neste momento que Teresa sofreu a maior humilhação da sua vida:

– Vem-te agora – disse Miguel.

E ela teve o orgasmo que não tencionara ter, um orgasmo intenso que a obrigou a abraçar Miguel, a colar-se a ele apaixonadamente, a procurar-lhe a boca e a língua como procurava a boca e a língua de Raul; e tudo isto desencadeado por duas pequenas sílabas, uma ordem seca dada por outro homem. Já sabia que o seu corpo obedecia a Raul sem intermediação da sua vontade, e tinha orgulho em tê-lo treinado para isto; mas nunca imaginara que este treino o fizesse obedecer assim a outro homem. Quem era ela, a quem o seu próprio corpo não obedecia? Em que se estava ela a transformar? Passara os últimos meses a transformar-se, deliberada e metodicamente, na escrava de Raul; mas nunca tinha sido sua intenção tornar-se no seu próprio ser uma escrava, obediente por reflexo a certas ordens, dadas num certo tom fosse por quem fosse. Não tinha sido ela a transformar-se nisto; tinha sido Raul que a transformara. Sentiu uma indignação que lhe subia ao peito, logo cancelada pelas palavras que tantas vezes dissera, e não em vão: sou tua, faz de mim o que quiseres. Se estava a transformar-se, não no que planeara, mas no que Raul queria, isto não podia ser senão justo. Era humilhante, esta obediência reflexa a outro homem; mas não a fazia escrava dele: fazia-a, sim, mais escrava de Raul. Virou a cara para não ver Miguel, mas sentiu com agrado as suas carícias. Ficou-lhe grata quando ele, pudicamente, foi tomar duche sozinho e lhe permitiu que fizesse o mesmo. Já não o encontrou no quarto, onde vestiu a saia e pôs as jóias. Foi encontrá-lo na sala, já vestido, e sentiu vergonha dos seus seios nus como não tinha sentido ao entrar. Miguel deu-lhe um beijo leve na boca, a que ela correspondeu, e disse:

– Podes ir, o Raul telefonou. Não entres na garagem: espera à porta do prédio. Tranca o carro. Abre-o só para deixar entrar a Ana.

Mas Miguel ajudou-a rapidamente a vestir-se e deu-lhe um beijo à despedida, desta vez na cara.

Ao ficar sozinho com Ana, Raul pegou-lhe na mão e conduziu-a à sala.

– Entra, Ana. Põe-te à-vontade. Dá cá o casaco.

Ana tirou os agasalhos, que ele entregou a Milena para que os arrumasse.

– Dá uma volta para eu te ver – disse Raul.

Ana rodou sobre si mesma e voltou-se de novo para ele.

– Estou bem? – perguntou.

Estava linda, pensou Raul. Não estava de seios nus, como Teresa, mas sim com um top que lhe descobria o umbigo. A saia, preta e um pouco transparente, tinha a cinta muito descaída, e caía em pregas largas até aos tornozelos. Todos os adornos eram de prata, e o cabelo estava cuidadosamente penteado de modo a parecer que o não estava.

– Senta-te – disse Raul.

Ana sempre tinha visto Teresa sentada no chão, nunca no sofá, mas sentiu um certo acanhamento que a impedia de fazer o mesmo. Ia sentar-se na borda do sofá quando Raul lhe disse:

– Podes sentar-te no chão. Queres tomar alguma coisa?

Ana acenou que não. Raul pegou-lhe na mão, sentou-se no sofá, muito perto dela, e perguntou-lhe:

– Sabes para o que estás aqui?

– Para fazer tudo o que o senhor mandar – disse Ana.

– Então anda comigo, minha querida.

Quando chegaram ao quarto, Ana quis dar-se algum tempo. Não se sentia pronta para se despir já, como uma puta; e tinha necessidade de falar, de se justificar.

– O senhor vai-me possuir?

– Sim, querida, vou-te possuir – respondeu Raul, pronto a dar-lhe o tempo de que ela precisasse.

– Sabe, o Miguel é o único homem a quem me submeti até hoje… Já não era virgem quando comecei com ele, mas nunca tinha sido submissa de ninguém.

– E agora vai difícil obedecer-me.

– Um pouco – respondeu Ana. – Mas com o senhor sou capaz. Foram o senhor e o Miguel que decidiram sozinhos, não foram? A Teresa não entrou nessa decisão…

– Fomos nós sozinhos – respondeu Raul.

Esta resposta tornava tudo mais fácil. Se Teresa tivesse conspirado contra ela…

– Estão no seu direito… – murmurou. – Quer que me dispa agora?

Raul mandou-a tirar só o top. Ana tinha os seios um pouco mais pequenos que os de Teresa, de forma cónica, e com as aréolas dum rosado muito claro que quase não fazia contraste com a pele. Tapou-se com as mãos, mas logo se destapou, como se tapar-se fosse uma falta. Raul sorriu:

– Uma escrava não tem direito ao pudor, não é, minha querida?

– É verdade… – murmurou Ana, corando.

Raul mandou-a tirar a saia e deitar-se na cama, onde ficou apoiada sobre um cotovelo, olhando para ele enquanto ele se despia. Raul era o homem mais velho que Ana já tinha visto nu: não soubera o que esperar, mas afinal era um homem como os outros, mais atraente que muitos. A primeira carícia que ele lhe fez, entre o pescoço e o ombro, fê-la estremecer; mas devolveu-lha, tocando-lhe no peito; e beijou-o timidamente na boca. Raul deitou-se de costas, cruzou as mãos sob a nuca e disse:

– Anda tu por cima, Ana. Mostra-me o que sabes fazer.

Ana tinha a certeza que sabia fazer tudo. A experiência que tinha com homens era muito pouca, limitava-se quase só a Miguel. Sabia dar prazer a Miguel, e portanto devia ser capaz de dar o mesmo prazer a Raul. Pôs-se de gatas por cima dele, deixando pender os colares e as correntes, e começou a beijá-lo nos olhos, nas orelhas, na boca, nos mamilos… Quando estendeu a mão para lhe agarrar no pénis, ele disse que não, ainda não… Ainda não, porquê? Miguel gostava… Mas obedeceu e continuou a beijá-lo, progredindo devagar até lhe chegar ao sexo depilado, tão confortável de meter na boca. Quando começou a chupá-lo, sentiu a mão dele entre as pernas, que abriu para lhe dar espaço.

Raul começou por lhe tactear os lábios exteriores da vulva, de comissura a comissura, primeiro de um lado e depois do outro. A seguir, percorreu a fenda entre eles e, quando chegou ao extremo desta, continuou a acariciá-la entre as pernas, no rego entre a vulva e o ânus. Regressando à vulva, mais fina e mais comprida que a de Teresa, separou-lhe com os dedos os lábios exteriores e começou a afagar-lhe os interiores, que eram nela muito rosados e um pouco proeminentes. O toque de Raul era duma delicadeza extrema: Ana nunca tinha sido acariciada neste lugar por uma mulher, mas imaginava que seria assim, e era muito bom… Por um momento perdeu a concentração, mas ouviu Raul, que lhe dizia:

– Ana, presta atenção, não pares…

Não podia parar de chupar Raul. Estava ali para o servir: tinha sido essa a ordem, muito clara, que Miguel lhe dera. Mas como podia ela ignorar aqueles dedos que se lhe insinuavam pelos folhos da vulva, lubrificados pelos sucos da vagina? Raul descobria-lhe agora o pequeno capuz que lhe escondia o clítoris; este já tinha a pontinha de fora, mas Raul, com infinitos cuidados, afastou o capuz para trás de maneira a descobri-lo mais, e começou a titilar com movimentos rápidos o botãozinho que tinha deixado a descoberto. Ana não sabia o que queria, se queria que ele continuasse a fazer isto por toda a eternidade ou que a penetrasse e possuísse sem delongas. Mas sabia o que Miguel havia de querer: que ela se concentrasse e continuasse, até ordem em contrário, a chupar o melhor que soubesse o pénis de Raul. A ordem em contrário não se fez esperar muito:

– Vem agora, minha querida. Empala-te em mim.

Ana assim fez, com um pequeno gemido. Coleou por Raul acima, deitou-se sobre ele com as pernas abertas, pegou-lhe no pénis para o apontar exactamente à abertura da vagina, e baixou-se sobre ele, sentindo como ele a enchia por dentro. Os movimentos de Raul dentro dela foram, ao princípio, quase imperceptíveis: queria dar-lhe oportunidade de mostrar do que era capaz; e ela, que não queria outra coisa, começou a combinar o que sabia que agradava a Miguel com o que sabia de pompoar.

Raul, deliciado, reteve o orgasmo. Começou a acariciar Ana nas nádegas e nas costas, beijando-lhe a boca, os mamilos, o pescoço sempre que ela se inclinava o suficiente para lhe chegar ao alcance dos lábios. Viu-lhe corar o rosto e o peito, ouviu-lhe a respiração transformar-se num gemido e logo a seguir num arquejo; sentiu como os músculos da vagina se apertavam, já não como no pompoar, mas num tremor involuntário; e esvaiu-se dentro dela com três estocadas fortes, ouvindo-a exclamar:

– Sim, Miguel, sim, vem-te em mim, meu querido!

Mais tarde, com ela estendida sobre ele, escondendo o rosto na curva do braço, ouviu-a dizer:

– Que vergonha, Raul… Chamei-lhe Miguel…

Raul riu-se, obrigou-a a encará-lo e respondeu:

– Tolinha… Pensas que isso me ofendeu? Pelo contrário, até me lisonjeou. Mas agora vá, toca a lavar e a vestir, que tens o teu dono à espera.

Teresa parou o Smart à porta do prédio. Alguém devia ter coordenado as coisas muito bem, porque não passaram mais do que uns segundos até Ana aparecer. Um grupo de rapazes e raparigas, à conversa ali perto, devem ter ficado um pouco admirados ao vê-la dirigir-se para o carro toda agasalhada, mas descalça. Teresa ligara o aquecimento: esperou que Ana se ajeitasse com o cinto de segurança e arrancou: a quinta vez que fazia o mesmo percurso nessa noite. Ao princípio não disseram nada, embora por vezes Ana desse a impressão de querer dizer alguma coisa. Por fim, não se conteve:

– Como te tratou o Miguel?

Teresa não compreendeu: queria Ana saber se Miguel a tinha tratado bem? Que importância tinha isso? Não eram ambas escravas?

– Não é isso – disse Ana. – O que é que ele te chamou? Chamou-te minha escrava?

– Não – disse Teresa, elucidada. – Chamou-me sempre Teresa.

Teresa gostou de sentir Ana relaxar ao seu lado, como que aliviada de um peso.

– E o Raul – perguntou. – Chamou-te minha escrava?

– Não, chamou-me Ana e minha querida. E eu também não lhe chamei meu senhor.

Teresa envolveu-se toda no prazer desta resposta: Raul fizera com Ana o que quisera, mas não lhe chamara minha escrava.

– Também me chamou tolinha…

Então puseram-se as duas a rir, em paroxismos tais que Teresa teve que parar o carro até recuperar o controlo sobre si mesma. Tolinha… e de cada vez que uma delas dizia esta palavra, a outra respondia:

– Cala-te, não me faças rir.

E assim foram até casa de Miguel, onde Teresa esperou que Ana entrasse, gelando de novo os pés.

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Cap. 34: TITÂNIO

Entretanto havia a viagem ao Brasil, documentos a regularizar, dossiers médicos a organizar, contactos a estabelecer… Os piercings de Teresa iam ser aplicados por um cirurgião, porque os aros de titânio não podiam ser trabalhados no local. Os furos tinham que ter à partida o diâmetro e a curvatura correctos, e o acesso a eles exigia incisões, de modo a que os aros, completos com os ilhós em que deslizariam, entrassem de lado; e por fim havia que suturar estas incisões. Este procedimento exigia uma anestesia local e era muito mais complicado que o que se pratica nos ateliers, mas a cicatrização, devido à precisão dos cortes, ia demorar menos que os dois meses habituais.

O voo para São Paulo demorou quase dez horas, e a transferência para a clínica mais uma. Na mesma noite em que chegou, Teresa ficou internada: o dia seguinte seria dedicado a exames e análises, e no terceiro seriam implantados os anéis. A própria clínica, situada ao lado do parque Ibirapuera, tratou do alojamento de Raul num hotel próximo. Assim, pôde estar presente na primeira consulta com o cirurgião, que já tinha em seu poder um modelo dos quatro piercings que ia colocar. Cada peça consistia em dois anéis que entrariam parcialmente na carne de Teresa. Estes anéis, distantes um do outro por cerca de um centímetro, estavam unidos por uma barra que ficaria de fora; desta barra saía outra, na ponta da qual havia mais um aro. Esta barra engatava, por meio de ranhuras, na que lhe correspondia no lábio oposto, de modo a que os lábios ficassem apertados naquele ponto e os aros da ponta ficassem justapostos sobre a longitude da vulva.

– Reparem os senhores que o engate não é perfeito – disse o cirurgião. – Há um pouco de folga. Isto é propositado: os engates não podem ter arestas vivas, para não machucar; e têm que engatar sem repuxar os tecidos. Depois de os aros de cima engatarem… assim… será possível segurá-los com um cadeado. A senhora deseja piercings de cada lado do clítoris e da vagina, não é verdade?

– Sim – disse Raul – mas a uretra tem que ficar livre…

– Vou dizer-lhe a verdade: com os dois piercings apertados no lugar, a uretra ficará um pouquinho constrangida. Não terá dificuldade em urinar, mas vai ter que fazer uma higiene mais cuidada…

– Sim, nós sabemos.

– A cicatrização não vai demorar tempo demais, porque a incisão vai ser muito exacta e a sutura também. Mas precisa ter alguns cuidados. Quero falar neles aos dois para ter certeza que entendem.

– Faça favor – disse Raul.

– Hoje, a senhora irá para a o seu quarto e fará exames. Se tudo estiver certo, será operada amanhã de manhã. É uma operação muito simples, com anestesia local. Algumas suturas serão bio-solúveis, outras terão que ser removidas à medida que não sejam necessárias. Logo que possível, a senhora deverá mover um pouco os implantes para eles não colarem aos tecidos, mas sempre com muito cuidado. Não tente engatar os anéis exteriores antes de passarem três semanas. Não poderá fazer sexo vaginal antes de seis semanas, e espere oito semanas antes de usar os cadeados.

– E sexo anal? – perguntou Teresa.

– Pode fazer sexo anal passadas quatro semanas, mas tem que fazer logo a seguir uma higiene muito completa de toda essa parte de seu corpo, usando um bom anti-séptico. Agora a enfermeira vai levar a senhora ao seu quarto. O senhor poderá vir de visita a qualquer hora entre as dez da manhã e as dez da noite. Se tudo correr como esperamos, ficará internada três dias: hoje para preparação e exames, amanhã para a operação e mais um para tratamento pós-operatório. No último dia, o senhor também deverá estar presente para a enfermeira ensinar alguns cuidados que deve ter. Depois, a senhora deve descansar, não pode fazer muito esforço; pena que não possa visitar nossa cidade como ela merece.

– E pompoar, quando posso fazer? – disse Teresa.

– Exercícios de Kegel? Pode fazer daqui a quatro ou cinco dias: até ajuda a recuperar. Mas ao princípio faça com muito cuidado, ouviu? Se lhe doer, nem que seja um pouquinho, pare logo.

Depois disto, Raul foi posto delicadamente na rua. Um funcionário da clínica conduziu-o de automóvel ao hotel. No dia seguinte só o deixaram visitar Teresa de tarde: encontrou-a um pouco combalida e impaciente por não a deixarem pôr-se de pé. Para a entreter, Raul descreveu-lhe o hotel, o passeio que tinha dado de manhã, alguns factos que tinha apurado sobre a clínica:

– Sabes que como teu acompanhante tenho direito a alguns tratamentos de graça? Limpeza facial, drenagem linfática… tenho que ver melhor o catálogo.

Teresa fez-lhe sinal de que lhe queria falar ao ouvido, e quando ele se inclinou disse-lhe:

– Só não os deixes modificar-te o pénis, gosto dele exactamente como é.

E ao sentir-se sacudida de riso acrescentou, como se a culpa fosse dele:

– Ai, não me faças rir, que me dói…

Raul deu o suspiro os homens que dão há milénios quando confrontados com a injustiça feminina, ajeitou-lhe a inclinação da cama para ela ver melhor a televisão, beijou-lhe os lábios e perguntou:

– Estás bem assim?

– Estou bem, não te preocupes. Que livros são esses?

– Alguns são para ficar aqui, os outros para eu levar para o hotel.

– Não vais sair à noite?

– Não é preciso. Ligo para a recepção e eles mandam-me uma moça da cor e feitio que eu quiser.

– Para te acender o charuto e servir o whisky, não é?

– Pois claro. Para que mais havia de ser?

– Então manda-a passar por aqui para eu a ensinar. Não quero o meu senhor mal servido…

Riram-se os dois e ficaram algum tempo de mão dada, um pouco enleados, sem saberem bem o que dizer um ao outro. Por fim, foi ela que o mandou embora:

– Anda, vai. Também precisas de descansar. Eu fico bem, daqui a pouco apago a luz.

O dia seguinte foi passado na clínica, onde Teresa já podia passear uns minutos nos jardins.

– Esta coisa ainda me incomoda – disse ela no fim de um destes passeios.

– Dói-te?

– Não, quase não me dói. Mas sinto que são objectos estranhos… Hei-de habituar-me, está claro.

No terceiro dia Teresa teve alta. Antes de sair, uma enfermeira levou-a com Raul a um quarto mobilado como o duma casa particular, com um quarto de banho normal, e ensinou-lhes alguns procedimentos que teriam que seguir no futuro: muita água, muito sabonete, muita água oxigenada, muita circulação de ar, e tudo sempre o mais seco possível.

– Melhor andar de saia sem calcinha, moça… Não vai ter vergonha, vai?

Agora, havia que ocupar os dias. Teresa achava frustrante ter forças para andar e não o poder fazer tanto quanto queria. Os passeios no parque eram dados em passo lento, o que, se por um lado os fazia durar mais, por outro impacientava Teresa, que sempre gostara de caminhar depressa. Raul apontava-lhe os animais e as plantas, que naquele início de primavera brasileira animavam o parque com sons e com cores: assim conseguia que ela se detivesse por momentos e não forçasse demais o corpo.

Na primeira noite que passaram juntos, Teresa decidiu que era tempo de voltar a assumir os seus deveres de escrava: depois dos beijos profusos e das demoradas carícias do reencontro, ajoelhou-se à frente dele, num gesto tão gracioso que dava a impressão de já nada lhe tolher os movimentos, e pediu:

– Meu senhor, não queres gozar na minha boca? Há tanto tempo que não te sirvo…

Raul olhou-a nos olhos:

– Lembras-te de como eu te ensinei, minha escrava?

– Como não havia de me lembrar, meu senhor? Vou-te mostrar…

Raul desapareceu no quarto de banho da suite – aqui dizia-se banheiro – para reaparecer cheirando a sabonete e vestido com o pijama que ela lhe tinha oferecido. Sentou-se na poltrona e ordenou:

– Anda cá, escrava, e abre-me o pijama.

Quando Teresa obedeceu, compreendeu a razão de ele ter vestido o pijama: estava completamente depilado na púbis e na zona genital, e tinha querido fazer-lhe uma surpresa.

– Ficas bonito, meu senhor – disse Teresa.

Gostava, com efeito, de o ver assim. Agradava-lhe que ele não tivesse depilado as pernas nem as coxas, particularmente junto às virilhas, onde a pelugem é mais sedosa. Só depilara o escroto, a púbis e o ventre até ao umbigo. O pénis, assim, parecia maior, e viam-se melhor os testículos.

– Quando voltar a servir-me de ti pela vagina – explicou Raul – não quero que os meus pelos se enredem nos teus piercings. Comecei a fazer depilação a laser aqui na clínica. Em Portugal, continuo.

Teresa sabia que o seu prazer não contava, mas não se pôde impedir de sentir que agora era mais agradável metê-lo na boca, sem ter que cuspir pelos. Começou a chupá-lo como ele lhe tinha ensinado, com ternura e respeito; mas desta vez experimentou uma técnica que tinha inventado: virar a cabeça para os lados de modo a poder acariciar-lhe a glande com a mucosa macia do interior das bochechas. De que ele gostou, não teve dúvidas. Mas também ela tinha uma necessidade o satisfazer, uma necessidade que não era física mas emocional: renovar a dádiva de si que estava no centro do seu amor por ele. Por isso se dedicou tanto, por isso apressou a carícia até sentir a boca inundada de esperma.

Limpou-o com a boca e com a língua: outra vantagem de ele se ter depilado era que esta limpeza era agora muito mais fácil. Depois sentou-se no chão, apoiou a cabeça nos joelhos dele e disse:

– É estranho como chupar-te me faz sentir propriedade tua mais do que qualquer outra coisa… e já estava a precisar de me lembrar, meu amor. Nunca deixes de usar a minha boca.

– Não, minha querida – respondeu Raul. – Também eu te sinto mais escrava quando te ajoelhas para me servir, e não quero nunca prescindir de te possuir assim…

Dois dias depois de sair do hospital, Teresa foi com Raul ao consultório do cirurgião. O médico ficou tão satisfeito com a evolução dela que chamou Raul para junto de si:

– Venha, venha ver… Olhe aqui, no interior dos anéis, como os tecidos estão a cicatrizar… Se continuarem assim, as cicatrizes vão ficar quase invisíveis, e os aros vão ficar bem firmes… É bom sua mulher ter os labia majora tão grandes e resistentes. Mas não se esqueçam que a cicatrização completa demora muito mais que a cicatrização visível… É importante que respeitem os prazos que eu lhes dei.

– Nós sabemos, doutor – disse Teresa. – Vamos respeitá-los à risca…

Teresa não se permitia a impertinência de andar calçada no hotel: considerava que este era, de momento, a casa de Raul, onde tinha de mostrar humildade e respeito; mas nos jardins ele mandou que ela usasse havaianas: um passo em falso, provocado por qualquer pedra no caminho, seria perigoso.

Nos dias seguintes, Teresa tirou os pontos. Onde os anéis de titânio lhe entravam na carne, a pele estava muito fina e rosada, mas não lhe doía nem apresentava sinais de inflamação. Um automóvel alugado com motorista permitiu-lhe visitar com Raul alguns centros de interesse e percorrer duma ponta à outra a enorme Avenida Paulista. Uma noite, aproveitaram a proximidade do Auditório Ibirapuera para irem ouvir a Sinfonia Fantástica de Berlioz: o edifício de Niemeyer impressionou-os, e a música, furiosamente romântica, harmonizava-se com o seu estado de espírito. Passavam, porém, tanto tempo no hotel que Raul ganhou o hábito de se servir de Teresa pela boca mais vezes por dia do que seria de esperar de um homem com quase cinquenta anos. Teresa, que já tinha aprendido muito sobre as preferências dele nesta área, teve ocasião de aprender ainda mais, agora que nada se interpunha entre ela e a pele dele: a infinita leveza com que era preciso beijá-lo ou tocá-lo no escroto, o prazer que era possível dar-lhe passando-lhe a língua no períneo, a maior profundidade a que era agora possível engoli-lo e a necessidade de reaprender a não se engasgar … A ideia de se dedicar durante várias semanas exclusivamente a chupá-lo seduzia-a particularmente, a ponto de nem lhe interessar muito que ele a acariciasse. Tinha-lhe dito um dia que por vezes fantasiava não ser para ele mais do que uma cona; pois agora tinha a oportunidade de não ser mais do que uma boca; durante alguns dias concentrou-se em aproveitá-la e não se importou de andar com os maxilares sempre doridos. Agora que fazia cada vez mais da boca uma vagina de substituição, Teresa achava-se cada vez menos no direito de falar. Sem que ele lho ordenasse, ganhou o hábito de pedir autorização antes de iniciar qualquer conversa:

– Posso falar, meu senhor?

Algumas vezes teve a surpresa de o ouvir dizer não, a ele que tanto gostava de a ouvir; mas estes silêncios impostos eram preenchidos, por um lado, por uma tensão erótica que a fazia cantar por dentro, e por outro por toda uma linguagem de gestos e olhares que era quase uma telepatia. Mas este período mágico tinha que terminar. No dia anterior ao do regresso a Portugal, Teresa, meio morta de vergonha, telefonou para a recepção a perguntar se lhe podiam indicar uma sex-shop que não fosse longe dali. Deram-lhe a indicação pedida, mas informaram-na que o próprio hotel poderia mandar entregar no quarto qualquer artigo mais corrente que a senhora desejasse. Era apenas um lubrificante, disse Teresa. Se era só isso, não precisava de ir à sex-shop: quando voltasse ao quarto, depois de a faxineira o arrumar, encontraria o que desejava no banheiro. E foi assim que Teresa deu a Raul a última abertura do seu corpo que lhe faltava utilizar. Bastou-lhe deitar-se nua sobre a cama, colocar uma bisnaga de lubrificante sobre a mesinha de cabeceira de modo a que ele reparasse, e pôr-se de bruços à espera.

– Queres dar-me o teu cuzinho? – perguntou Raul.

– Não te posso dar o que não é meu – respondeu Teresa. – O meu cu sempre foi teu, mesmo que nunca te tenhas querido servir dele. Mas, se não é ousadia uma escrava exprimir um desejo, gostava que te servisses dele hoje.

Raul deu uma risada:

– É verdade, já é meu – observou. – E é verdade, és uma escrava muito ousada.

– Aqui dizem abusada – interrompeu Teresa.

– Ousada ou abusada, vou-te fazer a vontade: prepara-te, porque não vou ter dó de ti.

Despiu o roupão e começou a acariciar as nádegas de Teresa, que se levantavam de encontro à mão dele como se tivessem vontade própria. A esta carícia seguiram-se duas ou três leves palmadas, que lhe rosaram a pele e a fizeram respirar um pouco mais fundo. Quando a viu ficar um pouco excitada, Raul pôs um pouco de gel nos dedos e começou a massajá-la em volta da abertura de trás, aproximando-se cada vez mais do centro e acabando por lhe introduzir o dedo indicador, primeiro só até à primeira articulação, depois até à segunda, por fim até à base.

Quando lhe encostou ao ânus a ponta do pénis, que também tinha lubrificado cuidadosamente, disse-lhe que fizesse força para fora, como se estivesse a fazer sair qualquer coisa e não a deixá-la entrar. Teresa sorriu: este truque, conhecia-o ela dos seus anos de puta. Sempre tinha tentado evitar o sexo anal, mas nem sempre isto dependera da sua vontade. Mas agradou-lhe que Raul a tratasse como a uma jovem inocente; e de facto, desde a última vez que tinha sido possuída por trás, tinham-se passado tantos anos que o rabo se apertara de novo. Apesar Raul de ter tido todo o cuidado em lubrificá-la e em lubrificar-se, teve muito menos ao penetrá-la. Isto agradou a Teresa: sexo por trás é para doer, pensou; e embora gemesse de dor, virou a cara para e entreabriu os lábios num convite a que ele a beijasse.

O voo de volta foi mais difícil para Teresa do que tinha sido o de ida. Raul tinha comprado lugares em primeira classe, para que Teresa, sentada sobre os seus piercings, tivesse mais amplitude para ajustar a sua posição no assento – necessidade esta que ter o rabo dorido tornava agora mais premente. Reservara um lugar junto à coxia, para que ela se pudesse pôr de pé algumas vezes. Mas tratava-se dum voo nocturno, e Teresa também dormiu não podia passar o tempo todo a passear pela coxia.

Chegaram a Pedras Rubras, estremunhados, às nove da manhã. À sua espera estava Milena, muito engomada no seu uniforme de empregada, e com ela Ana e Miguel, que os acompanharam a casa. Depois do pequeno-almoço, Raul mandou Teresa deitar-se no sofá, levantou-lhe a saia e examinou-lhe o sexo: nos pontos de inserção dos piercings, a carne estava um pouco inchada e avermelhada. Depois do duche, que tomaram juntos, Raul fez questão que ela se secasse bem antes de ele próprio aplicar a pomada desinfectante e anti-inflamatória que o médico tinha receitado. Passaram o resto da manhã na cama, a descansar e a conversar. Almoçaram em casa, servidos por Milena, que pôs sobre a cadeira de Teresa a almofada mais macia que havia em casa; e de tarde passearam um pouco a pé: foram até à Rotunda da Boavista, à Casa da Música, tiraram fotografias um ao outro como um par de namorados e pediram a um casal de turistas que os fotografasse juntos.

– Espere, deixe-me tirar os sapatos! – disse Teresa.

Enquanto a senhora, já de cabelos brancos, lhe segurava os sapatos para que não ficassem caídos no chão a estragar a foto, o marido tirava-lhes o retrato, sorrindo com indulgência da veleidade romântica de Teresa.

De novo em casa, Raul foi para o escritório e mandou Teresa de novo para a cama: queria-a de pé ou deitada; mas sentada, o mínimo possível. À noite não quis possuí-la por trás: era sua intenção fazê-lo raramente, de modo a que a abertura se mantivesse sempre apertada. Ele também acha que por trás é para doer, pensou Teresa; e pôs no beijo que deu a Raul um pequeno extra de ternura.

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Cap. 33: NO LIMITE

Nas semanas seguintes, Ana e Miguel tornaram-se frequentadores do Justine, primeiro na companhia de Raul e Teresa, depois, muitas vezes, sozinhos. Conversando com as pessoas que conheceram, depressa se aperceberam que o compromisso absoluto de Raul e Teresa era muito mais radical do que era costume no meio. Não era uma questão de mais submissão ou menos submissão, mais dor ou menos dor, mas daquilo em que cada um centrava os seus desejos e a sua ideia de felicidade. Antes de frequentarem o Justine, Ana e Miguel pensavam que, quando uma pessoa submissa encontrava uma pessoa dominante, a história tinha chegado mais ou menos ao fim: pouco mais restava do que serem felizes para sempre. Verificavam agora que isto estava longe de ser o caso: era difícil encontrar o dominante certo para o submisso certo, e no Justine, como em qualquer outro lugar, não faltavam corações partidos. Aprenderam também a tolerância, uma vez que os centros do desejo eram quase tantos como as pessoas à sua volta: para uns a moda e o fetiche, para outros a dor física ou a humilhação, para outros a restrição de movimentos, para outros a entrega – que não era a mesma coisa que dádiva; alguns praticavam a monogamia mais estrita, outros viam a expressão máxima do domínio na cedência a terceiros do submisso ou da submissa, sem lhe permitir qualquer escolha quanto à identidade, quanto ao número, ou quanto ao sexo, da pessoa ou pessoas a quem temporariamente servia.

Quase sempre os centros do desejo eram múltiplos, o que tornava tudo ainda mais complicado. Miguel e Ana estavam convencidos que eram o dominante certo para a submissa certa, mas nem por isso deixaram de beneficiar do convívio que tiveram com outros frequentadores do bar. Não os surpreendeu a adesão quase fanática de todos a uma ética muito rígida e muito simples que se exprimia na máxima “safe, sane and consensual”: uma regra como esta era necessária num meio em que se cruzavam personalidades e desejos tão diversos, e era uma boa base para que a comunidade pudesse organizar uma rede informal mas eficaz de protecção mútua contra predadores e psicopatas.

Raul e Teresa eram menos assíduos. Quando ia ao Justine, Teresa costumava levar, enfiado na vagina, o primeiro óvulo de controlo remoto que Raul tinha adquirido. O óvulo mais recente, operado por telemóvel, nunca era usado no Justine e raramente noutros lugares: só algumas vezes, quando Teresa ia às compras ou encontrar-se com amigos e familiares. No Justine, Teresa estava sempre consciente que, estivesse a fazer o que estivesse – a falar com outros frequentadores do clube, a arranjar-se nos lavabos, a trazer uma bebida ao dono, a qualquer momento se poderia desencadear no interior do seu corpo, sem aviso, aquela vibração que para a sua sensibilidade continuava a misturar sofrimento e prazer. Miguel perguntou a Raul onde podia adquirir um aparelho semelhante, e passados poucos dias Ana passou também a usar um óvulo na vagina; mas para ela a sensação era de puro prazer.

Ana e Miguel não se tratavam por “meu senhor” ou “minha escrava”; perante terceiros, ele referia-se a ela como “a Ana” – ou, no Justine, “a trilby” – e ela a ele como “o meu Dono”. Descontadas estas formalidades, que não eram importantes, a sua relação parecia encaminhar-se numa direcção semelhante à de Raul e Teresa. Isto preocupava um pouco o par mais velho, que se sentia responsável e sabia que nem todas as relações de domínio e submissão se conformam a modalidades tão exigentes como a que tinham escolhido para si próprios. Preocupava-os a possibilidade de os dois jovens fazerem uma escolha que mais tarde um ou outro não pudesse suportar. Por isso viam com bons olhos a maneira como eles se iam integrando na comunidade: assim podiam conhecer outras formas de domínio e submissão e construir por si próprios a que mais se adaptava às suas necessidades particulares.

Um assunto que discutiam muito era o que aconteceria se as necessidades de um deixassem alguma vez de corresponder às do outro.

– Mas não correspondem? – perguntava sempre Raul.

– Correspondem – respondia sempre Ana ou Miguel. – Mas se não correspondessem, como era?

– Em teoria prevaleceriam as necessidades do Miguel – preconizava Teresa, radical como sempre.

– Mas na prática – prevenia Raul – têm que ter algo em comum para que os desejos de um possam enriquecer os do outro. É este o vosso caso, parece-me, e por isso não vejo porque se preocupam. Teriam razão para se preocuparem, por exemplo, se para um de vós uma coisa qualquer tivesse um valor simbólico ou erótico muito grande, que a tornasse indispensável, e para o outro essa coisa fosse absolutamente insuportável.

– Mas por outro lado – disse Teresa durante uma destas conversas – se aquilo que o senhor exige não for de todo insuportável para a escrava, esta dificuldade até pode ser uma coisa boa: pode ser uma forma de tornar a escrava mais escrava. É como os meus pés nus: no imaginário do Raul os pés nus sempre foram um símbolo importante de humildade e submissão. Agora já o são também no meu imaginário, que por isso mesmo está mais rico: já faziam antes parte dele, mas tinham outro significado, diferente e mais limitado. Este significado não se perdeu, apenas se lhe acrescentou o que Raul lhe deu. Claro que andar descalça é muitas vezes um grande sacrifício, e por vezes, em público, quase morro de vergonha. Mas para mim vale a pena: uma escrava que não esteja preparada para fazer sacrifícios grandes não merece o nome de escrava.

[ …]

Raul sorriu levemente, fez-lhe uma pequena festa no rosto e virou-lhe as costas para ir pousar o chicote na banca. Depois voltou com cordas para lhe amarrar os pulsos e os tornozelos aos quatro cantos do rectângulo formado pelas colunas. Teresa deixou-se amarrar docilmente; fechou os olhos e começou a murmurar repetidamente “amo-te, amo-te, amo-te”, como se a repetição infinita desta verdade fosse o mantra que a ia proteger na provação que a esperava.

– Agora vou-te vendar – disse Raul. – Posso?

Para não interromper o “amo-te, amo-te, amo-te” que continuava a dizer baixinho, Teresa limitou-se a acenar que sim. Se estivesse em estado de achar graça a alguma coisa, teria sorrido por ele ter pedido permissão para a vendar quando não precisava de permissão para nada do que estava a fazer. Continuou a dizer baixinho “amo-te, amo-te, amo-te” enquanto tentava prever ao fim de quantas chicotadas começaria a gritar.

Começou a gritar logo à primeira, um berro agudo e ensurdecedor que dificilmente se acreditaria que pudesse ficar confinado entre as paredes do quarto, ou sequer da casa. Esta chicotada atingiu-a obliquamente nas nádegas, marcando um traço que ia da parte superior da esquerda à inferior da direita. A segunda atingiu-a horizontalmente e um pouco mais acima, arrancando-lhe um grito tão forte como o primeiro. Das que se seguiram, nenhuma correspondia a nada que ela pudesse ter imaginado ser capaz de suportar. Mais do que todas as outras, doeram-lhe as que a atingiram no rego entre as nádegas e as coxas; mas por esta altura já se tinha cansado de gritar. Os primeiros gritos que soltara tinham sido emitidos num soprano cristalino, mas pouco a pouco foram enrouquecendo até se tornarem urros que quase nada tinham de humano. E mesmo estes acabaram por dar lugar a arquejos de aflição, entremeados de rosnidos de fera encurralada.

O chicote não fazia um silvo tão agudo como o da vergasta, e o som que fazia ao contactar com a carne não era tão seco. Mas a dor era inconcebivelmente maior, maior do que qualquer punição que Teresa já tivesse recebido.

Quanto tempo durou isto? Não é possível contá-lo, nem em segundos, nem em minutos, nem em número de golpes desferidos. Teresa só soube que o seu tormento tinha terminado quando Raul lhe tirou a venda. Olhou à sua volta, espantada: o quarto era o mesmo, o mundo não tinha mudado. Quando Raul lhe libertou os tornozelos, esfregou os pés um no outro, tentando restaurar a circulação. Depois, quando ele lhe libertou os pulsos, as mãos voaram-lhe para onde tinham estado antes de ele a amarrar: cruzadas em frente ao sexo, escondendo-o, tapando-o, negando-o ao olhar e ao desejo do macho. Raul não lhe ordenou que descruzasse as mãos: pôs-se em frente dela, olhou-a nos olhos – que ela não conseguiu furtar aos dele – disse-lhe “amo-te” e foi de novo buscar o chicote.

Teresa bem sabia para que era agora o chicote, era para ela o beijar: e nesse momento sentiu-se invadir por uma tal revolta, que numa fracção de segundo, na sua imaginação, saiu dali, vestiu-se, fez a mala, chamou um táxi, foi para o aeroporto e regressou ao seu apartamento no Corso Magenta. Mas na realidade, o que fez foi ajoelhar-se e beijar o chicote, sem que Raul precisasse de lho ordenar. Depois levantou os olhos para o dono e viu-o imóvel, de pé, à espera. À espera de quê? Que mais que queria ele ainda? Que ela lhe dissesse o que disse, é claro:

– Obrigada, meu dono.

No momento em que estas palavras lhe saíram da boca aconteceu uma coisa que a fez sentir ódio por si mesma: enrubesceu, os lábios entreabriram-se, os quadris rodaram num círculo imperceptível, como se tivessem vontade própria, e sentiu-se a ficar molhada. Este ódio por si própria, assim como veio, assim desapareceu; a vergonha a que ele deu lugar também teve a vida curta; a excitação, essa sim, permaneceu – e com ela surgiu-lhe na alma um sentimento de orgulho que a levou a repetir:

– Obrigada, meu senhor. Amo-te. Faças de mim o que fizeres, hei-de amar-te sempre.

Esta expressão de submissão não lhe amainou de todo a revolta: uma coisa era aceitar, por sua deliberada vontade, a dor que ele lhe quisesse dar, outra era responder-lhe com uma reacção involuntária do corpo. Mas não, estava a ser injusta: o acto de vontade tinha vindo antes, tinha sido responsabilidade sua; e se o corpo estava de acordo com a vontade, não merecia censura. Rola os quadris, escrava, entreabre a boca, semicerra os olhos, pensou Teresa. Afasta as pernas. Deixa que a cona se molhe. Tens direito a tudo isso: fui eu, enquanto mulher livre, que to dei.

[ … ]

Nem fazer segredo, nem fazer alarde, pensou Teresa. Era este o princípio que ela e Raul tinham adoptado. Numa aula de dança, em que está presente apenas um número limitado de pessoas, vestir-se como de costume não seria fazer alarde, tapar-se toda é que seria fazer segredo. Já o tinha feito uma vez, não ia fazê-lo de novo. Vamos lá ver o que acontece, pensou, e apresentou-se na aula com uma saia vermelha de cintura baixa que lhe deixava a descoberto quase todas a zonas do corpo onde tinha sido chicoteada.

O que aconteceu foi espanto, repulsa, solicitude e indignação. Não serviu de muito explicar que tudo se tinha passado com o seu consentimento: somente nalguns casos a indignação deixou de ser contra Raul e passou a ser contra ela. Em algumas das mulheres presentes, porém, a indignação foi mais convencional que sentida; houve as que ficaram um momento pensativas e não disseram nada; e Ana, é claro, ficou fascinada, querendo saber tudo, se tinha doído muito, se tinham feito amor depois, se ela própria seria capaz de suportar o mesmo, se Miguel quereria alguma vez, ou poderia, castigá-la assim.

– Se o Miguel te fizesse isto, suportavas?

– Claro que suportava! – respondeu Ana.

– Não sabes o que dói… – disse Teresa. – Dói mesmo muito, e parece que dura séculos.

– Não interessa, suportava e agradecia – respondeu Ana.

Teresa ficou sem saber se tamanha certeza lhe vinha do auto-conhecimento, dalguma necessidade antiga, ou apenas da extrema juventude, que não teme nada. Dançou particularmente bem nesse dia; se isto a fez subir ou descer na consideração das colegas, nunca chegou a sabê-lo.

[ … ]

Era um Setembro quente, mais quente do que tinha sido Agosto. Nestes primeiros dias do mês, Teresa tinha sido punida quase diariamente com uma variedade de instrumentos, uns mais dolorosos do que outros, mas o chicote que lhe causara a dor maior e as marcas mais fundas não voltara a ser usado. Cada punição confirmava o que Teresa já sabia: que a expectativa a excitava um pouco; que a experiência, enquanto durava, lhe tirava toda a excitação; e que se voltava a excitar, confirmando-se como escrava de Raul de um modo cada vez mais inegável, no momento em que se ajoelhava para beijar o chicote e para agradecer o castigo. Teresa compreendia e aprovava a intenção, que adivinhava em Raul, de transformar esta confirmação em rotina: não bastava que o “obrigada” e o “amo-te” que proferia ritualmente fossem verdade, como de facto eram: era preciso que se tornassem inevitáveis, automáticos, evidentes, a tal ponto que a sua eventual omissão se tornasse, ela sim, uma mentira.

Uma noite, Raul colocou um banco almofadado entre as duas colunas, mandou-a sentar e atou-lhe os pulsos aos capitéis, esticando-lhe os braços. Para dar folga às cordas, bastaria a Teresa pôr-se de pé, mas ele apertou-lhe um cinto aos quadris e atou-o com cordas a duas argolas na base das colunas. Agora ela já não poderia aliviar a tensão dos braços, mesmo que quisesse; mas mesmo assim Raul esticou as cordas ainda mais. Teresa ainda tinha os pés assentes no chão, mas ele amarrou-lhe os tornozelos, fê-la levantar as pernas e amarrou as pontas das cordas às mesmas argolas a que tinha amarrado os pulsos: Teresa tinha agora os braços e as pernas no ar, as nádegas assentes no banco, e o sexo arreganhado, todo à vista. Foi nesta posição que ele a vergastou, assentando-lhe os golpes na pele fina do interior das coxas, na parte de baixo das nádegas, e sobretudo na vulva. Teresa já tinha desistido de comparar dor com dor: já tinha aprendido que a punição que dói mais era sempre a que estava a sofrer no momento. Entregou-se toda à dor; ou, melhor dizendo, não foi preciso entregar-se, porque a dor se apoderou dela como sempre, totalmente, sem deixar lugar para qualquer outra sensação ou pensamento.

[ … ]

Dias depois, teve mais uma sessão de depilação eléctrica, e temia que a esteticista lhe visse as marcas da vergasta. De facto ainda as tinha, mas não sentiu a vergonha que teria sentido uns meses antes. A esteticista, quando as viu, comentou que a senhora afinal estava habituada a dores piores do que as que ela lhe provocava; para além disto não teve qualquer reacção, a menos que por reacção se contasse o especial cuidado com que a tratou. As pessoas nunca são quem julgamos, pensou Teresa, ao dar-se conta de que não sabia a que atribuir aquela vaga simpatia da esteticista: entrariam ali todos os dias mulheres com marcas de vergasta no sexo? Todas as semanas? Todos os anos? Ou teria sido ela a primeira, destinada talvez a ser também a última? Teria esta jovem tranquila visto alguma vez marcas semelhantes noutros contextos, noutros corpos, quem sabe se no seu próprio? Quantos mundos existem à nossa volta, diferentes uns dos outros, diferentes daquele que julgamos estar a ver?

[ … ]

De tarde vestiu uma saia que tanto servia para andar na rua como para dançar. Na parte superior do corpo pôs um choli que, ao contrário dum top rígido, permitiria que os seios lhe oscilassem sem terem que ficar nus, escandalizando as outras alunas. Na aula, prestou atenção a todas as instruções da professora, de modo a que todos os movimentos fossem exactos e perfeitos mas ao mesmo tempo fluidos e soltos.

– Hoje dançou muito bem – disse-lhe a professora. – Houve momentos em que pareceu inspirada.

Antes de ir lanchar com Ana, Teresa queria passar pelas colegas e pela professora uma folha em que elas pusessem os endereços para lhes poder enviar os convites para o casamento. Recolhida a folha, verificou que algumas a tinham passado adiante sem escrever nada: estavam no seu direito. No dia seguinte de manhã, depois da aula de pompoar, passou outra folha e ficou contente porque desta vez todas as colegas escreveram os seus endereços. Esta aula foi a primeira em que as alunas usaram vibradores; mas, ao contrário do que Teresa chegara a temer, desligados. O objectivo era ver se eram capazes de sugar o vibrador para dentro da vagina e de o expulsar sem usar outros músculos além dos que tinham estado a exercitar nas aulas anteriores. Teresa não foi das que tiveram mais dificuldade, mas o esforço foi tão grande que, ao saber que mais tarde se esperaria dela e das colegas que sugassem e expulsassem o vibrador dezenas de vezes seguidas, duvidou que tal fosse possível.

Teresa sempre tinha exercido uma profissão, e isto tinha-lhe alargado o mundo. Até puta fui, pensava por vezes, cada vez com menos amargura mas talvez com mais melancolia. Depois decidira dedicar-se inteiramente a Raul, mas sempre com uma réstia de medo que esta opção a confinasse a uma estreiteza de vida que não desejava. Verificava agora que o amor e o sexo, a obediência e o serviço prestados a um senhor, podem constituir uma ocupação a tempo inteiro, exigindo organização, disciplina e um treino intenso e difícil. Não se sentia menos digna como escrava do que se tinha sentido quando era uma mulher de carreira no mundo do jornalismo e da moda; tinha passado, pelo contrário, dum estatuto virtual para um estatuto real que a fazia sentir-se mais presente no mundo.

Foi assim, serena e segura de si como uma matriarca antiga, que assistiu à assinatura dos últimos papéis e ao cumprimento das últimas formalidades que conferiam à sua irmã Carolina a propriedade da empresa que tinha fundado. Também Carolina teve neste dia o seu acesso a um mundo ligeiramente diferente: abandonava o proletariado, tornava-se senhora de si e não tinha ninguém a quem prestar contas. E se não se deu conta que por este caminho tão diferente tinha chegado exactamente ao mesmo ponto que a irmã, já a esta o facto não passou despercebido. O Mundo é com efeito prodigioso e vário.

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Cap.30: VIAGEM AO CENTRO DO CORPO

A caixa era bonita. Oblonga, em acrílico transparente, tinha as arestas facetadas. No interior do material tinha filamentos dourados que desenhavam rosas. A base estava protegida por uma camada de material brando e translúcido, de um rosa cor de carne.

− É para não riscar a mobília – explicou Teresa.

Tinha servido o jantar fardada de criada, coadjuvada por Milena, e, depois de se ter ido vestir para o serão com Raul, trouxera esta caixa que ele agora examinava. À transparência, viam-se duas esferas com quatro a cinco centímetros de diâmetro, da mesma cor que a base da caixa, unidas por um cordão. Quando Raul abriu a caixa, viu um tabuleiro, também em acrílico, com depressões circulares em que se fixavam as esferas. Os desenhos a ouro não o tinham deixado ver que uma das esferas, além de estar ligada à outra, estava presa a outro cordão mais fino que se dobrava sobre si mesmo e se unia a ela pelas duas pontas. Olhou para Teresa e pegou nas esferas: eram de silicone, muito macias, e davam-lhe, ao sopesá-las, uma estranha sensação de desequilíbrio.

− São ocas – explicou Teresa. – São bolas ben-wa. Estas têm outras esferas mais pesadas que se movem dentro delas. A minha professora de pompoar diz que é altura de começarmos a treinar com bolas, trouxe uma colecção delas para nós escolhermos, e pronto, eu trouxe estas para casa para tu veres. São as mais caras que ela trouxe, porque são em silicone e porque as de dentro são em aço inoxidável; também gostei muito da caixa, e tu?

Raul sabia o que são bolas ben-wa, mas nunca tinha visto nenhumas. Sabia que podiam ser usadas no pompoar ou nos exercícios de Kegel. Aprovava cordialmente o facto de estas serem em silicone, que do ponto de vista da higiene é o melhor material, e quanto aos pesos internos não tinha objecção.

− Os cordões são de nylon? – perguntou.

Eram de nylon: mais uma vez o ideal do ponto de vista da limpeza. Perguntou a Teresa o preço, deu-lhe o dinheiro e comunicou-lhe que as iam experimentar imediatamente.

− A professora ofereceu-nos um frasco de lubrificante juntamente com as bolas – disse Teresa. – Assim entram melhor. Está no quarto de banho: vou buscar?

− Vai – disse Raul.

Teresa saiu da sala e regressou com um frasco de plástico, equipado com uma cânula, como os que se vendem nas sex shops. A uma ordem de Raul, levantou as saias, deixando o sexo à mostra. Utilizando a cânula, lubrificou a entrada e o interior da vagina; depois untou as bolas e limpou as mãos a um dos toalhetes húmidos que tinha trazido consigo.

Raul foi lavar as mãos. Quando voltou, Teresa estava recostada no sofá, com o sexo à mostra e uma perna levantada. Quando Raul se sentou no outro sofá, Teresa colocou uma das bolas à entrada da vagina e empurrou-a com o dedo, introduzindo-a facilmente.

− Agora tenho que puxar a outra para dentro – explicou.

Mas, por mais que tentasse, não conseguiu sequer que a bola de dentro puxasse a de fora até a alojar junto da entrada. Raul levantou-se, lubrificou o indicador da mão direita e introduziu o dedo na vagina de Teresa, empurrando gentilmente a bola de dentro até a outra ficar em posição.

– Consegues agora? – perguntou.

Mas mesmo assim Teresa não conseguia. Por fim, sem deixar de tentar usar os músculos da vagina, empurrou a outra gentilmente com o dedo, até só ficar de fora o cordão.

− Levanta-te – ordenou Raul.

Teresa levantou-se, deixando cair a saia, que de novo a cobriu até aos tornozelos. Deu uns passos pela sala, mas de repente soltou um ai alarmado: uma das bolas tinha-lhe saído da vagina e puxava pela outra, que ela procurava desesperadamente reter mas que acabou também por cair no chão.

− A professora bem nos disse – observou Teresa. – Ao princípio não ia ser fácil, mas quando estivéssemos treinadas seríamos capazes de andar o dia inteiro com elas sem as deixar cair… Dá para acreditar? E eu, pronto, tive logo que escolher as maiores e mais pesadas… se calhar não vou conseguir.

− Se tu não conseguires – respondeu Raul – então mais nenhuma das tuas colegas consegue. Quando tens a próxima aula?

− Amanhã de manhã, às dez.

− Então a seguir almoças comigo e depois vamos buscar uma pessoa ao aeroporto.

− Quem? – perguntou Teresa.

Curiosity is not becoming in a kajira – respondeu-lhe Raul, dando-lhe uma palmada no rabo.

Teresa deu uma pequena risada e foram os dois lavar as bolas ben-wa: primeiro com água e sabonete, depois deixando-as imersas por uns minutos numa mistura de água da torneira e um pouco de água oxigenada, e por fim lavando-as de novo.

No dia seguinte, ao almoço, Teresa disse a Raul que tinha conseguido andar quase dez minutos pela sala de aula com as bolas postas, sem as deixar cair. A professora tinha ficado impressionada. O que ela não conseguia ainda, era puxar as bolas para dentro sem o auxílio do dedo; nem sequer a primeira, que segundo a professora era a mais fácil.

− E agora estou toda dorida. Se hoje me possuíres, não sei se te vou servir como deve ser.

− Eu dou um desconto – disse Raul, e pegou-lhe na mão para lhe beijar a concavidade da palma.

Depois, ainda no restaurante, mandou-a descalçar:

– Dá-me as havaianas.

Quando Teresa lhas deu, Raul embrulhou-as num saco de plástico e guardou-as na pasta. Teresa, que andava descalça com toda a naturalidade em lugares como Porto Cristo, não se conseguia habituar a fazê-lo no Porto, onde toda a gente olhava para ela e onde o chão não primava pela limpeza. A pessoa que foram buscar ao aeroporto vinha de São Paulo e chamava-se Clodomiro dos Reis, segundo o cartaz que Raul ergueu na zona de chegadas. Clodomiro dirigiu-se a Raul com um sorriso e estendeu-lhe a mão. Era um mulato pouco mais velho que Teresa, alto e bem constituído. Vinha vestido com umas calças azuis-escuras perfeitamente vincadas e um pólo azul-claro que parecia acabado de passar a ferro. Alguma coisa na aparência dele sugeria uma ligação às profissões médicas, e Teresa perguntou-se o que viria ele fazer ao Porto; mas como a curiosidade não fica bem a uma kajira, calou-se.

– Dr. Raul Morgado? – disse o viajante. – Como está o senhor?

– Dr. Clodomiro? Bem, obrigado, e o senhor? Esta é a minha escrava Teresa.

Era raro que Raul apresentasse Teresa a alguém como sua escrava; o facto de o ter feito agora sobressaltou-a e fez com que hesitasse antes de cumprimentar o recém-chegado com uma vénia. Mas este não pareceu surpreendido e disse, estendendo-lhe a mão:

– Ah, Teresa. Já ouvi falar muito de você, sabe, meu bem? Como está você?

Teresa não era acanhada, mas foi no tom sumido duma adolescente tímida que respondeu:

– Bem, obrigada, senhor…

Chegados ao carro, Raul mandou Teresa sentar-se no banco de trás para poder falar à vontade com Clodomiro, a quem começou por pedir desculpa por tê-lo feito vir de tão longe. A suite reservada no hotel estava pronta, um dos compartimentos com a marquesa, a mesa de apoio e os candeeiros que Clodomiro tinha especificado. Se Clodomiro não se importava, podiam ir já para lá. Chegados ao hotel, subiram os três ao último andar (Teresa agudamente consciente da curiosidade que os seus pés nus provocavam em todas as pessoas com quem se cruzavam), e Clodomiro abriu a porta da suite. Teresa viu-se num pequeno átrio com três portas, uma das quais abria para um vulgar quarto de hotel, outra para o quarto de banho e a terceira para um compartimento mobilado como um consultório médico.

Clodomiro pediu algum tempo para se preparar e Raul sugeriu voltar com Teresa meia hora mais tarde: estava bem assim? Estava, respondeu Clodomiro.

No bar do hotel, enquanto tomavam um café e uma água mineral, Teresa deixou escapar as palavras que tinha retidas no peito:

– Meu senhor, estou nas tuas mãos, mas diz-me: o que é que se vai fazer de mim lá em cima?

– Nada de difícil – respondeu Raul. – O Clodomiro vai-te tirar algumas medidas, e provavelmente fazer algumas recomendações. Depois vamos para casa, ele vai comer um almoço que para ele é jantar, e passado um bocado, se fizer como eu faria no lugar dele, toma um comprimido para dormir, uma dose reforçada de melatonina, e vai para a cama. Amanhã de manhã cedo, venho buscá-lo para o levar ao aeroporto e tu podes ficar a dormir.

– Não é dele que eu estou a perguntar, meu senhor, é de mim. Que medidas me vai ele tirar?

– Pronto, não te atormento mais – disse Raul. – O que o Clodomiro vai medir com toda a exactidão é a tua vulva. Sim, a tua vulva: o comprimento total, as dimensões do clítoris e do seu capuz, a protuberância e espessura dos grandes lábios e dos pequenos lábios, as distâncias entre a comissura superior dos grandes lábios e o clítoris, entre o clítoris e a uretra, entre a uretra e a vagina, entre a vagina e a comissura inferior, e outras medidas que sejam necessárias. As dimensões da vulva variam muito de mulher para mulher, como sabes, por isso é que é preciso tirar medidas. Depois, em São Paulo, é que o Clodomiro vai desenhar e fazer os piercings em titânio de que te falei.

– Só não compreendo porque é que esse desenho e essa colocação têm que ser tão exactas, meu senhor. Muitas mulheres põem piercings nos lábios vaginais sem ser preciso nada disso.

– Pois bem, minha escrava – disse Raul. – Chegou a altura de saberes um pouco mais. Vais ter quatro piercings nos grandes lábios, um de cada lado do clítoris e um de cada lado da vagina. Estes piercings vão estar concebidos de forma que cada um encaixe no do lado oposto de modo unir os grandes lábios sem os repuxar.

– Deixa ver se compreendo: quer dizer que com os piercings encaixados não vou ter acesso nem à minha vagina, nem ao clítoris…

– Não, mas é preciso deixar-te a uretra tão livre quanto possível, de modo a que possas fazer xixi sem grande dificuldade. Já estás a entender porque é que as medidas têm que ser exactas?

– Sim, estou a ver – disse Teresa. – Mas os anéis vão-se poder desencaixar, não vão?

– Claro que sim – respondeu Raul. – Caso contrário, como é que eu me ia poder servir de ti? Quando eu não quiser que os desencaixes, estão previstas aberturas para dois pequenos cadeados.

Cadeados?! Quem é que alguma vez tinha falado em cadeados?! Com o sobressalto, Teresa derrubou o copo de água que tinha à sua frente. Enquanto o empregado limpava o balcão do bar e trazia uma nova garrafa de água, Teresa teve de ficar silenciosa; e ainda bem, porque durante esta pausa teve tempo de se lembrar do que dissera minutos antes: que estava totalmente nas mãos de Raul; e que muitas vezes o tinha instado, sem qualquer hipérbole ou metáfora, a fazer dela o que quisesse; de modo que quando o empregado os deixou de novo a sós se limitou a perguntar como iam ser os cadeados.

– Vão ser fabricados na Suíça especialmente para ti, de acordo com o desenho que o Clodomiro fizer depois de teres os piercings no sítio. A ideia é que sejam o mais pequenos e mais leves possível, mas de alta segurança, e que não oxidem nem causem reacções alérgicas. Por isso vão ser feitos em titânio e aço cirúrgico.

Teresa ficou calada, numa espécie de melancolia feliz. Ter o sexo fechado à chave, e a chave nas mãos do homem que amasse, era uma fantasia que começara a ter, sabia lá, aos treze ou quinze anos, e que nunca a tinha abandonado. O que nunca esperara, era vê-la realizada tão de repente, tão sem consulta, tão sem aviso. Estou realmente nas tuas mãos, pensou; e quando ele subiu de novo para a suite acompanhou-o docilmente, sem sequer reparar, desta vez, nos olhares curiosos que os seus pés nus atraíam. Quando bateram à porta, foram recebidos por Clodomiro, vestido com uma bata branca. Tinha revestido a marquesa com uma protecção de papel e tinha-a colocado com a parte dos pés virada para a janela aberta. Perto da janela, Clodomiro tinha colocado dois potentes focos apontados à marquesa. Numa mesa ao lado repousavam, em tabuleiros de aço, vários instrumentos de medida: réguas, calibradores, compassos e outros objectos de que Teresa não sabia o nome nem a utilidade.

– Tire a saia, meu bem, e deite-se de barriga para cima com os pés para a janela – disse Clodomiro, enquanto calçava umas luvas de cirurgião. – Abra um pouco as pernas, mas não muito.

Durante vários minutos, Teresa sentiu o contacto frio de vários instrumentos com as suas partes íntimas. Nenhum destes contactos a excitou, e de resto parecia-lhe que Clodomiro tinha encenado tudo de modo a evitar qualquer excitação sexual da parte dela. Quando Teresa pensou que tudo estava terminado, ele mandou-a virar-se de barriga para baixo.

– As dimensões de sua vulva não são as mesmas em todas as posições, você sabia? Abra as pernas para eu medir de novo.

A cada medida que tirava, Clodomiro pronunciava algumas palavras para um microfone que trazia preso à lapela da bata. No fim foi chamou Raul:

– Chegue perto, por favor. Vou precisar de sua ajuda.

Raul aproximou-se da marquesa e perguntou em que podia ajudar.

– Fiz todas as medições em sua escrava sem a excitar. Agora preciso medir com ela excitada, e é para isso que preciso do senhor.

Teresa tremeu de indignação; e embora entendesse o despropósito deste sentimento, só a disciplina a que se obrigara a impediu de se recusar. Raul fez-lhe uma festa na face e beijou-a:

– Linda menina…

Depois começou a apalpar-lhe as nádegas expostas, depositando nelas, ora um pequeno beijo, ora uma ligeira palmada. O corpo obediente de Teresa começou logo a reagir: quando Raul lhe acariciou a vulva encontrou os pequenos lábios já húmidos e o clítoris que começava a sobressair do capuz. Passado não mais do que um minuto, disse:

– Venha ver, Dr. Clodomiro. Já chega?

Clodomiro disse que sim, pediu a Raul que acariciasse Teresa noutras partes do corpo de modo a que ela não perdesse a excitação, e reiniciou todo o processo, primeiro com Teresa virada para baixo, e por fim com ela virada para cima. As dimensões da vulva, explicou, variam também com a excitação da mulher. Teresa, que na fase anterior do processo não sentira vergonha, sentia-a agora, e intensa. Escrava, pensou, sou mesmo escrava… obedeço a tudo… Mas Clodomiro ainda não tinha terminado:

– Não se cubra ainda, meu bem, ainda tenho uma coisa para falar com seu senhor.

Era bom, disse Clodomiro, que Teresa já tivesse começado uma depilação definitiva. Mas precisava de saber que tipo de depilação ela estava a fazer, e se ainda estava no princípio ou se estava adiantada, porque depois dos piercings postos não ia poder fazer depilação a laser nem a luz pulsada muito perto deles. Quando Raul lhe deu esta informação, apertou os lábios e disse:

– Então lamento, mas se o senhor quiser que sua escrava fique depilada e com piercings, ela vai ter que sofrer um pouco nos próximos dias. Vou marcar na vulva dela duas zonas onde vai ter que fazer mesmo depilação eléctrica antes de ir para São Paulo. A um aceno de concordância de Raul, Clodomiro tirou da pasta um marcador e desenhou nos grandes lábios de Teresa duas ovais alongadas: aquela zona tinha que ficar depilada num mês, mesmo que para o resto dispusesse de um ano ou dois.

– Esse desenho não vai sair lavando uma vez ou duas, tem que lavar mais, mas eu deixo ficar a caneta para você renovar.

Teresa ficou a pensar como havia de explicar a urgência na clínica de depilação, e concluiu que o melhor era dizer a verdade: afinal, quando regressasse do Brasil, não poderia evitar que lhe vissem os piercings, portanto não valia a pena fazer segredo.

Nessa noite, Teresa voltou a dormir aos pés de Raul, sentindo-se de novo meio loba; mas conhecia muito bem o seu lugar na alcateia, e não era o último. De madrugada, quando o despertador tocou e o ouviu levantar, levantou-se também para lhe preparar o pequeno-almoço. Era tão cedo que Raul só quis uma chávena de café e uma bolacha.

– Não te vistas, fica nua – disse-lhe Raul ao vê-la de pé. – Depois volta a deitar-te, ainda é cedo.

Mas Teresa já não se deitou. Estar nua e em jejum causou-lhe um arrepio, apesar da casa aquecida. Depois de Raul sair, bebeu uma chávena de café com leite, comeu uma bolacha, lavou-se e vestiu a sua farda de criada para o receber com um segundo pequeno-almoço quando ele regressasse. Quando ouviu a chave na porta, correu para o átrio e sentou-se sobre os calcanhares com as coxas abertas e as palmas das mãos viradas para fora para que a primeira coisa que ele visse ao entrar fosse uma kajira, como lhe tinha chamado no dia anterior. No ar pairava já um perfume a café e a torradas com manteiga; Raul entrou, sorriu de a ver assim, inclinou-se para lhe dar um beijo e observou, sorrindo, que para compor a personagem Teresa deveria estar nua – ou vestida, quando muito, com um farrapo de seda ou de serapilheira: nunca com o seu uniforme engomado de empregada doméstica. Depois declarou-se faminto: Teresa deu uma risadinha feliz e correu descalça para a cozinha.

[ … ]

Em casa, Raul quis jantar sozinho, servido pelas suas duas empregadas. Quando acabou de jantar, não quis que Teresa ajudasse Milena a arrumar a cozinha, mas que fosse imediatamente para o quarto e o esperasse nua em cima da cama, só com uma toalha a proteger a coberta. Como a altura de arrumar a cozinha era a oportunidade de Teresa e Milena comerem alguma coisa, esta ordem levou a que Teresa ficasse sem jantar nessa noite, o que não acontecia pela primeira vez. Mas isso que importava? Pôs-se a esperar por Raul, que demorou. Ouviu música vinda do escritório: quem serviria o whisky a Raul, quem lhe acenderia o charuto? Milena não, certamente: fá-lo-ia ele próprio; e foi esta imagem, mais do que a demora de Raul, que a fez sentir-se abandonada. Ouviu Milena a usar o quarto de banho, a entrar no seu quarto e a fechar a porta. Depois, no escritório de Raul, parou a música. Ouviu-lhe os passos: seria finalmente para vir ter com ela? Mas não, os passos pararam noutro lugar; a chave Yale do quarto dos castigos rodou na fechadura, para voltar a rodar passados alguns segundos. Quando Raul chegou ao quarto, trazia na mão umas cordas e mais qualquer coisa que Teresa não chegou a ver, porque ele a pousou em cima da cómoda, que tinha o topo mais alto que a cabeça dela.

Raul inclinou-se sobre ela, beijou-lhe ternamente os lábios e ordenou-lhe que unisse os pulsos, o que ela fez sem hesitar. Atou-lhe os pulsos ao pilar direito da cabeceira da cama, deixando cerca de trinta centímetros de folga. A seguir, aos pés da cama, atou-lhe o tornozelo direito ao pilar direito, deixando-lhe uma folga igual; mas quando lhe atou o tornozelo esquerdo ao pilar correspondente, deixou-lhe uma folga muito maior, que lhe permitia fechar as pernas desde que ficasse deitada no lado esquerdo da cama. Feito isto, despiu-se calmamente, deitou-se ao lado dela e começou a acariciá-la por todo o corpo, evitando de início fazê-lo nos lugares do corpo que mais a excitavam. O facto de ele não a tocar nem beijar nos cabelos, na boca, no pescoço, nos seios ou no sexo (para não falar nos flancos, ao lado das costelas, que em Teresa eram também uma zona erógena) levava-a a sentir uma consciência mais aguda dessas partes do corpo. Era um tormento delicioso sentir a mão ou a boca dele a aproximar-se-lhe dos seios, só para se afastar de novo, no último momento, sem lhes tocar; ou mais tarde, depois de finalmente lhe ter acariciado ou beijado os seios, sentir-lhe a mão ou a boca passar-lhe ao largo dos mamilos sem lhes dar a atenção que eles exigiam. As carícias e os beijos desciam-lhe lentamente do tórax para o umbigo, do umbigo para o monte-de-vénus; por vezes voltavam atrás ou inflectiam para os lados, mas acabavam por voltar ao caminho certo; mas no momento que chegavam à comissura da vulva, ao início da racha, detinham-se e começavam um novo percurso: por fora das coxas ou por dentro, mas sempre, sempre, sem a tocar ou a beijar no sexo.

Quando viu que Teresa não aguentava mais, Raul foi buscar à cómoda o objecto que lá tinha deixado: era o vibrador que lhe tinha oferecido. Quando o viu, Teresa decidiu que suportaria mais do que das vezes anteriores, apesar de esperar que este mais não fosse muito mais.

– A regra é esta, minha escrava – disse-lhe Raul. – Vou usar este vibrador nos teus pequenos lábios e no teu clítoris, como tu gostas. De vez em quando vou introduzir-to um pouco na vagina, muito devagar, até chegar ao limite do que tu suportas; nessa altura começo a acariciar-te outra vez por fora. De acordo?

– Sim, meu senhor…

– Posso continuar a acariciar-te por muito tempo ou por pouco: quanto a isto, não atenderei a quaisquer pedidos teus.

– Sim, meu senhor…

– De vez em quando volto a introduzir-te o vibrador na vagina e a procurar outro limite. Poderá ser uma questão de maior profundidade ou maior duração; ou ambas as coisas, não sei. Mas da segunda vez tentarei ir um pouco mais longe. De acordo?

– Sim, meu senhor, sabes bem que sou tua…

– Isto repetir-se-á até eu entender que cheguei, por hoje, ao limite dos teus limites. Não serás tu a dizer-mo, serei eu a vê-lo nos teus olhos e no teu corpo. No fim servir-me-ei de ti de ti como me der mais prazer. De acordo?

– Sim, meu senhor, sim, sou tua, faz como quiseres…

Por toda a vida Raul havia de se lembrar desta noite. Viu Teresa empalidecer de medo ou enrubescer de excitação; viu-a retrair-se ou entregar-se, por vezes quase no mesmo gesto; ouviu-a gemer, suplicar, chorar, rir, suspirar que sim, gritar que não. Uma vez, duas vezes, várias vezes sentiu-a estremecer como sob um choque eléctrico. Por mais que uma vez viu-lhe nos olhos a expressão de loucura de um cavalo em pânico; e só quando a viu para além deste ponto é que pousou o vibrador na mesinha de cabeceira. Sabia que não podia fazer Teresa regressar de repente do lugar aonde a tinha levado: começou a tocá-la ao longo do corpo, com movimentos que eram parte carícia, parte massagem. Quando a sentia perto, murmurava-lhe meiguices; quando a sentia longe, chamava-a pelo nome. Quando sentiu que ela se começava a aperceber de onde estava e com quem estava, começou a beijá-la no sexo; para lhe provocar um pouco de dor, apertou-lhe os mamilos, e isto trouxe-a de volta mais um pouco. Finalmente encontrou nos olhos dela um olhar que o reconhecia.

– Meu senhor… és tu…

Mas ainda não tinha regressado completamente. Raul viu-lhe a breve expressão de surpresa quando quis mover as mãos e sentiu que estava amarrada; mas claro, estava amarrada, como tinha sido possível esquecer-se? Para Raul, este foi o momento de começar a desatar os nós que a prendiam, agora que a tinha de novo no mundo de toda a gente. Soltou-lhe primeiros os pulsos, que ela esfregou para reactivar a circulação, e depois os tornozelos.

– Vou limpar o vibrador – disse ela por fim.

– Tens muito tempo para isso – respondeu Raul. – Agora quero que fales.

– Que fale de quê, meu amor? Meu senhor querido?

– Do que quiseres – respondeu Raul. – Ou da experiência extremamente cruel a que acabo de te sujeitar.

Teresa não se lembrava de há quantos segundos ou minutos tinha começado a retribuir as carícias de Raul, mas no momento em que deu por si a fazê-lo sentiu um desejo enorme de se explicar:

– Não sei… Não sei bem – respondeu. – A parte fácil é que foi mesmo uma experiência extrema; cruel, não sei bem se foi. E é claro que tens sempre o direito de dispor de mim como quiseres, e porque dispuseste de mim estou feliz agora, mesmo que já não saiba se o estava há poucos minutos.

– Mas há a parte difícil…

– A parte difícil é que foi uma experiência extrema sem a menor semelhança com outras experiências extremas. Não se assemelhou a nada. Já falámos nisto uma vez, e continuo tão incapaz de explicar o que senti como nessa altura. Foi uma coisa insuportável como a dor extrema, mas não foi dor. Foi uma coisa com o sabor do prazer, mas não foi prazer: pelo contrário, se não me tivesses amarrado, eu era capaz de ter fugido.

– E que mais?

– Não sei, meu senhor, não sei mesmo… o melhor é fazer agora o que mandaste, ir limpar o vibrador e depois voltar para te servires de mim.

– Sim, é o melhor – disse Raul.

Poucos minutos depois, agachada sobre o seu senhor, Teresa recebia na boca o jacto de esperma com que ele se derramava nela. Ainda sentia toda a zona do sexo a pulsar: se tivesse tido escolha, teria sido penetrada pela vagina, e quanto mais brutalmente, melhor. Mas não tenho escolha, pensou. É essa a minha liberdade. Aplicou-se a limpar o pénis do dono com a língua e com os lábios, pondo nesta tarefa toda a entrega que teria posto se lhe tivesse sido permitido servi-lo doutro modo. Depois, sem que ele lho ordenasse, foi deitar-se no catre aos pés dele. Já com a luz apagada, ainda lhe falou:

– Obrigada, meu senhor…

– Obrigada porquê, meu tesouro?

– Pela dificuldade. Por não me deixares ficar presa ao fácil.

– Então também eu te agradeço, minha escrava, e pelo mesmo motivo. Agora dorme.

Teresa bocejou de tal maneira que Raul mal compreendeu quando ela lhe disse boa noite. Poucos minutos depois, estavam ambos a dormir.

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Cap. 29: LABIA MAJORA

Havia alguns minutos que Raul, debruçado sobre Teresa na cama, acariciava e beijava a sua escrava, que dava pequenos gemidos e retribuía brandamente as carícias dele. Pouco a pouco, as mãos e os lábios dele foram-se aproximando da vagina de Teresa, que começou lentamente a afastar as coxas para lhe facilitar o acesso. Raul acariciava-lhe os pequenos lábios e o clítoris, beijando-os e sugando-os com toda a leveza de que era capaz.

− Deixa-me ver bem a tua coninha, minha escrava.

Teresa, flutuando no mar morno da sua excitação, não entendeu: então ele não a estava a ver bem? Viu-o levantar-se, sair do quarto, e voltar com um candeeiro, que colocou aos pés da cama e acendeu.

− Abre mais as pernas.

Teresa obedeceu. Isto não era excitante, não dava prazer, não significava nada que ela entendesse, mas, para quem se deu a alguém, confiar é obedecer: Raul sabia com certeza o que estava a fazer. Parte da excitação que Teresa sentira regressou, apesar da luz forte, quando Raul recomeçou a tocar-lhe a vulva, afastando com os dedos os grandes lábios, tocando-lhe o clítoris, examinando o capucho que o escondia parcialmente, apalpando por fora a parte que se oculta no interior do corpo. Era como o toque do ginecologista, que a deixava fria, mas ao mesmo tempo era o toque do amante, que a deixava em brasa: mais uma sensação nova para juntar às que Raul lhe provocava. Raul sabia que o clítoris de Teresa era bem mais longo do que parecia, e se parecia pequeno, era porque só a ponta aflorava à superfície do corpo. Procurou seguir-lhe a raiz com os dedos e conseguiu-o em parte, mas não teve a sensibilidade suficiente para se dar conta do ponto em que a raiz do clítoris se bifurca, rodeia a uretra pelos dois lados e se vai ligar à vagina. Depois seguiu-lhe com os dedos os pequenos lábios, beijando-os de vez em quando, mas aparentemente mais atento ao exame que estava a fazer do que ao prazer que pudesse dar ou obter. Apertou-lhe os lábios exteriores um contra o outro: eram bastante carnudos, e apesar da excitação de Teresa, ocultavam por inteiro os lábios interiores, que eram mais estreitos do que o habitual, e frisados como pétalas de cravo.

− Perfeito – murmurou para si mesmo.

Era bom que Raul considerasse que ela tinha uma vulva perfeita, mas perfeita para quê? Teresa ignorava a razão deste exame a frio, que começava a excitá-la quase tanto como a excitaria uma verdadeira carícia; mas não ousou fazer qualquer pergunta. Em todo o caso, o exame não durou muito mais: Raul levantou-se, desligou o candeeiro e retomou as carícias de havia pouco, até que o corpo de Teresa se contorceu numa convulsão de prazer. Raul manteve-a no cume durante tanto tempo quanto foi capaz, para depois a trazer de volta muito lentamente. Teresa sentia-o muito excitado – bastava sentir-lhe a dureza do pénis – mas, como era típico dele, sem pressa nenhuma de a penetrar. O que queria ele agora dela? Começou a beijá-lo na cara, nos ombros e no pescoço. Raul começou a tocar-lhe sucessivamente os seios, os flancos, as ancas, testando-lhes a textura e a firmeza.

− Meu senhor, posso fazer-te uma pergunta? – disse Teresa. − O que foi aquilo há bocado? Estavas a brincar aos médicos?

Raul riu-se, beijou-a na comissura dos lábios e respondeu:

− Não é bem isso, minha escrava. São duas coisas que tenciono mandar fazer-te. Uma depilação definitiva…

– Hmmm… – respondeu Teresa. – Não sei se vou gostar… mas tu é que decides, claro.

– Claro – concordou Raul. – Amanhã tens uma consulta marcada. Andei a ver qual era a melhor clínica do Porto. O tratamento completo vai demorar de um a dois anos, até que os pelos não voltem a crescer, mas os resultados vão começar a ver-se logo a partir do primeiro.

− Sei como é – disse Teresa. – E qual é a outra coisa que me vais fazer?

− Vou mandar pôr-te piercings na vulva, nos lábios maiores. Mas isso é para mais tarde, e vai ter que ser feito em S. Paulo.

− Em S. Paulo? Que piercings tão especiais são esses? Pensei que bastava chegar ali à Baixa a qualquer casa de tatuagens e sair de lá meia hora depois com os piercings postos…

Raul começou a acariciar-lhe a vulva com a mão enquanto lhe respondia.

− Estes vão ser mesmo especiais. Vão ser em titânio e desenhados para o fim que tenho em vista.

Teresa soltou um gemido:

− Meu senhor… sou tua, farás de mim o que quiseres… mas agora estou a imaginar que me vais fazer as coisas mais inconcebíveis, sem eu saber o que é… Não vai ser nada que te impeça de me possuir, pois não?

Raul deu uma risada branda:

– E eu alguma vez ia querer deixar de te possuir? Não, meu amor, não vai ser nada disso. O que pode, é impedir que outros te possuam… Não te importas?

– Eu? Não, meu senhor. Até fico excitada… saber que sou só tua, mesmo fisicamente… que não me pertenço, mas a ti… mas gostava que me mostrasses outra vez isso mesmo; posso-te pedir isso?

Como poderia Raul não perdoar? Antes de a penetrar, recomeçou a acariciá-la e a beijá-la longamente na vagina, nos pequenos lábios e no clítoris, e, em cada ponto em que ele tocava, Teresa perguntava a si mesma: vai ser aqui? Vou ser furada aqui? Não a perturbava usar piercings: já tinha tido furos nos mamilos que depois tinham acabado por cicatrizar e desaparecer. Minutos mais tarde, quando lhe pediu licença para gozar, ele negou-lha; e ela ficou acordada durante horas, trespassada daquela estranha energia, daquele estranho prazer que não sabia explicar, sentindo-o dormir ao seu lado, saciado. Em cada dia que passavam juntos, parecia a Teresa que a sua escravidão se aprofundava mais um pouco. Tinha consentido nas modificações que Raul se propunha fazer-lhe no corpo, sem mesmo perguntar quais eram; apenas lhe pedira que lhe mostrasse mais uma vez que não se pertencia a si própria, mas a ele. Mas Teresa reflectia também que o que se aprofundava não era tanto a sua escravidão como o domínio de Raul sobre ela, um domínio cada vez mais envolto em ternuras e cuidados, como dizia Carolina, mas cada vez mais livre de culpas e de escrúpulos.

Noutra noite, numa noite de castigo, Teresa jantou à mesa com Raul – com a sua saia mais sumptuosa, e coberta de jóias como era regra, mas nua da cinta para cima. Milena, que servia a refeição, sorria-lhe de vez em quando e acariciava-lhe o ombro, como para lhe dar coragem; e Teresa bem precisava de coragem para suportar o que lhe estava reservado para daí a pouco.

Com efeito, Raul, depois de ter bebido o seu whisky e fumado o seu charuto, com ela todo o tempo a beijar-lhe os pés, mandou-a esvaziar a bexiga e esperar por ele, toda nua e sem jóias, no quarto dos castigos. Teresa esperou de pé, com a cabeça baixa e os braços caídos ao longo do corpo. Quando Raul entrou, não ergueu os olhos para ele, mas reparou que tinha mudado de roupa e estava agora de chinelos, pijama e roupão. Quando ele lhe pôs a mão no queixo para a obrigar a erguer a cabeça e lhe dar um beijo na face, Teresa fechou os olhos, virou-se para ele e ofereceu-lhe docemente os lábios.

− Deita-te na banca da esquerda, de barriga para cima.

Era a banca abaulada: deitada sobre ela, Teresa ficava com a pélvis mais alta que a cabeça e os pés. Tinha ido nessa tarde à consulta marcada na clínica de beleza: depois de a examinarem, tinham-na rapado com uma lâmina e feito vários testes antes de lhe fazerem o primeiro tratamento com luz pulsada. Era uma sensação estranha estar assim exposta, com o sexo completamente depilado, mais nua do que alguma vez se tinha sentido. Sentiu que Raul lhe amarrava o pulso direito, apertando a corda com força e atando-o a uma das argolas de bronze no canto da banca. Depois amarrou-lhe os tornozelos, escolhendo as argolas de bronze que a faziam afastar mais as pernas. Entretanto, ajeitando o corpo em direcção à cabeceira da banca, Teresa tinha conseguido aliviar a tensão da corda que lhe prendia o pulso; mas, com as pernas presas, isto já não lhe foi possível quando ele lhe amarrou o pulso esquerdo. Voltando aonde tinha começado, Raul desatou o pulso que tinha amarado em primeiro lugar e puxou a corda antes de o atar outra vez; e assim deu várias voltas à banca, esticando as cordas mais um pouco, sempre pela mesma ordem, até não ser possível a Teresa aliviar a tensão.

As cordas, assim apertadas, faziam-lhe doer. Quando Teresa pensou que já estava imobilizada, Raul ainda a prendeu com mais cordas nas coxas, junto aos joelhos, obrigando-a a escarranchar ainda mais as pernas. Não a amordaçou nem a vendou: embora a posição incómoda em que ela tinha a cabeça não lhe permitisse seguir todos os movimentos do dono pela sala, permitia-lhe ver alguns. Agora é que ele vai buscar o chicote, pensou Teresa; ainda bem que ele a tinha mandado esvaziar a bexiga, caso contrário talvez não pudesse evitar encharcar-se de medo. Mas Raul, quando voltou para junto dela, não trazia chicote nem vergasta, mas sim dois pequenos objectos que ela só identificou quando ele lhos prendeu aos mamilos: duas molas que a fizeram arquejar de dor. O que quer que ele tencionasse fazer a seguir, era preciso esperar que a dor abrandasse, caso contrário não sentiria mais nada. Enquanto esperava, ele alisou-lhe os cabelos e ofereceu-lhe a mão aos lábios para que ela a beijasse. Isto deu-lhe tempo a sentir algo mais do que a dor nos mamilos, que era agora uma sensação surda. Raul passou um dedo a todo o comprimento da vulva exposta de Teresa, que se deu conta de que estava completamente molhada. Meteu-lhe o dedo na boca, para que ela provasse os seus próprios sucos, e trepando para cima da banca, introduziu-lhe o pénis na vagina.

Pompoar – ordenou-lhe.

Teresa já estava suficientemente adiantada nas lições de pompoar para que alguns dos movimentos se lhe tivessem tornado quase instintivos, mas desta vez era-lhe exigido mais do que isso. Concentrou-se nas técnicas que ainda não tinha automatizado; e esta concentração, conjugada com o desconforto da sua posição, fez com que a onda do orgasmo, ainda pequena, que mal lhe começava a crescer ao largo do corpo, se aplanasse de novo. Não pediu autorização para ter orgasmo; para quê, se mesmo sem orgasmo o prazer que sentia era tão intenso, e se o prazer que soubesse dar Raul o compensaria amplamente? Sentiu que os movimentos dele se tornavam cada vez mais fluidos e que exigiam dele cada vez menos esforço, apesar de serem cada vez mais amplos e mais fortes; ouviu-lhe a respiração cada vez mais sonora, mas também cada vez mais solta; e preparou-se para acolher dentro de si, com alegria e amor, o jacto de esperma em que ele se esvairia em breve. Mas Raul, quase no momento de atingir o clímax, ainda lhe ordenou:

− Vem-te agora, escrava. Dá-me o teu prazer.

E, em obediência esta ordem, a prega de mar que antes, ao largo, se aplanara, a pequena onda que fora para Teresa uma promessa, cresceu de novo, agigantou-se, adquiriu no topo uma crista de espuma, curvou-se sobre a praia do seu corpo e desabou sobre ela, arrastando-a, virando-a em todas as direcções, mais uma vez perdida. Escrava, puta, galdéria, pensou, que me venho assim só porque um homem manda. Mas estes insultos que dirigia a si mesma não eram sinceros: não podia enjeitar a alegria e o orgulho que a invadiam; e puta não era de certeza, a não ser de Raul.

Mal acabou de a possuir, Raul levantou-se e limpou o pénis com dois toalhetes húmidos, tirados de uma embalagem que Milena tinha guardado para esse efeito num dos armários. Calçou os chinelos, vestiu-se, e começou a desamarrar Teresa tão metodicamente como a tinha amarrado. No fim, tirou-lhe as molas dos mamilos, causando-lhe uma dor bem maior do que lhe tinha causado ao pô-las.

− Não te levantes ainda, espera um pouco – ordenou.

Dirigindo-se para a cabeceira da banca, pôs uma mão por baixo da nuca de Teresa e outra por baixo dos ombros e soergueu-a devagar.

− Sentes-te bem? – perguntou.

Ao som afirmativo dela, ergueu-a mais um pouco e disse:

− Agora roda o corpo devagar e põe os pés no chão.

Teresa assim fez e Raul perguntou-lhe de novo se estava bem.

− Estou bem, meu senhor.

Raul ordenou-lhe que ficasse sentada mais uns segundos; depois ajudou-a a levantar e conduziu-a ao quarto de banho, onde tomou duche com ela. Teresa viu-se ao espelho. As marcas das cordas eram fundas e estavam muito vermelhas, e demorariam por certo algum tempo a desaparecer. Se passados dois dias, quando tivesse aula de dança do ventre, ainda se notassem, teria que revelar mais um pouco da sua condição.

Mais tarde, deitados na cama, Raul recomeçou a acariciar-lhe o corpo. Ao tocar-lhe os mamilos foi especialmente gentil, mas Teresa, que os tinha muito doridos, arquejou de dor. Mas continua, meu amor, continua… Raul continuou a acariciá-la, voltando de vez em quando aos mamilos. Teresa respondia-lhe com carícias e com beijos cada vez mais apaixonados.

− Meu senhor… meu dono… – disse Teresa por fim. – Não queres voltar a possuir a tua escrava?

Raul possuiu-a com vigor e ternura, não apressando os preliminares, nem a privando depois duma copiosa porção de beijos e carícias; e autorizou-lhe o orgasmo quando ela o pediu. Raul demorou muito tempo: quando o sentiu gozar, Teresa já tinha terminado completamente, mas disse-lhe:

− Sim, meu senhor, sim, goza em mim, goza sozinho na tua escrava… goza muito, meu querido…

Imaginou que Raul, cansado como devia estar, havia de querer a cama toda só para si e a mandaria dormir aos seus pés. Mas ele, em vez de a mandar embora, estendeu-lhe os braços, e nessa noite dormiram enlaçados.

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(Nos últimos tempos tenho descurado muito este meu blog. O último excerto que publiquei foi do capítulo 29, quando depois disso já escrevi mais quinze. Esse trabalho a tempo inteiro explica em parte a minha falta de assiduidade neste site. Como pedido de desculpas aos meus leitores habituais, apresento neste post três passos do romance: um tirado do início do capítulo 31, outro do fim do mesmo capítulo, e finalmente ou tirado do fim do capítulo 32.)

Nos dias seguintes Teresa pensou muito neste estranho prazer de não ter prazer. Primeiro tentou explicá-lo pelo prazer da escravidão, da submissão, da obediência; mas estes eram prazeres de fundo, de baixa intensidade, e o que ela tinha sentido fora duma intensidade que raiava o insuportável. Depois tentou compreendê-lo através duma imagem: o prazer habitual do amor seria então como uma seta que voa solta, sobe muito alto e cai logo a seguir; enquanto o prazer inaudito que sentira era como um papagaio de papel que se mantinha no alto sem poder escapar ao fio que o prendia. Mas esta imagem não abrangia a diferença qualitativa entre as duas sensações: esta que acabava de descobrir nunca poderia, por mais intensa e prolongada que fosse, substituir a outra. O prazer de pairar, o prazer de nunca mais descer, era de natureza muito diferente do prazer de explodir numa flor de fogo que fugazmente iluminava a noite. O que os dois prazeres podiam ter em comum era o pedido de permissão: este, quando atendido, permitia dar mais brilho e amplitude à explosão e fazê-la durar um pouco mais, mas não a fazia qualitativamente diferente de qualquer outro orgasmo. Teresa sentia-se capaz de renunciar para sempre, sem pena, a ter um orgasmo sem autorização: só se um dia, um dia inimaginável, viesse a amar um outro homem que não fosse Raul.

De repente ocorreu-lhe que nesta taxinomia faltava, para que fosse exaustiva, o orgasmo obrigatório. Imaginou-se a responder de imediato, com um abalo violento e obediente, à ordem de Raul “vem-te”. Sentia-se capaz de o fazer se a ordem lhe fosse dada a tempo; já o tinha feito uma vez, de resto; mas agora era precisamente na falta de tempo que estava a dificuldade. Desde que era escrava de Raul começara a chegar ao orgasmo cada vez mais rapidamente e com cada vez menos preliminares, de modo que o prolongamento destes acabava por ser, quando Raul queria, uma refinada tortura. A maior parte das vezes, quando ele lhe ordenasse “vem-te”, já ela estaria a vir-se, não por efeito da ordem, mas por imposição do seu próprio corpo. “O que eu sou, é uma grande galdéria”, pensou, com mais comprazimento que remorso; e este pensamento levou-a a dar um passo de dança na rua, rodando a saia e fazendo com que um senhor elegante, de cabelos brancos e bengala de castão, se virasse para trás e lhe sorrisse.

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Agora que ia aprender mais, Teresa começou a sentir a necessidade de fazer o balanço do que tinha aprendido até aí como submissa e como escrava. A primeira aprendizagem é sobre a dor e o prazer, e faz-se logo na infância. A dor é um mal a evitar, é o anúncio de um perigo. Vem quando batemos com o joelho na esquina da mesa, ou quando estamos doentes, ou quando nos queimamos no fogão. O prazer é bom: vem de comer quando se tem fome, de dormir quando se tem sono, de correr pelo quintal fora quando a energia transborda, abraçar a mãe, de ser atirada ao ar pelo pai e de ser recolhida de novo nos seus braços, depois de um instante de delicioso terror. Até este ponto a aprendizagem de Teresa foi igual à de qualquer outra criança. A primeira divergência surgiu quando Teresa verificou que o maior prazer dos outros miúdos era dominar os seus parceiros – usando às vezes de métodos tão cruéis e requintados que os adultos, se se apercebessem deles, fugiriam com terror dos seus próprios filhos – enquanto o dela era servir e obedecer. Um dia descobriu que havia muitas pessoas capazes de transmutar a dor em prazer: mas ela própria nunca fez esta aprendizagem. Nunca aprendeu a ter prazer directamente na dor. Aprendeu, sim, com Ettore, a submeter-se à dor; mas era a submissão que ela amava, não a dor em si.

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– E o pompoar? [ -perguntou Raul. – ] Não me chegaste a explicar bem o que é isso.

Teresa franziu um pouco o sobrolho.

– Sabes o que é o músculo pubococcígeo?

– Não – respondeu Raul.

– Pois é… Há uma coisa que tu às vezes fazes quando estás com uma erecção, que é mexer o pénis para cima e para baixo sem mover os quadris… Sabias que não há muitos homens capazes de fazer isso?

– Não sabia. Pensava que todos os homens conseguiam.

– Pois é, o músculo pubococcígeo é o músculo que te permite fazer isso. É um músculo, ou melhor, um conjunto de músculos, que vai do osso púbico ao cóccix, e se o treinares sistematicamente vais tornar-te capaz de muito mais do que acenar com o pénis: vais ser capaz de orgasmos múltiplos, de controlar a ejaculação, de te protegeres contra doenças da próstata…

– Hmmmm… Estou a ver que vou ter que pensar nisso a sério. E para as mulheres, qual é a vantagem?

– Ficamos protegidas contra certas doenças e deformações, ficamos mais capazes de controlar os nossos orgasmos, e ficamos capazes de dar muito mais prazer aos homens.

– Aha! E já dá para me fazeres uma demonstração?

– Talvez – disse Teresa. – Porque não experimentamos?

E sem esperar pela resposta de Raul tirou a saia e a écharpe transparente que trazia a servir de blusa, ficando nua. Entretanto também Raul se livrou do roupão e do pijama. Teresa trepou para o colo dele, abriu as coxas e começou a descer até ter o membro viril introduzido até ao fundo.

– Fica quieto um bocadinho, meu senhor, por favor…

Raul começou a sentir que a vagina de Teresa lhe apertava ritmicamente o pénis. A pouco e pouco começou a mover-se para cima e para baixo dentro dela.

– Devagar, meu senhor… ainda não faço isto com facilidade…

Mas Raul não precisou de movimentos violentos para atingir o prazer. Teresa também não fazia outros movimentos que não fossem o apertar e relaxar rítmico da vagina. Poupou o esforço maior para quando Raul estivesse a atingir o climax, e quando tudo terminou perguntou-lhe, beijando-o:

– Foi bom, meu senhor?

Raul retribuiu-lhe o beijo:

– Foi muito bom, meu tesouro. Foi como uma mistura de quando te possuo pela vagina com quando me chupas o sexo.

− E ainda só aprendi a controlar a vagina como um todo, e mesmo assim com muito esforço. Quando aprender a controlar separadamente a entrada, o meio e o fundo, então é que vais ver o que é bom…

− Mal posso esperar – disse Raul. − Se calhar nunca mais vou querer penetrar-te por outro lado…

– Isso não, meu senhor – respondeu Teresa, alarmada. – Sou toda tua, com todas as aberturas do meu corpo. Não me desprezes… E agora que tenho outra vez o cuzinho bem apertado, vou querer que qualquer dia te sirvas também dele.

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(Do Capítulo 20)

O embrulho estava no quarto dos castigos. Teresa manteve-se de joelhos enquanto esperava, e Raul, retomando a solenidade com que tinha recebido a sua prenda, manteve-se de pé para lhe entregar a dela, que a recebeu nas duas mãos. Era um embrulho oblongo, que ela abriu para encontrar um cofrezinho de pau-rosa com embutidos de prata. Os embutidos formavam um desenho em trompe l’œil : visto duma maneira representava ramos e flores, visto doutra era uma paisagem de falos erectos que fizeram Teresa corar. No interior forrado a cetim Teresa encontrou, assente num suporte de prata, um vibrador como nunca tinha visto outro: o silicone de que era feito imitava jade, e a base, de enroscar, era em prata embutida com cristais Swarovski.

− Meu senhor, obrigada… é lindo…

Raul agachou-se para lhe dar um beijo.

− É lindo mesmo? Gostaste?

− Muito, meu senhor. É muito lindo.

E durante muito tempo ficou em silêncio, a passar os dedos pela macieza do silicone e a admirar a perfeição e a beleza do fabrico. Não tinha sido comprado numa sex-shop qualquer, de certeza, era demasiado bem feito e demasiado bonito para isso.

Raul sentou-se no sofá e ficou a admirar Teresa enquanto ela admirava a sua prenda. Sentia que ela tinha alguma coisa a dizer mas ainda não estava pronta a falar.

− Meu senhor… − disse ela por fim.

− Diz.

− Esta prenda… desculpa esta pergunta, é tão parva… Este vibrador é para eu usar, ou é para tu usares em mim?

− Nenhum vibrador que exista nesta casa é para tu usares – respondeu Raul. – Nem este, nem nenhum dos que estão guardados no quarto dos castigos. São todos para eu usar em ti. Não sei se já usaste algum, mas se usaste, ficas desde já proibida de o fazer de novo.

− Sim, meu senhor – disse Teresa.

Seguiu-se outra longa pausa, indicativa, para Raul, de que o assunto não estava encerrado.

− Meu senhor…

− Diz, meu amor – encorajou-a Raul.

− É que… É que quando estiveres a usar um vibrador em mim, vou ter que te dizer um segredo.

− Que segredo?

− Posso dizer-te só na altura? Posso, meu senhor?

Raul encolheu os ombros:

− Podes, mas a altura vai ser hoje mesmo. Esta noite vou usar em ti este brinquedo. Olha.

Raul pegou no vibrador, tirou-lhe a tampa, tirou do bolso uma embalagem e introduziu-lhe as pilhas, prestando atenção a que ficassem com as polaridades correctas.

− Anda – disse por fim. – Vamos para a cama.

No quarto, o vibrador ficou em cima da mesinha de cabeceira, no seu suporte de prata, enquanto na cama Raul e Teresa se acariciavam e beijavam. Não tinham televisão no quarto, mas tinham música, e Raul tinha posto um CD de Billie Holiday a tocar baixinho. O vibrador era de alta qualidade e muito silencioso: Teresa só o sentiu quando Raul lhe tocou com ele na comissura dos grandes lábios e a começou a massajar com ele ao longo dos grandes lábios, sempre pelo exterior da vulva. Depois, por um instante, sentiu-o nos lábios menores, e desejou que ele se demorasse por lá, mas a intenção de Raul era outra: com o vibrador assim lubrificado, massajou-lhe longamente o períneo antes de voltar a ocupar-se da vulva, que tinha entretanto florescido e apresentava, perfeitamente visíveis, os pequenos lábios e a abertura da vagina. O vibrador começou a percorrer-lhe os pequenos lábios, sempre de trás para a frente, passando ao lado ou por cima da uretra mas detendo-se todas as vezes, cruelmente, logo antes de chegar ao clítoris. Teresa tinha fechado os olhos, aberto as coxas o mais que podia, e entregava-se às sensações de prazer que Raul lhe provocava com sabedoria e crueldade. Por um momento, um momento só, sentiu que a ponta do vibrador lhe tocava o clítoris; só para a sentir recuar e procurar a entrada da vagina, onde começou a introduzir-se.

Foi neste momento que Teresa recuou com um espasmo e um grito, como se tivesse sido tocada, não por um instrumento de prazer, mas por um ferro em brasa.

− Que foi, meu amor? Fiz-te doer? – perguntou Raul, alarmado.

− Não, não é isso – respondeu Teresa. – É o tal segredo de que te falei…

− Diz-me.

− Sim, meu senhor. Mas continua a fazer por fora…

Raul continuou a acariciá-la com o vibrador, interrompendo a carícia apenas quando ela parecia impedir Teresa de falar.

− Devo ser única – disse Teresa. − Não suporto ser penetrada por um vibrador.

− Única? Nem penses – respondeu Raul. – Há muitas mulheres que também não suportam.

Teresa suspirou de prazer à medida que sentia o vibrador percorrer-lhe a zona genital.

− Mas essas não gostam muito de ser penetradas seja pelo que for. Aceitam um pénis um pouco porque tem que ser, desde que haja mais alguma coisa além da penetração. Mas eu gosto de ser penetrada, às vezes com preliminares, às vezes sem eles. Se sinto que pertenço a um homem, nem sequer sou capaz de distinguir o meu prazer do dele… Mas um vibrador na vagina provoca-me uma sensação que não consigo descrever.

− Sentes dor?

− Não, não é dor. Mas não consigo…

− Tenta explicar – decidiu Raul. – E vamos fazer assim: quando eu achar que não estás a conseguir explicar, meto-te o vibrador um pouco na vagina. Quando achar que estás a conseguir, acaricio-te o clítoris ou outros sítios bons…

− Não me faças isso, meu senhor…

Mas estas palavras só lhe valeram que ele cumprisse a sua ameaça. Descrever uma sensação física é sempre difícil, ainda mais quando outras se sobrepõem e embargam as palavras. Por fim Raul teve que se satisfazer com esta explicação: a sensação que Teresa não suportava era muito parecida com o mais intenso dos prazeres, mas era indubitavelmente um sofrimento; e embora não se parecesse em nada com alguma dor que ela alguma vez tivesse sentido, era mais insuportável que muitas delas.

− Pronto, meu amor – disse Raul, por fim. – Parece-me que já entendi tudo o que podia entender.

E começou a excitar-lhe o clítoris, entremeando esta carícia com breves incursões na zona da vulva e à sua volta, até a ver sacudir-se num orgasmo que se prolongou por minutos. Depois Teresa abraçou-se a ele, aos beijos:

− Agora tu, meu dono… Serve-te de mim…

− Vem tu por cima – disse Raul.

Teresa empalou-se nele, ainda um pouco dorida do orgasmo recente, e começou a fazer os movimentos de que sabia que ele gostava. Quando ele gozou, foi ao quarto de banho para se lavar e para se munir do necessário para o lavar a ele. Depois deitou-se ao lado dele e abraçou-o.

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Com o meu pedido de desculpa pela longa ausência, publico hoje mais um excerto do romance que estou a escrever. O enredo tem também uma componente de acção e mistério, mas os trechos que tenho escolhido para publicar aqui são os que reflectem mais a componente erótica. Espero que gostem…

… – Tenho pensado muito nestas coisas, [- disse Raul – ] embora felizmente já não seja minha função resolvê-las: foi provavelmente isso que me provocou este pesadelo. Desculpa ter-te acordado.

– Lá por isso não peças desculpa [- disse Teresa. – ] Tens o direito de me acordares quando quiseres…

− Tenho? É claro que tenho. Mas de preferência para outros fins, não para te sobrecarregar com manifestações de fraqueza.

Teresa ficou algum tempo em silêncio, ainda com a cabeça apoiada no peito dele. Por fim mudou de posição para o olhar nos olhos e disse:

− Ouve, meu senhor. Há umas coisas que preciso de te dizer.

− Diz lá, então.

− Eu não sou burra nem ingénua…

− Não, isso não és – interrompeu Raul.

− Não sou burra nem ingénua, e a vida já me ensinou que em geral as mulheres são mais fortes do que os homens.

Raul ficou silencioso: era claro que estas palavras, das quais ele, de resto, não discordava, eram um intróito; e não quis interromper.

− Isto, para as mulheres, – continuou Teresa – é uma grande frustração, e muitas vezes tem-no sido ainda mais para mim, que sou forte mesmo para mulher.

Raul acenou em concordância, e Teresa continuou:

− Num mundo em que os homens são geralmente fracos, o mais provável para a maior parte das mulheres é nunca encontrar um homem mais forte do que elas. Para uma mulher mais forte do que as outras, então, acho que é praticamente impossível. Mas eu tive a sorte extraordinária de encontrar dois: primeiro o Ettore, e depois a ti, meu amor.

− Eu, um homem forte? – insurgiu-se Raul – E excepcionalmente forte, para cúmulo? Durante a maior parte da minha vida não me tive por fraco, é verdade. Mas agora? Com toda a minha carga de culpa? Com todas as minhas dúvidas, contradições e escrúpulos? Com pesadelos, porra! Com necessidade de colinho! É isto, um homem forte?

Teresa segurou-lhe o rosto entre as mãos, beijou-o com força na boca e disse com veemência:

− No teu caso, é, sim senhor. Homens fracos com carapaças duras foi o que eu mais encontrei na vida, ainda por cima nos meios que frequentei. Diz-me uma coisa: os horrores que viste no Kosovo alguma vez deixaram de ser horrores para ti? Criaste habituação? Tornaste-te indiferente?

Não, reflectiu Raul. Nunca se tinha habituado, nunca se tinha tornado indiferente.

− Sabes o que faria um fraco no teu lugar? Criaria uma carapaça. Ao fim de uns meses já teria aprendido a desprezar as vítimas que tinha por função apoiar. Faria piadas sobre elas. Lá no fundo, até desenvolveria alguma admiração pelos carrascos…

Raul teve um sobressalto. Sim, era verdade. Ele próprio tinha visto colegas seus evoluir neste sentido. Nunca os censurara, nem os censurava agora: era a maneira que tinham de se proteger. Teresa tinha razão: eram fracos. Mas isto não queria dizer que ele não o fosse também, à sua maneira.

− Diz-se que os fracos admiram os fortes – prosseguiu Teresa, implacável. – É mentira: os fracos não admiram os fortes, admiram os violentos. Mas tu não…

Não, Raul não admirava os violentos. Nem os temia, de resto. Se sentia alguma coisa por eles era desprezo e asco… E ódio, infelizmente. Ódio também.

− Pelos violentos, sinto ódio – murmurou. – E o ódio é uma forma de fraqueza.

− Pois é, meu senhor, mas é uma fraqueza que te há-de passar, que te está a passar. É isto que eu vejo em ti a cada dia que corre. Oxalá um dia possas contribuir para que seja feita justiça, mas se há alguma coisa de que estou certa, é de que nessa altura agirás desapaixonadamente: sem piedade, mas também sem ódio, como homem viril que és.

Oxalá, pensou Raul. Oxalá…

− Outra coisa, meu querido: − prosseguiu Teresa – passou-te pela cabeça alguma vez que eu fosse deficiente em auto-estima?

Raul teve que se rir perante uma ideia tão estapafúrdia:

− Deficiente em auto-estima? Tu?

− Pois, não achaste que me faltava auto-estima, mas viste logo que a minha orientação amorosa era para a submissão. Como conciliaste as duas coisas?

Raul pensou durante um momento e respondeu:

− Já antes tinha encontrado mulheres em que a auto-estima e a submissão se conjugavam. Esta possibilidade não era novidade absoluta para mim. O que eu nunca tinha encontrado era uma mulher que levasse tudo isso ao extremo, quase ao excesso. Quando descobri que precisavas de viver apaixonadamente, que tinhas essa tua exigência de absoluto… Pois bem, acho que foi nessa altura que me enamorei de ti.

− Nessa altura – disse Teresa – outro qualquer teria fugido de mim a sete pés. Uma coisa que eu aprendi nos últimos anos é que a minha maneira de amar pode ser uma coisa aterradora para os homens. Tu não tiveste medo de mim…

Talvez Teresa tivesse razão, pensou Raul, talvez ele fosse mais forte do que se sentia neste momento; talvez mesmo tão forte como ela, ou mais; mas ainda não estava em estado de se convencer disto. Olhou para ela, que no decorrer da conversa se tinha deixado escorregar pela cama abaixo de modo a ficar de novo deitada. Medo dela? Não, não sentia medo, sentia desejo. Estendeu a mão para lhe acariciar os seios, que a roupa da cama tinha deixado a descoberto, e logo a mão dela lhe procurou o sexo.

– Diz-me como gostas, meu senhor… Ensina-me…

Raul começou a instruí-la: que não lhe agarrasse o membro erecto com a mão toda, que usasse mais os dedos, que lhe acariciasse gentilmente a veia de baixo. Teresa, atenta a todas as instruções, ia tomando nota mentalmente: não o agarrar à bruta, explorar-lhe meigamente todos os refegos da pele, prestar especial atenção à glande. Raul tinha sido circuncidado na adolescência porque o prepúcio estreito lhe tornava dolorosas as erecções: agora, para maravilhamento de Teresa, a glande distendida era duma macieza prodigiosa, lisa e macia como nada mais sobre a Terra.

– Que lindo que é o teu pénis, meu querido… Tão macio na ponta… Gostas assim?…

E ia-o dedilhando levemente a todo o comprimento, insinuando os dedos delicadamente nas pregas da glande e na abertura, de onde despontava uma gota de líquido. Absorto no prazer que recebia e na instrução que dava, Raul quase parara de acariciar os seios de Teresa; mas não de todo, não de todo: e sentia entre os dedos os mamilos intumescidos que denunciavam a excitação dela.

Uma característica que Raul e Teresa tinham em comum era a falta de pressa nas suas actividades eróticas. Raul era capaz, por qualquer particularidade fisiológica ou psicológica que desconhecia, de manter indefinidamente uma erecção enquanto se dedicava àquilo a que as outras pessoas chamam preliminares; Teresa parecia nunca se cansar de brincar com o corpo dele, de o acariciar e beijar; e os dois juntos chegavam por vezes a deixar que este prazer intenso se esvaísse sem chegar a uma penetração ou a um orgasmo, como um rio no deserto que nunca desagua. Mas desta vez Teresa tinha pressa:

– Penetra-me agora, meu senhor. Obriga-me a vir-me. Vou ser desobediente, vou-te resistir, vais ter que me obrigar…

Raul beijou-a nos lábios e respondeu-lhe, sorrindo, que não lhe apetecia de todo violá-la. Se ela resistisse, paciência, não ia haver mais sexo para ninguém. Em resposta, Teresa deu-lhe um pequeno murro no ombro, como era seu costume quando ele desconversava, e disse:

– Não é isso, estúpido. Não te vou resistir nem desobedecer em nada, só em ter orgasmo…

– Então se é assim, – disse Raul – vem tu por cima.

Teresa sabia muito bem que nesta posição o orgasmo dele costumava ser mais lento e o dela mais rápido; mas obedeceu, ainda que protestando:

– Assim não vale…

Raul ficou perfeitamente imóvel enquanto ela se empalava lentamente nele. Teresa estava consciente de que estavam a medir forças. De um lado estava a sua vontade, que era firme e lhe proibia o orgasmo. Do outro, a exigir-lho, estava toda uma coligação: o seu desejo, o seu amor por Raul, a obediência a que se tinha obrigado, e sobretudo a vontade dele, que ela desejava soberana. No entanto, por mais que desejasse perder, não faria batota a favor do adversário: empenharia todo o seu esforço em vencer.

Se este fosse um jogo de xadrez, esta penetração teria correspondido apenas ao dispor das peças no tabuleiro. Agora Teresa, imóvel sobre Raul, olhos nos olhos, sentia a vagina distendida pelo órgão masculino que a enchia até ao fundo. Esperava a primeira jogada, e esta não se fez esperar: uma fortíssima palmada na nádega esquerda que a fez estremecer, quebrando a imobilidade a que se estava a obrigar. Procurou ajeitar o corpo de modo a aliviar a sensação de repleção que a dominava, mas Raul segurou-a firmemente pelos quadris e começou a mover-se dentro dela. Por vezes retirava-se completamente, de modo a acariciar-lhe, com a ponta macia do pénis, os lábios interiores da vagina e o clítoris, outras penetrava-a até ao fundo com movimentos ora bruscos, ora lentos e prolongados, que a apanhavam sempre de surpresa.

Não era fácil resistir a isto, mas a dificuldade aumentou quando ele lhe ordenou que “dançasse para ele” – o que significava, no seu código privado, que tinha que mover os quadris nos movimentos da dança do ventre; para a frente e para trás, para os lados, em círculos, em oitos. Desobedecer não fazia parte das regras do jogo; mas obedecer era quase assegurar a derrota, tanto mais que ao mesmo tempo ele lhe ia acariciando os seios e os mamilos com toques e beliscões de intensidade variável e imprevisível: ora leves como o toque duma pena, ora fortes e dolorosos, fazendo-a gemer. A mesma coisa com os beijos: ora delicados como o pousar duma borboleta, ora mordidos, exigentes, chupados, a prometer lábios pisados e nódoas negras no peito e no pescoço.

Teresa sentia que no fundo de si se formava o orgasmo que decidira recusar, e sentia-o vir à superfície, soltando-lhe os quadris, invadindo-lhe os pulmões, propagando-se pelos nervos, avermelhando-lhe o rosto e o peito. Começou a apertar e relaxar alternadamente a vagina, tentando apressar o orgasmo de Raul, mas ao fazê-lo estava a apressar também o seu. Sentiu como o amante acelerava os seus movimentos dentro dela, como se lhe soltavam, também a ele, os quadris, como a respiração se lhe tornava arquejante. Ia vencer: vencer por uma unha negra, mas vencer. Mas, no próprio momento em que via a vitória ao seu alcance, ouviu a voz dele que ordenava:

− Vem-te agora, minha escrava.

E veio-se, veio-se como lhe tinha sido ordenado, tão incapaz de se controlar como de não reagir a um choque eléctrico. Nunca antes ele lhe tinha chamado “minha escrava”; tinha esperado pelo momento próprio; e este tinha sido próprio, se tinha! Derrotada, e feliz na derrota, abraçou-se a ele, cobrindo-o de beijos e tentando, com as últimas contracções da vagina, prolongar-lhe o prazer até à última gota. Feliz na derrota: e tanto mais feliz por saber que a derrota táctica tinha sido uma vitória estratégica, um passo em frente na cura de Raul e no conhecimento que tinham ambos um do outro.

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Como escrevi abaixo, não vou publicar aqui capítulo a capítulo o meu segundo livro, como publiquei conto a conto o primeiro. Isto não impede que ofereça aos leitores deste blogue, de vez em quando, um excerto. Este que se segue encontra-se perto do final do segundo capítulo. Espero que gostem.

– O que é que leu no livro que o pôs assim a pensar? – perguntou Teresa.

– A maneira como homens e mulheres delimitam territórios – respondeu Gustavo. – Repara: isto passa-se em Veneza. Há dois irmãos de meia-idade que regressam do funeral da mãe. São ambos casados. Reúnem-se em casa de um deles, com alguns amigos íntimos, para tomar café e comer bolos. São gente culta, de classe média alta, os homens têm o hábito de ajudar em casa. E contudo quem vai imediatamente para a cozinha são as duas noras da falecida e a neta adolescente. Na sala ficam os homens, o neto do sexo masculino, e as mulheres que não pertencem à família imediata. Fica-se com a sensação que se algum destes entrasse na cozinha, seria expulso como um intruso, e que aquelas mulheres do Venetto, emancipadas e cultas, defenderiam o seu lugar na cozinha com a mesma ferocidade que qualquer camponesa semi-analfabeta da Calábria.

– No fundo somos todas iguais – riu-se Teresa.

– Posso perguntar-te uma coisa? – disse Gustavo.

Teresa pôs-se subitamente séria:

– Pode perguntar-me sempre tudo.

A simplicidade desta resposta fez com que Gustavo corasse um pouco, mas prosseguiu:

– Porque é que andas sempre descalça?

– Não ando sempre descalça. Só um mês por ano, durante as férias. Faço-o para me sentir livre. E para sentir uma continuidade entre o mundo e o meu corpo. Tenho necessidade disso.

– Foi isso que disseste à chefe de sala, no refeitório?

– Disse-lhe que se fosse para não poder andar à vontade, não teria escolhido Porto Colom como destino de férias. Acho que ela compreendeu.

– E o facto de te chamares Teresa de Ávila deve ter ajudado…

Riram-se os dois. A partir deste ponto a conversa prosseguiu com aquelas aparentes banalidades que são na realidade essenciais entre duas pessoas que se começam a conhecer. Se gostam mais do Verão, se do Inverno, se são aventureiros ou conservadores no comer e no beber, se gostam de andar de avião, se fazem exercício, os livros e a música de que gostam, que família têm e que relações têm com ela, o que os encanta e o que os irrita nos outros… Por fim Teresa bocejou, e Gustavo disse que talvez fosse horas de irem dormir.

– Desculpe… – disse Teresa.

– Não peças desculpa – disse Gustavo. – Eu também já tenho um pouco de sono.

Nas noites seguintes, a seguir ao jantar, Gustavo não voltou a fazer-se acompanhar de um livro. Nem voltou a aproximar-se do bar: servir-lhe o whisky tinha-se tornado, por acordo tácito, tarefa de Teresa. A única diferença é que o seu lugar de encontro deixou de ser sempre o átrio do hotel e passou a ser também, por vezes, o terraço junto às piscinas. Quando se encontravam aqui, Teresa sentava-se numa cadeira de plástico ao lado de Gustavo, mas quando era no átrio continuou a sentar-se sempre na carpete. Na terceira noite, quando Gustavo disse que se ia deitar, Teresa anunciou:

– Subo consigo.

Porque é que esta honesta simplicidade, que transparecia tantas vezes nas palavras de Teresa, tinha o condão de fazer corar Gustavo? Inclinou-se para ela, beijou-a ao de leve na boca, e respondeu-lhe com igual simplicidade:

– Vamos.

No elevador não se abraçaram nem beijaram, mas a proximidade a que a estreiteza do espaço os obrigava fez com que Gustavo sentisse o cheiro a sabonete que vinha do corpo de Teresa, misturado com o odor inconfundível da excitação sexual feminina. Havia ainda outros aromas, provenientes duma sacola que ela, contra o que era hábito, trazia a tiracolo. E que cheiro estaria ela a sentir, provindo dele? A sabonete, sem dúvida; mas será que a excitação dum homem tem cheiro, sobretudo se ainda na fase inicial?

Logo que ficaram sós, Teresa perguntou a Gustavo qual era, habitualmente, a primeira coisa que fazia quando chegava ao quarto.

– Geralmente vou um bocado para a varanda – respondeu ele, um pouco surpreendido com a pergunta. – Sento-me na cadeira, fumo um charuto e fico a olhar para o mar.

– Então faça isso mesmo – respondeu-lhe Teresa. – Faça de conta que eu não estou cá. Não se preocupe, quando voltar para dentro ainda me vai encontrar: não me vou embora sem a sua permissão.

Este era o início mais estranho que Gustavo alguma vez tinha visto par um encontro sexual; mas um certo sentido da novidade e da aventura levou-o a entrar no jogo. Afastou para o lado a cortina que separava o quarto da varanda, abriu a porta de correr, e ia a pegar na caixa dos charutos quando a voz de Teresa o deteve:

– Espere. Eu levo-lhe os charutos.

Que fazer senão obedecer? Era claro para Gustavo que tudo isto era um jogo, do qual Teresa conhecia as regras e ele não. Saiu para a varanda, sentou-se na cadeira de plástico branco, puxou para mais perto a mesa do mesmo material e esperou. Passado uns segundos apareceu a jovem, trazendo consigo não só a caixa de charutos, mas também o isqueiro e o aparelhinho de desenroscar que ele usava para cortar as pontas. Agachada ao lado dele, Teresa procedeu calmamente a esta operação, acendeu o charuto rodando-o entre os dedos, tirou a primeira baforada e ofereceu-lho. Seria claro para quem a estivesse a ver que não era a primeira vez que ela prestava a alguém este serviço. Depois, sem falar, retirou-se para o quarto, correu a cortina e a porta de vidro, e não voltou a dar mais sinal de si que não fosse algum ruído ocasional e ténue.

Sozinho na varanda, Gustavo esforçou-se por imaginar que estava igualmente sozinho em todo o aposento, e que lá dentro ao pé da cama não se encontrava, à sua espera, uma mulher jovem e atraente, a primeira com quem tinha um encontro íntimo desde havia meses. E de certo modo teve êxito nesta imaginação: durante os quarenta e cinco minutos que um charuto daquele tamanho e consistência demorava a fumar – tempo este que ele precisou de toda a sua auto-disciplina para não encurtar com baforadas nervosas – o pátio sob a varanda foi-se esvaziando de gente, o calor que um dia de sol tinha acumulado nos ladrilhos foi-se dissipando, e a presença silenciosa de Teresa no interior do quarto foi adquirindo quase a imponderabilidade de um sonho.

E foi um cenário de sonho, aquele com que Gustavo se deparou quando entrou de novo no quarto: a luz eléctrica apagada; velas acesas, perfumadas, dispostas em todos os lugares possíveis e nalguns que ele nunca imaginaria; taças com pétalas de flores; no toucador, na secretária, nas mesinhas de cabeceira, pratinhos minúsculos com tâmaras e amêndoas; e na cama, coberta por um fino lençol que não lhe velava a nudez, os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro, estava Teresa.

Estes preparativos tão elaborados falaram bem alto, como era intencional e óbvio, à sensualidade de Gustavo; mas antes disso, por uma fracção de segundo, falaram-lhe também ao entendimento. E o que lhe murmuraram foi que o que lhe estava a ser proposto era algo mais do que uma aventura de férias: agora competia-lhe a ele, pela maneira como agisse nos segundos e nos minutos seguintes, aceitar ou não esta proposta.

E foi isto que Gustavo fez: como a cama era baixa, precisou de pôr um joelho no chão para se inclinar sobre Teresa; nesta posição, beijou-lhe cerimoniosamente a testa, os olhos e a boca; em vez de a destapar, ajeitou-lhe o lençol sobre o corpo, como se fosse para lhe desejar boa noite; e por fim, aproximando a boca do ouvido dela, murmurou-lhe:

– Teresa, ainda não sei muito bem quem tu és, nem o que és; nem sei muito bem o que é que me estás a dar neste momento, só sei que é alguma coisa de muito importante; mas declaro aqui que seja o que for, aceito. Sejam as consequências quais forem, aceito.

Teresa tirou os braços de sob os lençóis para lhos lançar ao pescoço, e assim se beijaram durante um longo minuto. Então Gustavo levantou-se, entrou na casa de banho para lavar da boca o cheiro do charuto, despiu-se completamente e voltou para junto de Teresa, deitando-se ao lado dela debaixo dos lençóis. Abraçado a ela, sentiu que o sexo se lhe intumescia. Ela também o sentiu, porque comprimiu contra ele o ventre macio.

– Teresa…

– Estou aqui, Gustavo. Juntinha a si. Pronta para si. O que quer fazer comigo?

– Tudo, minha querida. Tudo. E tu? O que queres fazer comigo?

– Eu? Não pense nisso. Nunca pense nisso. Eu não tenho importância. Já me deu tudo o que eu queria quando me disse “aceito”… Agora trata-se do que o senhor quiser.

Gustavo, já excitado, sentiu uma excitação diferente e muito mais intensa ao ouvir estas palavras. Não se tratava só de excitação física, porque logo o primeiro contacto com o corpo nu de Teresa lhe tinha provocado uma erecção que quase lhe doía, de tão rija e tão túrgida. Nem só de desejo, porque esse era desde antes quase irresistível; era, sim, uma carga de energia, uma sensação de que tudo era possível agora e sempre. Quase se sentia capaz de flutuar no ar, se quisesse, por pura força de vontade, e a partir do ar penetrar, como um anjo, a carne feminina que se abria abaixo dele para o receber.

Afastou para o lado o lençol que lhes cobria os corpos, e pela primeira vez viu Teresa nua. Já lhe tinha notado, pelo balancear das saias rodadas, a largura das ancas; via agora que esta largura lhe vinha, não de qualquer gordura a mais, mas da estrutura óssea e da musculatura vigorosa. A cinta estreita mas bem musculada, os braços roliços mas firmes, o ar de flexibilidade, suavidade e força que emanava dela toda, tudo isto apontava para o mesmo:

– Fazes dança do ventre?

– Sim, há alguns anos. Mas não sou profissional, apenas uma amadora razoável. Hei-de dançar para si… Quer?

Gustavo não respondeu. Estranhamente, apesar de toda a sua excitação, não tinha pressa: era como se a energia de que se sentia repassado fosse inesgotável e eterna. Pôs-se a examinar e a sopesar os seios de Teresa, que numa dançarina profissional seriam talvez um pouco grandes demais, mas nela eram perfeitos.

Teresa, docilmente, punha-se a jeito para todos os toques, sem deixar de o acariciar com as mãos ávidas.

– Agrado-lhe? Quero tanto agradar-lhe…

Gustavo voltou a não responder. Esta pergunta era daquelas a que se responde sempre sim, seja esta resposta verdade ou mentira; e este sim seria uma daquelas respostas em que nenhuma mulher acredita, por verdadeira que seja.

– Vira-te de barriga para baixo – ordenou.

Teresa obedeceu sem hesitar. Seria intenção dele possuí-la pela abertura de trás? Se fosse, ela ficaria contente por ser assim possuída; mas não, tudo o que ele queria era continuar o exame minucioso a que a estava a sujeitar. As costas, como o resto do corpo, eram as duma dançarina; as nádegas, as duma Vénus Calipígia. Correu-lhe as mãos pela nuca, afastando para os lados o cabelo. Poucas partes do corpo, como a nuca, fazem duma mulher mais mulher. Mesmo nas feias a nuca costuma ser linda; e esta era bela da cabeça aos pés. A carícia que Gustavo lhe fez nas costas foi quase uma massagem; e ela, impedida de retribuir pela posição em que estava, começou a arquear-se e a ronronar como uma gata, toda entregue à mão que a afagava.

Nas nádegas a carícia foi diferente: ora uma passagem leve da mão, ora uma leve palmada para ver como oscilavam e tremiam. Teresa gemeu:

– Se o senhor quiser pode bater com mais força…

Gustavo achou suficiente bater apenas com a força necessária para lhe ver a pele enrubescer. Mas à luz quente das velas a mudança de cor mal se notava: noutra ocasião, à luz do dia… Continuou a examiná-la: a parte de trás das coxas, a dobra do joelho, que beijou, os calcanhares redondos e macios: como podia uma mulher que tanto andava descalça ter uns pés assim cuidados? Pedra-pomes diária, sem dúvida, cremes emolientes, pedicura frequente…

– Vira-te outra vez – ordenou.

E quando ela se pôs de novo de barriga para cima:

– Abre as pernas.

Gustavo ainda não sabia que, para Teresa, a ordem seca de abrir as pernas era mais excitante que longos minutos de preliminares e carícias. Procurou-lhe, com o pénis rígido, a abertura do sexo, e encontrou-a suficientemente molhada para se poder enterrar nela logo naquele momento, num movimento súbito. Mas não o fez: decidiu atormentá-la, mesmo que para tal tivesse também que se atormentar a si próprio. Por vezes fazia menção de a penetrar, chegava a entrar nela um pouco, para logo recuar e recomeçar a série infindável de beijos que lhe ia dando na boca, nos seios, na zona lateral do tórax, onde se conhecem as costelas… ou então percorria-lhe lentamente, com a ponta do membro, todo o rego entre o clítoris e a abertura anal, resistindo à tentação de entrar nela sempre que lhe passava entre os lábios vaginais.

Teresa nada ousava pedir, muito menos exigir. O desejo dela, via-o ele bem no modo como escarranchava as coxas e o abraçava com as pernas, tentando puxá-lo para dentro – para logo as fechar um pouco, a uma ordem dele, até ficarem no ângulo que ele queria. Ou na súplica das mãos que lhe palpavam o rosto, como as dum mendigo o de um santo, tentando descortinar uma promessa na posição dos lábios ou do queixo. Ou nos gemidos inarticulados, ou no arquear ansioso do corpo ao encontro do dele.

Penetrou-a por fim até ao fundo, num movimento lento, a que se seguiram outros igualmente lentos em que entrava nela e saía dela completamente. Era isto que ela queria. Era isto que ela não queria. Era este o seu prazer. Era esta a sua tortura. Oh, poder ela ser trespassada de vez, como a santa sua homónima pela lança do anjo, que lhe arrancava as entranhas!

Mas por fim Gustavo tinha tão pouco poder para se recusar à energia que o impelia como Teresa para a convocar; e o pénis dele tornou-se, sim, em lança de fogo, e trespassou-a, sim, até às entranhas, e fê-la morrer, sim, uma, duas, várias mortes. Gustavo viu-a fechar os olhos, abrir a boca num “O” perfeito, exalar, como quem exala a vida, o prazer último e completo. E quando ele próprio se esgotou nela sentiu ainda, no mais fundo de si, o reservatório inesgotável de virilidade que as palavras dela lhe tinham dado a conhecer.

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Alice chegou virgem ao seu décimo sexto aniversário. Tinha sido este o seu trato com Ricardo e Mariana: acolitá-los nos seus amores e nos seus rituais, mas nunca os tocar sexualmente nem ser tocada por eles. O contacto físico não lhe era proibido quando resultasse duma necessidade prática, como pentear Mariana ou ajudá-la a vestir-se, ou até como expressão casual de afecto, mas enquanto manifestação erótica estava fora dos limites estabelecidos.

Do mesmo modo, ninguém se importava que ela os visse nus no quarto de banho ou na piscina, nem que assistisse sem intervir aos seus amplexos de amantes ou aos seus rituais de Senhor e escrava. Afinal tinha sido isto mesmo que ela tinha pedido para aprender quando tinha reunido toda a sua coragem, anos antes, para se abeirar de Ricardo. Assim, assistiu muitas vezes, aparentemente sem outra emoção que não fosse uma intensa mas remota curiosidade, à penetração de Mariana por Ricardo; à liberdade absoluta com que ele lhe usava a vagina, a boca, a abertura anal, fazendo-a gemer de prazer ou gritar de dor; e até aos castigos físicos, muitas vezes cruéis, que ele a fazia sofrer e ela depois agradecia beijando-lhe a mão.

A tudo isto ela assistia como à mais convencional das rotinas. Porém todos os três sabiam que esta impassibilidade era apenas uma aparência e que por trás dela se escondia um veemente desejo de aprender.

Se Alice entrasse sem bater, como era regra, numa parte da casa onde Ricardo se preparasse para possuir ou punir Mariana, ou onde algum dos dois estivesse despido para o duche ou para o banho de sol, fazia e dizia com naturalidade o que tivesse a fazer ou a dizer, e demorava-se o que tivesse a demorar-se: nem menos, nem mais. A mesma regra se aplicava às gémeas Circe e Atena; e em menor grau a quaisquer criadas que Ricardo e Mariana tivessem ao seu serviço, a quem eram pagos salários elevados em troca desta discrição.

Apesar deste despudor institucionalizado, Alice coibia-se um pouco de aparecer nua perante os donos da casa. Sabia que um dia havia de ter, tal como Mariana, um Senhor, mas este Senhor não seria Ricardo; e não via razão para que este desfrutasse com demasiada frequência da visão de um corpo em cuja posse não estava interessado.

Com Circe e Atena não mostrava o mesmo pudor, nem as gémeas em relação a ela. Deusas, ninfas ou génios tutelares, era-lhes igual mover-se pela casa nuas ou envoltas nos seus panejamentos azul-poeira; ou ainda, revezando-se, vestidas como empregadas domésticas tradicionais, indumentária esta que de tão incongruente lhes dava um ar de deusas ou princesas disfarçadas, como numa comédia barroca.

Por outro lado, diante de deusas qualquer espécie de roupa parece vã e qualquer pudor parece frívolo: daí que Alice aceitasse ser banhada e vestida pelas gémeas com a mesma naturalidade com que Mariana aceitava os mesmos serviços de Alice.

Alice não tinha namorado. Também isto fazia parte do trato que fizera com Ricardo. Na escola as outras raparigas achavam estranho que ela se calasse quando a conversa tratava de namoros e aventuras eróticas. Era uma geração em que as raparigas se gabavam, como em gerações anteriores só os rapazes, das suas proezas sexuais: aventuras reais ou imaginadas, bebedeiras, excessos de toda a ordem, acrobacias inverosímeis, penetrações diversas. Só ela não entrava nestas conversas – ela, e também as bem comportadas, as tímidas, as “chocas”; mas ninguém confundia Alice com estas. O silêncio discreto de Alice não provinha de timidez ou fraqueza; as jovens feras que eram as suas colegas sentiam isto, ainda que confusamente; e como não a sentiam vulnerável não a perseguiam nem atormentavam como com crueldade e gáudio faziam às “chocas”. Pelo contrário, olhavam-na com uma mistura de curiosidade e temor, enquanto ela sorria interiormente do saber rudimentar que elas exibiam como se de sofisticação e experiência se tratasse.

Circe e Atena deambulavam frequentemente, juntas ou separadas, pelo mundo mediterrânico. Eram umas estranhas viagens, que nunca se percebia bem se eram de negócios, de família ou de turismo; corriam deste modo a Europa toda; uma vez foram à Índia, onde Alice viu pela primeira vez gente parecida com as gémeas no corpo, na cor e nas feições; outra vez foram ao Sul de Marrocos, onde Alice viu as mulheres berberes de rosto destapado, com decorações que pareciam tatuagens no rosto e nas mãos; os tuaregues, que também são berberes, vestiam-se como as gémeas, dos mesmos tons de azul. Por toda a parte as duas irmãs aparentavam ter familiares, amigos ou associados: mas um dos seus destinos mais frequentes era a Tunísia, o bairro de Túnis correspondente à antiga Cartago dos Fenícios, e foi aqui que se deu a primeira grande viragem no destino de Alice.

Na estação arqueológica estava quase sempre um rapaz muito novo que pelo aspecto poderia ser um parente próximo das gémeas: tão escuro de pele como elas, mas com as feições e o cabelo de um europeu.

Alice viu-o pela primeira vez nos arredores da estação arqueológica de Cartago, sentado num banco desdobrável, diante de um pequeno cavalete, a desenhar. Ao passar com Circe e Atena em direcção ao alojamento que lhes tinha sido destinado, a adolescente mal teve tempo de reparar nele: um vulto envolto nos mesmos panos azuis e cor de lousa que as suas mentoras habitualmente usavam e que a faziam sentir ridícula nos seus jeans de marca e blusões de couro – roupas europeias, urbanas, industriais, que a isolavam do ar e do mundo à sua volta. O jovem teria talvez dezoito ou vinte anos, mas Alice não teve tempo para o ver melhor.

As gémeas saudaram-no com um aceno, ao que ele respondeu com outro para logo se concentrar de novo no trabalho. Alice não viu o que ele estava a desenhar, mas a única coisa que lhe podia servir de modelo era uma massa de cactos, daqueles cujo fruto a se chama figo do diabo ou figo do inferno. Depois, quando ele lhe foi apresentado – chamava-se Harun e apesar do ar de família não foi mencionado qualquer parentesco entre ele e as gémeas – Alice encontrou-se perante um jovem adulto que, apesar de ser apenas um pouco mais velho do que ela, mostrava a autoridade e a experiência de um homem maduro – um homem que suscitava o respeito e mesmo a deferência de todos os presentes, incluindo as gémeas. Tinha no olhar e na postura a altivez meio selvagem duma ave de rapina: o mesmo orgulho que Alice conhecia em Ricardo, um modo de olhar para ela que só não era insolente porque parecia pertencer-lhe por direito incontestável.

Naquele minuto Alice soube sem qualquer dúvida que tinha encontrado o seu Senhor, e que não tinha errado na sua decisão quando iniciara a sua aprendizagem junto de Ricardo e Mariana.

Alice, a rebelde, a selvagem, a virgem guerreira meio punk e meio gótica; Alice, a rebarbativa, a sarcástica – sentiu-se uma fêmea diante de Harun: uma femeazinha macia e dengosa como tantas a quem sempre desprezara. Nos dias que se seguiram começou a prestar-lhe pequenos serviços: transportava-lhe o cavalete, levava-lhe chá de menta muito quente, que é o que melhor mata a sede nos grandes calores do Magrebe, ou ficava simplesmente sentada na poeira ao lado dele, à espera de lhe poder ser útil de qualquer outra maneira.

Começou a vestir caftan em lugar dos seus jeans e T-shirts, a calçar babuchas mouriscas em lugar dos seus característicos Doc Martens.

E depois, de novo em Portugal, tantas vezes falou de Harun às gémeas, tão repetidamente traiu a fascinação que sentia por ele, que Circe acabou por lhe dizer:

– A menina descanse, há-de ser dele.

E esta expressão, “ser dele”, que a jovem teria desprezado um ou dois meses antes como linguagem de telenovela, parecia-lhe agora apropriada e justa – como era apropriada e justa, não era preciso dizê-lo, aplicada a Mariana e a Ricardo.

Nas viagens que fazia com as gémeas encontrava-se muitas vezes com ele, fosse por acaso ou por desígnio: na Tunísia, em Heidelberg, em Paris, em Brugges. Ou então era ele que visitava as gémeas em Braga, onde Ricardo o recebia como se já o conhecesse de antes.

Às vezes fazia-se acompanhar de namoradas, o que provocava em Alice, que já se sentia com direitos sobre ele, ciúmes terríveis.

– Que direito tem a menina a ter ciúmes? – perguntavam-lhe as gémeas, quando ela, não podendo mais, ousava queixar-se. – Ainda não é dele; e mesmo quando for propriedade dele, ele não vai ser de certeza propriedade sua. Se além da menina ele quiser ter uma, ou duas, ou dez escravas, estará no seu direito, e a menina só terá que se dar com elas o melhor que puder.

− Mas o Ricardo só tem a Mariana – objectava a jovem.

− Pois tem, mas isso é uma decisão só dele, que tem a ver só com a natureza dele. A natureza do senhor Harun pode ser parecida com a do senhor Ricardo neste aspecto, mas também pode ser muito diferente: a menina é que vai ter que se adaptar.

Nada disto diminuía os ciúmes de Alice, exacerbados pelo facto de as suas rivais tratarem Harun com uma deferência que nelas lhe parecia servil e falsa: e iludia-se pensando que se a mesma deferência fosse exibida por ela própria, então seria sem dúvida dignificada e honesta.

Uma destas efémeras namoradas, uma jovenzinha muito loura e muito branca, vestida à oriental, que só falava alemão, pareceu-lhe de todas a mais fingida (ou a mais iludida) com a docilidade exagerada de que fazia alarde, tão contrária ao pendor bravio que Alice sabia ser o seu.

– Não se preocupe – dizia-lhe Circe. – Ele já reparou na menina há muito tempo, embora não o mostre. E quer a menina para ele. Essas namoradas com que a menina o via não passam de submissas: nenhuma foi propriedade dele de verdade como a menina há-de ser.

O que era uma submissa? Alice sabia o que era uma escrava: era uma mulher como Mariana, a quem ela tinha escolhido como modelo e ideal de vida. Mas não sabia o que significava a palvra “submissa” a não ser como adjectivo, e isso era o que tanto ela como Mariana eram em relação aos seus Senhores; e Circe também não a esclareceu. De tudo isto só se depreendia, concluiu Alice, que se estava a preparar qualquer coisa que ela não podia saber mas de que todos em casa de Ricardo tinham conhecimento. Por ela, tudo bem, podia esperar.

Como que para confirmar esta impressão, a certa altura Harun começou a aparecer sozinho. Na Europa não usava a djalaba nem os panejamentos com que Alice o tinha conhecido na Tunísia: em vez disso apresentava-se no traje convencional de um europeu que não quer dar nas vistas: botas Timberland, jeans nem muito novas nem muito velhas, e T-shirt de algodão sem desenhos nem letras. Sobre isto punha, pelo tempo frio, um robusto blusão de aviador; e no resto do ano um blusão em cabedal preto, fino e flexível, sem adornos.

Depressa ganharam o hábito de andar juntos. Calcorrearam, nos seus diversos encontros, as ruas de Túnis, de Braga, de Lisboa, de Heidelberg, de Brugges. Ao princípio caminhavam lado a lado pelas ruas, depois ela foi ganhando o hábito de caminhar um pouco atrás dele – não ostensivamente, como as magrebinas com quem muitas vezes se cruzavam, mas discretamente, a meio passo de distância ou menos. Nos recantos dos jardins, nos vãos das portas, trocaram alguns beijos e carícias, manifestações de afecto que só a pouco e pouco se foram erotizando, e que ao erotizar-se foram adquirindo, por vezes, o carácter de um tributo respeitosamente prestado e graciosamente recebido.

Não foram precisas muitas palavras para que a certa altura se estabelecesse entre os dois um daqueles compromissos de que só os muito jovens são capazes: e se era nítido para ambos, tanto como para quem os conhecesse, que havia entre eles um contrato tácito, era igualmente nítido que não era, nem eles queriam que o fosse, um contrato entre iguais.

Tal como Ricardo e Mariana, também Circe e Atena seguiam com atenção esta coreografia de aproximação recíproca.

– A menina sabe que quando fizer dezasseis anos – disse-lhe Atena um dia – já pode deitar-se com um homem sem que ele vá preso. É a lei aqui em Portugal.

Alice não entendeu muito bem a que propósito veio este aviso, se aviso era. Para ela, a Virgem Guerreira, estas leis eram um disparate. Não se considerava uma “menor”. “Se eu quiser ir com um homem, ninguém tem nada com isso”, pensava; “e depois disso, se eu não quiser, também ninguém me obriga, e se obrigar não são cá precisos polícias nem tribunais para lhe fazer pagar bem caro o atrevimento.”

− É por isso que andam todos a preparar o meu aniversário como se fosse a coroação da Rainha de Inglaterra? – retorquiu, subitamente furiosa. – Decidiram que eu ia ser desflorada no meu dia de anos? E quem é que decidiu isso? A minha opinião não conta?

– Ninguém decidiu que a menina vai ser desflorada – respondeu Atena. – Quanto à opinião da menina, por hoje ainda conta; se vai contar ou não no seu dia de anos, isso depende do que combinar com o senhor Harun daqui até lá. O que se vai comemorar não é a desfloração da menina, que pode acontecer ou não acontecer nesse dia. O que se vai festejar é a menina passar a ser uma mulher aos olhos de todos. E esta festa vai ser só o princípio, depois vão ser precisas outras cerimónias… Esta parte vai ser só entre nós, as mulheres. A senhora também vai ajudar.

No espírito de Alice a ira deu lugar à curiosidade:

– A Mariana? Ajudar em quê? Que rituais são esses?

– Depois verá. Não vai querer entregar-se ao seu Senhor ainda fechada, como uma ignorante…

O décimo sexto aniversário de Alice comemorou-se em Braga, na moradia de Ricardo. Quem tivesse assistido, de fora, à minúcia e vagar dos preparativos poderia concluir que ia haver uma longa lista de convidados. Mas não: de Heidelberg foi convidado o casal Liebknecht, Gunther e Silke, em casa de quem Mariana tinha jantado uma vez. De Túnis veio Harun, claro está; e não podia faltar a tia meio hippie de Alice, ou melhor, tia-avó, que no seu tempo tinha corrido meio mundo para depois tomar conta dela quando a menina deixou de ter outros familiares vivos. Esta tia tinha nome de pedra preciosa: Safira; e da prontidão com que tinha acedido ao pedido de Alice para se confiar à educação pouco convencional que lhe dariam Ricardo e Mariana a adolescente concluiu que o conhecimento de Safira e Ricardo, ou de Safira e Mariana, já vinha muito de trás. Para a ocasião a tia de Alice ataviou-se das suas mais belas sedas indianas – as mais escuras e discretas que tinha, de modo a permitir que a sobrinha brilhasse por contraste. Ao todo eram sete pessoas à mesa, com as gémeas a servir, vestidas de criadas – mas não criadas ocidentais, antes servas turcas de fantasia, com as suas calças de harém, os pés descalços, o fez vermelho na cabeça e o bolero curto que não apertava à frente e deixava ver, ao abrir-se, os seios nus.

Os anos duma mera adolescente preparam-se e comemoram-se geralmente em poucas horas: não foi assim com o aniversário de Alice. O maior esforço e despesa foram para as flores que encheram a casa e para as decorações do jardim. Mas a azáfama mais visível começou no dia anterior, com as compras de última hora e com a necessidade de ir buscar os convidados ao aeroporto.

No jantar de festa Mariana usou, para adornar o pescoço, os pulsos e os pés, minúsculas safiras a condizer com o caríssimo, mas severo, vestido azul. Do mesmo azul a gravata de Ricardo, usada com camisa branca a fato cinzento. Gunther e Silke estavam de preto, como competia ao estilo da sua relação; e contrastando com toda esta severidade, Harun esperava de pé, junto à mesa, envolto numa indumentária sumptuosa de príncipe saudita, à cintura uma adaga com o punho e na bainha cobertos de pedras preciosas.

Alice foi, como lhe competia, a última a entrar na sala. Tal como todas as mulheres presentes, estava descalça; mas os pés mal se lhe viam sob a larga roda do vestido de debutante, todo em tons de rosa. As gémeas tinham gasto horas a lavá-la, a perfumá-la, a vesti-la, a penteá-la, a fazer-lhe uma leve maquilhagem, a enfeitá-la – tiara, brincos, colar, pulseira e uma fina corrente de ouro à volta do tornozelo direito, ligada por uma fiada de brilhantes a um anel no dedo do pé.

Harun recebeu-a, muito formal, à porta da sala de jantar e conduziu-a ao seu lugar à mesa, onde a fez sentar. Um ano antes Ricardo tinha começado a treinar Alice, que nunca tinha bebido álcool, a apreciar vinhos: e hoje ela podia, na sua festa, acompanhar cada prato com a bebida apropriada, um pouco de Chablis no fundo do copo, um tinto precioso do Douro a acompanhar a carne, Porto à sobremesa, champanhe aos brindes. De tudo quase só o suficiente para molhar os lábios. Vieram as prendas: de Ricardo um relógio, de Mariana um conjunto de roupa interior bordada, da tia Safira um caftan em seda, dos Liebknecht um alfinete para usar ao peito, das gémeas uns brincos.

Harun deu-lhe uma pulseira de rubis.

Depois de ela a desembrulhar e pôr no pulso fez-se um silêncio na sala, como se a dádiva desta pulseira, que era no feitio daquelas a que se chama “escrava”, fosse o sinal combinado para algo de momentoso. No meio deste silêncio Harun levantou-se e ficou um momento, pálido e muito grave, a olhar de frente para Ricardo.

– Ricardo – disse Harun, – também eu, apesar de não fazer anos, tenho uma dádiva a pedir. Você sabe que dádiva é, todos aqui sabem. A Alice, que hoje se torna aos nossos olhos uma mulher, tem estado à sua guarda. Eu e ela fomos aprendendo a conhecer-nos; e concluímos os dois, sem margem para dúvidas, que é destino dela pertencer-me e destino meu possuí-la. Sabemos ambos, e agradecemos-lho do fundo do coração, que você nunca quis exercer sobre ela os direitos de um dono, mas também nunca recusou exercer as responsabilidades de um mentor. É nesta sua qualidade que ma entregará, se quiser aceder ao meu pedido − que também é o dela: aqui e agora, diante de todos; para que também ela, como a sua Mariana, tenha o Senhor que quer.

Alice corou um pouco. As palavras que ela própria tinha ajudado a escrever e a decorar soavam-lhe agora, saídas da boca de Harun, como um improviso surpreendente e ousado. Olhando à sua volta, viu todos suspensos da resposta de Ricardo, como se também eles estivessem, de facto, surpreendidos.

Ricardo pôs-se de pé e encarou Harun; mas antes de responder desviou dele o olhar, virou-se para Alice, e perguntou:

– Alice, ouviste o pedido que o Harun me fez. Ouviste-o dizer que é também o teu pedido. Isso é assim?

Alice teve que se esforçar para dizer em voz firme e clara as palavras que tinha preparado:

– O meu Senhor Harun falou por mim, Ricardo. É a ele que quero pertencer.

Mas Ricardo não se virou logo para Harun. Olhando para a tia de Alice, disse ainda:

– Safira, ouviu o Harun pedir-me que lhe entregasse a Alice; podia igualmente ter-lho pedido a si, que é a única familiar que ela tem e sempre foi bem-vinda nesta casa. Por isso quero perguntar-lhe: Consente você também, tal como eu consinto, nesta entrega?

Safira sorriu e acenou, com lágrimas nos olhos.

– Pois bem – decidiu Ricardo. – Vá para ali, Harun, se faz favor, onde todos o possam ver. E tu, Alice, vai até ele; beija-lhe a mão em sinal do teu respeito.

Alice levantou-se da cadeira com as pernas a tremer. Levantando o vestido para não enredar nele os pés, dirigiu-se ao seu companheiro de tantas aventuras, agora quase irreconhecível na sua gravidade de homem feito; e pegou-lhe na mão para a beijar. Era uma mão magra e morena, de dedos finos e longos. Pôs nela os lábios, demoradamente, e depois ergueu o olhar ao encontro do dele, que a abraçou e beijou enquanto à volta da mesa as mulheres enxugavam uma ou outra lágrima.

Nessa noite Alice passou o serão sentada no tapete aos pés de Harun, como Mariana aos pés de Ricardo. Tinha tido um dia cheio: além de se preparar para a festa de anos tinha sido recrutada pelas gémeas – ela que nunca desempenhava tarefas domésticas – para preparar o quarto de Harun. Agora, sentada aos pés dele, lembrava-se que só tinham posto uma almofada na cama. A cama de Ricardo era sempre feita com duas almofadas embora Mariana dormisse muitas vezes no chão aos pés da cama e não ao lado do dono. Alice achava estranho que a cama de Harun não tivesse sido preparada também para ela, mas não ousou perguntar porquê. Cansada como estava, e com sono, não pensou em despedir-se e ir para o seu quarto. Pareceu-lhe que devia seguir o exemplo de Mariana, que por mais cansada que estivesse nunca se ia deitar antes do dono; e por outro lado não sabia o que ainda se esperava dela no fim deste seu dia de aniversário. Claro que se entregaria alegremente a Harun se isso lhe fosse exigido; mas não se imaginava ainda a servi-lo como Mariana fazia a Ricardo. Suspeitava intimamente que tudo isto era um mal entendido, que não passava duma miúda insignificante como as outras, que se iniciam sexualmente com miúdos meio parvos. Harun era um homem, com toda a complexidade e força de um homem verdadeiro. E Alice, mesmo que lhe fosse exigido servi-lo nessa mesma noite – o que faria de bom grado, e com carícias plenas – não ousaria ainda pôr o nome de escravidão à sua relação com ele, uma ligação incipiente que, comparada com o amor de Ricardo e Mariana – enraizado, complexo, variado, inabalável – seria ainda superficial e pobre.

Ao serão não se conversou muito: Ricardo pôs música clássica a tocar bastante alto, optando desta vez, não pela sua preferida música de câmara, mas sim por grandes orquestrações sinfónicas de pendor orientalizante ou exótico: o Bolero de Ravel, os Quadros de uma Exposição de Mussorgsky, as Danças Polovtsianas de Borodin, a Dança do Sabre de Khachaturian, as Czardas de Monti, as diversas marchas húngaras ou turcas de Mozart, Beethoven, Brahms – e naturalmente a peça preferida de Alice, aquela que a tinha despertado para a música clássica: a Sinfonia Fantástica de Berlioz, com toda a sua profusão de danças macabras, missas negras, reuniões de bruxas, procissões nocturnas e marchas para o suplício.

Apesar de ter aprendido a gostar de música clássica, especialmente das grandes composições sinfónicas de pendor místico ou romântico, a música preferida de Alice não era esta. No seu quarto e no MP3 tinha Loreena McKennitt, Enya e os Clannad, os Nightwish, grupos de black metal, Mafalda Veiga entre os portugueses, e ainda grupos tão diversos como The Cult, os Joy Division, os Bauhaus, os Pink Floyd ou os Red Hot Chilli Peppers, ou nomes individuais que iam de Peter Murphy a Frank Zappa; mas na sala e na biblioteca de Ricardo não era isto que geralmente se ouvia e Alice não se sentia lá deslocada.

Gunther e Silke beberam bastante, Safira também. Ricardo, Mariana e Alice só um pouco de vinho, o necessário para fazer civilizada justiça a cada prato. E Harun nem isso, só o champanhe do brinde que Ricardo propôs em honra de Alice, que hoje deixava de ser criança e começava a sua nova vida de mulher. Por insistência de Gunther, cantou-se a seguir ao jantar: uma canção tradicional de estudantes de Heidelberg, da qual pelos vistos todos os mais velhos sabiam a letra. Uma das estrofes ficou particularmente na memória de Alice:

Vivant omnes virgines Faculae, formosae; Vivant et mulieres, Tenerae, amabiles, Bonae, laboriosae, Bonae, laboriosae.

Por fim Harun retirou-se com Ricardo para o escritório deste. Gunther foi para o jardim fumar um dos charutos de Ricardo. Mariana começou a arrumar a sala e a cozinha na companhia de Atena e Silke, mas, quando Alice fez menção de as ajudar, a outra gémea – que ao contrário da irmã tinha trocado o seu fantasioso uniforme de criada turca pelos seus habituais panejamentos azuis – fez-lhe sinal para que a seguisse.

No quarto fê-la despir completamente e ordenou-lhe que se deitasse em cima da cama. Debruçando-se sobre o corpo dela, começou a examiná-la minuciosamente, dos dedos dos pés aos cabelos, tomando notas num pequeno caderno. Por fim ordenou-lhe que se sentasse em frente ao toucador.

– Esta vai passar a ser a sua rotina todas as noites – observou.

Alice obedeceu. O toucador era muito baixo na zona do espelho, e quando a jovem, a uma ordem de Circe, abriu as pernas, viu reflectida a fenda do sexo e os lábios rosados da vulva por entre a pelugem sedosa que a velava tenuemente de negro.

– Olhe bem para si. Veja o que tem a dar ao seu dono. Os pelos em baixo são para ficar: é assim que ele gosta. Depois, quando ele a tiver visto nua, podemos ter que lhes dar outro corte. O cabelo é para crescer. As unhas, vai passar a usá-las curtas e cortadas em quadrado. Esses vernizes pretos ou vermelhos que gosta de usar acabam hoje: a partir de agora serão nacarados ou transparentes, ou rosa pálido. E para já a primeira coisa que vamos fazer é tirar-lhe o verniz das mãos e dos pés.

No toucador estavam já o frasco de acetona e as bolas de algodão que iam servir para isto.

– Chegue o banco para trás, se não se importa – ordenou Circe.

Logo que teve espaço ajoelhou-se aos pés de Alice e começou a remover-lhe meticulosamente o verniz das unhas: primeiro as mãos, depois os pés. Com um leite de limpeza tirou-lhe a maquilhagem escura à roda dos olhos e o bâton cor de sangue que lhe avermelhava os lábios. Feito isto, molhou-lhe o cabelo com um spray, escovou-lho a direito e aparou-lhe algumas pontas mais espigadas, repetindo que aquilo era mesmo para crescer.

– Agora vá lavar os dentes.

Alice assim fez, com pasta e escova e com uma máquina cuja cabeça rotativa lhe limpava todo o interior da boca com um finíssimo mas forte jacto de água.

– Tire os piercings, por favor.

Alice não tinha outros piercings que não fossem um no umbigo, outro na ala do nariz e os brincos, mas mostrou-se renitente:

– Não vou poder usar mais piercings?

– Provavelmente vai – respondeu Circe. – Mas serão os que o seu dono ordenar, e não os que a menina quiser.

Sem resposta para isto, Alice obedeceu.

– Agora um duche – apressou-a Circe. – Ande, mexa-se.

No duche lavou-lhe o cabelo três vezes com champô; depois, com sabonete, o corpo todo, da cabeça aos pés. Para não molhar as roupas tinha-se posto também nua, e Alice sentia-se minúscula junto daquele corpo negro e gigantesco que a dominava completamente. Especial atenção foi dada ao ânus e à vagina: para lavar aquele Circe introduziu-lhe diversas vezes o dedo molhado em sabonete, e depois sem nada, só com o jacto de água do chuveiro. Esta última penetração doeu um pouco, mas Alice fez por não dar mostras disto. Lavar por dentro o sexo de Alice sem lhe romper o hímen exigiu o recurso a um irrigador vaginal com uma cânula muito fina, que as grandes mãos de Circe manejaram com uma delicadeza surpreendente.

“Tanta coisa por causa duma convenção sem importância como a virgindade”, pensou Alice. “Uma membranazinha que não vale nada.” Contudo não deixava de se sentir lisonjeada com a atenção que toda a gente à sua volta prestava à tal membrana, como se todos naquela casa, incluindo a sua tia libertária e meio hippie, tivessem voltado ao século XIX ou à primeira metade do seguinte.

Terminado o duche, Circe secou Alice com uma toalha felpuda e alisou-lhe os cabelos com uma escova. Fazendo-a sentar num pufe, rapou-lhe cuidadosamente os pelos debaixo dos sovacos e depilou-lhe as pernas com cera quente. Depois de lhe observar cuidadosamente as sobrancelhas, decidiu deixá-las como estavam: eram negras, rectas e espessas, mas combinavam bem com os olhos escuros e brilhantes, os lábios carnudos e as duas covinhas aos cantos da boca.

– Posso-me vestir? – perguntou a jovem, quando pensou que a toilette estava pronta. Circe sorriu antes de responder:

– Ainda falta um bocado. Tem que aprender a cuidar de si para o seu dono, sabia?

–E esta toilette toda é para ir ter com o Harun?

– Quando ele a mandar chamar sou eu que a levo. Isto é, se a mandar chamar, pode não se querer servir da menina esta noite. Não é para ir ter com ele que se está a preparar,vai ser assim todas as noites: nunca se irá deitar sem estar arranjada.

– E vou ter-te a ti para me arranjares todas as noites?

– Por pouco tempo, só até ter a sua criada. E além disso vai ter que aprender a fazer muitas coisas sozinha. Agora chega de conversa, as senhoras estão à espera, venha comigo.

Alice imaginou-se a ter uma criada, ela, a miúda meio selvagem que passava a vida a entrar e a sair, como um gato, da casa de Ricardo; mas a ideia não lhe desagradou e deixou-se conduzir, nua, através dos corredores da casa, até um compartimento junto ao quarto de Ricardo que Mariana utilizava muitas vezes como sua sala de estar privada. Sentadas no sofá ou em pufes estavam todas as mulheres que tinham estado presentes ao jantar: mas o que chamou imediatamente a atenção de Alice foi o objecto que se encontrava no centro da sala: uma sólida e pesada base de madeira da qual sobressaía, erguendo-se na vertical, um falo em ébano ou pau preto, minuciosamente esculpido com signos cabalísticos que lhe davam um aspecto rugoso, não muito diferente daquele que a tessitura das veias dá a um pénis natural. Só a glande, perfeita na forma, era perfeitamente lisa, como a de um pénis verdadeiro. Pénis verdadeiros, erectos, Alice só tinha visto um, o de Ricardo, e tocado noutro, o de Harun. À luz das velas, que eram a única iluminação da sala e espalhavam no ar um perfume de incenso, Alice não podia ver o falo de ébano em todos os seus pormenores, mas notou que era todo a direito, sem a ligeira curvatura para cima do pénis de Ricardo. Seria isto uma imperfeição? Ou seria que nem todos os pénis eram como o de Ricardo? Seria o de Harun assim como este, a direito? Impossível era não ver neste artefacto um objecto precioso, talvez sagrado, longamente trabalhado e utilizado com veneração ao longo de décadas ou séculos. Ao polimento perfeito somava-se um brilho oleoso que se manifestava nos reflexos alaranjados das velas.

As mulheres entoavam, muito baixo, uma espécie de cantilena da qual Alice não foi capaz de distinguir nem as palavras, se as havia, nem a melodia, nem o ritmo.

− Curve-se – ordenou Circe. – Agarre os tornozelos com as mãos.

Em vez de obedecer, Alice perguntou:

− Onde está o Harun?

− Sabe que a menina está aqui – respondeu-lhe Circe num tom doce. – Sabe o que lhe vai acontecer, só não sabe aquela parte que é um segredo de mulheres. Autorizou tudo. Agora faça o que eu lhe disse, se faz favor.

Tudo isto estava muito longe do que a jovem esperara para aquela noite. Mas obedeceu, levada por um sentimento de inevitabilidade, e também pelo efeito hipnótico da cantilena das mulheres, da luz das velas, do aroma a incenso, e ainda por um certo prazer da aventura que a impelia a entregar-se de olhos fechados ao que desse e viesse.

Pôs as mãos nos tornozelos. Sentiu que Circe se aproximava dela por trás e lhe acariciava o sexo muito levemente. Depois sentiu que lhe era passado um unguento ao longo dos lábios vaginais, primeiro só por fora, depois cada vez mais por dentro até lhe lubrificar toda a vulva até ao hímen. Levantando um pouco a cabeça viu Atena, que lubrificava cuidadosamente, a todo o comprimento, o falo negro que se erguia do chão e que pareceu subitamente enorme aos olhos da jovem.

Esta preparação, e os cânticos cada vez mais ritmados que a acompanhavam, prolongaram-se por tanto tempo que Alice deu por si a desejar que tudo terminasse, que Circe, ou Atena, ou uma das outras pegasse naquele instrumento – que era óbvio que ia servir para a sua desfloração − e lho introduzisse no corpo, pouco importava se com brutalidade ou meiguice: contanto que por fim acontecesse.

Mas não foi assim que as coisas se passaram. A cantilena das mulheres consistia agora num arfar lento que soava como a respiração dum atleta cansado, ritmo este que algumas delas acompanhavam com leves batidas das mãos sobre a carpete. Circe ordenou a Alice que se pusesse de pé, com as pernas ligeiramente abertas, sobre o falo de ébano e que se fosse agachando sobre ele até lhe sentir a ponta à entrada da vagina. Alice assim fez. Procurou empalar-se nele um pouco mas quando sentiu um laivo de dor parou e elevou-se de novo uns milímetros. De novo se baixou até sentir dor, e começou assim um movimento de vai-vem quase imperceptível, gemendo um pouco com a dor e com o esforço. À sua volta as mulheres gemiam em uníssono com ela, num ritmo lento como o dela, como se todas elas estivessem também a forçar as articulações dos joelhos e das coxas e como se todas sentissem a mesma dor. O falo negro, firme no chão, era o centro da sala, o centro do mundo, o centro do corpo de Alice; nada mais lhe importava, naquele momento, do que vencer com a brandura da sua carne a rigidez implacável que pouco a pouco se ia introduzindo nela.

Ninguém a forçava, ninguém a ajudava. Circe e Atena tinham-se sentado com as outras mulheres e respiravam agora, e gemiam, ao mesmo ritmo que elas. E esta respiração, este canto, ia subindo de volume, acelerando o ritmo, controlando o corpo de Alice como uma música irresistível. Até que num dos movimentos descendentes, levada pelo cântico das mulheres, a jovem se empalou completamente e soltou um grito de dor, prontamente abafado mas logo ecoado nas vozes das outras.

Assim se manteve durante um momento, agachada, com os quadris imóveis, os olhos fechados, a cabeça lançada para trás, lançando um longo suspiro que ela própria não saberia dizer se já era de alívio, se ainda de dor. As outras mulheres estavam agora todas de pé à volta dela, segurando-a para que não se desequilibrasse, alisando-lhe o cabelo, enxugando-lhe o suor, murmurando-lhe palavras que eram carícias. Passado um longo momento recomeçou o movimento para cima e para baixo, muito levemente, muito a medo, como que para experimentar a sensação. Quando por fim parou, as mulheres não a fizeram levantar imediatamente: esperaram que ela abrisse os olhos e que a respiração se lhe normalizasse, para então a ajudarem, lentamente e com infinitos cuidados, a retirar o falo de dentro do corpo.

− Não te ponhas já de pé – disse-lhe a tia, que se aproximara de maneira a que as suas cabeças quase se tocassem. − Senta-te um pouco sobre os calcanhares. Queres ver uma coisa?

Quando Alice, ainda um pouco aturdida, acenou que sim, Safira desprendeu da base de madeira o falo de ébano, sobre o qual se podia ver um pequeno farrapo de sangue, e mostrou-o à sobrinha:

− Vou dizer-te um segredo. Foi este mesmo falo de ébano que me desflorou a mim, há muitos anos. É um objecto sagrado. Eu era ainda mais nova do que tu és agora, e vivia em África, longe de tudo. Os meus pais tinham morrido, os meus outros familiares ainda não tinham dado com o meu paradeiro e eu estava com a minha tribo adoptiva, o meu pai e a minha mãe adoptivos: o dia em que me tornei mulher, com toda a aldeia a acarinhar-me, foi um dos mais felizes da minha vida. Depois, quando os meus parentes brancos me foram buscar, a minha mãe preta deu-mo como presente de despedida: sabia que não voltaria a ser usado naquela aldeia, que as autoridades brancas não o permitiriam. E eu, mais tarde, por razões que talvez te conte um dia, dei-o à Mariana.

Alice estava demasiado confusa para saber o que pensar desta revelação. Como qualquer adolescente, tinha pensado muito no fim da sua virgindade, e como todas elas tinha sonhado com uma ocasião cheia de afecto e magia; mas pensara sempre que essa magia e esse afecto lhe viriam contidas no apaixonado abraço dum homem – quantas fantasias solitárias tinha tido em que os protagonistas tinham sido (não contando com a habitual colecção de celebridades) primeiro Ricardo, e depois Harun! Nunca pensara que lhe viessem, numa onda avassaladora e quente, dum círculo de que faziam parte as duas mulheres importantes da sua vida: a tia Safira, que a ensinara a nunca ligar a convenções, e Mariana, que invejara e aprendera a admirar pela absoluta dádiva de si que fizera a um Senhor. Mesmo as gémeas, que tinham presidido à cerimónia com a majestade de duas deusas, e até Silke Liebknecht, tinham contribuído para criar não só o ambiente certo, mas o universo certo para uma iniciação que ela nunca quisera trivial e não fora, de facto, trivial.

Mas ainda era virgem ou já não era?

− Nota bem que ainda és virgem – disse-lhe a tia, como se lhe tivesse adivinhado os pensamentos. – Só tens o hímen rasgado, é tudo. Na minha tribo isso significava que a menina já era mulher e estava pronta para servir o guerreiro que a comprasse. Mas os meus parentes vieram-me buscar antes que um guerreiro me comprasse aos meus pais adoptivos, e foi assim que passei os anos seguintes: mulher e virgem pelo critério da tribo, menina e virgem pelo critério dos meus parentes, a quem nunca contei a minha desfloração. Nem os meus parentes a teriam compreendido: teriam mandado arrasar a aldeia e prender toda a gente. Mesmo sem isso, só pelo facto de a tribo me ter adoptado, moveram influências para colocar na região um administrador e uma missão católica…

Circe aproximou-se das duas e interrompeu a conversa, estendendo a mão a Alice para a ajudar a levantar-se:

− Acha que consegue vir até à banheira?

Para as outras mulheres estas palavras foram o sinal para abandonar a sala, o que fizeram despedindo-se de Alice com beijos e carícias. O quarto de banho que Mariana compartilhava com Ricardo, e onde agora se ia completar a iniciação da jovem, estava equipado com uma banheira de hidromassagem que Circe encheu até mais de meio. Adicionou-lhe sais aromáticos e esperou que Alice se metesse na água, que estava escaldante. Alice experimentou com um pé:

– Está quente! Não consigo entrar!

− Entra devagarinho – respondeu Circe.

Muito devagar, Alice introduziu um pé na água, depois o outro, e começou a agachar-se, molhando com chapadas de água cada parte do corpo antes de a mergulhar para se ir habituando à temperatura. A pele clara ia ficando cada vez mais vermelha. De repente soltou um pequeno grito de dor: a carne tenra do sexo, dorida da invasão a que tinha sido sujeita pouco antes, tinha acabado de tocar na água quente. Por fim conseguiu sentar-se e suspirou de alívio enquanto se reclinava para trás com os olhos fechados. O corpo, mesmo as partes que não estavam imersas na água quente, estava todo molhado de suor ou do vapor de água, e os cabelos colavam-se-lhe à cara.

– Está bem, menina? –perguntou-lhe Circe.

Como única resposta Alice soltou um suspiro de satisfação. Circe ligou o dispositivo de hidromassagem e disse:

– Então descanse um pouco e relaxe. Eu já volto.

Alice começou a deixar-se invadir por uma grande calma à medida que o corpo se adaptava à temperatura da água. Quando Circe voltou – Alice reparou que estava de novo vestida com os seus panejamentos azuis – trazia numa bandeja duas flûtes de champanhe.

– Para bebermos juntas.

Alice ainda protestou um pouco, não estava habituada ao álcool e já tinha bebido ao jantar; mas Circe, ignorando todas as objecções, pôs-lhe o champanhe na mão e ergueu o copo:

– À sua felicidade, minha querida. Que a sua vida esteja sempre de acordo com o seu destino.

Alice sorveu o champanhe em pequenos goles, fazendo-o durar. Que observação enigmática, esta de Circe… Então a vida não está sempre, por definição, de acordo com o destino de cada um? Ou dar-se-á o caso de haver destinos que não se realizam? Talvez haja, concluiu. Talvez uma vida falhada seja isso mesmo. Talvez o mais indigno cativeiro seja uma pessoa falhar o seu destino, mesmo que este destino seja a escravidão; e talvez a única verdadeira liberdade seja realizá-lo.

Quando o vinho deixou de estar fresco e de lhe saber bem, pousou o que restava na plataforma de mármore à cabeça da banheira e fechou de novo os olhos, até que a água lhe começou a parecer fria.

– Não quero mais…

Era tempo de sair da banheira. Tinha a pele vermelha, as pontas dos dedos encarquilhadas, e sentia-se mais limpa do que alguma vez estivera. Circe envolveu-a, sem a secar, num roupão de pano turco e conduziu-a de novo ao seu quarto, onde a fez deitar nua sobre um toalhão estendido na cama e lhe passou por todo o corpo um creme hidratante, deliciosamente macio e perfumado. Não negligenciou nenhuma prega do corpo, nem mesmo os refegos mais íntimos entre as coxas, e demorou-se na tarefa com tanto vagar que Alice se começou a sentir sonolenta.

Mas antes que adormecesse Circe obrigou-a a levantar-se e a sentar-se numa poltrona com os pés mergulhados numa bacia de água quente que foi buscar à casa de banho. Sentada num pufe à frente da jovem, começou a tratar-lhe das mãos: arranjou-lhe as cutículas, cortou-lhe e limou-lhe as unhas e envernizou-lhas com uma mistura de vernizes que tinha preparado: metade transparente, um quarto cor de pérola nacarada, um quarto cor-de-rosa pálido. Enquanto o verniz secava, começou a tratar-lhe dos pés:

– Que solas de selvagem – observou.

Alice tinha, com efeito, as solas dos pés duras e ásperas, e foi necessário amaciar-lhas longamente com pedra-pomes. À medida que a água da bacia arrefecia, Circe substituía-a de maneira a mantê-la sempre quente. Por fim secou-lhe os pés, colocou-lhe bolas de algodão entre os dedos e tratou-lhe das unhas usando todos os instrumentos duma pedicura profissional – ou pelo menos assim parecia a Alice, para quem esta experiência era nova. Terminou este tratamento pintando-lhe as unhas com a mesma mistura de vernizes que tinha usado nas mãos.

Por esta altura a jovem tinha o cabelo quase seco: Circe passou-lhe um pouco de espuma de pentear e começou a escovar-lho com repetidas passagens de escova, mais de cem, até que ficou completamente seco só pela acção da escova, e brilhante como ela poucas vezes o tinha visto. Pôs-lhe creme no rosto, massajando suavemente com as pontas dos dedos. Como maquilhagem limitou-se a sombrear-lhe um pouco os olhos e a sublinhar discretamente as linhas das pálpebras: os lábios, naturalmente vermelhos, ficaram por pintar.

O verniz das unhas estava completamente seco; Circe amaciou as mãos e os pés de Alice com outro creme e fê-la levantar e rodar sobre si mesma para uma última inspecção.

– Está pronta – declarou. – Ponha este vestido.

– Sem nada por baixo?

– Sem nada por baixo.

Já não era o vestido de debutante que ela usara ao jantar, mas um traje formal em estilo romântico: um vestido de noiva se não fosse preto e roxo.

– Agora as jóias – disse Circe.

Por brincos pôs-lhe umas grandes argolas de prata, que juntamente com o cabelo cuidadosamente despenteado lhe davam um ar meio de cigana. Pôs-lhe colares à volta do pescoço, de vários comprimentos e materiais. Pulseiras nos braços, correntes nos tornozelos, e no dedo anelar esquerdo um anel com uma pedra negra. Alice já conhecia este anel: tinha visto outros iguais nas mãos de Mariana, Ricardo, Harun e outras pessoas. Sabia o que ele significava: que o seu portador era Senhor ou escravo de alguém. O metal de que era feito, cinzento escuro e muito leve, chamava-se titânio. Ajeitou o anel no dedo, como que para confirmar a sua aceitação, e perguntou:

– É agora que vamos ter com o meu dono?

– Não. Agora esperamos que ele a mande chamar. Já lhe disseram que a cerimónia com as mulheres terminou. Ou pode mandar dizer que podes ir para a cama, se tiver mais em que pensar do que em servir-se de ti.

E foi assim que Alice se sentou na pequena poltrona ao canto do quarto, entre expectante e desconsolada, com um vago sorriso no rosto, de pés nus e vestida como para uma festa, à espera de qualquer coisa ou de nada.

Mas não foi preciso esperar muito até que o telemóvel de Circe tocasse e ela dissesse, depois de escutar uns segundos, que sim, que já iam.

– Junte os pulsos atrás – ordenou Circe. – Está com sorte. O seu Senhor quer vê-la.

Alice deixou que a outra lhe prendesse os pulsos com duas pulseiras de prata unidas por um cadeado. Assim presa – lembrando-se de todas as vezes que tinha visto Mariana arranjada de forma semelhante, e do misto de admiração, inveja e receio que tinha sentido – foi conduzida ao quarto de Harun, quarto que ela própria tinha ajudado a preparar com tanto cuidado e minúcia.

Harun estava de pé, como que à espera, com um robe de cetim cor de creme sobre um pijama de seda da mesma cor, e tinha calçadas umas chinelas marroquinas de couro na cor natural. Saudou Circe primeiro; e a seguir, com um sorriso terno, saudou a jovem:

– Olá, Alice.

Alice quis responder “olá, meu Senhor”, mas não ousou. Ousá-lo-ia alguma vez? Em tom sumido, respondeu:

– Olá, Harun.

– Dispa-a – disse Harun a Circe.

Era fácil. O vestido abria por trás com um fecho éclair e as alças podiam ser desprendidas, de modo que foi possível tirá-lo sem libertar os pulsos da jovem. Alice nunca se tinha mostrado completamente nua a Harun, mas durante um longo namoro já tinha sentido muitas vezes as mãos dele debaixo da roupa, acariciando-lhe a cinta, os seios e por vezes, deliciosamente, o ventre. Agora não sentia vestígios de pudor ou vergonha, nem outra coisa que não fosse um enorme orgulho por se apresentar nua e bela, depois de uma tão longa e minuciosa preparação, diante dele. Quando ele a mandou dar uma volta sobre si mesma para que ele a visse toda, obedeceu com prazer, fazendo questão de empinar provocantemente os seios e as nádegas como se estivesse há longo tempo habituada a exibir-se assim.

Quando a viu de novo virada para si, Harun fez um gesto discreto em direcção ao chão. Circe, atenta a este sinal, disse docemente à jovem:

– Ajoelhe-se, minha querida.

Com as mãos presas não era fácil obedecer graciosamente a esta ordem, mas Alice conseguiu fazê-lo de um modo não demasiadamente desajeitado, o que suscitou a Harun um sorriso de aprovação.

– Tire-lhe as pulseiras – ordenou.

E para Alice, quando a viu com as mãos livres:

– Abre-me o roupão.

Com o roupão aberto, a jovem viu a ponta do pénis que lhe espreitava da abertura das calças de pijama. A um gesto dele, Alice tirou-lho completamente para fora: já lhe tinha tocado várias vezes e conhecia a sensação de o sentir crescer e enrijar-lhe nas mãos, mas nunca o fizera com esta liberdade, sem camadas de roupa a constrangê-la. Mais uma vez o sentiu crescer. Viu que era diferente do de Ricardo: todo a direito, como o falo de ébano de há pouco. A glande, avermelhada e macia, fez nascer nela um desejo que nunca tinha sentido antes.

– Posso dar-lhe um beijo? – inquiriu, timidamente.

Harun sorriu de novo:

– Sim, podes, meu amor. Um dos teus deveres, de futuro, vai ser servir-me com a boca. Mas não quero só um beijo, quero muitos. Beija-me o pénis já hoje como a escrava que vais ser, e não pares até eu to permitir.

Lembrando-se da reverência e respeito com que as mulheres da casa tinham rodeado, horas antes, o falo de ébano que a tia Safira trouxera de África há tantas décadas, a jovem começou a beijar cuidadosamente o falo vivo do seu dono, mal ousando, por vezes, um movimento de sucção. Sabia, pelo que tinha visto Mariana fazer a Ricardo, que também o podia lamber, chupá-lo, introduzi-lo na boca até ao fundo; mas não queria fazer isto sem que lhe fosse ordenado, e além disto tinha um pouco de medo de se engasgar ou ter vómitos. Assim foi prolongando uma longa sucessão de pequenos beijos na glande de Harun; e sentia ao fazer esta carícia um prazer que não saberia explicar mas que era real e intenso.

Harun, por seu lado, parecia disposto a contentar-se toda a noite com aquela carícia incipiente: foi afagando os cabelos da sua jovem amante e só ao fim de logos minutos acabou por dizer:

­– Chega, minha querida. Agora ajuda-me a despir…

Alice levantou-se para lhe tirar o roupão, que entregou a Circe para que o guardasse. Depois o casaco do pijama, que era de modelo antiquado, com botões à frente.

– Beija-me os mamilos – ordenou Harun.

Alice flectiu um pouco os joelhos para obedecer. Segurou-se às ancas do amante e começou a beijar-lhe o peito e os ombros. Sentia-se agora mais afoita, e foi quase sem hesitação que começou a dar-lhe chupões com alguma força, a que Harun reagia murmurando “sim”, “sim minha querida”, “sim minha escrava”. Com as mãos nas ancas do dono, a tentação de lhe baixar as calças do pijama era quase irresistível, tanto mais que o pénis, embora ainda visivelmente erecto, se encontrava agora de novo tapado pelo tecido. Mas quando fez menção de lhe baixar as calças ele deteve-a:

– Não, minha escrava, primeiro os chinelos.

Desta vez a jovem não precisou de qualquer ordem: sabia que ao despir o dono a regra era beijar-lhe as partes do corpo dele que ia pondo a nu. Já era assim com Mariana e Ricardo, e a ela parecia-lhe ser este um procedimento perfeitamente justo e natural. Posternando-se, beijou-lhe os pés com vagar e ternura, e ao fazê-lo começou a sentir que o seu ser se diluía num vórtice em que ela própria cada vez mais era nada e o dono daquele corpo que beijava cada vez mais era tudo.

– Agora o resto – ouviu-o dizer, como que de muito longe.

O resto era as calças, que Alice puxou para baixo numa pressa febril, ansiosa por ter de novo ao alcance dos lábios aquele ceptro real de ponta tão macia; mas Harun só lhe permitiu mais um beijo antes de interromper a carícia, ordenando-lhe que fosse para junto da cómoda e tirasse todas as jóias que tinha no corpo.

Que instinto levou Alice a deixar para o fim os brincos? Como poderia ela, ainda tão jovem, saber que o remover dos brincos duma mulher é por vezes, para o homem que a observa, um espectáculo completo de strip-tease? O certo é que o fez, e é certo também que esta acção não passou despercebida a Harun, que sorriu de novo. Quando a viu nua de roupas e de jóias, pegou-lhe na mão e conduziu-a à cama, que ele próprio abriu para que ela se deitasse. Cobriu-a ternamente, deu-lhe um rápido beijo na boca a que ela tentou responder lançando-lhe os braços ao pescoço, sem que ele todavia o permitisse.

Quando a viu deitada, Harun virou-se para Circe:

– Ponha a esteira para ela aos pés da cama, por favor. E ligue o candeeiro de halogéneo. Depois pode deixar-nos sós. Amanhã venha buscá-la para começar a instrução. Cuide bem dela: deixo-a entregue a si e à sua irmã durante a minha ausência.

Enquanto Circe cumpria estas instruções – a esteira consistia somente num fino colchão em espuma de borracha, num saco-cama e numa pequena almofada – Harun deu a volta à cama e deitou-se ao lado de Alice, que estava dividida entre a felicidade de estar na cama ao lado dele pela primeira vez na vida e a consciência de que esse privilégio não lhe ia ser concedido pela noite inteira. E que instrução era aquela que ia começar no dia seguinte? E porque falava o seu amado duma ausência? Para onde ia ele, logo depois de a ter feito mulher?

Mas não se atreveu a perguntar nada: ele faria o que quisesse e ela, escrava, esperaria sempre por ele o tempo que fosse preciso.

Assim que os dois jovens ficaram sós, Harun afastou de novo para trás as roupas da cama e, debruçando-se sobre a sua escrava, começou a examiná-la da cabeça aos pés, miudamente, interessando-se tanto pela textura das sobrancelhas – que alisou com um dedo – como pela forma das orelhas, o recortado dos lábios, as expressões que lhe perpassavam pelo rosto quando ele lhe beliscava na nádega ou lhe acariciava levemente um mamilo. Assim foi descendo pelo corpo dela abaixo, atento e curioso, entremeando esta observação minuciosa com pequenos beijos em cada parte do corpo que visitava: nos cantos da boca, na covinha do queixo, na base do pescoço, nos ombros, na curva do cotovelo… Alice estava tão temerosa como ansiosa pelo momento em que ele lhe examinaria a vulva, os lábios vaginais que sentia húmidos, o clitóris intumescido. Desejou que a luz não estivesse tão forte, mas depressa entendeu que isto era intencional, e resignou-se. Os beijos ternos que ele lhe ia dando por toda a parte excitavam-na e tranquilizavam-na ao mesmo tempo, e foi sem hesitar que abriu as pernas quando ele mandou; apenas fechou os olhos e virou a cara para o lado, para não se ver observada de um modo tão objectivo e impessoal. Sentiu o dedo dele tocar-lhe na carne mais íntima, ouviu-o suspirar. Surpreendeu-se quando se sentiu beijar ali, onde nunca tinha sido beijada; e não foi um beijo leve como os outros, mas uma chupadela franca que a deixou atónita e desejosa de que alguma coisa, qualquer coisa, viesse ocupar o vazio que lhe parecia ter-se feito naquele instante no seu ventre.

Mas logo a seguir, sem que esta breve carícia tivesse tempo de a satisfazer, o exame continuou, pelas coxas, pelos joelhos – que Harun apalpou pela frente e pelos lados como se nada houvesse mais importante no mundo como a forma exacta das rótulas da sua amada. Apalpou-lhe as pernas abaixo do joelho como já lhe tinha apalpado as coxas, sentindo as diferentes texturas da pele. As articulações dos tornozelos, tão delicadas, foram também objecto da mais funda atenção: olhadas, tocadas, flexionadas, testadas. Os dedos dos pés foram separados e os intervalos entre eles escrutinados – ainda bem, pensou Alice, que se tinha lavado tanto – e até dos tendões dos pés, dos maléolos interno e externo, das veias azuis sob a pele, das rugas transversais nas solas, foi tomada devida nota.

Por esta altura Alice sentia que ninguém, nem mesmo ela própria, conhecia tão bem o seu corpo como o conhecia Harun; mas ele ainda a mandou virar de barriga para baixo e recomeçou a ver tudo: os tendões atrás dos tornozelos, as dobras na parte de trás dos joelhos, as linhas de separação entre as coxas e as nádegas, o orifício anal e depois as duas pequenas concavidades no fundo das costas; e a sucessão das vértebras, o rego longitudinal entre as duas massas musculares do tronco, a saliência das omoplatas, a delicadeza enternecedora da nuca.

Durante todo este exame, que se prolongou por um período de tempo que Alice seria incapaz de calcular, o membro viril de Harun manteve-se sempre erecto. Como podia ele resistir, pensou Alice, a lançar-se sobre ela e a possuí-la sem delongas? Poderia aplicar-se a este homem ainda tão jovem aquilo que Mariana dissera várias vezes de Ricardo – que era senhor do seu pénis e não escravo dele?

– Agora vira-te para cima – ouviu-o dizer, por fim.

Alice virou-se de barriga para cima, abrindo as pernas sem que isso lhe fosse ordenado. Ou melhor, não foi ela que abriu as pernas, foram elas que se abriram a si próprias, as traidoras, as desavergonhadas, prontas a abrir caminho ao invasor. Harun saiu da cama para ir desligar o candeeiro, deixando acesa apenas a luz suave que iluminava o quarto anteriormente. De volta para junto dela, pôs-lhe o joelho entre as coxas, beijou-a fundamente na boca, acariciou-lhe os seios e as orelhas, beijou-lhe os olhos e o pescoço; e de repente Alice deu-se conta de que a glande do dono lhe acariciava a vulva molhada, movendo-se para trás e para diante ao longo dos lábios vaginais, titilando-lhe o clitóris; as mãos tinha-as Harun ocupadas em massajar-lhe os seios e apalpar-lhe as nádegas; o que lhe acariciava a vulva, embora sem a penetrar, era o seu sexo erecto. Ergueu os quadris para se aproximar mais dele, para aumentar a deliciosa pressão que a carne dele fazia sobre a dela, mas ele não tinha pressa e continuou por muito tempo a fazer-lhe carícias com o pénis à entrada da vagina. Quando ele por fim fez menção de a penetrar, Alice dise num murmúrio:

– Sim, meu Senhor. Possui-me. Sou tua… Já fui aberta para ti, como tu mandaste…

Harun entrou nela com um movimento só, suave mas firme. Esta penetração, seguindo-se tão de perto à desfloração operada pelo falo de pau preto, não foi tão indolor como Circe lhe tinha dado a entender, mas a dor foi bem-vinda para Alice, trouxe-a um pouco de volta à terra quando se sentia já a desprender-se do mundo. Depois de a penetrar, Harun ficou por muito tempo imóvel dentro dela, abraçando-a, beijando-a, murmurando-lhe ao ouvido “meu amor”, “minha escrava”… E só se começou a mover, lentamente, gentilmente, quando a dor abrandou e ela própria começou a oscilar timidamente os quadris, primeiro para frente e para trás, ao encontro do pénis que a enchia, depois também para os lados e em círculos, numa dança que ninguém lhe tinha ensinado mas em que ela se descobria subitamente perita.

Os movimentos de Harun iam-se tornando amplos e fortes, impetuosos, exigentes; e ela, ainda virgem segundos antes, procurava harmonizar com estes movimentos os seus próprios. Mas não o conseguiu por muito tempo porque uma sensação a avassalou que a fez esquecer-se de si, esquecer-se dele, esquecer-se de tudo o que não fosse aquela inexprimível delícia que a transformava num ser sem pensamento, sem passado, sem futuro. Não era o primeiro orgasmo que sentia, nem sequer o primeiro orgasmo provocado por Harun, mas era o primeiro que experimentava com o corpo assim invadido. A pouco e pouco esta sensação foi-se atenuando, mas Harun mantinha-se dentro dela, beijando-a, amando-a, de modo que a onda de prazer em que tinha perdido o pé refluiu, mas não para longe. Olhou para os olhos do amante e viu-os sorrir:

– Estou orgulhoso de ti… Minha escrava…

De novo a onda. E de novo, e de novo, até que Alice se esqueceu que alguma vez tinha conhecido um mundo que não consistisse num perpétuo orgasmo, um mundo que tivesse um “em cima” e um “em baixo”, um “dentro” e um “fora”, um “eu” e um “outro”.

Só lentamente retomou o pé, como um nadador a quem uma onda enorme e inesperada tivesse envolvido e sacolejado nas profundidades. Harun, agora completamente solto, penetrava-a com violentas estocadas, que ela recebia avidamente, como uma mártir em êxtase receberia os golpes da lança que lhe tirava a vida. Por entre a névoa do seu próprio prazer, Alice via o rosto de Harun: um rosto contorcido, um rosto belo, um rosto torturado que de repente se abriu num urro; e um jacto quente invadiu-lhe as entranhas, soltando nela ainda um último espasmo.

Por muito tempo Harun permaneceu em cima dela, a cabeça para o lado, apoiada na almofada. Alice teve pela primeira vez consciência de como ele era pesado. “O peso do meu dono”, pensou; “estou a sentir sobre mim o peso do meu dono”; e empenhou-se, apesar do ligeiro desconforto físico que sentia, em fazer do seu corpo o leito mais aprazível para o descanso do seu Senhor.

Mas Harun acabou por rolar para o lado, libertando-lhe os movimentos começando a abraçá-la, a beijá-la, até que ela lhe disse:

– Que bom… Agora estou a ficar com sono… Com tanto sono… Meu amor… Dás-me autorização que durma?

– Eu também tenho sono, – disse ele – mas ainda não te vou dar licença de adormecer, minha escrava. Primeiro vais ainda lavar-me o sexo, que será sempre o teu dever depois de eu te ter possuído.

– Oooh… Tem que ser? Tenho tanto sono…

– Tem que ser, meu amor. Hoje e sempre, por mais sono que tenhas. Anda, vai. Basta um toalhete com água morna e sabonete.

Meio trôpega, Alice dirigiu-se à casa de banho. Não sentia ressentimento nem revolta, nem a tarefa lhe parecia prosaica em comparação com o êxtase de há momentos; sentia, sim, um amor acrescido por este Senhor que se servia dela para as tarefas mais humildes com o mesmo à-vontade com que a usava na cama. De regresso ao quarto, lavou-o cuidadosamente. Depois voltou a humedecer o toalhete, agora só com água, e voltou para junto dele a fim de lhe retirar os restos de sabonete. Harun, de barriga para cima na cama, entregava-se a estes cuidados com os olhos fechados e os braços pesadamente caídos sobre os lençóis. Depois de o lavar, Alice foi à casa de banho fazer as suas próprias abluções. Quando voltou para junto de Harun ele já se tinha posto por baixo da roupa e estava em posição de dormir; mas quando a sentiu deitar-se ao lado dele ainda a abraçou e beijou chamando-lhe meu amor, minha escrava, até que a sentiu bocejar e gemer de sono.

− Meu Senhor, gostava de ficar abraçada a ti a noite inteira. Mas tenho tanto sono… Posso virar-me de costas para ti, para estar mais à vontade?

Harun fez-lhe uma festa no rosto antes de responder:

– Ouve com atenção, minha escrava, enão fiques triste. Essa autorização que me pedes, conto dar-ta muitas vezes de futuro. Muitas vezes mas nem sempre. Mas hoje não ta dou, hoje é dia de saberes o teu lugar, que é aos meus pés. Por isso mandei a Circe preparar a esteira. Há-de haver sempre uma esteira para ti aos pés da minha cama.

Alice não se tinha esquecido da esteira, mas ousara esperar que Harun se tivesse esquecido dela depois ter partilhado com ela tanto prazer e de a ter tratado com tanta ternura. Mas não tinha resposta que pudesse dar, só uma pergunta:

– Agora?

Harun acariciou-lhe de novo o rosto e beijou-a ao de leve nos lábios:

− Agora, minha escrava.

Alice, mesmo sabendo que o seu dever era obedecer com presteza a qualquer ordem, cumpriu esta com infinitas delongas. Durante algum tempo ainda manteve os lábios em contacto com os dele e depois, à medida que afastava os lençóis para se levantar, ainda o foi beijando no peito e na barriga. Já com uma perna fora da cama e um joelho no chão, ainda procurou com a boca o sexo dele para o beijar e chupar suavemente por tanto tempo quanto ousou.

– Vai, minha escrava – repetiu ele por fim. − Mas primeiro beija-me os pés.

Circe veio acordá-la de manhã cedo. Quando Alice gemeu, ainda tonta de sono e sem se lembrar onde estava, a outra pôs-lhe um dedo sobre os lábios.

− Venha – murmurou. – Não faça barulho, o seu dono ainda está a dormir.

− Mas… − objectou Alice.

Queria dar um beijo a Harun, mas Circe não permitiu:

− Não o acorde, menina. Não se preocupe, vai ter oportunidade de se despedir dele.

À espera de Alice, no seu quarto, estava um fato de treino e umas spatilhas de jogging.

− Vista-se – disse a outra. – Vai dar duas voltas ao quarteirão. Mas antes disso vá à cozinha, beba um copo de água e coma uma maçã.

− Tenho fome…

− Come depois. Ande, despache-se, hoje começa a sua escola e não temos muito tempo.

De que escola estava Circe a falar?

− Da escola que os senhores organizaram para si, é claro. Há muitas coisas que o seu dono quer que aprenda: quanto a isso foi muito claro.

Que matérias podia querer Harun que ela aprendesse? Alice tinha terminado a escolaridade obrigatória com as classificações mais elevadas e sempre partira do princípio que ia continuar a estudar; o quê, não sabia, mas imaginava que teria a ver com a sua condição de leitora voraz. Ainda não se tinha inscrito em nenhum curso, e agora, pelos vistos, alguém tinha escolhido por ela.

A manhã estava fresca. O que Alice tinha a fazer antes do pequeno-almoço era simples: dar duas voltas ao quarteirão, uma em marcha rápida e a outra em passo de corrida. Depois foi outro grande copo de água, um duche rápido e um pequeno-almoço substancial, servido na cozinha por Circe e Atena, refeição esta que a jovem, embrulhada num roupão, devorou como uma loba.

− Vá-se vestir – disse-lhe Circe por fim. – Ponha uma saia curta e larga, que não lhe prenda os movimentos, e uma T-shirt. Ponha calcinhas e soutien. Deixe-se estar descalça. Depois vá ter com os senhores à biblioteca.

Na biblioteca, à espera de Alice, estavam Circe e a sua irmã Atena, sentadas no chão; Ricardo, numa poltrona; aos pés dele, sentada sobre os calcanhares, Mariana; e ao piano uma mulher de cerca de trinta anos que Alice não conhecia: uma mulher bonita, um pouco anafada e de ar bondoso, que lhe foi apresentada como a sua futura professora de música.

− Música? Vou aprender música? – perguntou, admirada.

− Faz parte do currículo que o Harun determinou para ti – respondeu Ricardo. – Como oriental que é, considera a música e a dança prendas indispensáveis numa escrava. Mas como oriental ocidentalizado, não tem qualquer objecção ao piano. Portanto vais ser pianista: ninguém espera de ti virtuosismo, para isso é preciso ter talento e começar cedo, mas o teu dono exige que te tornes uma amadora competente − e sobretudo uma conhecedora razoável que não o envergonhe quando forem os dois juntos a um concerto. Também vais estudar outras matérias; eu e a Mariana fizemos algumas sugestões, assim como a tua tia, e das gémeas vieram algumas bem interessantes.

A primeira lição de música de Alice não foi particularmente excitante, consistindo apenas em infindáveis exercícios de colocação dos dedos sobre uma superfície plana – nem sequer o teclado do piano, apenas o tampo de uma mesa – seguido de instruções pormenorizadas sobre a colocação do banco em frente ao piano e sobre a maneira como se devia sentar. Depois a professora fê-la ouvir na aparelhagem da biblioteca o inevitável Für Elisa de Beethoven, do qual lhe ensinou a seguir alguns acordes desgarrados, os mais fáceis, prestando especial atenção ao ângulo dos dedos sobre as teclas. Para surpresa da jovem, que esperava que a primeira lição consistisse numa interminável repetição de escalas, esta actividade não ocupou mais do que alguns dos minutos finais.

Depois desta aula Mariana informou Alice do currículo completo: música, como já tinha visto; inglês, no qual se esperava dela que se tornasse proficiente, e em que de resto já tinha sido boa aluna na escola básica; francês e árabe, dados os longos períodos que passaria no Norte de África; literatura, que teria que conhecer tanto quanto possível nas línguas originais; história; história da arte; história das ideias e das mentalidades; religiões comparadas; esgrima; danças de salão; informática; matemática; lógica e pensamento crítico; ginástica geral e acrobática; dança do ventre; e pompoar, é claro: o dono dela dava especial importância ao pompoar.

Alice nem sequer sabia o que era o pompoar:

− Que é isso?

− Basicamente é a arte de controlar os músculos vaginais. Ou antes, se quisermos ser pedantes, os músculos circunvaginais, mas geralmente ninguém diz assim.

− Circunvaginais? Isso quer dizer que eu tenho músculos à volta da vagina? Não sabia tal coisa… E é possível mexê-los à vontade?

− Tens, e bem fortes – sorriu Mariana. – E nem imaginas o que se pode fazer com eles.

Alice tentou por um momento mover aqueles músculos que Mariana lhe dizia que tinha, mas foi como se lhe tivessem pedido que mexesse as orelhas.

− E para que serve isso? – indagou, pouco convencida.

− Ui, para tanta coisa… Para teres mais a noção do teu corpo, para começar. Para um dia poderes ter filhos com mais segurança e menos dor. Para seres mais saudável durante mais tempo nas tuas partes femininas. Para dares prazer ao teu dono, evidentemente. E até para poderes dar prazer a ti própria sem teres que te tocar com os dedos, se estiveres para aí virada… O pompoar é uma coisa que todas as mulheres deviam saber.

− E a Mariana sabe? Então porque é que nunca me falou nisso?

− Só sei que existe, mas nunca aprendi. Por isso é que vou ser tua colega: o Ricardo andava há algum tempo com vontade de me mandar aprender.

− E há professores disso? – insistiu Alice.

− Professores, não: professoras – corrigiu Mariana. – Vais conhecer a tua em breve. Acho que vais gostar dela. É uma senhora indiana de origem goesa e fala português perfeito. Chama-se Sadhana e vai também ser a tua professora de dança do ventre. “Sadhana” significa estudo, treino prolongado, realização, aprendizagem… Um nome de bom augúrio para nós duas.

Pompoar, dança do ventre… Nada disto desagradava a Alice, pelo contrário. Na sua imaginação via-se já como uma odalisca, versada nas artes ocultas que fazem de um senhor escravo da sua escrava… Mas aquela profusão de matérias que lhe tinha sido anunciada, como ia ela ter tempo para tudo? Ricardo, que assistira à conversa sem parecer que lhe dava atenção, sentiu-se divertido com o alarme dela e tranquilizou-a:

− Não vai ser tudo ao mesmo tempo, é claro. De esgrima e de danças de salão, por exemplo, vais ter só uma aula cada duas semanas. A esgrima é uma preparação para outras coisas, as danças de salão são para aprenderes a não te pores rígida nos braços de um homem, a entregares o corpo… Isso é importante para qualquer homem, acredita em mim. Nas literaturas não vais ter dificuldade nenhuma: ainda há poucos anos eras capaz de passar uma tarde inteira empoleirada numa árvore com um livro na mão. Agora não é em cima duma árvore, é num canto qualquer da casa, mas o difícil é encontrar-te sem um livro. As outras matérias vão ser cursos com diferentes durações: acaba um, começa outro. Uma boa parte da tua educação virá das viagens, das conversas, das leituras, das pessoas que conheceres… Só há duas coisas em que vais ter lições toda a vida: a dança do ventre e o pompoar. Pelo menos é isso que diz o Harun.

− Isso, e ler livros – respondeu Alice, num tom meio desafiador. – Acho que nunca vou deixar de ler.

− Ah, sim, ler. Outra das paixões do teu dono. Assunto de conversa não vos vai faltar…

Mas a aula seguinte não foi de literatura, mas sim já de pompoar, o que em muito contribuiu para satisfazer em Alice a curiosidade suscitada pela conversa que tinha tido com Mariana. Sadhana, a quem a jovem foi apresentada logo a seguir, era uma indiana de longos cabelos pretos e pálpebras inferiores muito escuras. Teria talvez trinta e poucos anos, e a postura do corpo era direita como a duma bailarina ou duma artista de circo – porém sem a rigidez que apresentaria uma mulher europeia igualmente erecta. A primeira ordem que deu a Alice e Mariana foi que se despissem completamente:

− Este é um estudo que fazemos nuas. – explicou, com um sotaque muito ligeiro que aos ouvidos destreinados das suas alunas soava mais africano do que asiático. − Sempre nuas.

A sala estava quente, quase sufocante e as duas obedeceram de bom grado.

− Sentem-se nesses colchões de ginástica.

Não foi sem um pouco de inveja que Alice observou que Mariana, que tinha mais que o dobro da sua idade – quase o triplo – mostrava mais flexibilidade do que ela ao sentar-se com as pernas cruzadas sob o corpo. Quando Sadhana as viu sentadas, despiu-se também: primeiro as sandálias, depois o sari que lhe deixava à mostra o umbigo, o choli branco de mangas curtas, e por fim o saiote comprido de cor lisa. Alice ficou um pouco surpreendida por ela não trazer calcinhas nem qualquer outra roupa sob o saiote, mas veio a saber mais tarde que este costume ainda é seguido por algumas mulheres indianas mais tradicionais e é geralmente considerado perfeitamente decente.

Enquanto a professora se sentava, não sobre um colchão de ginástica como as suas alunas, mas sobre um simples tapete, Alice teve tempo de lhe ver o sexo completamente livre de pelos, mas o que mais a fascinou foram os bicos dos seios e as aréolas, grandes e de um castanho tão escuro que eram quase negras.

Admirou-se também quando a viu sentar-se com toda a agilidade na posição de lótus: Sadhana, apesar da cintura estreita e da respeitável musculatura que se lhe adivinhava por baixo da fina camada de gordura, não tinha um corpo miúdo e esbelto como o de Mariana: pelo contrário, tinha um corpo a que com justiça se poderia chamar roliço. E a situação tinha para Alice o mérito da novidade: nunca antes tinha tido uma aula toda nua com a professora também nua.

− O que lhes vou ensinar – disse Sadhana – não é ainda, no que lhes diz respeito, uma arte. Um dia poderá sê-lo, se tiverem o talento e a persistência necessárias, mas por enquanto é só uma técnica. Por isso não vou admitir aqui fantasias nem romantismos: só trabalho e mais trabalho. Estamos entendidas?

Alice murmurou que sim, intimidada, e Mariana inclinou ligeiramente a cabeça.

− Então vamos começar. Pensem em fazer da vagina uma boca capaz de puxar o lingam para dentro ou de o empurrar para fora, equipada com uma língua capaz de o acariciar a todo o comprimento; e pensem em fazer dela ao mesmo tempo uma mão forte capaz de o apertar e de o prender.

− O que é o lingam? – perguntou Alice. – E é possível ter assim tanta força na vagina?

− O lingam é o membro viril. É assim que vem no Kama Sutra; mas vocês podem dar-lhe o nome que quiserem. E a vagina pode ser uma das partes mais fortes do corpo da mulher, tal como as coxas. Mas chega de teoria. Estão prontas para começar?

Alice declarou-se não só pronta, mas ansiosa por começar. Mariana limitou-se mais uma vez a acenar que sim.

− De certeza? – insistiu a professora. – Têm a bexiga vazia? O melhor é irem primeiro à casa de banho, se não daqui a pouco temos tudo encharcado.

− Já está? – continuou, quando elas regressaram. – Então quando se sentarem outra vez nos colchões fiquem em cima dos resguardos, porque enquanto não estiverem habituadas os primeiros exercícios podem fazer com que saiam algumas gotas de xixi.

Os resguardos eram daqueles que se compram em qualquer supermercado para proteger as camas das crianças pequenas e dos muito velhos, absorventes numa face e impermeáveis na outra.

− Agora – prosseguiu a mestra – façam força para urinar … se saírem algumas gotas não faz mal. Estão a fazer força? Óptimo, agora vem a parte difícil. Parem de fazer força, mas parem de repente, e façam força para não urinar. Certo? Puxem o xixi outra vez para dentro, vá, com toda a força.

− Não sou capaz – disse Alice.

− É claro que é capaz – respondeu a professora. – A menina não é diferente das outras. Não pare de fazer força para dentro. Está a fazer?

Alice não sabia para que servia aquilo, mas empenhou-se em seguir as instruções da professora. Apesar de ter a bexiga vazia, sentia de novo vontade de urinar. Olhou de relance para Mariana, que não lhe pareceu mais confortável do que ela.

− Agora quero que façam força alternadamente para dentro e para fora. Está bem? Agora para fora… agora para dentro… outra vez para fora… Vão ficar um pouco cansadas, e com muita vontade de fazer xixi, mas não faz mal. Há um ponto a que temos que chegar ainda hoje, e depois descansam.

Mariana e Alice já tinham vontade de descansar, mas não pararam de repetir o exercício que Sadhana lhes tinha ordenado.

− Continuem. Não parem. O que eu quero agora é que ao fazerem força para fora e para dentro se tentem dar conta dos músculos que estão a usar.

Mariana foi a primeira a pensar que tinha encontrado a parte do corpo de que estava à procura. O fundo do ventre doía-lhe um pouco. Seria aí?

− É uma dor surda, como a que se sente depois de um exercício puxado? – perguntou Sadhana. – Sim? Então já está onde tem que estar. São esses os músculos que a senhoravai aprender a controlar, mas hoje ainda não quero que tente fazer isso. Já é muito bom que os sinta.

Este pequeno diálogo deu a Alice a pista de que precisava para se orientar no seu próprio corpo. Também ela sentia um pouco de dor. Era ali, pelos vistos, que tudo se passava.

Sadhana estava satisfeita: tinham sido feitos progressos e era tempo de dar a aula por terminada. Mas antes que se despedissem Mariana quis fazer ainda uma pergunta:

− Sadhana, há uma coisa que eu não entendo. Os músculos que controlam a vagina são os mesmos que controlam o acto de urinar?

− Sim, quanto a um deles – respondeu a professora. – Não quanto aos outros. Mas a acção de uns reflecte-se nos outros, e foi por isso que comecei a vossa instrução utilizando músculos que vocês aprenderam a controlar quando ainda eram pouco mais que bebés. Vocês não se lembram, nenhuma de nós se lembra, mas a instrução que os vossos pais vos deram nessa altura não foi mais fácil nem menos demorada do que a que eu vos estou a dar agora.

− Mas a mim parece-me que já consigo controlar esses músculos um bocadinho. Cansa-me muito, mas acho que consigo.

− É natural – disse a professora. – Há muitos caminhos para chegar às coisas, e às vezes chegamos a elas quase por acaso. Lembra-se de como lá chegou?

− Não tenho a certeza de estarmos a falar da mesma coisa – respondeu Mariana. – Mas uma vez estava com o meu dono, ele estava quase parado dentro de mim, e eu de repente tive que tossir. Quando tossi ele disse-me que tinha sentido um aperto no pénis e pediu-me que fizesse outra vez. Eu não conseguia, mas então tossi de propósito e ele disse-me que o tinha apertado outra vez, mas com menos força. Depois, com o tempo, aprendi a apertá-lo sem tossir, mas não o faço muitas vezes seguidas porque me cansa muito e passado um bocado já não sou capaz.

− Estou a ver – disse a professora. – E sim, esses músculos que a senhora accionou foram os seus músculos circunvaginais. A tosse faz mover o diafragma e envolve também todos os outros músculos abdominais. A razão porque o apertou com menos força da segunda vez é que a tosse foi forçada. Mas é bom que já tenha uma ideia do que se espera de si.

Ao ouvir isto, Alice obrigou-se a tossir, mas não sentiu nada em baixo, nem mesmo nas partes do corpo que estavam doridas.

− Muito bem – disse a professora. – Agora um aviso: fora da aula não comecem a forçar nem a reter o xixi. Isso pode tornar-se muito desconfortável, além de ser perigoso se abusarem. Se conseguirem mover um pouco os músculos da vagina, então podem ir treinando enquanto fazem outras coisas. Mas só os da vagina, e se não conseguirem também não faz mal: ainda não estou a contar com isso.

E com efeito: nos dias e semanas que se seguiram Alice e Mariana começaram a exercer algum controlo sobre as suas vaginas. Enquanto treinavam esta capacidade estavam terminantemente proibidas de mover os quadris:

− A essa batota não quero que se habituem, nem mesmo no princípio – dizia-lhes, sempre que detectava um movimento suspeito. – A técnica do xixi e a técnica da tosse também são batotas, mas vão ser muito mais fáceis de desaprender quando chegar a altura.

E o facto é que as batotas se foram tornando cada vez menos necessárias. Mariana foi a primeira a conseguir controlar sempre que queria os músculos vaginais, o que a professora atribuiu ao grão de experiência que já tinha, mas Alice não lhe ficou muito atrás.

− Engraçado – comentou Mariana num dia em que a lição lhe tinha corrido especialmente bem. − Às vezes, ao fazer isto, sinto assim uns espasmos dentro do corpo iguais aos que sinto quando tenho um orgasmo.

A professora sorriu, satisfeita.

− Isso é bom, muito bom mesmo. E a Alice? A menina também sente esses espasmos?

− Eu, não – confessou a jovem. – Nem sequer ainda notei que sentisse espasmos quando me venho. Também, ainda não me vim assim tantas vezes, portanto não posso falar muito.

A estas palavras todas as três se riram.

− Descanse – disse a professora. – Ainda tem muito tempo para aprender. E a menina tem uma vantagem: o seu dono sabe praticar uma arte que é uma espécie de equivalente masculino do pompoar. Há homens, sobretudo no Oriente, que aprenderam a fazer com o pénis mais ou menos o mesmo que vocês estão a aprender a fazer com a vagina: movê-lo sem mover os quadris. Trata-se de controlar um músculo chamado músculo pubococcígeo, que os homens também têm mas que é mais difícil para eles exercitar.

− O meu Senhor às vezes faz isso – interrompeu Mariana.

− Ai sim? O seu dono consegue fazer isso? Então a senhora é uma escrava com sorte – disse Sadhana. – A vantagem disto é que se o homem tiver um orgasmo e a mulher também, estando os dois perfeitamente imóveis, o espasmo de que fala a Mariana não se perde no meio de todas as outras sensações.

Nos dias que se seguiram a esta conversa a professora não lhes ensinou nada de novo. Só as mandou repetir, e repetir, e repetir o que já tinham aprendido.

− Repitam até não poderem mais – dizia sempre. − Repitam até lhes doer tudo, das coxas à cintura. Mesmo quando estiverem a fazer outras coisas, sentadas a comer, sentadas numa aula, deitadas na cama à espera de adormecer, podem repetir estes exercícios. Mas só com a vagina, entenderam? Não vos quero a remexerem-se nas cadeiras para as outras pessoas verem, nem a fazer que tossem, nem muito menos a fazer avarias com o xixi. Entendido? Se for para fazer tolices prefiro que não façam exercícios nenhuns fora das aulas.

Ao princípio Alice achava quase impossível contrair e relaxar a vagina sem mover os quadris: como pode o cérebro dar ordens a um músculo, ou a um conjunto de músculos, cuja simples existência a sua detentora ignorava umas semanas antes? A pouco e pouco, porém, começou a ser capaz, e até a encontrar motivo de intenso divertimento sempre que se encontrava sentada, por exemplo, à mesa de um café e exercitava vigorosamente, sem que as pessoas à sua volta se apercebessem, os órgãos genitais. Só não conseguia fazer isto com as pessoas da casa: Ricardo e Mariana apercebiam-se sempre do que ela estava a fazer, bem como as gémeas e, é claro, Sadhana. Mesmo a tia Safira, com o seu ar desligado de tudo, notava nada o que ela estava a fazer; resultado, talvez, da experiência adquirida em décadas de viagens por África e pelo Oriente.

Um dia, ao fazer os seus exercícios, sem que o tivesse querido e sem que nada o fizesse prever, Alice teve um orgasmo. Apressou-se a informar a professora, que encolheu os ombros e se limitou a confirmar o que já Mariana lhe tinha dito: as contracções e distensões vaginais também podem servir para uma mulher dar prazer a si própria.

− Mas evite fazer isso – acrescentou. – Não é bom dar a uma arte nobre um uso trivial.

Mariana chegava exausta ao fim de cada aula, e Alice ainda mais. Saiam mais cansadas das aulas de pompoar do que das de dança do ventre, apesar de estas não serem propriamente fáceis. Durante semanas sentiram o ventre repassado duma dor surda, que só a pouco e pouco foi desaparecendo e fazia com que nunca perdessem a consciência do centro feminino dos seus corpos. Nem mesmo Alice, durante as aulas de árabe e de matemática, que eram as que lhe exigiam maior concentração, chegava a perder esta consciência do corpo que lhe permeava todos os momentos da vida.

Alice só tinha Mariana como condiscípula nas aulas de pompoar e de dança do ventre. Nesta disciplina a indumentária obrigatória começou por ser uma saia muito rodada, feita de um tecido muito flexível mas também muito mais pesado do que Alice tinha imaginado. Isto, explicou Sadhana, porque tinham que aprender desde o primeiro dia o peso das saias e o modo como ele afectava o seu balancear. Da cinta para cima podiam usar uma T-shirt, ou um soutien, ou nada, como quisessem. Jóias ou enfeites é que ainda não.

Assim se iniciou para Alice uma rotina mais exigente do que a que tinha conhecido em qualquer outra escola, rotina esta que só era salva da monotonia pela alternância constante entre o esforço intelectual e o esforço físico.

Nas noites em que a ausência do dono lhe doía mais, habituou-se a deixar a sua cama e o seu quarto e a ir dormir no chão, aos pés da cama dele, como tinha feito na noite em que ele a tinha possuído. Nas manhãs que se seguiam a estas noites acordava dorida, e se nesse dia as lições fossem mais exigentes do ponto de vista físico o trabalho tornava-se mais penoso.

Um dia, numa aula de dança, e sem que a professora lho ordenasse, experimentou combinar as contracções do pompoar com os movimentos que estava a fazer com os quadris. A professora apercebeu-se imediatamente mas, em vez de a censurar ou de lhe ordenar que se concentrasse na dança, fez um gesto com a cabeça que pareceu à jovem ser de aprovação.

− Muito bem, está a aprender – foi o seu comentário.

Depois desta aula Alice quis saber a razão por que Sadhana tinha aprovado o seu gesto. Não a tinha ela proibido de usar os movimentos dos quadris para auxiliar os da vagina?

− Mas não foi isso que a menina fez, pois não? – fez-lhe notar a professora. – Não usou um movimento como muleta para auxiliar o outro. Pelo contrário, deu a cada um deles o seu melhor esforço e procurou que eles se completassem. Não estou zangada consigo; pelo contrário, estou contente.

Como se toda a gente tivesse estado à espera deste desenvolvimento, o dia em que esta conversa teve lugar marcou o início de toda uma nova rotina em casa de Ricardo. Nessa mesma noite foi anunciado que Harun viria no dia seguinte para uma estadia prolongada. Alice mal dormiu. Mas a meio da manhã, quando o dono chegou, Alice tinha começado a sua aula de dança do ventre e não foi dispensada dela para o ir cumprimentar.

− Não fique triste, vai tê-lo a assistir – disse-lhe a professora. – E vai ter também o dr. Ricardo. A diferença que que faz quando há homens a assistir, vai a menina descobri-la logo ao começar, ainda mais sendo um deles o seu dono. Se não ficar nervosa demais, vai dançar melhor do que nunca: é este o efeito que os homens têm na dança. Agora, um aviso: a menina pode tentar seduzir o seu Senhor com o seu desempenho, mas não pense sequer em tentar impressioná-lo, e muito menos em dominá-lo. Ele já viu muito melhor do que a menina, por isso se tentar impressioná-lo, em vez de o seduzir pela autenticidade dos seus sentimentos, ele notá-lo-á logo e sentirá desprezo por si. Mostre-lhe apenas o que já sabe: é isso que ele espera de si e é isso que o fará orgulhar-se de si. Mostre ao seu dono o que sente por ele, e pode ter a certeza que ele ficará contente com o seu desempenho.

Claro que nada nestas palavras diminuiu o nervosismo de Alice. Entrou na sala, vestida com a uma saia igual às que usava nas aulas e com um choli que lhe deixava o ventre a descoberto. Continuavam a ser-lhe proibidas jóias ou enfeites. Por enquanto só lá estavam as mulheres: Safira, que se levantou da cadeira onde estava sentada para lhe dar um beijo; as gémeas, de pé como estátuas nos extremos da sala; Silke e Mariana, sentadas no chão sobre os calcanhares, junto do sofá vazio que ocupava a posição de honra. A ela, mandaram-na ajoelhar no centro do espaço deixado livre em frente ao sofá. Ao fim de uma espera que lhe pareceu interminável, viu Harun entrar na sala, conversando animadamente com Ricardo. Alice, a quem não tinha sido dada a oportunidade de receber à porta o seu amado, nem de saudar o seu Senhor, nem muito menos de se lhe lançar nos braços como lhe pedia o corpo e o coração, pôde agora saudá-lo de longe, inclinando a cabeça até ao chão. Harun respondeu à saudação: não apenas com o inclinar de cabeça protocolar, mas com um sorriso de encorajamento e um brilho nos olhos que tanto podia ser de orgulho como de amor. Alice viu como ele se sentava no sofá ao lado de Gunther e Ricardo e sentiu como os três homens enchiam a sala com a sua presença, como a não enchiam as mulheres apesar de serem em maior número. Naquele momento Alice soube com a mais absoluta certeza que era para eles que ia dançar, e não para a professora, nem para Mariana, nem para qualquer outro ser do seu próprio sexo.

A um sinal de Sadhana, pôs-se de pé, esperou pela música e começou. Esperara concentrar-se toda em Harun, mas logo se deu conta que a presença de Gunther e Ricardo também contribuía para que ela pusesse na sua dança um suplemento de alma que era uma homenagem – compreendia-o agora – não só ao seu próprio dono, mas também aos outros dois. Não tentou combinar com a dança as contracções do pompoar: essas, reservava-as para a noite, para quando Harun a mandasse chamar. Mas a certa altura, sem que tivesse feito alguma coisa por isso, sentiu que um espasmo de prazer lhe sacudia o fundo do ventre.

No último tempo da dança, quando ajoelhou aos pés de Harun, ele tomou-a nos braços, olhou-a longamente no fundo dos olhos e beijou-a de tal maneira que lhe fez saber que a sua dança de novata lhe tinha agradado tanto como se tivesse sido executada pela artista mais experiente e perfeita.

À noite, na cama, quando o dono a penetrou, Alice esforçou-se por aplicar tudo o que tinha aprendido durante as longas semanas precedentes. Harun sorriu deste esforço:

− Calma, minha querida. Estás a dar-me muito prazer, e de futuro hás-de dar-me muito mais; mas o que conta por enquanto não é o que me dás de prazer, é o que me dás de alma. Concentra-te nisso: foi essa a dádiva que desejei este tempo todo…

− Sim, meu Senhor, sou toda tua… de corpo e de alma…

Mas a verdade é que não era capaz de distinguir bem entre a dádiva do corpo e a dádiva da alma que ele lhe pedia. Para ela não se tratava duma alternativa entre entregar-se a ele completamente ou dar-lhe o prazer mais intenso de que fosse capaz, mas simduma conjugação entre as duas coisas: entregar-se e dar-lhe prazer.

A ordem que ele lhe deu a seguir resolveu este dilema:

− Fica quieta com os quadris – disse-lhe ele – e mostra-me o que aprendeste com a Sadhana.

O que Alice tinha aprendido até ao momento era ainda muito pouco, mas pôs todo o seu brio em mostrar-lho – e com alguns resultados, como pôde ver na expressão do amante. Tinha parado, obedientemente, de mover os quadris; e ele, quando a sentiu imóvel, parou também, mas isto só por fora, porque por dentro ela sentiu que o sexo do dono tinha ganho como que vida própria: um pássaro inquieto no ninho, um furão na toca, um aríete, uma cabeça de touro a erguer-se e a baixar-se, uma alavanca poderosa que tinha no corpo dele o seu fulcro e raiz.

E foi logo no auge desta delícia que ele a proibiu de ter orgasmo! De tão inesperada e injusta, a ordem trouxe-lhe lágrimas aos olhos – mas então que força foi aquela que a levou a agarrar-se a ele ainda com mais força, a puxá-lo para dentro de si ainda mais gulosamente, e a dizer-lhe indistintamente “sim, sim, meu querido, goza tu, goza sozinho, serve-te de mim … Eu não sou nada, não sou ninguém, deixa-me só servir o teu prazer…”

Mais tarde nessa noite, quando ele voltou a possuí-la, proibiu-lhe de novo o orgasmo. Só lho permitiu à terceira vez – ou melhor, ordenou-lho – quando a noite já começava a clarear e a ela lhe parecia que estava demasiado cansada para ter prazer. Como podia ela obedecer? Tinha o ventre dorido, os músculos cansados, e parecia-lhe que todos os conhecimentos de pompoar que tinha adquirido a tinham abandonado. Mas chamou à memória todos os sonhos, todas as fantasias, todas as saudades que tinha sentido, as noites solitárias em que se tinha masturbado, deitada no chão aos pés da cama dele; e estas lembranças, e as carícias dele, e os beijos dele, e os sábios movimentos do membro viril que tão depressa a acariciava, macio, como a invadia, ávido e rijo – tudo isto foi enfim suficiente para a fazer explodir na apoteose que lhe tinha sido ordenada e por que ela tão longamente anelara.

Depois ficaram a conversar:

− Desta vez vou ficar bastante tempo aqui em casa do Ricardo. Trouxe duas moças da Tunísia, uma para ser tua criada, a outra para ser criada da Mariana. A tua é solteira, tive que trazer também um irmão dela para tomar conta dela e arranjei-lhe um emprego temporário aqui em Braga. A da Mariana tem o marido na Tunísia e se ela ficar cá vai ser preciso o Ricardo mandá-lo vir e arranjar-lhe um emprego aqui em Braga. Enquanto a tua não aprender português, vais ter que falar francês com ela. Sabes francês? Só o da escola? Não faz mal, aprendes. Não são escravas, são imigrantes legais, com os papéis em ordem, direitos laborais e bons ordenados; mas foram bem informadas da tua condição, e da condição da Mariana, e da Silke, e não se escandalizarão com o que virem e ouvirem. E também não se vão importar de andar descalças, acham natural. O que nunca vais é vê-las de saias curtas ou mangas curtas… Depois, quando me for embora, levo-te comigo para a nossa casa de Túnis. Nessa altura levo também a Sadhana e algumas das tuas outras professoras que aceitaram continuar connosco. Também temos um apartamento em Paris e uma casa na Suíça, em Appenzell… Vamos andar sempre de um lado para o outro.

− Tens assim tantas casas? Deves ser muito rico – murmurou Alice, já com o sono a embargar-lhe a voz.

− Tenho o suficiente para viver como quero – respondeu Harun.

− Isso é ser muito rico – decidiu Alice.

Com esta conversa tinha ficado um pouco mais desperta. Enroscada a Harun, ainda perguntou:

− E o Ricardo, também é rico? Sempre me pareceu rico…

− Não. Rico, exactamente rico, não é. Mas tem uma profissão bem paga, e rendimentos próprios que herdou dos pais… A Mariana é mais rica do que ele, e além disso vende bem os quadros que pinta. Fez partilhas com o ex-marido que não a deixaram mal… De modo que também eles podem viver mais ou menos como lhes apetece.

− É bom, poder viver como nos apetece – disse Alice. – Ou melhor, no meu caso e no da Mariana, como apetece aos nossos donos. Não é?

Harun mal a ouviu. Veio-lhe um enorme bocejo, de repente. Encostou o rosto ao de Alice, que também estava meio morta de sono mas ainda perguntou:

− Meu Senhor… Hoje também vou dormir no chão?

− Não, hoje não. Hoje dormes aqui comigo.

− Mas primeiro lavo-te, meu Senhor… Não é?

Harun sorriu, agradado com a boa memória e com a obediência de Alice.

− Claro…

Apenas cumprido o rito da lavagem, adormeceram os dois, abraçados. Quando ela acordou ele estava ainda a dormir. Com todo o cuidado, para não o acordar antes do tempo, deslizou toda para debaixo das cobertas e tomou-lhe na boca o pénis flácido, sentindo-o endurecer lentamente e fazendo um jogo de adivinhar o que aconteceria primeiro: Harun acordar, ou começar a corresponder ainda adormecido à carícia da amante. Mas quando ele, sem fazer mais que uns ligeiros movimentos com as ancas e sem dar outros sinais que a prevenissem, lhe descarregou na boca uma quantidade de esperma que quase a fez engasgar, Alice deu-se conta de que nos últimos momentos quem estivera a fazer um jogo fora ele, fingindo-se ainda adormecido quando a carícia já o tinha despertado completamente. Encantado com esta pequena vitória sobre a sua escrava, Harun abraçou-se a ela, risonho e feliz, e cobriu-lhe de beijos o rosto e a boca. Depois deu-lhe uma leve palmada nas nádegas e disse-lhe, ainda a rir:

− Chega de beijoquices. Estou aqui sequioso por um chá e a minha escrava ainda não mo foi buscar…

Com uma risadinha, Alice pulou para fora da cama:

− É para já…

Enrolou à volta das ancas a saia com que se apresentara a Harun na noite anterior, e, sem sequer cuidar de se cobrir da cinta para cima, apressou-se em direcção à cozinha, sentindo que tudo estava bem com o mundo. Na cozinha encontrou uma mulher que não conhecia e que a ajudou a preparar o tabuleiro sem dar mostras de ter reparado nos seus seios nus: devia ser uma das tunisinas de quem Harun lhe tinha falado.

Com a presença de Harun em casa de Ricardo, a disciplina na educação de Alice perdeu um pouco da sua rigidez: mas não no que diz respeito às lições de pompoar, nem às de dança do ventre; e muito menos quanto à escrupulosa toilette nocturna de Alice, que nunca foi descurada no mais pequeno pormenor. Este ritual era cumprido todas as noites com a ajuda da nova criada de Alice, uma jovem de olhos amendoados chamada Aischa.

Alice tinha prazer neste luxo; mas Mariana achava que era perfeitamente capaz de tratar do seu próprio corpo e que não precisava de criada nenhuma.

− Para que queremos nós uma empregada? – perguntava por vezes a Ricardo. – Para a lida da casa temos cá mulheres que cheguem; e para tua criada particular basto eu, que sou feliz em sê-lo. Ou não sabes disto?

− Sei, sim, minha querida – respondia Ricardo. – E melhor criadinha do que tu, nunca a poderia desejar. Mas não te esqueças que tens outros deveres…

E para lhe mostrar quais eram esses deveres dava-lhe a mão a beijar, ou introduzia-lha entre as coxas. Mariana, pacificada, sorria e entregava-se à carícia; e ao fim de pouco tempo adaptou-se à presença de Leila, a segunda tunisina – uma mulher entre os trinta e os quarenta anos, anafada e bem disposta, que depressa mostrou inestimáveis talentos, não só como empregada doméstica, mas também como cabeleireira, manicura, pedicura e massagista. O seu constante bom humor não poupava ninguém, nem mesmo Ricardo; e a própria Mariana não conseguiu muitas vezes impedir-se de se rir ao vê-la imitar o tom pausado e sério com que o dono da casa tinha dado certa ordem ou tomado determinada decisão.

Quanto às aulas de pompoar, a fase seguinte consistiu em habituar Alice e Mariana a distinguir três secções diferentes nas suas vaginas.

− Têm que sentir a vagina – ensinou-lhes Sadhana – como um tubo composto por três anéis: um logo atrás da entrada, o outro no meio, e o outro lá mesmo no fundo, junto ao útero.

Tomar consciência destas três secções, e aprender a contraí-las e relaxá-las independentemente umas das outras, foi bem mais difícil e demorado do que tinha sido controlar a vagina no seu todo. Nuas e suadas na sala aquecida, Alice e Mariana tentavam uma posição, depois outra, voltavam por vezes aos truques iniciais do xixi e da tosse, esforçavam-se, insistiam, desesperavam. Nem Harun, nem Ricardo, nem homem nenhum era admitido na sala; não só porque Sadhana nunca admitiria mostrar-se nua à sua frente, mas também porque os esforços, o sofrimento e o ocasional desespero das duas alunas não eram um espectáculo próprio para aquilo a que a professora chamava, com o seu humor discreto, a delicada sensibilidade masculina.

Nas aulas de dança do ventre, pelo contrário, os homens eram bem-vindos: não só Harun e Ricardo, mas quaisquer amigos que pudessem estar de visita.

O Raqs Shaqi dança-se sempre melhor na presença de um homem – dizia a professora, como quem recita uma evidência.

Mas Alice tinha lido algures que a dança do ventre era na sua origem uma espécie de rito iniciático entre mulheres, algo de que os homens estavam excluídos, uma ginástica para o parto, uma manifestação espiritual do tempo do matriarcado… Que só depois, com o patriarcado e com o colonialismo, é que se tinha feito dela um espectáculo para excitar e seduzir os homens.

− Isso é o que as americanas dizem – respondeu a professora. – Têm aquela coisa calvinista de pôr dum lado o que é espiritual e do outro o que é corporal… E como são calvinistas, são feministas, e acham que agradar aos homens as diminui. Não é que não tenham razão quando falam nos rituais, na preparação do parto, nas cumplicidades e nos segredos femininos: só não percebem que nisto tudo cabe muito bem o nosso prazer em seduzir os homens, em lhes agradar, em lhes prestar homenagem. A presença dos homens, o prazer deles nos nossos corpos, nada disto faz de nós menos mulheres, pelo contrário: faz de nós mais fortes e mais mulheres. Assim como o nosso prazer na masculinidade deles faz deles mais fortes e mais homens. Qualquer mulher oriental entende isto, só para as ocidentais é que é difícil. E para as americanas, então…

Sadhana ficou absorta um momento. Mariana e Alice ainda a ouviram dizer baixinho, falando para si própria:

− O Raqs Shaqi… contra os homens… uma coisa hostil… doidas, completamente doidas.

Como que para sair desta absorção apertou os lábios, abanou a cabeça e dirigiu-se às alunas em tom decidido:

− Hoje não quero que dancem para mim. Imaginem que são a Xerazade, que estão a dançar para o Sultão e que amanhã ele vos pode mandar cortar a cabeça se hoje não achar interessante o vosso desempenho.

De aula para aula tanto Alice como Mariana faziam progressos. Mariana, com a sua aptidão natural, levava Sadhana a lamentar muitas vezes o desperdício que era ela não ter começado a aprender em adolescente ou criança. Alice era maior e mais robusta do que Mariana, e apesar da sua juventude era um pouco mais rígida de cintura; mas no cômputo geral as duas andavam a par. O primeiro adereço que a professora lhes permitiu foi um cinto dourado com guizos para usar à roda das ancas – com o aviso solene de que só teriam direito a outros enfeites ou instrumentos, nomeadamente as castanholas metálicas chamadas “snujes” que Alice não se cansava de pedir, quando soubessem mover as ancas de maneira a que os sons emitidos pelos guizos tivessem um ritmo compatível com o da música.

Alice era sempre das duas a que fazia mais perguntas

− Porque é que a dança do ventre não se dança com os seios nus? As saias, eu compreendo, podem completar os movimentos do corpo, até se pode dizer que também dançam. Mas uma coisa ali parada, a apertar o peito, que não faz nada além de esconder o corpo, para que é que serve?

− O Raqs Shaqi pode dançar-se também de seios nus – respondia pacientemente a professora. – E até meados do século XX esse foi o costume em certas regiões do Sul de Marrocos, por exemplo…. E na Antiguidade: há representações de dançarinas com os seios nus no antigo Egipto, na Índia… e, muitas vezes, completamente nuas.

− Está bem, mas agora? – insistia a jovem.

− Agora, não se pode esperar de uma dançarina que dedique tanto tempo e esforço a aperfeiçoar a sua arte para depois ser confundida com uma stripper qualquer ou com uma lap dancer sem escola. As americanas podem estar erradas em rejeitar a parte que é sedução na dança do ventre, mas têm razão em não querer utilizar a sua arte para excitar qualquer ignorante com dinheiro para pagar a entrada num clube nocturno. Não é só uma questão de puritanismo, também é de integridade artística. Há uma definição de prostituição com que eu concordo: prostituição é tudo aquilo que põe o que é nobre ao serviço do que é vil ou trivial. Até pode ser um poeta a fazer slogans publicitários, por exemplo: é prostituição na mesma. E as dançarinas profissionais de Raqs Shaqi têm toda a razão em não se quererem prostituir. Além disso há uma vantagem concreta em usar uma peça de roupa na parte superior do corpo a que possam ser afixados guizos: se estes tiverem um som que se distinga dos que são afixados às ancas e aos tornozelos, uma dançarina que seja dotada pode criar ritmos mais intrincados.

− Lá por isso, os guizos também se podem prender aos mamilos com piercings ou com molas – retorquiu Alice. – Mas está bem, nunca tinha pensado nisso em termos de integridade artística. É tudo mais complicado do que parece, não é?

Sadhana acenou com a cabeça.

− Não quer dizer que no Oriente, nalguma ocasião privada, perante um público conhecedor, uma grande artista não possa actuar muito mais nua do que de costume, e até actuar melhor por estar mais nua. Aí já não se trata de prostituição, estão a compreender? Quanto a vocês duas, veremos. No vosso caso o problema da integridade artística não se põe. A vossa dádiva aos vossos donos não foi vil nem trivial, caso contrário eu não estaria aqui a ensinar-vos. É como eu dissse: veremos.

E ainda Alice, noutra ocasião:

− Senhora professora, já ouviu falar em Gothic Bellydance?

− Já ouvi falar, e já vi fazer – respondeu a professora. – Mas nunca fiz nem ensinei.

− Eu gostava de aprender.

− Dança do ventre gótica: só me faltava essa! Mas a questão não é o que a menina gostava de aprender, é o que o seu dono quer que aprenda. Fale com ele, e se ele autorizar talvez eu aceite estudar isso consigo. Se a dança do ventre gótica acrescentar alguma coisa às outras variedades, é a maneira de também eu aprender alguma coisa; se não lhes acrescentar nada, então não me interessa: terá que a estudar sozinha.

No pompoar, depois de aprenderem bem o ritmo ternário correspondente aos três anéis imaginários em que dividiam a vagina, foram introduzidas ao ben-wa: duas bolas metálicas, ligeiramente maiores que bolas de ping-pong e unidas por um fio. A professora convidou as duas alunas a sopesar estas bolas: não eram leves, mas o que mais as surpreendeu foi o facto de não terem um centro de gravidade estável: era como se dentro delas se movessem outras bolas, umas mais pesadas do que as outras. Eram próprias para introduzir na vagina, disse a professora, e por isso tinham outro fio que ficava de fora e permitia tirá-las. Podiam ser usadas para vários fins, um dos quais era auxiliar a aprendizagem que estavam a fazer.

Assim começou uma nova fase nesta aprendizagem, que durou, no que diz respeito a Mariana, até ao dia em que ficou sem a professora. O fim da estadia de Harun em casa de Ricardo representou uma viragem na vida de todos. Mariana e Ricardo estavam a poucos meses de acabar o seu trabalho em Brugges e Heidelberg: depois disso passariam a repartir a vida entre Lisboa e Braga, acompanhadas por Leila, que se tinha prontificado a ficar em Portugal como sua empregada desde que o marido também pudesse vir. No seu regresso a Túnis, Harun far-se-ia acompanhar duma comitiva que não ficaria mal a um jovem príncipe: além de Alice, seguiriam com ele Sadhana, a professora de música e a de inglês, a criada Aischa, e o irmão de Aischa, a quem tinha sido oferecido o emprego de motorista de Alice. A vida de Harun e Alice não se repartiria, como a de Ricardo e Mariana, por duas cidades num só país, mas por várias cidades em três continentes. Gunther e Silke já tinham regressado a Heidelberg há muito tempo.

Quanto às gémeas, era tempo de assumirem os seus deveres de matriarcas e guias no seu clã espalhado pelo mundo, que nunca ninguém chegou a saber se era uma tribo, uma família, uma sociedade secreta, um grupo religioso ou uma empresa.

Não era uma despedida definitiva: sem dúvida que se voltariam todos a encontrar, todos juntos ou em grupos mais pequenos, ao sabor da hospitalidade e das viagens. Quando Mariana se viu privada da sua professora, os seus progressos na dança do ventre já tinham chegado ao ponto em que executava todos os movimentos básicos e dominava meia-dúzia dos ritmos principais; quanto ao pompoar, já tinha começado a treinar com o ben-wa e chegara ao ponto em que conseguia puxar para dentro ambas as bolinhas, mas ainda só conseguia expulsar uma.

− Continue a treinar – disse-lhe Sadhana. – Se quiser ir mais longe no Raqs Shaqi tem que ter lições, mas o pompoar é só uma questão de treinar todos os dias.

− Não se preocupe, senhora professora – interrompeu Alice, sorrindo por entre as lágrimas da despedida. – Vou estar em contacto com ela todos os dias pela Internet e se ela se desmazelar digo ao Ricardo.

Do aeroporto do Porto, onde tiveram lugar as despedidas finais, até à moradia de Ricardo em Braga não se demora mais do que três quartos de hora pela auto-estrada. Mal entraram no carro e se viram sozinhos um com o outro, Ricardo ordenou a Mariana que levantasse a saia e pôs-lhe a mão entre as coxas para lhe acariciar o sexo. Ao sentir o fio do ben-wa, perguntou:

− O que é isto?

Mariana explicou. E Ricardo, rindo, decidiu logo ali que, a partir do momento em que chegassem a casa, Mariana ficaria nua toda a semana seguinte, minuto por minuto e segundo por segundo, para que ele pudesse verificar a assiduidade com que ela cumpria os exercícios que a professora lhe tinha prescrito. Mariana riu-se também e chegou-se para mais perto dele. Milhares de metros acima de ambos, o avião que levava para longe os seus amigos descreveu uma larga curva no ar e entrou na rota que o plano de voo lhe tinha destinado.

(Publicado no Blogger a 31/05/08 e revisto a 01/06/08 )

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Hoje é dia de Ele vir.

Ontem depois do trabalho fui à esteticista e à cabeleireira. A mocinha queria cortar-me o cabelo mais curto. Pelos ombros, disse ela. O que é que estas mocinhas sabem de alguma coisa? O meu Senhor gosta dos meus cabelos compridos…

– Não – disse eu à mocinha. – É só acertar nas pontas.

E hoje a manhã toda vai ser para me preparar. Começo nua. Nem sequer me visto para tomar o pequeno-almoço. Para quê? Corto com uma tesoura, o mais curto que posso, os pelos do púbis. Deito-os ao lixo. Terá ficado algum caído no chão?

Aproveito este pensamento para aspirar a casa toda. Já a aspirei ontem, mas não faz mal. Olho à volta: está tudo arrumado.

Meto o cabelo numa touca impermeável e vou tomar duche. Lavo-me toda com champô para bebés. Primeiro lavo-me entre as pernas: meto o dedo na vagina e no ânus, o mais fundo que posso, para me lavar por dentro. A seguir lavo-me toda: começo nos ombros, nos sovacos, vou descendo, limpo bem o umbigo, volto a lavar-me entre as pernas, e assim até aos pés, dedo a dedo.

Enxugo-me. Tiro a touca e prendo o cabelo atrás em rabo-de-cavalo. Pego numa gilette nova, no gel de barbear d’Ele, num espelho de mão, e sento-me na borda da banheira para me rapar entre as pernas. Estou concentrada. Não tenho pressa. Trabalho minuciosamente, cantarolando. Quando me dou conta do que estou a trautear, sorrio: é um fado, a Rua do Capelão. No fim lavo-me de novo da cinta para baixo, seco-me e ponho a toalha no cesto da roupa suja. Daqui a pouco, quando tomar banho outra vez, vou utilizar uma toalha lavada; mas também essa irá para a roupa suja logo a seguir.

Quero claridade. Tenho as janelas abertas, as cortinas corridas para os lados. Se do prédio em frente me virem nua pela casa, pois que vejam. É altura de fazer a cama – muito bem feita para Ele a desfazer – e de pôr a mesa, embora esteja certa de que Ele não vai querer comer. Desimpeço a mesinha junto ao sofá e ponho nela um tabuleiro: a garrafa de whisky, um copo, um cinzeiro, a caixa humidificadora com os charutos d’Ele. Abro a tampa e vejo o higrómetro: 70% de humidade, como Ele gosta. Ao lado, a guilhotina de cortar as pontas e uma caixa de fósforos nova.

Ponho música a tocar. Recomeço a cuidar de mim. Encho a banheira com água muito quente e sais de banho e entro nela muito devagar para não me escaldar. Fecho os olhos. Respiro fundo os vapores perfumados. Fico assim a enlanguescer, a acalmar, e pouco a pouco vou fazendo com que o coração me bata mais compassado. Quando a música pára de tocar saio da banheira, seco-me e arrumo rapidamente a casa de banho.

Passo por todo o corpo um creme perfumado. Ponho umas gotas de perfume atrás das orelhas. As unhas das mãos e dos pés estão arranjadas desde ontem com o verniz meio transparente de que Ele gosta. Pinto os lábios de cor-de-rosa escuro e os mamilos da mesma cor.

Sento-me diante do espelho, desprendo o cabelo e começo a escová-lo. Vou contando: cem passagens da escova a todo o comprimento. Para me aproximar mais do espelho abri as pernas. Vejo o meu sexo lisinho. Não é como o duma criança, o sexo duma criança é só uma rachinha e do meu espreitam os lábios da vulva, como duas pétalas rosadas. Com quarenta anos de idade nunca tinha visto bem o meu sexo.

Estou molhada. Perco a conta. Recomeço.

O cabelo está liso e brilhante. Prendo-o com ganchos para Ele depois desprender. Enfeito-me com tudo o que tenho que tenha pedras vermelhas: os brincos de turmalinas que me caem quase até aos ombros, o colar e a pulseira do mesmo conjunto. Ponho ao pescoço um fio de ouro com um pendente de rubis. Outra pulseira, esta só de ouro. Um fio de ouro à volta da cinta, uma pulseira em metal dourado, que comprei de propósito, no antebraço, um enfeite de tornozelo com campainhas.

Estou pronta. Só falta a saia, ou melhor, as saias; mas essas, só as ponho no último segundo, quando ele já me tiver dado o toque no telemóvel a dizer que está a chegar. Sento-me no sofá toda nua, com um livro, à espera.

Ainda é cedo. Leio o meu livro. De vez em quando olho para as saias para ver se não me esqueci de as pôr à mão. Quando o telemóvel toca, arrumo o livro na estante e começo a vestir-me. Primeiro a saia azul forte, transparente, debruada a ouro na fímbria. Por cima, a saia carmim. Vejo-me ao espelho: vista à transparência a saia de baixo parece violeta. Por cima de tudo uma saia dum vermelhão muito aberto, quase cor-de-laranja. Todas as três são abertas de lado até à cintura e eu disponho as aberturas de modo a quase coincidirem. Por um momento quase tenho pena de ter rapado o sexo, a sombra do púbis ficaria bonita à transparência. Mas não, estou a pensar mal: as saias são três, não se conheceria nada. É melhor assim, como Ele ordenou.

A campainha toca. É Ele. Abro a porta de baixo e entreabro a de cima. Estou pronta. Sinto o meu próprio cheiro de fêmea. Se o meu Senhor me penetrasse logo ao transpor da porta, sem sequer um beijo de saudação, entraria por mim dentro sem o menor entrave.

(Publicado no Blogger a 19/08/07)

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Eram oito da noite de sexta-feira e Mariana estava a pôr a mesa para Ricardo. Só para ele, porque hoje ia servi-lo sem participar na refeição como se fosse uma criada. Quanto a ela, já tinha comido: uma salada com cubos de queijo, pão torrado e um molho à base de iogurte magro.

Ricardo, calculava Mariana, devia estar neste momento a sair do seu gabinete em Heidelberg e a fazer-se à estrada num carro alugado, para estar com ela o mais cedo possível. Ia chegar cansado e sem jantar, depois de um dia de trabalho duro e de duas ou três horas a conduzir na Autobahn.

Não valia a pena cozinhar-lhe uma ceia completa, ele ficava sempre sem apetite quando viajava. Em vez disso Mariana preparou tostas, uma tábua de queijos e uma tacinha com framboesas e abriu uma garrafa de vinho, que deixou num aparador a respirar. A seguir dispôs velas aromáticas na sala, deixou a caixa de fósforos à mão, subiu a temperatura no termóstato, ligou o dispositivo de aquecer as toalhas na casa de banho e preparou os óleos para a massagem que tencionava dar ao amante se ele não se agarrasse logo a ela e não a arrastasse para a cama.

Tomou duche antes de tomar banho, como as gueixas; lavou a cabeça, enrolou o cabelo molhado numa toalha, meteu-se na banheira com sais aromáticos, enxugou-se, amaciou o corpo com um creme perfumado, secou e escovou o cabelo.

Tinha-se depilado toda de manhã. Quando o dono lhe ordenara que fizesse isto, tinha protestado, mas agora estava a gostar de se ver lisa como uma menina impúbere.

Pintou as unhas dos pés e das mãos com a mistura de vernizes de que ele gostava: metade transparente, um quarto cor de rosa pálido, um quarto branco-pérola. Vestiu-se e maquilhou-se como ele tinha dito que queria: saia comprida e rodada em tons de terra e laranja, semi-transparente, sem calcinhas; corpo nu da cinta para cima; cinto de fantasia; bijutaria profusa nos pés, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas e sobre o peito; um pouco de rouge, muito pouco, na cara; baton cor de framboesa nos lábios e nos mamilos. Pôs umas chinelas, para usar até ao momento em que ele tocasse à campainha de baixo: Ia recebê-lo como ele tinha mandado, com os pés nus em sinal de respeito; mas também, em sinal do mesmo respeito, com eles limpos.

Quando a campainha tocou guardou as chinelas e foi-se pôr à porta do apartamento para ele não ter que esperar no patamar. Ao sentir-lhe os passos abriu-lhe a porta; lá vinha ele, arrastando o seu velho trolley de viagem azul. Na mão esquerda trazia um ramo de rosas vermelhas atadas com um fio de ráfia: devia ter-se picado nelas ao sair do carro ou ao tocar à campainha, porque trazia um arranhão entre o polegar e o indicador que ainda ressumava perolazinhas de sangue.

Mariana franqueou-lhe a entrada, fechou a porta atrás dele e, mal lhe dando tempo a pousar o trolley, lançou-se-lhe ao pescoço. Ricardo correspondeu apaixonadamente a este beijo, atrapalhado apenas por ter só um braço livre; com o outro mantinha afastado dela o ramo das rosas, para que não a picassem. Quando ele por fim lhe entregou o ramo Mariana levou-o ao nariz, aspirou-lhe o perfume, e ajoelhou com um gesto natural e gracioso para beijar a mão do amante.

– Anda para a sala. Tens fome?

– Não tenho muita…

Mas depois de tirar o casaco e de ir à casa de banho sentou-se à mesa. Mariana, ajoelhada, pousava a cabeça nas coxas dele beijava-lhe a mão quando ele a acariciava. Só se levantou uma vez, para lhe servir o vinho. Duas tostas, dois cubos de queijo, algumas framboesas que ele ia comendo ou dando a comer à amante, e meio copo de Barolo: a isto se resumiu a refeição de Ricardo.

– Estás cansado, meu querido.

– Um pouco. Preciso de tomar um duche.

– Senta-te no sofá, eu dispo-te.

Ricardo fechou os olhos e deixou-se despir como um menino ensonado. A meio do duche Mariana foi ter com ele para acabar de o ensaboar. No fim ajudou-o a secar e levou-o de novo para a sala.

– Deita-te no sofá. Vou dar-te uma massagem para te tirar essa tensão dos ombros.

– Se fizeres isso ainda adormeço aqui mesmo e depois não te sirvo para nada – respondeu ele com um sorriso.

– Não faz mal. Deita-te. Espera, vou pôr aí uma toalha.

Mariana tirou todos os ornamentos que trazia no corpo e pôs-se nua para ter mais liberdade de movimentos. À massagem que deu ao dono com as mãos acrescentou umas carícias com os seios e com o sexo depilado que o fizeram ronronar como um gato.

– Hmmm, tão bom…

A previsão que Ricardo tinha feito de adormecer não se cumpriu completamente. Terminada a massagem rolou do sofá para cima do tapete, pôs-se de barriga para cima, fechou os olhos e estendeu os braços como uma criança a pedir mimo:

– Vem cá, minha escrava…

Mariana trepou para cima dele, montou-o e começou a acariciar-lhe o pénis ainda flácido com a vulva acetinada e húmida. Ricardo sorriu, consolado:

– Tão bom…

A erecção que tinha tido lugar intermitentemente desde que Ricardo tinha entrado em casa de Mariana não tardou a estabelecer-se de novo com renovada pujança, e Mariana empalou-se nela com um suspiro de prazer.

Começou então uma noite memorável, com Mariana a movimentar vigorosamente os quadris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, para os lados, em círculos, e com Ricardo a erguer-se ao encontro dela, mais fundo, mais fundo.

Por vezes ela inclinava-se toda para trás para conseguir o ângulo que mais a excitava, mas o pénis dele estava tão retesado que lhe doía ao ser vergado para baixo. Então puxava-a com força para si de modo a sentir-lhe os seios contra o peito; ela soprava como um gato assanhado mas obedecia, e deixava pender a cabeça para a frente de modo a poder acariciá-lo também com os cabelos.

Ricardo sentia o orgasmo quase a chegar mas, fosse pelo cansaço que sentia, fosse por estar por baixo, ou fosse ainda pela dor que Mariana lhe provocava quando se inclinava para trás, a excitação em que estava só crescia sem se resolver num desenlace. Por vezes o cansaço dos músculos levava-o a ficar passivo enquanto Mariana dançava por cima dele, mas logo o desejo, louco, o obrigava a acelerar e ampliar as estocadas que dava na amante.

Mariana veio-se. E veio-se outra vez. E veio-se outra e outra, tantas vezes que não as pôde contar, tantas vezes que a certa altura já não tinha orgasmos separados, tinha um único orgasmo que continuava e continuava e parecia nunca mais acabar.

Por fim – depois, quando olharam para o relógio, viram que passava das quatro da manhã – Ricardo deu um urro cavernoso, e num último, prodigioso arranque esvaiu-se todo dentro dela, que arquejava «dá-me, dá-me tudo» e se veio também pela última vez nessa noite.

Nem se lavaram. Conseguiram ir os dois, aos tropeções, da sala para o quarto, onde se deitaram em cima da cama e adormeceram imediatamente. Quando acordaram tinham, ele o pénis quase em carne viva, ela a vagina em idêntico estado, e no tapete sobre o qual tinham feito amor vieram a encontrar uma pequena mancha de sangue que nunca vieram a saber se era dele ou dela.

Mariana acordou tarde e viu o amante ainda adormecido ao seu lado. Durante a noite tinham arranjado maneira de puxar o edredon para cima deles, e ainda bem porque a casa estava um pouco fria. Começou preguiçosamente a dar pequenos beijinhos na cara de Ricardo e viu como mesmo a dormir o rosto dele se adoçava num ligeiro sorriso. Depois pousou a cabeça no travesseiro e deixou-se ficar numa deliciosa indolência até o ver acordar e espreguiçar-se.

Esta visão deu-lhe vontade, como que por contágio, de se espreguiçar também e de bocejar longamente.

– Tens fome, meu querido?

– Mais que fome, estou esfaimado. Se não me dás de comer, como-te a ti.

– Então deixa-me tomar duche primeiro, depois tomas tu enquanto eu te preparo o pequeno-almoço.

Ricardo ainda fechou os olhos por uns minutos. Depois levantou-se, vestiu o roupão, calçou os chinelos de quarto e dirigiu-se para a casa de banho, de onde Mariana estava a sair embrulhada numa toalha.

Ao enxugar-se – vigorosamente, como era seu costume – reparou que lhe doía ao esfregar o pénis com a toalha, apesar de esta ser invulgarmente fofa e macia. A pele estava muito vermelha e sensível. Tinham sido horas seguidas de fricção no corpo da amante, e ainda bem que ela estava depilada e macia, porque aquele tempo todo a roçá-lo com os pelos púbicos teria sido mais do que poderia aguentar.

Quando entrou na sala de roupão e chinelas, Mariana já estava vestida, com uma saia preta pelos tornozelos e uma blusa de seda branca. A mesa estava posta e da cozinha vinha um cheiro bom de café e torradas com manteiga.

– Senta-te. Vai bebendo o sumo, que eu já te trago o resto.

À porta da cozinha estavam umas chinelas.

– Vou calçar-me. A tijoleira da cozinha está muito fria. Posso?

– Sim, hoje podes, mas só na cozinha.

Um ruído de louça e talheres a remexer, um súbito aroma a ovos fritos a a bacon, e lá vinha Mariana com um cesto enorme de torradas.

– Vai comendo enquanto estão quentes.

Sentou-se em frente ao dono para beber o sumo de laranja e depois levantou-se, com uma torrada na mão para ir de novo à cozinha. Quando regressou trazia uma travessa de ovos mexidos com bacon e salsichas, e mais torradas. Pôs música a tocar no leitor de CD’s (a sonata de violino e piano «Primavera», de Beethoven), e sentou-se a comer. Por vezes dava-lhe na boca um pedacinho de torrada, ou ele a ela. Serviu muesli misturado com iogurte de cereja, que comeu com um apetite igual ao do amante. Por fim foi à cozinha buscar o café.

– Queres mais?

– Só se for mais café.

– Então vou buscá-lo quente, não bebas esse.

Ficaram mais de meia hora à mesa, a beber café, a pegar nas mãos um do outro e a conversar de coisas sem importância. Quando viram as horas era quase uma da tarde.

– Ai… Ainda vou ter que arrumar isto tudo…

– Eu ajudo-te.

– Não, vai-te vestir.

Ricardo vestiu as suas calças de bombazina cor de mel e uma camisa de flanela aos quadrados, com uma T-shirt por baixo. Não demorou muito a vestir-se e a calçar as peúgas: ainda teve tempo de arrumar a sala e o quarto e fazer a cama enquanto Mariana terminava de lavar a louça e limpar a cozinha.

De tarde foram passear em Brugges, ao longo dos canais. Pararam em frente ao edifício gótico da Câmara Municipal, viram as montras nas ruas centrais, fizeram algumas compras num supermercado. O Equinócio da Primavera já tinha passado, a hora tinha mudado, os dias estavam mais longos e estava sol, mas não se demoraram na rua: depois de lancharem numa confeitaria voltaram para o apartamento de Mariana, onde ficaram sentados a ouvir música e a conversar enquanto lhes apeteceu.

– Daqui a pouco vou fazer o jantar – disse Mariana, abraçando o amante e dando-lhe um beijo. – Queres tomar alguma coisa antes?

– Sim, meu amor. Tens um whisky?

– Já to vou dar. Deixa-te estar sentado.

Mas em vez de se dirigir para o armário das bebidas Mariana meteu-se no quarto, de onde emergiu uns minutos depois com um vestido que Ricardo não lhe conhecia: cintado, preso aos ombros por alças, com uma saia pelos tornozelos muito rodada, e todo às riscas verticais em vários tons de rosa. Na sua versão original devia ter um forro, mas era fácil de ver que Mariana o tinha tirado e que não trazia nada por baixo.

– Gostas do meu traje de escrava?

– Muito. Vestiste-o para me servires o whisky?

– O whisky e não só. Mas espera, primeiro vou-te calçar os chinelos.

Os chinelos de Ricardo estavam no armário da entrada. Mariana foi-os buscar, ajoelhou-se e descalçou o dono, beijando-lhe cada um dos pés depois de tirar a respectiva peúga e antes de lhe pôr o chinelo. Concluída esta tarefa pôs música no leitor de CD’s – Shepherd Moons, da cantora irlandesa Enya – trouxe um tabuleiro que enganchava no sofá, e sobre este pôs um naperon, um copo de cristal e um cinzeiro.

– Um cinzeiro? – admirou-se Ricardo

– Sim. Hoje vais fumar. E não discutas.

A seguir tirou duma gaveta um estojo de cabedal para dois charutos, uma caixa de fósforos e um aparelho de cortar as pontas, e pousou tudo no tabuleiro ao lado de Ricardo. O estojo continha dois Cohibas.

– Não tinhas mais em que gastar o teu dinheiro? – ralhou Ricardo.

Mariana riu-se, foi ao armário das bebidas, tirou uma garrafa de whisky por abrir e mostrou o rótulo ao amante

Cigar? – disse ele. – Não conhecia essa marca.

– Na loja disseram-me que era muito bom. E que era o ideal para acompanhar um bom havano.

Ricardo riu-se e preparou-se para abrir a garrafa, mas a amante deteve-o:

– Não. Tu não fazes nada. Eu sirvo.

Obediente, Ricardo recostou-se no sofá e ficou a contemplar com um olhar de ternura a sua escrava que se esforçava, ajoelhada, por abrir a garrafa. Depois de o ter conseguido deitou no copo dois dedos de whisky, cortou as pontas a um dos charutos, meteu-o na boca e acendeu-o, rolando-o entre os dedos como tinha visto o dono fazer. Ricardo viu-a sugar as bochechas para dentro para puxar o fumo, exactamente como fazia qundo lhe chupava o sexo, e com um brilho nos olhos acariciou-lhe o cabelo.

Levadas a bom termo todas estas tarefas Mariana sentou-se no chão aos pés de Ricardo e começou a contar-lhe todos os pormenores da sua mais recente exposição. De vez em quando levantava-se, animada, e ia buscar um quadro que se tinha esquecido de lhe mostar antes, ou fotografias de outros quadros, que lhe ia dispondo sobre os joelhos para ele ver. Entusiasmada, explicava-lhe as novas técnicas que tinha aprendido desde a última visita: as tintas, os betumes, os vernizes, as areias coloridas, as espátulas, os pincéis, as folhas e as bagas recolhidas no bosque e coladas na tela.

Ao esmorecer da conversa Ricardo inclinou-se para a frente, segurou-lhe o queixo e beijou-a ternamente nos lábios.

– Agora vou-te possuir, minha escrava.

– Sim…

Mariana num instante se pôs nua, o vestido saía pela cabeça e ela não trazia mais nada sobre o corpo.

– Deita-te aqui no sofá – disse Ricardo. Quando a viu deitada ajoelhou-se sobre o tapete, debruçou-se sobre ela e começou a cobri-la de beijos, começando nos ombros, subindo ao pescoço, aos olhos, às orelhas e à comissura dos lábios, e descendo aos seios. Por longos minutos não fex mais nada além de lhe lamber e chupar os mamilos enquanto lhe insinuava a mão entre as coxas. Mariana começou logo a abrir um pouco as pernas, ou melhor, as pernas abriam-se-lhe por si próprias, sem que ela sequer o notasse. Sem pressa nenhuma Ricardo foi descendo com os lábios ao longo do corpo dela, às vezes voltando para cima em direcção aos seios e ao pescoço, mas indo sempre um pouco mais abaixo de cada vez que descia. Meteu-lhe a língua no umbigo, beijou-lhe os flancos do sovaco à anca, explorando-lhe com a língua os espaços entre as costelas, e ao lamber-lhe o monte de Vénus depilado sentenciou:

– Sim, estás mesmo macia, com a língua é que se nota…

… e depois, cruelmente, começou de novo a subir-lhe pelo corpo acima.

Se a boca que Mariana tinha entre as pernas tivesse voz, teria gritado de frustração. Mas não por muito tempo, porque de repente Ricardo afastou-lhe as coxas com as mãos e beijou-lhe o sexo como se lhe beijasse a boca, para logo moderar este ímpeto e começar a procurar-lhe com os lábios e a língua todas as dobras e minúsculas refegas. A língua procurava, dardejante, o botão do amor, para logo o abandonar e tentar insinuar-se no interior da vagina ou para lamber todo o comprimento da vulva.

Quando começou a chupar-lhe o clítoris mais vigorosamente, como se o quisesse sugar e engolir, ouviu-a dizer:

– Meu senhor… Posso-me vir?…

Ricardo nunca tinha imposto a Mariana que pedisse autorização para ter orgasmo e agora ela própria, sem que ele entendesse bem porquê, inaugurava esta regra.

– Não, minha escrava, não podes.

Mas continuou a beijá-la até já não poder distinguir se os sons que ela fazia eram de prazer ou de sofrimento. Por fim, cansado, parou, e começou a percorrer com os lábios e a língua o caminho oposto ao que tinha feito antes até lhe chegar de novo à boca, que beijou, enleando a língua na dela apaixonadamente. Só então se levantou, devagar, mantendo a boca unida á dela e esperando até ao último segundo para a largar.

– Espera um pouco – disse, e dirigiu-se para o quarto.

Saiu de lá pouco depois, competemente nu, e trazia na mão uma fita vermelha que Mariana reconheceu imediatamente: era a prenda que ela lhe tinha dado por ocasião dum encontro anterior, também em Brugges.

– Dá cá as mãos.

Mariana estendeu-lhe as mãos com os pulsos cruzados. Ricardo atou-as rapidamente com uma ponta da fita, mandou-a esperar, foi ao trolley buscar a máquina fotográfica e começou a ordenar-lhe que assumisse poses: de joelhos, posternada, exibindo as marcas e as equimoses da vergasta, de pé, com os braços erguidos, mostrando os pulsos amarrados… Mariana acedia a tudo, obediente, meiga, apaixonada. Ricardo apercebeu-se nela dum estado de espírito invulgar: um dengue, uma excitação, um roçar-se por ele como que por acaso, uma intensidade, uma atenção ardente ao momento vivido…

– Não me deixaste ter orgasmo… Meu amor…

Isto disse Mariana a certa altura, baixando os olhos, num momento em acabava de se ajoelhar e mostrava à objectiva os pulsos atados. E Ricardo sentia nela, por baixo da mansidão e da obediência, o fogo larvar dum desejo que se satisfazia na insatisfação.

Quando acabou de a fotografar, não a desamarrou: mandou-a deitar de costas no tapete e amarrou a outra ponta da fita de seda ao cano do aquecimento, no ponto em que este saía do chão. Estendido sobre ela sem lhe fazer peso, voltou a beijá-la e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos numa carícia firme como se faz aos animais.

– Meu senhor…

– Diz.

– Vais possuir-me?

– Vou, sim, minha escrava.

– Queria pedir-te…

Ricardo apertou-lhe o seio esquerdo e chupou-lhe o mamilo antes de a encorajar a continuar:

– Querias pedir-me…

– Queria pedir-te que fosses meigo. Estou tão dorida de ontem…

Ricardo deu uma risada:

– Vou ser meigo, sim. Até porque eu também estou dorido, tenho tudo em carne viva…

Mariana já tinha as pernas abertas: Ricardo penetrou-a numa carícia longa e, sem chegar a ir até ao fundo, começou a mover dentro dela a ponta do pénis, beijando-a ao mesmo tempo profusamente nos lábios e nos seios. Com as mãos amarradas, Mariana não o conseguia abraçar, por isso o envolvia com as coxas, acariciando-lhe com os calcanhares a barriga das pernas e a parte de trás dos joelhos.

– E desta vez posso vir-me, meu senhor?

– Não, minha escrava, não podes. Ocupa-te só do meu prazer.

No gemido que Mariana soltou misturava-se um imenso lamento com um prazer novo, um prazer que ela não conhecia. Começou a mover as ancas e a tentar controlar os músculos da vagina de maneira a apertar e a chupar o sexo do amante, a dar-lhe o parzer que ele lhe exigia e ao qual tinha obviamente todo o direito, a erguer os seios de encontro ao peito dele para o acariciar brandamente, até que o sentiu acelerar os movimentos e ejacular dentro dela com um gemido que parecia, também ele, um lamento.

Admirou-se por não sentir frustração nem ressentimento por não ter gozado, mas sim uma enorme vontade de continuar a servir. «Serei na verdade assim tão fêmea e tão escrava?», pensou; e quando o dono rolou de cima dela para o chão começou a chegar-se para ele, a acariciá-lo com as pernas e com os pés, já que tinha as mãos amarradas. Todo o corpo dela era movimento, e todos os seus movimentos iam no sentido de se chegar ao dono, de o acariciar, de lhe suplicar um toque ou uma palavra. Lembrou-se de ter dito uma vez a Ricardo que ele a tinha «desligado»; pois bem, agora estava «ligada», com toda a sua energia de fêmea apaixonada a fluir-lhe no corpo e todos os sistemas a funcionar em alerta máximo.

– Desamarra-me, meu senhor…

Assim que Ricardo a desamarrou Mariana começou a fazer-lhe festas e beijá-lo por todo o corpo

– Estou tão louca… Não me deixaste ter orgasmo, e estou tão louca…

– É, estou intrigado com uma coisa… Porque é que me pediste autorização? Eu por mim era capaz de nunca me ter lembrado de to proibir– disse Ricardo..

– Não sei o que é que me deu. Disseste-me muitas vezes que uma escrava não tem direito ao prazer, se calhar foi por isso.

– Disse, e tu concordaste. Mas fizeste bem em lembrar-me … De hoje em diante tens que pedir sempre autorização.

Mariana revirou os olhos e fez uma careta, logo desmentida pela grinalda de beijos com que cobriu o peito do amante:

– Oh, não, o que é que eu fui dizer! – exclamou, numa aflição fingida. – O que pode uma pobre escrava fazer para servir o seu senhor, se ele até até a proíbe de se vir?

– Uma pobre escrava, não sei, mas se esta rica escrava que aqui está está assim tão empenhada em servir o seu senhor, pode muito bem ir para a cozinha, por exemplo, e fazer o jantar para ele, que está cheio de fome…

Mariana, a rir-se, começou a bater com os seus pequenos punhos no peito de Ricardo

– Cafajeste… sem vergonha… Escravidão é escravidão, não é?!

– Pois é… – disse Ricardo.

E quando viu Mariana levantar-se quase de um salto, vestir o roupão, entregar-lhe o dele e dirigir-se à cozinha, acrescentou:

– E descalça, se fazes favor. Não quero cá essa história de tijoleira fria, como de manhã. Lugar de fêmea é descalça na cozinha.

Mariana deteve-se o tempo suficiente para lhe deitar a língua de fora, mas afastou com o pé as chinelas que estavam no chão à saída da sala.

De dentro da cozinha levantou a voz:

– Tenho aqui Quiche Lorraine, é só pôr no micro-ondas. Queres?

– Pode ser, gosto bem de quiche. E o vinho de ontem ainda deve estar bom, era uma pena deitar fora uma garrafa quase inteira.

Ao pôr a mesa, ao servir o jantar, durante a refeição, Mariana continuou a exibir o comportamento que tanto intrigava e encantava Ricardo. A todas as oportunidades havia um seio a roçar um braço, ou então apenas um sorriso, um suspiro, um baixar de olhos, um rubor…

– Anda cá, escrava.

– Para quê?

– Anda cá. Levanta a saia.

Quando Mariana chegou junto dele Ricardo introduziu-lhe a mão entre as coxas.

– Estás toda molhada…

– Pois estou… Não me deixaste vir, patife…

– Não estás bem?

– Estou bem, estás farto de saber que estou mesmo muito bem… Não sei como é que isto me pode dar tanto prazer… Mas se daqui a pouco eu entrar em combustão espontânea, já sabes porque foi. Nunca te devia ter pedido autorização.

– É… Pela boca morre o peixe… Mas não te preocupes: amanhã não vai acontecer o mesmo porque vais ter castigo em vez de sexo.

– Está bem… Podes castigar-me, mas também quero sexo.

– Também, o quê?

– Eu sei, não tenho quereres. Vou dizer doutra maneira: também gostava que o meu senhor possuísse a sua escrava. Está bem assim?

– Melhor. Mas ao castigar-te também estou a possuir-te, não te esqueças. Em todo o caso, o castigo amanhã é por ser o nosso último dia. Quero deixar-te marcas que durem até ao próximo encontro.

– Sim, meu querido, também quero ficar marcada. Mas para as marcas nunca desaparecerem o melhor era eu fazer uma tatuagem…

– E hás-de fazê-la, com as minhas iniciais.

Antes de responder, Mariana bebeu um gole de vinho.

– Hmmm, isso deixa-me louca… Louca para ser possuída outra vez pelo meu senhor…

– Primeiro vamos acabar de jantar. E desconfio que mesmo depois disso vais ter um bocado de trabalho para me provocar outra erecção.

O jantar foi rápido, e Mariana arrumou a cozinha num instante. Quando regressou à sala encontrou Ricardo sentado no sofá. Sem hesitação nem preliminares ajoelhou-se no tapete à frente dele, afastou-lhe para os lados as abas do robe e tomou-lhe o sexo na boca. Assim que sentiu bem rijo, atirou o roupão para cima do sofá deitou-se de costas no tapete:

– Anda…

Entre o momento em que saiu da boca da amante e o momento em que se colocou entre as coxas dela em posição de a penetrar, Ricardo quase perdeu a erecção: Mariana teve que o chupar de novo para que ele finalmente lhe penetrasse a vagina – com o pénis um pouco flácido, mas que uma vez dentro dela recuperou a rigidez dos embates anteriores. Estavam ambos bastante doridos, mas mesmo assim Ricardo possuiu Mariana sem hesitação ou demora, indo e vindo nela até que a viu ficar vermelha: primeiro a cara e depois o pescoço, o peito e os seios. Viu-a abrir a boca como se fosse gritar, ouviu-lhe a rápida e forte inalação de ar, cavalgou-lhe o frenesim urgente dos quadris e finalmente assistiu, empolgado, ao gozo da sua escrava: um orgasmo sumptuoso, uma convulsão sísmica que lhe soltou todas as energias acumuladas no corpo e na alma desde que ele a tinha mandado deitar no sofá duas horas antes.

O dia seguinte amanheceu com bom tempo. Algumas nuvens, poucas, juntavam-se ocasionalmente e faziam chover umas raras gotas de água. Ricardo e Mariana foram passear para junto do canal e dos moinhos de vento: ele de calças castanhas com vinco, pullover cor de mel, casaco de cabedal castanho escuro e chapéu de feltro, ela de saia comprida, blusa de seda e casaquinho vermelho. Almoçaram num pavilhão com vista para o canal, conversando sobre o fim de semana que projectavam passar em Paris quando o tempo estivesse um pouco mais quente.

Lá fora a relva estava húmida e muito verde.

– Apetecia-me descalçar-me e correr nesta relva – disse Mariana.

– E a mim apetecia-me mandar-te descalçar.

– Mas não posso, estou de collants e não posso tirá-los diante de toda a gente.

– De collants?! Na presença do teu dono?! Vais mas é já ao quarto de banho para os tirar, e de castigo não voltas a calçar-te hoje.

Mariana ainda alegou o frio, o incómodo, as pessoas à volta; mas acabou por obedecer, um pouco embaraçada no princípio, mas pouco tempo depois corria o jardim descalça com a singeleza impudente duma criança à solta. Ricardo não voltou a permitir-lhe que se calçasse nem no jardim, nem no caminho de casa. E se no jardim o espectáculo duma senhora bem vestida mas de pés nus pareceu banal a quem o viu, o mesmo não se passou percurso que mais tarde fizeram de braço dado nas ruas cheias de gente. Mas o garbo altivo de Ricardo desarmava os olhares e, comunicando-se a Mariana, convertia-lhe o pejo em euforia.

Jantaram pelo caminho. Quando entrou em casa Mariana levava os pés gelados. Mas antes de ir tomar um duche quente ainda se apresentou diante de Ricardo com uma bacia de água quente para lhe lavar os pés cansados, lhe calçar os chinelos, lhe servir uma bebida e lhe acender um charuto.

Depois de tomar duche não se vestiu, envolveu-se em véus transparentes e dançou para ele, tirando-os um a um.

Ricardo assistia beberricando o seu whisky e puxando uma fumaça ocasional. Só os olhos a rir denotavam a atenção com que seguia todos os movimentos da sua amada.

– Vem cá.

– Sim, mas ainda me deves um castigo – disse Mariana.

E Ricardo viu que sem ele notar ela tinha ido ao quarto buscar a vergasta vermelha e lha tinha posto ao alcance da mão.

(Publicado no Blogger a 20/09/06)

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I’ve been your slave baby
Ever since I been your babe.
I’ve been your slave
Ever since I been your babe,
But before I be your doll
I’ll see you in your grave
.

Billie Holiday

salome_by_franz_von_stuck_19062“Quero que escolhas um nome,” disse Miguel. “Será o teu nome de escrava.”

Marta tardou em responder. A conversa de hoje continuava outras anteriores; a fantasia que convocava tinham-na já várias vezes vivido, e tinham achado nela um prazer intenso, a que só uns laivos de constrangimento davam um tempero acre; mas para além do prazer e do constrangimento visitava-os um outro sentimento mais misterioso e raro, vizinho das lágrimas e do riso, a que que não sabiam dar outro nome que não fosse alegria.

Hoje tinham passado a tarde no jardim da Sereia. Quando vinham a Coimbra era sempre com encontro marcado, quando as profissões e os deveres familiares lho permitiam, abandonando ela a sua galeria de arte em Lisboa, e saindo ele de Braga, da Universidade onde ensinava. Os arruamentos de saibro do jardim pareciam-lhes agora mais estreitos do que no seu tempo de estudantes, as árvores mais desgrenhadas, com ramos esgalhados e folhas carcomidas. Estavam os dois abraçados num banco, em frente ao lago central do jardim. Noutros bancos enlaçavam-se jovens pares de namorados, da idade que tinha sido a deles quando aqui vinham quase diariamente.

“Às vezes dou a mim mesma o nome de Mariana,” disse Marta por fim. “Numas coisas que escrevo. Coisas minhas. Mas também pode servir para – ”

Miguel apertou-lhe a mão com mais força.

“Mariana. Fica-te bem.” O nome dizia bem com os olhos dela, com os modos dela. De agora em diante Miguel chamar-lhe-ia Mariana quando quisesse que lhe respondesse a escrava.

Marta escondeu o rosto no ombro do amante. “Sim, meu amor” murmurou; e ficou à espera que ele a chamasse desde já pelo seu novo nome, sabendo que qualquer resposta que desse a essa chamada seria já como que uma genuflexão. Mas nas horas que se seguiram ele tratou-a sempre por Marta, ou então pela infinidade de nomes carinhosos que só não são ridículos no léxico dos namorados; e ela acreditou que a conversa no jardim tinha sido apenas mais uma de muitas, uma excitante fantasia de palavras em que ele lhe falava de a amarrar e possuir, ou de lhe ordenar gestos impensáveis, nudezes impossíveis: como caminhar pelas ruas com um vestido transparente, sem soutien nem calcinhas, ou então descalça como há vinte anos as ciganas.

E depois, no restaurante em Coimbra, e na Figueira da Foz, no hotel, foi sempre pelo nome dela que continuou a tratá-la, e também na cama, quando fizeram amor. Foi só a meio da noite que ele, sentindo-a acordada a seu lado, lhe pôs num seio uma mão proprietária e a chamou pelo seu novo nome: “Vem cá, Mariana.”

“Sim, meu amor,” respondeu ela, com o coração a bater-lhe mais depressa. “Estou aqui.” O abraço com que se enlaçaram foi igual aos outros, talvez mais firmes as mãos de Miguel no corpo dela, ou mais meiga – mas não o era sempre? – a boca dela na dele. Quando, ao fim das primeiras carícias, serve-me, amor, beija-me, Mariana, ela se deitou ao comprido por cima dele, ele começou a roçar-se contra ele, nudez sobre nudez; e durante este tempo não parou de lhe falar nem de lhe exigir que falasse.

“Como te chamas?”

“Marta; a tua Marta.”

“Sim; a minha Marta; mas também a Mariana. Diz: sou a Mariana.”

“Sou a Mariana, meu amor.”

“E eu quem sou, Mariana?”

Marta, ou agora talvez Mariana, soltou um longo gemido. Era tão difícil falar, assim excitada, a excitação cortava-lhe a voz, e para mais ter que dizer aquelas palavras, palavras que se lhe enovelavam na garganta, refractárias.

“És o meu amante. O meu amor. O meu – o meu senhor.”

“E tu, o que és?”

“Ooooh, meu amor, meu querido. Sabes bem que sou tua, toda tua.”

“És minha o quê?”

“Oooh, meu amor. A tua escrava, meu querido. A tua escrava. Se tu assim o queres. Toda tua, meu amor.” E contra a macieza de Mariana a o corpo dele tinha a inamovível dureza da lei, como bastão ou ceptro ou espada simbólica.

“Ouve-me bem,” disse-lhe ele, numa voz entrecortada pela excitação e também por uma certa incredulidade perante o que estava ousando dizer. “A Marta é a minha amada; e a minha amante; e tu, Mariana –”

Mariana era talvez uma ficção, mas correspondia a alguma coisa que em Marta era real, e ela bem o sabia.

“Ou não sabes?” Perante a aquiescência muda de Marta, Miguel prosseguiu: “Tu, Mariana, és a minha serva, a minha escrava. Pertences-me completamente. Os meus direitos sobre ti são todos, os teus sobre mim nenhuns.”

Mariana podia pensar que tudo aquilo era um jogo, uma fantasia; e era-o talvez, de facto, no que dizia respeito a Marta. Mas Mariana era realmente propriedade de Miguel; não se tratava aqui dum papel representado para dar prazer quer a um, quer a outro.

Excitada como estava, Mariana mal estava em condições de ouvir o dono, e muito menos de lhe acompanhar o discurso; mas isto não a impediu de compreender – fosse com o cérebro ou com o coração, ou com o sangue que lhe afluía ao rosto e ao peito e ao ventre – a medida exacta do que se lhe exigia; e por isso o seu sim foi quase um soluço, e o beijo com que o acompanhou quase uma súplica.

E enquanto durou aquele abraço Mariana foi ouvindo e repetindo, sempre às portas de um orgasmo que durante todo o tempo lhe foi negado, as condições da sua escravidão: primeiro os seus direitos, que eram nenhuns, depois os seus deveres, que eram servir e obedecer. Obedecer absolutamente, tanto no que lhe desse prazer como no que lhe causasse sofrimento ou repugnância. O corpo de Mariana não lhe pertencia a ela, mas a ele, que tinha o direito de se servir dele quando e como quisesse; e não só pela vagina, mas também pela boca e pelo ânus. E ela repetia, desviando o olhar, como uma menina no colégio obrigada a pedir desculpa: o meu corpo é propriedade tua, podes possuir-me quando quiseres, pela vagina, pela boca, pelo ânus. São teus os meus seios, as minhas coxas, as minhas mãos, mas também a minha vontade; e a minha sensibilidade; e a minha inteligência. Tu és o meu dono, o meu senhor, o meu amo. Só a tua vontade conta, e o teu prazer. Tens todos os direitos sobre mim, e eu nenhum sobre ti. Só me compete obedecer-te, e servir-te, e não tenho nenhum direito. Nem ao prazer: uma escrava não tem direito ao prazer.

Acreditaria Marta completamente naquilo que estava a dizer? Certamente que não, como poderia? Mas Mariana sim; e Mariana era parte dela, inseparável, criada por ela, posta por ela ao serviço de Miguel; uma vez convocada à realidade da existência e da acção nunca regressaria, sem deixar traço da sua passagem, ao limbo ficcional que ocupara no mundo secreto de Marta.

Nos meses que se seguiram a esta jura Marta encontrou-se várias vezes com o amante: quase sempre na sua própria pessoa mas também por vezes na de Mariana. Depois houve um arrefecimento na relação entre os dois, um período de frustrações, desconsolos, desilusões e silêncios. Mariana, anunciou Marta uma vez, foi-se embora para não voltar. No mesmo encontro em que lhe fez este anúncio disse-lhe que tinha havia vários dias uma prenda para ele, mas que no estado em que estava a sua relação não fazia sentido dar-lha.

Foi por esta altura que decidiram os dois, por diferentes razões mas concertadamente, passar um ou dois anos fora de Portugal e das suas famílias. Marta foi para Brugges, trabalhar com uma amiga que tinha uma galeria de arte e estava disposta a ceder-lhe um pequeno apartamento com atelier; e Miguel para Heidelberg para concluir a sua tese de doutoramento.

O seu primeiro encontro depois disto foi em casa dela, em Brugges. Miguel ia dominado por um sentimento de contrição, porque o afastamento que tinha começado em Portugal devia-se em primeiro lugar a ele, e porque durante o primeiro mês em Heidelberg tinha mantido um silêncio vergonhoso, a ponto de lhe suscitar a ela um ultimato, ama-me ou deixa-me. Mas no abraço com que Marta o recebeu viu-se que não queria desculpas nem explicações; e também ele não gostaria de lhas dar, porque ou os actos subsequentes as confirmariam, e não seriam necessárias, ou as contradiriam, e seriam mentirosas.

Mentirosos não foram os corpos, certamente; porque nessa noite, quando Miguel a ia penetrar, ouviu-a dizer claramente, como raras vezes antes: “Sou tua, possui-me.” E na explosão do orgasmo foi como se todas as penas passadas e todas as palavras que tinham ficado por dizer se libertassem também; de modo que quando olharam um para o outro no seu habitual e sempre novo maravilhamento souberam ambos que já não havia, de parte a parte, explicações a dar nem desculpas a pedir, e que todas as dívidas estavam saldadas. No dia seguinte passearam pela cidade ao longo dos canais e na praça do Mercado, e visitaram, num recanto discreto de um jardim, uma estátua de rapariga, personagem, vá lá saber-se até que ponto ficcional, duma canção de Jacques Brel.

(E nós, de quantas outras ficções, além bem entendido da nossa, somos personagens? Porque se a ficção se faz bronze, como na estátua de Marieke, não é menos certo que se faz carne; a tal ponto que o nosso trabalho maior de cada hora – e nenhum humano escapa a esta lei – consiste nesta encarnação.)

Quanto a Miguel e a Marta: tão enlaçados quanto lho permitiam as várias camadas de roupa – e há nestes abraços de Inverno, apesar da inacessibilidade dos corpos, um não sei quê de aconchego que falta aos de Verão – respiraram a humidade do ar, a iminência da chuva, e curvaram a cabeça sob o tecto de nuvens, tão baixo e tão pesado. A água que saturava o ar, que pendia sobre eles, que lhes corria sob os pés, lavava tudo: tudo à volta deles era lavado e fresco, sem uma sugestão de poeira ou fermentação de matéria viva. Je t’aimais tant, diriam talvez um dia Miguel e Marta um ao outro, ou um do outro, entre les tours de Brugges et Ghent. Mas ao caminhar sobre a relva molhada neste jardim da Flandres o que lhes vinha à recordação eram os seus passeios em Portugal, à beira-mar, a secura ríspida das urzes, os arbustos que os protegiam dos olhares indiscretos; e do amor que faziam ao ar livre sob os pinheiros mansos e as azinheiras; e fez-lhes falta o ar mediterrânico que fora a pátria primeira dos seus encontros, com os seus perfumes acres, com a sua poeira estival que lhes sujava os pés e secava as gargantas.

Numa dessas vezes, numa mata cerrada que dava, como uma imensa varanda, sobre a Costa da Caparica (estavam os dois nus sobre uma manta, e Marta, sentada na mesma posição que o modelo de Déjeuner sur l’Herbe, dispunha sobre uma toalha o piquenique que tinha preparado), deram por alguém que se movimentava por entre os arbustos. Um voyeur, também aqui, apesar de não terem visto casas nas proximidades nem outros automóveis além daquele em que tinham vindo. Era um homem atarracado, de meia idade, talvez mais novo do que eles, vestido com umas calças escuras de fazenda e uma camisa branca, e rondava-os de gatas, como um soldado enviado a espiar o inimigo. Para o enxotar bastou um gesto e um riso, e nem foi preciso vestirem-se; mas pouco depois foram-se embora, perdida a vontade de fazer amor.

E agora aqui, em Brugges, nesta Europa húmida e fria que lhes dava, sem sequer parecer aperceber-se da sua existência, toda a privacidade de que necessitavam, riam-se destas aventuras. E recordavam os vestidos estivais de Mariana, compridos e rodados, que Marta tinha trazido na bagagem para vestir quando também aqui fosse Verão.

“Lembras-te daquele meu cinzento, quase branco? Era esse que eu trazia quando me obrigaste a andar descalça na rua pela primeira vez. E do outro, cor de açafrão, que levei a Sesimbra? E da saia azul aos godés?”

Para sairem da chuva e do frio entraram num café, tão aquecido que logo nos primeiros segundos tiveram que despir os agasalhos. As janelas eram vitrais coloridos; tudo, desde os rostos vermelhos dos clientes aos braços roliços das empregadas, sugeria aconchego; e por todo o lado se espalhava o cheiro mole da cerveja.

Mais tarde, no apartamento, sentados os dois no sofá, sentiram como estavam longe de casa. Durante algum tempo não falaram; e os próprios gestos de ternura que trocavam pareciam afectados pelo que Miguel tinha a dizer. Por fim, quando à força de abraços e beijos se dissipou este estranho constrangimento, as palavras surgiram:

“Marta,” disse Miguel, apertando-a nos braços. “Hoje vou tomar posse de ti como minha escrava. Aqui e agora.” E tomava posse dela não só para aquele dia, mas para sempre, e de verdade. Dizendo isto o amante olhava-a nos olhos, e a voz não lhe tremia. “Põe-te nua para me ouvires; e ajoelha-te.”

Marta tirou o vestido, as meias, e a roupa interior que tinha posto para o receber. Era um conjunto em rendas e cetim, dum cinzento pálido quebrado apenas por uma discreta bordadura de florzinhas cor-de-rosa. Depois ajoelhou-se-lhe aos pés, toda nua. Nada disto, para dizer a verdade, a perturbava sobremaneira. Mas as palavras do amante, ditas assim – num momento de ternura e aconchego em que nenhum dos dois tinha, para justificar a sua fantasia de domínio e submissão, a desculpa duma avassaladora excitação sexual – tinham um significado especial, que ela bem entendeu. Pela primeira vez desde que se assumia como seu senhor, Miguel dirigira-se explicitamente a ela, Marta, e não a Mariana. Pois bem, se o que ele desejava era desfazer ambiguidades, também ela o queria, mesmo que para tal deixasse de haver solução de continuidade na sua servidão. Abraçada a ele numa aquiescência muda, beijando-o no peito, ouvia-lhe a cadência estranhamente formal das palavras. A voz adquiria agora ressonâncias de bronze, como se todos os sinos em todas as torres de Brugges tivessem sido convocados em seu reforço:

“São Meus os teus cabelos negros, para que Me deleite neles quando quiser. São Meus os teus olhos, para que Me estejam sempre atentos. São Minhas as tuas lágrimas. É Minha a tua boca, para que Me sorria e Me beije, e para que se abra ao Meu corpo. É Meu o teu riso, como é teu o Meu; e o teu amor, e o Meu amor, também. São Minhas as tuas mãos, para que Me dispam e vistam, para que Me lavem, Me acariciem, Me preparem a comida e Ma ponham na mesa. São Meus os teus seios, para que todos os dias a sua beleza se descubra aos Meus olhos; e para que na sua brandura repouse o Meu cansaço. São Meus os teus braços, mais do que tudo o resto, porque enquanto fores Minha nunca Me hão-de mentir. São Meus os teus quadris, que tão bem sabem dançar para Mim. É Meu o teu sexo, e o teu botão de amor, para que Eu o beije e dedilhe, e todas as aberturas do teu corpo, para que Eu as penetre quando quiser e como quiser. São Minhas as tuas nádegas, Minhas para acariciar ou castigar. São Meus os teus pés, para correres para Mim quando Eu te chamar, e para que descalços afirmem a tua escravidão.”

Marta ouvia tudo isto e consentia em tudo, apesar dos assomos de inquietação e revolta que lhe surgiam do peito; mas não conseguiu encontrar em si própria as palavras de aceitação que ele agora lhe exigia, palavras reflexas das dele em que se reconhecesse escrava e se entregasse como tal. Quando o dono, perante o seu silêncio obstinado, lhe tocou experimentalmente o sexo e o encontrou molhado, ela sentiu mais alívio do que humilhação pela displicência do gesto, como se o seu próprio corpo a dispensasse de falar.

Não tinha tido qualquer relutância ou hesitação em se despir quando ele lho ordenou, nem em se ajoelhar diante dele, nem em beijar-lhe longamente os pés; só as palavras lhe custavam. Quando ele insistiu em que confirmasse por palavras o discurso do corpo só foi capaz de dizer:

“Para quê, meu amor? Se eu já te disse que sim?”

A meio da noite Miguel despertou-a com uma carícia: “Acorda, meu amor. Vira-te para mim.” Obediente e amorosa, abriu-se para que ele a penetrasse; mas não sem que ao mesmo tempo lhe perguntasse, coquette:

“E se agora a tua escrava não quiser?”

“Mas se tu não tens querer,” ousou ele responder, fazendo-a arquejar de surpresa e excitação. E antes que ela pudesse retorquir já a tinha penetrado com um único, fácil movimento; mas depois, em vez de começar a mover-se no ancestral vai-vém dos amantes, ficou imóvel dentro dela, trespassando-a com o sexo rígido, sujeitando-lhe os pulsos, interrogando-a:

“Quem sou eu, Marta?”

“O meu senhor.”

“Quem?”

“O meu senhor. O meu dono.”

“E tu, quem és?”

“A tua escrava.”

“Mais alto.”

“A tua escrava.”

“Mais alto: quem és tu?”

“A tua escrava! A tua escrava! A tua escrava!”

Miguel bem ouviu o que havia de revolta neste grito. Mas momentos depois, quando Marta repetiu num murmúrio as mesmas palavras, a revolta tinha refluído como uma maré, e em seu lugar ouvia-se o que podia ser ternura, ou talvez um outro sentimento que ele não soube definir: “A tua escrava. Só a tua escrava, meu amor.”

“E eu o teu senhor.” Com estas palavras Miguel recomeçou a mover-se dentro dela e a encorajá-la: “Anda. Goza. Goza muito, meu amor. Sente o meu corpo no teu, sente tudo; o teu prazer, olha, é uma maré que sobe; é o mar que te enche, meu amor, que te avassala, é uma onda, assim, meu amor querido, uma onda quente que te inunda, vem-te agora, agora. Dá-me o teu prazer, não mo recuses; não me recuses nada.”

E enquanto a ela o rosto e o peito se lhe coloriam de vermelho, e a respiração lhe vinha em arquejos ansiosos e um longo gemido se lhe escapava da garganta, também a ele lhe veio um orgasmo, mas um orgasmo sem ejaculação, intenso, perfeito, insuportável. Miguel gritou e riu de prazer e frustração, e sentiu naquele momento que morria, que nunca poderia sobreviver a que aquele tanto fosse tão pouco. Mas não saiu de dentro da amante: pôs-se a acariciá-la e a beijá-la, exausto mas ainda erecto, insatisfeito, movendo-se ainda dentro dela em suaves movimentos que a espantaram, como podia ele continuar a possuí-la sem interrupção, depois de ter tido um orgasmo tão forte e tão bonito. Mas sim, era verdade, os movimentos do amante começavam de novo a ganhar em amplidão e vigor, e ela, sim, meu amor, possui-me, agora só para ti, só para o teu prazer. E juntava as pernas, apertava-o, movia-se debaixo dele numa dança do ventre sensual. Tudo isto, porém, a excitava a ela tanto como a ele, e quando ele finalmente ejaculou numa torrente de riso e de triunfo também ela explodiu num segundo orgasmo.

“Tenho um pedido a fazer-te,” disse Miguel a Marta por fim, antes de adormecerem. “Não é uma ordem, é um pedido.”

“Diz, meu querido.”

“É que nunca te arrependas de ser minha escrava. E se um dia deixares de o ser nunca te arrependas de o ter sido.”

“Oh, meu amor. Não, nunca me vou arrepender.” Se é que se podia dizer nunca. Marta não era nada que não tivesse escolhido ser, e nunca aceitara nada que não fosse de olhos abertos. E não sentia nada em relação a isto a não ser orgulho. “Posso ter algumas inibições com certas palavras; mais do que com os actos, como sabes; mas não, não me arrependo de nada. E tu?”

“Não, não me arrependo. Mas às vezes também fico inibido.”

Convencida ou não, Marta não pôde deixar de lhe dar um último abraço: “Boa noite, meu querido. Meu senhor. Dorme bem.”

No dia seguinte, quando se despediram na estação, entregou-lhe um pequeno embrulho. Era a prenda que tinha para ele da outra vez: agora já lha podia dar. Mas só queria que ele a abrisse quando chegares a casa. Durante toda a viagem Miguel procurou dominar a curiosidade. Que prenda seria aquela, tão difícil de dar que tivera de aguardar o momento perfeito? Mas há ocasiões, pensou, em que um senhor que se respeite não pode deixar de obedecer à sua escrava.

Em casa abriu a prenda: era uma fita de seda vermelha, igual a uma que se descrevia numa das histórias que costumava contar à amante: com uma fita assim atara uma das suas personagens os pulsos da amante antes de a possuir sobre o tampo de uma mesa.

Não se pode dizer que Marta vivesse a sua escravidão com a mesma serenidade com que Mariana a tinha vivido. É certo que uma vez, perante uma vacilação do amante, repetiu-lhe que tudo o que tinha aceite, tinha aceite de livre vontade e de olhos abertos. E num outro encontro, em Heidelberg, teve a iniciativa de lhe dizer que ser escrava dele era um privilégio. Mas mais tarde, num telefonema, disse-lhe com alguma condescendência na voz que era tudo um jogo, uma fantasia – o que, sendo verdade, falseava tudo. “Se eu sou tua, tu também és meu.” E numa irada missiva, depois de um encontro que por culpa dele correu mal: “Amo-te, mas o meu amor por ti não me cega nem me faz submissa.”

Um amor lúcido, uma submissão voluntária: eis o que Miguel continuava a exigir de Marta. Também ele era dela, também ele lhe tinha feito presente de si próprio, e alegremente; por isso eram um do outro; nisso tinha ela razão; mas ela que não se iludisse: dos dois só ele era senhor e só ela era escrava. Isto mesmo lho disse numa carta, que ela guardou ou destruiu mas nunca mais mencionou. E disse-lhe também que a única liberdade que lhe consentia estava em deixar de o amar. Mais tarde, em Brugges, lembrou-lhe estas cláusulas, e também que já uma vez, naquele mesmo apartamento, tinha tomado posse dela: “Consentes que renove agora essa posse?”

“Sim,” disse Marta.

“Então ouve-me bem: disseste e escreveste várias vezes que a tua escravidão era um jogo. É verdade: não tenho, nem quero ter, qualquer meio de ta impor. Mas não é uma brincadeira, nem algo que dependa das tuas decisões.”

“Eu sei.”

“E disseste que era uma fantasia, uma ficção. Também é verdade. Mas não é uma mentira. É a nossa ficção, e exprime a nossa verdade.”

“Eu sei, meu amor.”

“Agora põe-te nua.”

Quase nua já ela estava, apenas um robe de cetim por cima da pele. Sem qualquer hesitação obedeceu ao amante, que não parou de a acariciar. Depois, sem que ele lho tivesse ordenado, ajoelhou-se-lhe aos pés e beijou-lhos: carinhosamente, prolongadamente, como lhe tinha dito dias antes, pelo telefone, que tinha vontade de os beijar. Mas quando ele lhe pediu de novo que se lhe entregasse pelas suas próprias palavras, voltou a recusar: “Já me entreguei, estou aqui, de joelhos.”

E, inclinando-se, recomeçou a beijar-lhe os pés. A pouco e pouco foi-lhe subindo pelas pernas acima, primeiro os tornozelos, depois as barrigas das pernas e os joelhos. Miguel tinha umas pernas robustas e hirsutas; e Marta, cuidadosa e lenta, parecia empenhada em que cada centímetro quadrado de pele recebesse o seu quinhão de beijos. Só quando chegou aos joelhos é que começou a apressar-se: a meia dúzia de beijos que lhe deu no interior das coxas foram displicentes em comparação com os outros, como se estivesse agora impaciente por chegar ao fim deste percurso.

E com efeito: Miguel recordava-se de poucas vezes em que Marta lhe tivesse dado, de tão bom grado como hoje, o mais íntimo dos beijos; e com uma vontade tão evidente de o levar ao clímax. Mas deu-se conta apesar dos esforços da amante não ia lá chegar. A vibrante erecção com que tinha começado começava já a esmorecer; e antes que a perdesse deitou-se por cima dela e procurou-lhe a outra boca do corpo.

“Mostra-me o teu rosto,” pediu, numa voz velada pela excitação; e Marta, que lhe beijava o peito, interrompeu a carícia para o olhar nos olhos. Perdido nos olhos da amante, Miguel deu graças a Deus por ter feito do Homem o único animal que consegue copular cara a cara. E no mesmo ritmo com que a penetrava começou a recitar, rouco e arquejante, uma ladaínha:

“Se o meu amor fosse o Sol havia de te escurecer o corpo todo sem nunca te queimar; se fosse o vento havia de dançar à tua volta com as folhas das árvores, sem te tocar. Se fosse …”

Marta largou um gemido que parecia de dor.

“ Se fosse um rio,” continuou Miguel. “Havia de transbordar das margens, e crescer até te beijar os pés. Se fosse a chuva …”

“Sim, meu amor, diz: se fosse a chuva …”

“Se o meu amor por ti fosse a chuva, havia de te vir cantar nas vidraças. A chamar-te para vires dançar nua, na varanda.”

O gemido de Marta era agora um som ininterrupto e os dedos cravavam-se-lhe como garras nas costas do amante, que continuava a falar com voz rouca:

“E havia de te lavar o corpo e os cabelos; e a lua havia de se reflectir na tua pele molhada; e a cidade havia de ficar iluminada por dois luares: o da lua, e o do teu corpo.

“Sim, meu amor, sim. Diz-me. Diz-me tudo. Quero dançar nua na varanda. Dançar para ti. Nua. Na varanda.”

“Ahhh! … Se o meu amor fosse o mar … ah, se fosse o mar! Havia de te envolver nas ondas até tu perderes o pé; e depois havia de te embalar como a um bebé, e depositar-te na areia, salva, com um beijo. E se fosse o cume duma montanha, um pico coberto de neve, havia de capturar o último raio de sol e reflecti-lo nas tuas janelas.”

“Ah! Que bom, meu amor!”

“E se o meu amor por ti fosse um cabritinho, havia de te seguir mansamente, ao sacrifício, para que te alimentasses dele.”

“E se fosse um tigre?”

“Se fosse um tigre! Se fosse um tigre, ah! Aí havia de te despedaçar a carne e os ossos … comer-te … e beber-te … e tu havias de lhe circular nas veias … nas minhas veias de fera … alimentar-me os músculos … os olhos … o cérebro …”

“Sim, meu amor. Meu amor, meu tigre, meu leão. Sou a tua presa, consome-me; consome-me toda, meu querido.”

Miguel já não conseguia falar. Todas as suas forças, todas as sensações que era capaz de experimentar estavam agora dedicadas a um só fim, a uma só urgência, ao impulso irresitível que o obrigava a correr à desfilada para dentro do corpo de Marta. Viu como a amante enrubescia, ouviu-lhe os arquejos desesperados, os ais aflitivos, os esfaimados sins do orgasmo; e por fim também ele soltou a voz, o riso e o sémen numa só libertação, finalmente, finalmente. Depois deixou-se ficar dentro dela, como era seu hábito, beijando-lhe a boca, os olhos e a face, até que da lenta deflação que ia seguir-se resultasse uma suave retirada; e entretanto continuava a mover-se dentro dela num vai-vem quase imperceptível, um gentil arremedo das vigorosas estocadas com que momentos antes a tinha possuído. Durante longos minutos nenhum dos dois falou, contentando-se com trocar beijos e sorrisos; mas por fim, quando já Miguel tinha rolado para cima dos lençóis, e depois de encontrarem uma posição confortável – com a cabeça dela no peito dele – começaram de novo a conversar.

“Sabes, meu querido?” disse Marta. “De que é que eu tive vontade? Quando estavas quase a vir-te tive vontade de te pedir que o fizesses na minha boca. Mas depois inibi-me… Porque é que me inibi?”

“Hmmmm … não sei … por pudor, talvez; por esse teu pudor lindo. Como tudo em ti é lindo.” Mas também era lindo o impudor daquela confissão. Para Miguel a confissão equivalia quase ao acto; e sentia-se feliz por ser cada vez mais livre de se servir da amante como entendesse, e com o seu pleno aval e acordo. Mas como podia ele, como pode qualquer pessoa ser digna de tamanha confiança? “Meu amor, minha escrava,” disse para si mesmo; e abraçou-se a ela com força.

Pela noite fora ainda fizeram amor mais uma vez; entretanto acariciaram-se, beijaram-se, foram à cozinha e ao quarto de banho, beberam água e sumos de fruta; e conversaram sobre todos os assuntos do mundo. Lá para o fim da pausa, no momento em que os corpos lhes recomeçavam a despertar, Miguel ainda disse a Marta que ainda tinha, em Heidelberg, a vergasta que ela lhe tinha oferecido, e que um dia havia de a trazer. Não porque tivesse qualquer prazer em causar-lhe dor – mas porque, tendo sobre ela todos os direitos, tinha também o de a castigar fisicamente; e um direito como este só existe se for realmente exercido. Marta, abraçada a ele, ouvia-o; e sem dizer nada apertou-o ainda mais nos braços, como se com esse abraço quisesse proteger-se, ou protegê-lo.

Quando se levantaram, ia alta a manhã, Marta vestiu o robe e num movimento quase instintivo procurou os chinelos que tinha deixado aos pés da cama. Mas Miguel fez-lhe sinal que não. Não era a primeira vez que ele a proibia de se calçar; mas pela primeira vez desde a sua chegada a Brugges obedeceu-lhe sem relutância. Não se calçou nem mesmo para lhe preparar e servir o pequeno almoço, apesar dos ladrilhos frios que revestiam o chão da cozinha. Depois tomou banho e vestiu-se: blusa branca de seda; saia preta, rodada, de algodão indiano, suficientemente comprida para lhe cobrir os pés nus; arrecadas de ouro nas orelhas. Só pôs meias e sapatos quando chegou o momento de o levar ao comboio.

No cais, ao dizer-lhe adeus, Miguel chamou-lhe “minha escrava de amor”; e a ela, a quem a palavra escrava nunca tinha deixado de doer um pouco, desta vez não lhe doeu. “Adeus, meu senhor,” respondeu sorrindo. E assim que o viu entrar na carruagem virou as costas e afastou-se, para não prolongar a despedida.

(Publicado a 18/01/06)

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Me perdoe
Se o quadradismo de meus versos
Vai de encontro aos intelectos
Que não usam coração
Como expressão
.

Vinícius de Moraes

kn-11-lA verdadeira história de Mariana e Miguel só começou vinte anos depois de Marta e ele se terem conhecido em Coimbra, onde frequentavam o mesmo curso na Universidade.

Nesse tempo tanto um como outro tinham outros amores. Ao de Marta tinham-lhe os pais, professores de Grego no liceu, posto o nome de Ulisses. Era um jovem atlético, musculoso, com lábios sensuais e longas pestanas, que impunha a todos os lugares em que se encontrasse uma presença carnal e morna. A pele era macia e acetinada, e tinha uma cor de pão ligeiramente torrado; e numa época em que quase todos os rapazes usavam barbas e bigodes, Ulisses apresentava-se perfeitamente escanhoado, a sombra azul da barba misturada com o corado saudável da face. Tinha sempre raparigas à sua volta; e a robustez física de que fazia alarde alargava-se – pelo menos a acreditar nas confidências que ele próprio fazia, indiscriminadamente, a amigos e amigas, – à firmeza e às dimensões do membro viril.

E contudo havia alguma coisa de ambíguo, de demasiado óbvio, na sua virilidade. Uma parte de Marta achava-o demasiadamente belo, demasiadamente sensual e seguro de si; e muitos anos mais tarde havia de dizer a Miguel, numa noite de insónia e reminiscência: “Sim, o Ulisses era bonito; mas olha que tu também eras; já nessa altura eras um bonito homem.”

Depois de Coimbra, Marta tinha mantido contacto com Ulisses durante o tempo suficiente para assistir à sua decadência física e moral; mas Miguel, que nunca mais o tinha visto, lembrava-se apenas do jovem que podia ter servido de modelo a Louis David. Marta achava isto um disparate; mas Miguel achava Ulisses parecido com o guerreiro nu, em primeiro plano no quadro, que segurava um dardo nas pontas dos dedos, delicadamente, como se o sangue e o suor da guerra, a paixão das mulheres, lhe fossem de todo alheias.

Ulisses era, além do mais, requintado; e era-o mais do que convém quando se tem vinte anos. Sabia escolher um vinho, um filme, uma mulher, e nunca lhe faltava a palavra certa para exprimir o seu desdém pelas imperfeições dos outros; fossem estas de inteligência, de maneiras, de gosto, ou – as mais imperdoáveis – de beleza física. As farpas que atirava tinham por alvo os ingénuos, os mal vestidos, os desajeitados, os feios; e lançava-as com a leveza de quem não dá importância às feridas que provoca, mas só à elegância do lançamento.

A relação de Marta com Ulisses não durou muito tempo, nem deixou nela marcas profundas. Marta nunca chegou a ter grandes ilusões acerca do namorado, e cedo se apercebeu dos seus defeitos maiores: vaidade, superficialidade, preguiça, hedonismo. Quanto a ela, só o seu sentido de humor e a sua ausência de vaidade lhe permitiram suportar por algum tempo a displicência com que ele a tratava. Falta de vaidade, porém, não implica falta de dignidade ou de amor-próprio, e o namoro acabou por se esgotar sem ruído e sem recriminações, por desinteresse recíproco.

Diferente era a relação de Miguel com a Lena: uma paixão escancarada pelas ruelas da Alta. Quem os conhecia conhecia-os juntos, a Lena e o Miguel. Lena – como de resto também Miguel – era uma estrela menor no pequeno firmamento da Faculdade: se não pela beleza, como Ulisses, pelo êxito académico e pela panache intelectual.

Nem Miguel nem Marta eram promíscuos por natureza, e não se sentiam especialmente atraídos pela ideia de trair os respectivos parceiros. Mas a época era avessa a compromissos sentimentais; e nos meios em que se moviam a liberdade de costumes era uma forma indispensável de afirmação política, e só o ciume era tabu. Miguel tinha com Lena longas conversas a este respeito, das quais concluíam sempre que nenhum dos dois tinha o direito de usufruir do outro em exclusivo. Quanto a Marta, não precisou de discutir o assunto com Ulisses: bastou-lhe assistir à sucessão de casos em que ele se foi envolvendo, quase semana a semana, enquanto mantinha a sua ligação com ela.

Enquanto Lena e Ulisses se espalhavam pelo mundo no exercício da sua liberdade, Marta e Miguel ficavam entregues a si mesmos, e cada vez mais um ao outro. Estudavam juntos, conversavam, passeavam, e um dia, inevitavelmente, naturalmente, sem se interrogarem demasiado sobre o sentimento que os unia, foram para a cama juntos. Depois fizeram-no outra vez, e outra; e apesar de os seus encontros nunca terem passado de esporádicos, foi nessa altura que começaram a conhecer-se e talvez a amar-se.

Entretanto terminaram os cursos. Começaram a trabalhar. Viajaram. Depois, cada um para seu lado, casaram; encontraram-se ainda algumas vezes, e acabaram por se perder de vista.

Quando voltaram a encontrar-se – para um almoço, uma reunião de curso convocada por um antigo condiscípulo – tinham já filhos crescidos; e no momento em que se viram todo o seu passado desabou de súbito sobre eles: tanto o que realmente fora como, e não com menos peso, o que poderia ter sido. É de espantar que ao sentarem-se à mesa lado a lado, e só poderia ter sido lado a lado, não tivesse saltado entre os dois uma chispa de paixão, ofuscando os restantes convivas. Nesse dia trocaram endereços.

Mais tarde encontraram-se, em Coimbra. Era no Verão. Marta levava um vestido decotado, todo às flores, e Miguel pensou que ela não trazia soutien. Almoçaram frugalmente num restaurante perto da Universidade e foram sentar-se no jardim da Sereia, num banco entre as árvores. Falaram do passado, da profissão, das famílias, dos filhos. Tocaram-se nas mãos, olharam-se nos olhos. Depois desceu sobre eles um silêncio: não de embaraço, mas de expectativa. O Verão ia muito seco, mas dentro do jardim as árvores estavam carregadas de sombras e a fonte barroca desfazia-se sob os líquenes que lhe comiam a pedra. O banco de madeira começava a decompor-se; e tudo ressumava a mesma humidade, discreta como um choro contido.

“Agora vou-te beijar,” disse Miguel, de súbito.

Assim que ele a abraçou, sem hesitação nem timidez, Marta reconheceu-lhe o toque das mãos; e era o mesmo de há vinte anos, leve como o de quem não põe limites à ternura, ou firme e assertivo, como quem naturalmente se assenhoreia do que é seu.

Abraçaram-se até doer, beijando-se no banco do jardim como um par de jovens namorados. Beijos na boca, prolongados ou breves, copiosos, nos olhos, na face, nos lábios: como se na eternidade deste momento nada mais fosse necessário para os contentar do que estes abraços e estes beijos. Beijos em grinalda, disseram, quando foi preciso dizer alguma coisa. Beijos em cascata. Depois foram passear para o Jardim Botânico, que não é longe, e que também é poiso de namorados; e aí, sentados noutro banco, falaram dos seus amores de juventude: de como já nessa altura a sua primeira fome era sempre de beijos, de como a sua intimidade era entremeada de ficções e fantasias.

“Uma das coisas que me lembro mais vezes são as histórias que tu me contavas,” disse Marta. “Tantas histórias. E eu fascinada a ouvir-te. Raparigas orientais, sultões e haréns, sedas, perfumes…”

“Histórias de senhores e escravas, se bem me lembro. E essas coisas, sabes, ainda hoje me dizem muito.

”Eu sei,” disse Marta, e abraçou-se de novo a ele. Tinham sido jovens naquele tempo, e agora que voltavam a encontrar-se o que tinham diante de si era o começo da velhice.

Depois, num impulso, quiseram ir à praia. Uma das propensões que ambos conservavam desde a juventude era a de adoradores do sol – capazes, já no princípio dos anos setenta, quando em Portugal ainda não se falava de nudismo como prática viável, de caminhar quilómetros ao longo da costa para exporem o corpo todo aos raios solares. Tanto um como o outro sentiam, sem que o soubessem exprimir ou disso fizessem grande caso, que qualquer vestuário que se use, por reduzido que seja, nos domínios do sol, do mar e do vento, profana sempre qualquer coisa de sagrado.

Meteram-se no carro e foram para a Figueira da Foz. Durante o trajecto Mariana não parou de tocar em Miguel, de lhe pegar na mão ou, se ele se soltava para conduzir, de lhe acariciar o joelho e a coxa. Atravessaram a cidade sem parar, subiram a serra da Boa-Viagem, e no caminho encontraram uma vereda que levava à praia. Só à chegada se deram conta de uma dificuldade: no porta-bagagens havia uma toalha esquecida, mas nem um nem outro tinham trazido fato de banho. Tiveram por isso que caminhar por muito tempo sobre a areia mole até encontrarem um recanto onde pudessem ficar à vontade. Marta estendeu-se ao sol, vestida apenas com as suas cuequinhas brancas de renda, e Miguel, que ao princípio conservara os shorts de algodão, acabou depois por tirá-los e ficar nu. Conversaram e beijaram-se, tomaram-se do sol, e acariciaram-se; mas não fizeram amor – a não ser que já esteja a fazer amor quem mata uma fome antiga de beijos e carícias. Não tinha sido ainda para isso que se tinham encontrado: não precisaram de palavras para o saber.

O caminho de regresso pela areia mole deixou-os exaustos. Quando estavam quase a chegar à vereda que os havia de levar ao carro Miguel deu por falta dos sapatos e teve de voltar atrás por eles. Não tinham levado nem uma garrafa de água: quando voltaram ao carro aquecido pelo sol estavam desidratados; e quando quiseram rir-se de si mesmos e da sua pequena aventura no deserto, a voz e o riso sairam-lhes da garganta como um murmúrio ressequido.

Num café à beira da estrada beberam água a grandes goles e os corpos, hidratados, puderam de novo produzir a necessária porção de suor e lágrimas e saliva. Agora podiam falar, e talvez ocasionalmente, conforme as palavras ditas, ver nos olhos um do outro um ressumar de lágrimas. Foi a partir desse momento que souberam com certeza absoluta que no encontro seguinte se iam tornar amantes.

E com efeito: mais tarde, quando a época balnear já tinha passado, passaram um fim de semana na praia. Não tiveram dificuldade em alugar um apartamento com vista para o mar. De manhã e ao fim da tarde já fazia frio, e a maior parte das lojas e cafés estavam fechados. As horas de sol passavam-nas na areia, na praia mais deserta que puderam encontrar. Desta vez tinham trazido fatos de banho mas o adiantado da época permitiu-lhes ficar nus, abrigados numa reentrância da areia. Nunca pararam de se beijar, como se com esta infinita sucessão de beijos pudessem recuperar o tempo que tinham passado longe um do outro. É por vezes assim que se mitiga o choro no peito antes que chegue aos olhos: talvez proviesse daí o sufoco, a vertigem, o esvaimento desses beijos.

Comeram iogurtes, fruta e sanduiches, que Marta preparou na altura. Numa garrafa traziam a água que lhes serviu para beber e para lavar as mãos. Enlaçaram-se em cima da toalha, ele por cima, penetrando-a com alguma dificuldade enquanto lhe beijava a boca; e entremearam as carícias com risos e gracejos, exorcisando o desconforto do lugar, a areia que se insinuava por todos o lados, a possibilidade de serem surpreendidos por algum passante inocente ou voyeur experimentado, e exibindo um ao outro, com alguma melancolia, as marcas que a idade já lhes ia deixando nos corpos.

No apartamento tomaram duche um de cada vez, pudicamente. Marta vestiu o seu roupão de cetim branco e calçou uns chinelos do mesmo tecido. Depois de comerem ficaram algum tempo à conversa diante do televisor. Deitaram-se como um casal com anos de convívio, ela em camisa de noite, os chinelos arrumados ao lado da cama, ele em pijama às riscas. O visível prazer que encontravam nesta pacatez partilhada despertou-lhes de novo o riso: os dois namorados aventurosos que se tinham enlaçado na praia deserta revelavam-se afinal dois velhos amantes ciosos do seu conforto. “Meu amor quarentão,” dizia Marta. “Meu amante serôdio.”

Depois abraçaram-se, colaram a boca um à do outro, e começaram mais uma das intermináveis séries de beijos de que nunca, mesmo anos depois, haviam de se cansar. Das bocas e das faces os beijos passaram aos corpos. A camisa de noite de Marta tinha botões à frente; Miguel abriu-os para lhe beijar os seios. Os mamilos eram de um cor-de-rosa escuro e tinham a falsa transparência das framboesas que ela lhe tinha servido de tarde, na praia. As mãos dele percorriam-lhe o corpo, devassando-lhe os seios, as coxas e as nádegas com a mesma liberdade insolente de havia vinte anos.

Quando a camisa de noite se tornou um empecilho Marta tirou-a por sobre a cabeça. Depois foi a vez das roupas dele; e quando se encontraram os dois despidos puxaram os lençóis de novo para cima, num estranho acesso de pudor; como se não tivessem estado também nus na praia, poucas horas antes, à vista de quem passasse. E também esta inconsistência lhes foi ocasião de riso: riam-se de si próprios, das suas fragilidades, das histórias absurdas que inventavam a propósito dos incidentes do dia.

Debaixo das roupas da cama Miguel inclinou-se sobre ela. Marta enterneceu-se quando ele a cobriu com o lençol, como que para a proteger da devassa dos seus próprios olhos. Sob a carícia dele sentiu que as coxas se lhe começavam a afastar como se tivessem vontade própria; mas durante muito tempo tudo o que ele fez foi beijá-la, de novo na boca e nos seios, mas agora também nas coxas e no ventre e por fim, deliciosamente, no sexo. Timidamente, aflorou-lhe ela também com os lábios a ponta do pénis, como lhe tinha feito apenas uma vez no tempo dos seus amores juvenis; mas Miguel, concentrado em beijá-la, mal pareceu aperceber-se de como ela lhe retribuía a carícia.

Marta começou a mover-lhe os lábios ao longo do sexo, a explorar-lhe a glande com a ponta da língua. À medida que a sua própria excitação progredia ia-se sentindo mais afoita, e queria ouvi-lo gemer como ela própria não se conseguia impedir de o fazer. Finalmente sentiu-o reagir: da cabeça que se lhe aninhava entre as coxas subiu-lhe até aos ouvidos um gemido que lhe pareceu meio de prazer, meio de protesto, e aquele beijo dele, tão sábio e tão firme, transformou-se numa carícia vaga e trôpega, como se a boca com que lhe explorava as dobras do sexo tivesse perdido o norte, embriagada, distraída.

Subitamente Miguel estendeu-se por cima dela e procurou-lhe a boca. Marta não tinha muita vontade de provar nos lábios do amante os sabores do seu próprio corpo; mas não teve tempo nem presença de espírito para recusar o beijo que ele lhe pedia, agora que lhe sentia o falo erecto e urgente às portas da vagina, penetrando-a de um movimento só. Miguel estava apoiado sobre os cotovelos e sorria-lhe; por vezes baixava a cabeça para lhe beijar a boca, ou desviava-lhe o cabelo dos olhos e da face, desejoso de a olhar. Quando quis penetrá-la mais fundo, passou-lhe os braços por detrás dos joelhos e ergueu-lhos quase até aos ombros, batendo o ventre contra o dela, trás, trás, trás, com um ruído seco de palmadas. E depois, quando precisou de descansar os braços e se lhe deitou todo estendido sobre o corpo suado, o ruído dos embates mudou, platch, platch, platch, como quem bate com a mão aberta num pano encharcado.

De repente Miguel saiu de dentro dela. “Anda tu por cima, agora.”

Por um minuto Marta gozou a sensação de ter o amante imobilizado; mas depois também teve prazer no movimento que ele começou a fazer para cima com os quadris, num vai-vem que era amplo e vigoroso e contudo não lhe retirava a ela o domínio dos seus próprios movimentos. Sentiu que ele a puxava para si, mas libertou-se-lhe do abraço e foi-se levantando a pouco e pouco até ficar sentada sobre ele.

O que Marta mais desejava neste momento era inclinar-se toda para trás, vergando para baixo o pénis do amante de modo a senti-lo duro e firme no ponto exacto em que o queria. Mas viu-lhe o trejeito de dor, ouviu-lhe o “não” murmurado e sentiu-lhe as mãos na cintura, puxando-a, impedindo-a de se inclinar mais para trás do que já estava; e para se compensar desta limitação redobrou a rapidez e o vigor com que o cavalgava, mais rápido, mais forte, mais fundo.

E Miguel, o que sentia ele? Antes de mais uma dor, o pénis erecto demais, repuxado para baixo como um ramo de árvore prestes a quebrar-se; mas sentia também, nos quadris, uma vontade urgente de soltar o corpo e o ventre até que se tornassem independentes da mente e da vontade; e finalmente, nas mais duras e mais fundas raízes do corpo, os chamamentos de um orgasmo que se lhe anunciava do lado de lá da dor e do desconforto. Da dor que o obstruía, que se lhe antepunha, que era preciso que terminasse. E o que ele ouvia eram os suspiros e os arquejos de Marta, e os seus próprios, os sons dos corpos batendo um no outro, as palavras desconexas, meu amor, minha querida, assim, assim é bom. E também os carros na rua, as ondas no mar, o vento nas janelas, e tudo isto se integrava, por uma alquimia inexplicável, nos sons do amor e do prazer.

Mas o que Miguel via, o que ele via nesta hora prodigiosa, era uma imagem de beleza absoluta: sentada sobre ele, cavalgando-o como uma amazona furiosa, a cintura fina, o ventre liso, os seios juvenis raiados de veias azuladas, Marta tinha inclinado para trás a cabeça. Os cabelos negros, desgrenhados como os de uma feiticeira, combinavam-se com o preto das sobrancelhas e das pestanas para lhe endurecer os traços do rosto, e era um rosto de índia, de matriarca; um totem, uma máscara africana. E via-lhe ainda, maravilhado, a boca meio aberta num ricto de sofrimento; os olhos fechados num esforço de concentração; os dois vincos fundos, como parêntesis, dos dois lados da boca; o rubor que lhe tingia as faces e o pescoço do mesmo cor-de-rosa escuro dos mamilos.

Do pescoço sobressaía-lhe o cordame reteso dos tendões e das veias. Miguel teve a certeza de que nunca em toda a história do mundo uma mulher tinha sido tão perfeitamente bela como Marta no momento do prazer; e viu na imagem que tinha diante dos olhos a justificação da sua própria existência neste momento. A dor que o desexcitava, a certeza de estar cada vez mais longe do orgasmo que o corpo há tão longos minutos lhe pedia, nada disso tinha importância comparado com a contemplação que desejaria eterna deste corpo, destes seios, deste rosto de deusa agonizante. Quis largar-lhe a cintura, deixá-la inclinar-se para trás à sua vontade; mas não conseguiu, não era possível, a dor ia acabar por torná-lo flácido, tão incapaz de ter prazer como de o dar à amante. Para se manter erecto abraçou-a; depois puxou-a para si até lhe sentir os seios sobre o peito e rolou para cima dela sem a largar.

Marta não teve orgasmo; teve-o Miguel, tanto mais intenso quanto mais difícil e mais dolorosamente perseguido. Os primeiros gemidos com que o prazer dele se anunciou pareceram de aflição aos ouvidos de Marta; mas o que se lhes seguiu foi um rugido, um grito exultante como ela nunca tinha ouvido a nenhum outro homem com quem tivesse feito amor; e no momento em que ele se lhe desfez em sémen dentro da vagina também a respiração se lhe desfez num riso solto, meu amor meu amor minha querida, uma girândola festiva de beijos e palavras e suspiros: e Marta viu naquele orgasmo dele, tão solto e confiante, tão bonito, tão mais de mulher que de homem, uma dádiva e uma entrega.

Por vezes o melhor é quando dois amantes se reencontram na cama, frescos do duche, lassos do amor, para conversar enquanto o sono não vem. A conversa de travesseiro serviu para falarem de amor, o que na circunstância queria dizer falar de sexo: o que cada um já tinha feito, o que gostaria ou não se importaria de fazer um dia, o que não faria de maneira nenhuma. E foi também durante esta conversa que ficaram delineadas as primeiras das ficções com que ao longo do tempo haviam de se explicar um ao outro: trovador e castelã, édipo e esfinge, cavaleiro e rainha, chefe bárbaro e princesa cativa; e ainda guru e feiticeira, dois velhos mirrados, meio bruxos, procurando conchas numa praia tropical; mas também desde já, e sobretudo, e sempre, Senhor e escrava.

Mas não foi ainda desta vez que inventaram Mariana. Adormeceram falando, que é o mais delicioso dos adormecimentos para amantes apaixonados. Acordaram a meio da noite para que os corpos se unissem de novo; e quando ela se deitou por cima dele na escuridão, beijando-o ternamente, deixando que os cabelos lhe caissem sobre o rosto, a imagem que Miguel teve dela foi a de horas antes, plantada sobre ele, majestosa, totémica, agonizante de esforço. Como se uma árvore poderosa, a Árvore do Mundo, Yggdrasil, estivesse misturando as suas raízes com as dele.

“Sim, minha rainha. Minha deusa. Goza. Goza muito. Goza tudo. Se soubesses como és bela no prazer!” E ao dizer isto sentiu um choro que não era de amargura avolumar-se-lhe no peito, porque as meras palavras não podiam fazer ver à amante a completa verdade da visão que o dominava. Durante todo o tempo não cessou de lhe murmurar palavras de amor e homenagem, deusa, castelã, rainha.

Marta ouvia-lhe estas palavras mais com o coração do que com os ouvidos, que lhe iam ficando surdos aos meros ruídos do mundo; e embora elas lhe enchessem o peito de um éter subtil que a embriagava; e lhe fizessem correr o sangue com mais força, e lhe endoidassem os quadris, não a distraíram tanto que a não deixassem ver a fragilidade exposta com que o amante neste momento se lhe mostrava.

Ninguém tem o direito de se entregar assim a alguém, pensou, eu agora se quisesse podia magoá-lo terrivelmente, podia destruí-lo. E comparou-o com os animais, os gatos e os cães que temos em casa para nosso prazer e companhia. Os animais, esses, olham para nós sem saber que está nas nossas mãos alimentá-los ou bater-lhes, acarinhá-los ou abandoná-los; mas uma pessoa, um ser humano, tem o dever de saber tudo isso, e de se precaver. Foi por isso com um laivo de irritação, mas também com a mais escrupulosa doçura, que Marta possuiu o corpo de Miguel, naquela noite em que se debruçou sobre ele, cobrindo-o todo com os seios e os cabelos.

“Dá-me, dá-me tudo,” disse-lhe, abraçando-o com força. Miguel abriu muito os olhos, encheu o peito com uma golfada de ar, e soltou um longo gemido que a ela lhe soou tão aflito como exultante; e Marta sentiu a ejaculação que a inundava. Mas desta vez o orgasmo maior, o climax de espanto e maravilha, foi o dela, gritado ao mundo sem cuidar que atravessasse paredes, despertasse pássaros, alarmasse vizinhos.

Quando Miguel a beijou encontrou-lhe o rosto molhado. Acendeu a luz, alarmado, e viu que chorava, um choro discreto que lhe corria pelo o rosto sem lho deformar. Os olhos não lhos viu vermelhos, nem as feições distorcidas, apenas um pequeno sorriso entre lágrimas. Sentiu que ela lhe escondia a cara no ombro, molhando-lho também, e tremendo um pouco. Depois o tremor passou. Miguel abraçou-a com força, sem falar, e pôs-se a entristecer ao lado dela, até que o sono os consolou, e o sol da manhã os alegrou de novo.

(Publicado no Blogger a 18/12/05)

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Durante a pausa que se seguiu Mariana fez mais chá. Ricardo foi à casa de banho, pôs-se à vontade e regressou à sala para comer mais alguma coisa na companhia da sua escrava, que desta vez lhe fez companhia, ajoelhada junto dele com as nádegas assentes sobre os calcanhares. Para ela foi só o tempo de comer uma fatia de bolo e de engolir um pouco de chá pela chávena do dono, e logo anunciou:

– Agora, a terceira dança.

Com estas palavras levantou-se, dirigiu-se para a mesinha de apoio e tirou todas as jóias que tinha sobre o corpo, ficando assim, pela primeira vez nesse dia, inteiramente nua. Depois foi para trás do biombo e demorou algum tempo – pelo menos a Ricardo pareceu bastante tempo – a mexer nos aparelhos que lá tinha e que Ricardo não sabia quais eram. Computador, gravador tocador de CD’s, tocador de DVD’s? Em todo o caso, depressa surgiu uma imagem no écran: um quadro de Manet, Le déjeuner sur l’herbe, que ambos conheciam do museu d’Orsay. Mas era impossível que esta imagem remetesse para a visita que Ricardo e Mariana tinham feito recentemente a Paris porque nesta sucessão de danças a história dos seus amores estava a ser contada por ordem cronológica.

Remetia, é claro, para um dos muitos piqueniques que tinham feito os dois nas dunas e pinhais da costa portuguesa, com Mariana assim nua, como Victorine Meurent no quadro – com a notável diferença de que Ricardo, nestas ocasiões, não se apresentava de fato preto e gravata como o irmão de Edouard Manet, Eugène, e o amigo de ambos, Ferdinand Leenhoff.

Um som de flauta, a que se juntou um trilar de harpas e depois a orquestra toda, começou a encher a sala como a zoada estival dum coro de cicadas: Prélude a l’après-midi d’un faune. E uma associação de ideias que Ricardo não saberia explicar fez com que se desatcasse, da memória conjunta de todos aqueles piqueniques, um em particular: aquele que tinham feito no carrascal da Serra da Arrábida, sobre a escarpa gigantesca que ali se debruça como uma varanda sobre a praia lá no fundo. A música de Debussy, sem tema definido, era um perpétuo iniciar de impulsos, sugestões, motivos; e do mesmo modo a dança de Mariana tremeluzia, reverberava, voltejava no ar como uma multidão de borboletas, sem nunca se fixar num movimento que tivesse princípio e fim. Que Mariana se exibia para ele, disto não tinha Ricardo quaisquer dúvidas; nem de que o fizesse da forma mais despudorada. Pelo contrário: nesta dança, mais ainda do que nas duas anteriores, Mariana estremecia os seios, empinava o rabo, rebolava as ancas, abria as pernas, mostrava o brilho molhado da vulva; punha em evidência todas as concavidades e todos os refegos do corpo; virava propositadamente para Ricardo as palmas das mãos, a taça do umbigo, a redondeza dos ombros, a covinha entre os tendões do pescoço, tudo, em suma, que lhe pudesse dar prazer aos olhos ou alguma vez lho tivesse dado ao tacto. Mas todas estas imagens se sucediam fugitivamente, evanescentes e leves, deixando cada uma delas em Ricardo um desejo que prometia ser satisfeito pela seguinte sem nunca o ser na verdade.

Tal como as anteriores, esta dança terminou com Mariana ajoelhada aos pés de Ricardo – mas desta vez de cabeça erguida, olhando-o nos olhos, as palmas das mãos voltadas para ele, as coxas abertas, dizendo em voz alta e clara:

– Agora castiga-me, meu Senhor.

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slavegirl8op Come prima, più di prima t’amerò
Per la vita la mia vita ti darò
Sembra un sogno
Rivederti e accarezzarti
Le tue mani
Fra le mani stringere ancor.

Panzeri/Di Paola/Taccani

O bairro do Sacromonte é dos poucos lugares de Granada que não são dominados pela visão tutelar da Serra Nevada ou da Alhambra. A serra é escondida pela estreiteza das ruas e pela altura dos muros, que apenas a deixam ver de relance num ou noutro virar de esquina; e a acrópole mourisca, no topo da colina, está demasiado próxima para que a vista a abarque. Para ver um panorama desimpedido da serra haveria que subir aos próprios jardins do palácio; e para ver o palácio haveria, pelo contrário, que descer as ruelas íngremes até ao fundo do bairro e subir as da colina fronteira – Albacín, a medina – até ganhar distância e encontrar miradouro.

A casa que Ricardo e Mariana tinham pedido emprestada ficava no Sacromonte a meia encosta, no fundo de um carmen murado. Não se via de lá a Alhambra, mas sentia-se-lhe a proximidade reflectida na privacidade dos jardins, nos aromas da vegetação, na própria cor das pedras.

Mariana tinha tratado de tudo. O dono da casa era um galerista de Boston: tinha sido ele quem lhe organizara a primeira exposição em solo americano e desde então tinham ficado amigos. Quando Mariana lhe pedira a casa, insistira em emprestar-lhe também o automóvel.

Don’t think about it – respondera, quando Mariana lhe tentara agradecer. – The house needs to be aired. You will be doing me a favor, really. Just make sure you take out the Porsche at least once, it hasn’t been driven for two months.

As férias de Mariana tinham começado um dia mais cedo que as de Ricardo. À proposta deste, que se encontrasse com ele em Heidelberg e fizessem a viagem juntos, respondeu Mariana que não:

– Vou um dia antes, tenho que ver como é a casa, preparar tudo condignamente.

E acrescentara:

– Preparar tudo para o meu dono…

Ricardo não insistira.

– Quero ver o que vai sair daí – limitara-se a dizer.

E com efeito, ao desembarcar do Talgo na estação de caminhos-de-ferro de Granada começou logo a ver, pelo sorriso travesso da amante, que havia ali grandes preparativos. Quando viu o Porsche no parque de estacionamento pensou que faria parte desses misteriosos preparativos e não estranhou quando ela lhe sugeriu, contra o habitual, que fosse ele a guiar. E não estranhou também em frente ao portão da vivenda quando ela lhe pediu para arrumar o carro, oferecendo-se para levar ela própria para dentro a mala dele e dando-lhe indicações para chegar à garagem.
Ao regressar a pé Ricardo não se apressou: queria dar tempo a Mariana de terminar o que quer que fosse que tinha preparado. O portão de ferro trabalhado estava apenas encostado: abriu-se com um rangido e Ricardo encontrou-se num jardim perfumado, num carmen andaluz. Era Fevereiro; já fazia calor; mas os dias ainda eram curtos e o sol esplendoroso que o tinha acolhido à chegada tinha dado lugar a um crepúsculo acentuado pela vegetação densa. Um carreiro de lajes polidas, flanqueado por duas filas de velas acesas, conduzia à entrada principal. Ricardo fechou o portão atrás de si, percorreu a rota de luzes que a amante lhe tinha marcado, e bateu à porta. De dentro ouviu a voz de Mariana:

– Entra, a porta está aberta. Vai-te sentando, eu já vou ter contigo.

Ricardo atravessou um pequeno átrio e entrou numa sala oblonga, arranjada como que para um espectáculo: num dos extremos estava colocado um divã, almofadas, tapetes e uma mesa baixa com pratinhos de tapas, frutas secas e pequenos doces, e de um bule exalava-se um vapor com cheiro a menta. Ricardo reparou que sobre a mesa só havia uma chávena: fosse qual fosse a surpresa que Mariana lhe tinha preparado, não incluía uma refeição a dois.

Com as janelas tapadas por grossas cortinas, a sala tinha por iluminação quatro grossas velas em pedestais, duas de cada lado do divã, e mais quatro sobre a mesa, num candelabro profusamente ornamentado que pareceu a Ricardo ser de bronze ou latão. No outro extremo da sala era possível distinguir a custo um écran de plasma e duas colunas de som. À medida que os olhos de Ricardo se adaptaram à penumbra foi-se apercebendo de um biombo escuro, talvez negro, recortado contra um ténue clarão avermelhado tal como o que seria emitido pelas luzes de presença dum aparelho de som ou vídeo. Junto do biombo, a um canto, uma mesa pequena com o que parecia ser uma jarra de água, um copo e outros objectos que Ricardo não conseguiu identificar porque a luz das velas não chegava lá.

Aceitando o convite implícito na chávena solitária, Ricardo sentou-se, serviu-se de chá e recostou-se no divã, mordiscando uma tâmara. Foi este o sinal para que se começassem a ouvir, muito lá do fundo, uns acordes de contrabaixo em que Ricardo reconheceu o início de um CD que tinha oferecido à amante: Federico e Giulietta, gravado em Rimini por Caetano Veloso num concerto de homenagem a Federico Fellini e a Giulietta Masina.

Uma intensa luz
Que não se vê
Passa pela voz
Ao se calar…


Uma voz macia na penumbra, num registo entre o tenor e o contra-tenor. O refrão é cantado em italiano:


Come tu mi vuoi, sarò, sarò,
Quello che tu vuoi, farò, farò.
Non ti lascierò mai
Ma non ti amerò mai,
Questo tu lo sai, si, lo sai.

A estas palavras apareceu no écran uma fotografia de Marta no pátio da Universidade de Coimbra, com a torre ao fundo. Na fotografia Marta aparentava vinte e poucos anos e trazia uma saia rodada, aos godés azuis-claros e azuis-escuros, com uma blusa azul que deixava ver à transparência o soutien branco. Ricardo recordava-se bem desta indumentária. Tinha sido assim vestida – mas sem soutien nem calcinhas – que Marta o tinha acompanhado uma vez ao cinema. Ricardo reviveu o prazer que tinha sentido nesse dia ao vê-la corar perante a surpresa de quem, cruzando-se com eles na rua, reparava na transparência da blusa; e recordou-se de como lhe tinha levantado a saia na escuridão do cinema e encontrado o sexo molhado e quente.

Ao mesmo tempo que a fotografia aparecia no écran, Mariana saiu de trás do biombo e dirigiu-se para um candeeiro de pé, que ligou, regulando a lâmpada de halogéneo para o mínimo; esta luz débil chegou para ver que estava ricamente adornada de jóias, que tilintavam quando ela se movia, e que fora estas não tinha mais nada a cobri-la. Não eram jóias valiosas, apenas o género de bijutaria de prata e lápis-lazúli que se pode comprar em qualquer souk marroquino.


Mas como estava bela! Comparando-lhe o corpo com o de Marta estudante, Ricardo espantava-se por não lhe encontrar outras diferenças que não fossem os seios: dantes pequenos e cónicos, agora túrgidos, redondos. A luz fraca reflectia-se-lhe no brilho dos olhos e na brancura do sorriso, mas não chegava para que se lhe distinguissem todos os pormenores do rosto ou do corpo. Porém Ricardo, a quem os olhos da memória tinham vindo em auxílio dos do rosto, via-a nitidamente: o ventre musculoso e liso; a cintura delgada, que ainda podia ser abarcada com duas mãos de homem; as ancas em forma de ânfora, que numa mulher menos delicada de corpo seriam estreitas mas que em Mariana, comparadas com a cinta, eram largas; os braços e as pernas musculadas, de dançarina ou ginasta. Os seios, modelados por duas maternidades, bambaleavam um pouco.


(Mais tarde, já depois de ter os filhos crescidos, Marta tivera de extrair um nódulo, felizmente benigno, que lhe aparecera na mama direita; e quando o cirurgião lhe sugeriu que aproveitassem a operação para colocar implantes aceitou imediatamente. Pôs porém a condição de o resultado final ser a reprodução dos seus seios de grávida.

– Uns seios de grávida? – rira-se o médico. Mas Marta mostrara-lhe fotografias:

– Está a ver? Nunca tive o peito tão bonito como quando estive grávida…

A operação foi um êxito. Marta gostava de decotes generosos e tinha pena de só os ter podido usar durante um curto período; e agora Mariana, pensando nisto e na surpresa que ia fazer a Ricardo, achava que a sua decisão tinha valido a pena: o peito de adolescente tinha dado lugar a umas mamas firmes e generosas que pareciam perfeitamente naturais – à vista e também ao tacto, como comprovou Ricardo mais tarde quando teve oportunidade de as sopesar longamente.

Nua, nua, nua estava Mariana, ainda mais nua porque coberta de jóias. A primeira posição que tomou na dança era típica dela: de pé, tornozelos cruzados, braços abertos num ângulo de 45 graus, cabeça virada para o lado pondo em evidência os tendões do pescoço. Esta posição, bem como os olhos postos no chão e o pequeno sorriso enigmático, era familiar a Ricardo desde os tempos de Coimbra e fê-lo lembrar-se dum outro disco, um LP do tempo do vinil com canções de Chico Buarque, que Mariana lhe tinha oferecido seu vigésimo segundo aniversário. em casa dela, ou melhor, no apartamento que ela partilhava com outras estudantes e que ele tinha ajudado a decorar e a mobilar. As raparigas tinham conseguido comprar quase de graça uns restos de alcatifa em dois tons de azul e com a ajuda dele tinham-nos cortado em quadrados iguais que depois dispuseram num xadrês. Já nesse tempo Marta gostava de dançar para Ricardo marcando os movimentos pelos quadrados de alcatifa. Agora, décadas mais tarde, marcava-os da mesma maneira e com os mesmos gestos pelas lajes quadradas do pavimento.

Mas não era exactamente uma dança que Mariana executava, nem esta primeira canção de Federico e Giulietta se prestava a tal: era talvez uma mímica, a exposição de uma narrativa, uma narrativa do tempo em que Marta, depois de dançar para Ricardo, se sentava aos pés dele em posição de lótus e trocava com ele histórias e fantasias.


Os movimentos de Mariana davam a Ricardo a impressão de ter diante de si a Marta de outros tempos, ilusão esta fortalecida pelo facto de nada no corpo dela, com a já notada excepção dos seios, ter mudado nessas décadas. (Segundo Mariana tinha havido outras mudanças; o rabo estava mais descaído e algumas rugas estavam mais vincadas; mas Ricardo, com a cegueira dos amantes, não conseguia ver esta diferença).

Em todo o caso bastou um segundo e a mudança duma canção para outra para que Marta passasse de novo dos vinte e tal para os quarenta e tal anos. Quando a primeira faixa parou de tocar Mariana pegou no telecomando para saltar a seguinte e passar à terceira:

Lua, lua, lua, lua
Giulietta Masina
Ah, puta de uma outra esquina
Ah, minha vida sozinha
Ah, tela de luz puríssima…
Ah, vídeo de uma outra luz
Pálpebras de neblina, pele d’alma
Giulietta Masina
Aquela cara é o coração de Jesus
.


No dia do seu primeiro reencontro Marta e Ricardo tinham ido no carro dele de Coimbra à Figueira da Foz e daí a Quiaios pela Serra da Boa Viagem. Pelo caminho tinham ligado o rádio, e riram-se quando ouviram a canção que uma emissora local estava a transmitir:


Coimbra do Choupal
Ainda és capital
Do amor em Portugal
Ainda

Nesse dia tinham acabado por ir à praia. Os movimentos de Mariana em Granada invocavam os de Marta nessa ocasião, o caminhar pela areia, a procura duma rocha ao abrigo de olhares indiscretos, o penoso caminho de volta ao carro, a garrafa de água comprada à pressa no regresso porque no improviso do passeio se tinham esquecido de levar que beber…
E a um toque de Mariana no telecomando a voz do cantor brasileiro, cantando perante a sua audiência italiana com um sotaque português quase perfeito, confirmava as palavras desse outro cantor, de cujo nome nem Mariana nem Ricardo se lembravam:


Coimbra das canções
Tão meigas que nos pões
Os nossos corações
A nu
Coimbra dos doutores
P’ra nós os teus cantores
A fonte dos amores
És tu.


A primeira noite que tinham passado juntos depois do reencontro tinha sido na praia da Tocha, num apartamento alugado para o fim de semana, no final do mesmo Verão em que tinham ido à Figueira. Mariana tocou num botão para fazer mudar a imagem no écran e Ricardo viu-a sorridente, numa esplanada que podia ser em Cascais, com os dois filhos já crescidos e com o mesmo vestido de padrão às flores que tinha levado ao encontro com ele nesse fim de semana. Outro carregar de botão e surgiu no ecran a imagem duma Columbina chorando ajoelhada com os braços erguidos ao céu, como as mulheres pobres que vemos nos telejornais depois de lhes matarem os filhos.


Então Mariana caiu de joelhos no chão de lajes. Sentou-se sobre os calcanhares com as coxas separadas e, com um movimento impetuoso, lançou para trás os cabelos como fizera ao cavalgar Ricardo naquele apartamento em frente ao mar: de olhos fechados, de narinas frementes, arrebatada de paixão, retesos os músculos do ventre e os tendões do pescoço. O corpo curvado para trás fremia de energia contida, como um arco pronto a disparar. Os seios, mais volumosos do que naquele outro dia, suavizavam a dureza das clavículas e das costelas. Ricardo lembrava-se bem daquela noite, a primeira em que ele e Marta tinham feito amor depois de se reencontrarem: Marta tinha chorado então; agora exprimia sem lágrimas aquele pranto, no arquear do corpo e no erguer dos braços.


A última faixa do CD começou a tocar: Tu, che amar non sai, tu che amar non vuoi, sei stregata dall’amor. À luz fraca da única lâmpada, complementada a custo pela das velas acesas, a penugem esparsa do baixo-ventre de Mariana confundia-se com as sombras, mas ainda assim era possível descortinar, entre as muito abertas, no sexo propositadamente exibido, um brilhozinho molhado de excitação. Foi neste pequeno revérbero que se fixou o olhar de Ricardo quando Mariana curvou a cabeça para a frente, ocultando os seios com os cabelos, e se deixou ficar ajoelhada.

Finalmente Ricardo quebrou o silêncio com um pequeno som de aprovação e contentamento. Como se só tivesse estado à espera deste sinal, Mariana pôs-se de pé e dirigiu-se para a mesinha instalada junto do biombo, tirando um a um todos os adornos que trazia sobre o corpo. Duma caixa que estava em cima da mesa tirou outros, desta vez já não em prata e azul, mas em ouro e vermelho: brincos, pulseiras, colares, um anel, e por fim uma máscara veneziana, também ela dourada, que colocou sobre a metade superior do rosto. Assim ornamentada e mascarada, verteu um pouco de água num copo e bebeu-a. Devia estar cansada, notou Ricardo: tinha o corpo esbelto brilhante de suor.

Com os dois aparelhos de telecomando Mariana concluiu os preparativos para a segunda dança. No écran de plasma surgiu a imagem de um lugar que Ricardo bem conhecia e onde tinha passado muitas horas com Marta: a entrada rococó do Jardim da Sereia em Coimbra. Ao mesmo tempo começou-se a ouvir a abertura da ópera Orfeo ed Euridice de Gluck, em que Orfeu, tendo comovido os deuses com a sua música, consegue destes autorização para ir buscar aos Infernos a sua bem-amada Eurídice. De que Inferno teria ele, Ricardo, resgatado Mariana, ou Mariana a ele? E de que Infernos teriam ainda que se resgatar um ao outro? Serenamente, com o passo medido pela sonoridade barroca da música, Mariana caminhou em direcção a Ricardo, pegou-lhe nas mãos e inclinou-se para ele, murmurando-lhe ao ouvido:


– Às vezes dou a mim mesma o nome de Mariana…


E Ricardo lembrou-se que tinha sido ali, em Coimbra, naquele jardim da fotografia, que Marta tinha escolhido o seu nome de escrava: num dia em que Ricardo estava doente de solidão, doente de rotina e conformismo. Nesse dia Mariana tinha começado a curá-lo. Ricardo fez um movimento para beijar a amante mas esta escapou-se-lhe, rindo:

– Ainda não terminei…

Ao som da orquestra Mariana deu duas voltas completas à zona da sala que tinha deixado livre. Caminhava sem pressa, com o passo medido duma dama do século XVIII num salão de baile, serena e cuidadosa como se arrastasse atrás de si a longa cauda dum vestido de gala – e esta lentidão, esta mesura, contrastando com a completa nudez do corpo, obrigavam a que o olhar de Ricardo se lhe fixasse em cada meneio, em cada passo, em cada gesto das mãos ou inclinação da cabeça.

Ao soarem as últimas notas da abertura, Mariana, depois de dobrar ligeiramente os joelhos numa vénia a Ricardo, fez avançar o CD até ao princípio da terceira faixa. Na versão que estavam a ouvir, o papel de Orfeu – originalmente composto para um castrato – era interpretado pela contralto Marilyn Horne, e o de Cupido pela soprano Helen Donath. Ao longo destas duas árias os movimentos de Mariana continuaram tão lentos e medidos como durante a abertura, mas o estilo galante deu lugar a uma sensualidade nos gestos, manifestada nas carícias que Mariana fazia a si própria, no semi-cerrar das pálpebras, no entreabrir dos lábios e das coxas, na ostentação dos seios e das nádegas. Ao mesmo tempo, a imagem no écran começou a mudar: à fotografia do Jardim da Sereia começaram a sobrepor-se as letras da palavra MARTA, impressas a verde escuro em caracteres severamente geométricos. Depois a imagem do Jardim da Sereia começou a esmaecer e a ser substituída pela silhueta em perfil dum homem de pé, com o pénis erecto, e duma mulher posternada à sua frente. E logo que esta transformação ficou completa, a palavra que lhe estava sobreposta começou a mudar para «mariana»: em minúsculas, em cursivo e a vermelho. A dança terminou, como a primeira, com Mariana ajoelhada diante de Ricardo; mas deta vez só numa pose formal, só com um joelho em terra e a cabeça inclinada como um pagem a ser armado cavaleiro.

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Eram oito da noite de sexta-feira e Mariana estava a pôr a mesa para Ricardo. Só para ele, porque hoje ia servi-lo sem participar na refeição como se fosse uma criada. Quanto a ela, já tinha comido: uma salada com cubos de queijo, pão torrado e um molho à base de iogurte magro.

Ricardo, calculava Mariana, devia estar neste momento a sair do seu gabinete em Heidelberg e a fazer-se à estrada num carro alugado, para estar com ela o mais cedo possível. Ia chegar cansado e sem jantar, depois de um dia de trabalho duro e de duas ou três horas a conduzir na Autobahn.

Não valia a pena cozinhar-lhe uma ceia completa, ele ficava sempre sem apetite quando viajava. Em vez disso Mariana preparou tostas, uma tábua de queijos e uma tacinha com framboesas e abriu uma garrafa de vinho, que deixou num aparador a respirar. A seguir dispôs velas aromáticas na sala, deixou a caixa de fósforos à mão, subiu a temperatura no termóstato, ligou o dispositivo de aquecer as toalhas na casa de banho e preparou os óleos para a massagem que tencionava dar ao amante se ele não se agarrasse logo a ela e não a arrastasse para a cama.

Tomou duche antes de tomar banho, como as gueixas; lavou a cabeça, enrolou o cabelo molhado numa toalha, meteu-se na banheira com sais aromáticos, enxugou-se, amaciou o corpo com um creme perfumado, secou e escovou o cabelo.

Tinha-se depilado toda de manhã. Quando o dono lhe ordenara que fizesse isto, tinha protestado, mas agora estava a gostar de se ver lisa como uma menina impúbere.

Pintou as unhas dos pés e das mãos com a mistura de vernizes de que ele gostava: metade transparente, um quarto cor de rosa pálido, um quarto branco-pérola. Vestiu-se e maquilhou-se como ele tinha dito que queria: saia comprida e rodada em tons de terra e laranja, semi-transparente, sem calcinhas; corpo nu da cinta para cima; cinto de fantasia; bijutaria profusa nos pés, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas e sobre o peito; um pouco de rouge, muito pouco, na cara; baton cor de framboesa nos lábios e nos mamilos. Pôs umas chinelas, para usar até ao momento em que ele tocasse à campainha de baixo: Ia recebê-lo como ele tinha mandado, com os pés nus em sinal de respeito; mas também, em sinal do mesmo respeito, com eles limpos.

Quando a campainha tocou guardou as chinelas e foi-se pôr à porta do apartamento para ele não ter que esperar no patamar. Ao sentir-lhe os passos abriu-lhe a porta; lá vinha ele, arrastando o seu velho trolley de viagem azul. Na mão esquerda trazia um ramo de rosas vermelhas atadas com um fio de ráfia: devia ter-se picado nelas ao sair do carro ou ao tocar à campainha, porque trazia um arranhão entre o polegar e o indicador que ainda ressumava perolazinhas de sangue.

Mariana franqueou-lhe a entrada, fechou a porta atrás dele e, mal lhe dando tempo a pousar o trolley, lançou-se-lhe ao pescoço. Ricardo correspondeu apaixonadamente a este beijo, atrapalhado apenas por ter só um braço livre; com o outro mantinha afastado dela o ramo das rosas, para que não a picassem. Quando ele por fim lhe entregou o ramo Mariana levou-o ao nariz, aspirou-lhe o perfume, e ajoelhou com um gesto natural e gracioso para beijar a mão do amante.

– Anda para a sala. Tens fome?

– Não tenho muita…

Mas depois de tirar o casaco e de ir à casa de banho sentou-se à mesa. Mariana, ajoelhada, pousava a cabeça nas coxas dele beijava-lhe a mão quando ele a acariciava. Só se levantou uma vez, para lhe servir o vinho. Duas tostas, dois cubos de queijo, algumas framboesas que ele ia comendo ou dando a comer à amante, e meio copo de Barolo: a isto se resumiu a refeição de Ricardo.

– Estás cansado, meu querido.

– Um pouco. Preciso de tomar um duche.

– Senta-te no sofá, eu dispo-te.

Ricardo fechou os olhos e deixou-se despir como um menino ensonado. A meio do duche Mariana foi ter com ele para acabar de o ensaboar. No fim ajudou-o a secar e levou-o de novo para a sala.

– Deita-te no sofá. Vou dar-te uma massagem para te tirar essa tensão dos ombros.

– Se fizeres isso ainda adormeço aqui mesmo e depois não te sirvo para nada – respondeu ele com um sorriso.

– Não faz mal. Deita-te. Espera, vou pôr aí uma toalha.

Mariana tirou todos os ornamentos que trazia no corpo e pôs-se nua para ter mais liberdade de movimentos. À massagem que deu ao dono com as mãos acrescentou umas carícias com os seios e com o sexo depilado que o fizeram ronronar como um gato.

– Hmmm, tão bom…

A previsão que Ricardo tinha feito de adormecer não se cumpriu completamente. Terminada a massagem rolou do sofá para cima do tapete, pôs-se de barriga para cima, fechou os olhos e estendeu os braços como uma criança a pedir mimo:

– Vem cá, minha escrava…

Mariana trepou para cima dele, montou-o e começou a acariciar-lhe o pénis ainda flácido com a vulva acetinada e húmida. Ricardo sorriu, consolado:

– Tão bom…

A erecção que tinha tido lugar intermitentemente desde que Ricardo tinha entrado em casa de Mariana não tardou a estabelecer-se de novo com renovada pujança, e Mariana empalou-se nela com um suspiro de prazer.

Começou então uma noite memorável, com Mariana a movimentar vigorosamente os quadris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, para os lados, em círculos, e com Ricardo a erguer-se ao encontro dela, mais fundo, mais fundo.

Por vezes ela inclinava-se toda para trás para conseguir o ângulo que mais a excitava, mas o pénis dele estava tão retesado que lhe doía ao ser vergado para baixo. Então puxava-a com força para si de modo a sentir-lhe os seios contra o peito; ela soprava como um gato assanhado mas obedecia, e deixava pender a cabeça para a frente de modo a poder acariciá-lo também com os cabelos.

Ricardo sentia o orgasmo quase a chegar mas, fosse pelo cansaço que sentia, fosse por estar por baixo, ou fosse ainda pela dor que Mariana lhe provocava quando se inclinava para trás, a excitação em que estava só crescia sem se resolver num desenlace. Por vezes o cansaço dos músculos levava-o a ficar passivo enquanto Mariana dançava por cima dele, mas logo o desejo, louco, o obrigava a acelerar e ampliar as estocadas que dava na amante.

Mariana veio-se. E veio-se outra vez. E veio-se outra e outra, tantas vezes que não as pôde contar, tantas vezes que a certa altura já não tinha orgasmos separados, tinha um único orgasmo que continuava e continuava e parecia nunca mais acabar.

Por fim – depois, quando olharam para o relógio, viram que passava das quatro da manhã – Ricardo deu um urro cavernoso, e num último, prodigioso arranque esvaiu-se todo dentro dela, que arquejava «dá-me, dá-me tudo» e se veio também pela última vez nessa noite.

Nem se lavaram. Conseguiram ir os dois, aos tropeções, da sala para o quarto, onde se deitaram em cima da cama e adormeceram imediatamente. Quando acordaram tinham, ele o pénis quase em carne viva, ela a vagina em idêntico estado, e no tapete sobre o qual tinham feito amor vieram a encontrar uma pequena mancha de sangue que nunca vieram a saber se era dele ou dela.

Mariana acordou tarde e viu o amante ainda adormecido ao seu lado. Durante a noite tinham arranjado maneira de puxar o edredon para cima deles, e ainda bem porque a casa estava um pouco fria. Começou preguiçosamente a dar pequenos beijinhos na cara de Ricardo e viu como mesmo a dormir o rosto dele se adoçava num ligeiro sorriso. Depois pousou a cabeça no travesseiro e deixou-se ficar numa deliciosa indolência até o ver acordar e espreguiçar-se.

Esta visão deu-lhe vontade, como que por contágio, de se espreguiçar também e de bocejar longamente.

– Tens fome, meu querido?

– Mais que fome, estou esfaimado. Se não me dás de comer, como-te a ti.

– Então deixa-me tomar duche primeiro, depois tomas tu enquanto eu te preparo o pequeno-almoço.

Ricardo ainda fechou os olhos por uns minutos. Depois levantou-se, vestiu o roupão, calçou os chinelos de quarto e dirigiu-se para a casa de banho, de onde Mariana estava a sair embrulhada numa toalha.

Ao enxugar-se – vigorosamente, como era seu costume – reparou que lhe doía ao esfregar o pénis com a toalha, apesar de esta ser invulgarmente fofa e macia. A pele estava muito vermelha e sensível. Tinham sido horas seguidas de fricção no corpo da amante, e ainda bem que ela estava depilada e macia, porque aquele tempo todo a roçá-lo com os pelos púbicos teria sido mais do que poderia aguentar.

Quando entrou na sala de roupão e chinelas, Mariana já estava vestida, com uma saia preta pelos tornozelos e uma blusa de seda branca. A mesa estava posta e da cozinha vinha um cheiro bom de café e torradas com manteiga.

– Senta-te. Vai bebendo o sumo, que eu já te trago o resto.

À porta da cozinha estavam umas chinelas.

– Vou calçar-me. A tijoleira da cozinha está muito fria. Posso?

– Sim, hoje podes, mas só na cozinha.

Um ruído de louça e talheres a remexer, um súbito aroma a ovos fritos a a bacon, e lá vinha Mariana com um cesto enorme de torradas.

– Vai comendo enquanto estão quentes.

Sentou-se em frente ao dono para beber o sumo de laranja e depois levantou-se, com uma torrada na mão para ir de novo à cozinha. Quando regressou trazia uma travessa de ovos mexidos com bacon e salsichas, e mais torradas. Pôs música a tocar no leitor de CD’s (a sonata de violino e piano «Primavera», de Beethoven), e sentou-se a comer. Por vezes dava-lhe na boca um pedacinho de torrada, ou ele a ela. Serviu muesli misturado com iogurte de cereja, que comeu com um apetite igual ao do amante. Por fim foi à cozinha buscar o café.

– Queres mais?

– Só se for mais café.

– Então vou buscá-lo quente, não bebas esse.

Ficaram mais de meia hora à mesa, a beber café, a pegar nas mãos um do outro e a conversar de coisas sem importância. Quando viram as horas era quase uma da tarde.

– Ai… Ainda vou ter que arrumar isto tudo…

– Eu ajudo-te.

– Não, vai-te vestir.

Ricardo vestiu as suas calças de bombazina cor de mel e uma camisa de flanela aos quadrados, com uma T-shirt por baixo. Não demorou muito a vestir-se e a calçar as peúgas: ainda teve tempo de arrumar a sala e o quarto e fazer a cama enquanto Mariana terminava de lavar a louça e limpar a cozinha.

De tarde foram passear em Brugges, ao longo dos canais. Pararam em frente ao edifício gótico da Câmara Municipal, viram as montras nas ruas centrais, fizeram algumas compras num supermercado. O Equinócio da Primavera já tinha passado, a hora tinha mudado, os dias estavam mais longos e estava sol, mas não se demoraram na rua: depois de lancharem numa confeitaria voltaram para o apartamento de Mariana, onde ficaram sentados a ouvir música e a conversar enquanto lhes apeteceu.

– Daqui a pouco vou fazer o jantar – disse Mariana, abraçando o amante e dando-lhe um beijo. – Queres tomar alguma coisa antes?

– Sim, meu amor. Tens um whisky?

– Já to vou dar. Deixa-te estar sentado.

Mas em vez de se dirigir para o armário das bebidas Mariana meteu-se no quarto, de onde emergiu uns minutos depois com um vestido que Ricardo não lhe conhecia: cintado, preso aos ombros por alças, com uma saia pelos tornozelos muito rodada, e todo às riscas verticais em vários tons de rosa. Na sua versão original devia ter um forro, mas era fácil de ver que Mariana o tinha tirado e que não trazia nada por baixo.

– Gostas do meu traje de escrava?

– Muito. Vestiste-o para me servires o whisky?

– O whisky e não só. Mas espera, primeiro vou-te calçar os chinelos.

Os chinelos de Ricardo estavam no armário da entrada. Mariana foi-os buscar, ajoelhou-se e descalçou o dono, beijando-lhe cada um dos pés depois de tirar a respectiva peúga e antes de lhe pôr o chinelo. Concluída esta tarefa pôs música no leitor de CD’s – Shepherd Moons, da cantora irlandesa Enya – trouxe um tabuleiro que enganchava no sofá, e sobre este pôs um naperon, um copo de cristal e um cinzeiro.

– Um cinzeiro? – admirou-se Ricardo

– Sim. Hoje vais fumar. E não discutas.

A seguir tirou duma gaveta um estojo de cabedal para dois charutos, uma caixa de fósforos e um aparelho de cortar as pontas, e pousou tudo no tabuleiro ao lado de Ricardo. O estojo continha dois Cohibas.

– Não tinhas mais em que gastar o teu dinheiro? – ralhou Ricardo.

Mariana riu-se, foi ao armário das bebidas, tirou uma garrafa de whisky por abrir e mostrou o rótulo ao amante

Cigar? – disse ele. – Não conhecia essa marca.

– Na loja disseram-me que era muito bom. E que era o ideal para acompanhar um bom havano.

Ricardo riu-se e preparou-se para abrir a garrafa, mas a amante deteve-o:

– Não. Tu não fazes nada. Eu sirvo.

Obediente, Ricardo recostou-se no sofá e ficou a contemplar com um olhar de ternura a sua escrava que se esforçava, ajoelhada, por abrir a garrafa. Depois de o ter conseguido deitou no copo dois dedos de whisky, cortou as pontas a um dos charutos, meteu-o na boca e acendeu-o, rolando-o entre os dedos como tinha visto o dono fazer. Ricardo viu-a sugar as bochechas para dentro para puxar o fumo, exactamente como fazia qundo lhe chupava o sexo, e com um brilho nos olhos acariciou-lhe o cabelo.

Levadas a bom termo todas estas tarefas Mariana sentou-se no chão aos pés de Ricardo e começou a contar-lhe todos os pormenores da sua mais recente exposição. De vez em quando levantava-se, animada, e ia buscar um quadro que se tinha esquecido de lhe mostar antes, ou fotografias de outros quadros, que lhe ia dispondo sobre os joelhos para ele ver. Entusiasmada, explicava-lhe as novas técnicas que tinha aprendido desde a última visita: as tintas, os betumes, os vernizes, as areias coloridas, as espátulas, os pincéis, as folhas e as bagas recolhidas no bosque e coladas na tela.

Ao esmorecer da conversa Ricardo inclinou-se para a frente, segurou-lhe o queixo e beijou-a ternamente nos lábios.

– Agora vou-te possuir, minha escrava.

– Sim…

Mariana num instante se pôs nua, o vestido saía pela cabeça e ela não trazia mais nada sobre o corpo.

– Deita-te aqui no sofá – disse Ricardo. Quando a viu deitada ajoelhou-se sobre o tapete, debruçou-se sobre ela e começou a cobri-la de beijos, começando nos ombros, subindo ao pescoço, aos olhos, às orelhas e à comissura dos lábios, e descendo aos seios. Por longos minutos não fex mais nada além de lhe lamber e chupar os mamilos enquanto lhe insinuava a mão entre as coxas. Mariana começou logo a abrir um pouco as pernas, ou melhor, as pernas abriam-se-lhe por si próprias, sem que ela sequer o notasse. Sem pressa nenhuma Ricardo foi descendo com os lábios ao longo do corpo dela, às vezes voltando para cima em direcção aos seios e ao pescoço, mas indo sempre um pouco mais abaixo de cada vez que descia. Meteu-lhe a língua no umbigo, beijou-lhe os flancos do sovaco à anca, explorando-lhe com a língua os espaços entre as costelas, e ao lamber-lhe o monte de Vénus depilado sentenciou:

– Sim, estás mesmo macia, com a língua é que se nota…

… e depois, cruelmente, começou de novo a subir-lhe pelo corpo acima.

Se a boca que Mariana tinha entre as pernas tivesse voz, teria gritado de frustração. Mas não por muito tempo, porque de repente Ricardo afastou-lhe as coxas com as mãos e beijou-lhe o sexo como se lhe beijasse a boca, para logo moderar este ímpeto e começar a procurar-lhe com os lábios e a língua todas as dobras e minúsculas refegas. A língua procurava, dardejante, o botão do amor, para logo o abandonar e tentar insinuar-se no interior da vagina ou para lamber todo o comprimento da vulva.

Quando começou a chupar-lhe o clítoris mais vigorosamente, como se o quisesse sugar e engolir, ouviu-a dizer:

– Meu senhor… Posso-me vir?…

Ricardo nunca tinha imposto a Mariana que pedisse autorização para ter orgasmo e agora ela própria, sem que ele entendesse bem porquê, inaugurava esta regra.

– Não, minha escrava, não podes.

Mas continuou a beijá-la até já não poder distinguir se os sons que ela fazia eram de prazer ou de sofrimento. Por fim, cansado, parou, e começou a percorrer com os lábios e a língua o caminho oposto ao que tinha feito antes até lhe chegar de novo à boca, que beijou, enleando a língua na dela apaixonadamente. Só então se levantou, devagar, mantendo a boca unida á dela e esperando até ao último segundo para a largar.

– Espera um pouco – disse, e dirigiu-se para o quarto.

Saiu de lá pouco depois, competemente nu, e trazia na mão uma fita vermelha que Mariana reconheceu imediatamente: era a prenda que ela lhe tinha dado por ocasião dum encontro anterior, também em Brugges.

– Dá cá as mãos.

Mariana estendeu-lhe as mãos com os pulsos cruzados. Ricardo atou-as rapidamente com uma ponta da fita, mandou-a esperar, foi ao trolley buscar a máquina fotográfica e começou a ordenar-lhe que assumisse poses: de joelhos, posternada, exibindo as marcas e as equimoses da vergasta, de pé, com os braços erguidos, mostrando os pulsos amarrados… Mariana acedia a tudo, obediente, meiga, apaixonada. Ricardo apercebeu-se nela dum estado de espírito invulgar: um dengue, uma excitação, um roçar-se por ele como que por acaso, uma intensidade, uma atenção ardente ao momento vivido…

– Não me deixaste ter orgasmo… Meu amor…

Isto disse Mariana a certa altura, baixando os olhos, num momento em acabava de se ajoelhar e mostrava à objectiva os pulsos atados. E Ricardo sentia nela, por baixo da mansidão e da obediência, o fogo larvar dum desejo que se satisfazia na insatisfação.

Quando acabou de a fotografar, não a desamarrou: mandou-a deitar de costas no tapete e amarrou a outra ponta da fita de seda ao cano do aquecimento, no ponto em que este saía do chão. Estendido sobre ela sem lhe fazer peso, voltou a beijá-la e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos numa carícia firme como se faz aos animais.

– Meu senhor…

– Diz.

– Vais possuir-me?

– Vou, sim, minha escrava.

– Queria pedir-te…

Ricardo apertou-lhe o seio esquerdo e chupou-lhe o mamilo antes de a encorajar a continuar:

– Querias pedir-me…

– Queria pedir-te que fosses meigo. Estou tão dorida de ontem…

Ricardo deu uma risada:

– Vou ser meigo, sim. Até porque eu também estou dorido, tenho tudo em carne viva…

Mariana já tinha as pernas abertas: Ricardo penetrou-a numa carícia longa e, sem chegar a ir até ao fundo, começou a mover dentro dela a ponta do pénis, beijando-a ao mesmo tempo profusamente nos lábios e nos seios. Com as mãos amarradas, Mariana não o conseguia abraçar, por isso o envolvia com as coxas, acariciando-lhe com os calcanhares a barriga das pernas e a parte de trás dos joelhos.

– E desta vez posso vir-me, meu senhor?

– Não, minha escrava, não podes. Ocupa-te só do meu prazer.

No gemido que Mariana soltou misturava-se um imenso lamento com um prazer novo, um prazer que ela não conhecia. Começou a mover as ancas e a tentar controlar os músculos da vagina de maneira a apertar e a chupar o sexo do amante, a dar-lhe o prazer que ele lhe exigia e ao qual tinha obviamente todo o direito, a erguer os seios de encontro ao peito dele para o acariciar brandamente, até que o sentiu acelerar os movimentos e ejacular dentro dela com um gemido que parecia, também ele, um lamento.

Admirou-se por não sentir frustração nem ressentimento por não ter gozado, mas sim uma enorme vontade de continuar a servir. «Serei na verdade assim tão fêmea e tão escrava?», pensou; e quando o dono rolou de cima dela para o chão começou a chegar-se para ele, a acariciá-lo com as pernas e com os pés, já que tinha as mãos amarradas. Todo o corpo dela era movimento, e todos os seus movimentos iam no sentido de se chegar ao dono, de o acariciar, de lhe suplicar um toque ou uma palavra. Lembrou-se de ter dito uma vez a Ricardo que ele a tinha «desligado»; pois bem, agora estava «ligada», com toda a sua energia de fêmea apaixonada a fluir-lhe no corpo e todos os sistemas a funcionar em alerta máximo.

– Desamarra-me, meu senhor…

Assim que Ricardo a desamarrou Mariana começou a fazer-lhe festas e beijá-lo por todo o corpo

– Estou tão louca… Não me deixaste ter orgasmo, e estou tão louca…

– É, estou intrigado com uma coisa… Porque é que me pediste autorização? Eu por mim era capaz de nunca me ter lembrado de to proibir– disse Ricardo..

– Não sei o que é que me deu. Disseste-me muitas vezes que uma escrava não tem direito ao prazer, se calhar foi por isso.

– Disse, e tu concordaste. Mas fizeste bem em lembrar-me … De hoje em diante tens que pedir sempre autorização.

Mariana revirou os olhos e fez uma careta, logo desmentida pela grinalda de beijos com que cobriu o peito do amante:

– Oh, não, o que é que eu fui dizer! – exclamou, numa aflição fingida. – O que pode uma pobre escrava fazer para servir o seu senhor, se ele até até a proíbe de se vir?

– Uma pobre escrava, não sei, mas se esta rica escrava que aqui está está assim tão empenhada em servir o seu senhor, pode muito bem ir para a cozinha, por exemplo, e fazer o jantar para ele, que está cheio de fome…

Mariana, a rir-se, começou a bater com os seus pequenos punhos no peito de Ricardo

– Cafajeste… sem vergonha… Escravidão é escravidão, não é?!

– Pois é… – disse Ricardo.

E quando viu Mariana levantar-se quase de um salto, vestir o roupão, entregar-lhe o dele e dirigir-se à cozinha, acrescentou:

– E descalça, se fazes favor. Não quero cá essa história de tijoleira fria, como de manhã. Lugar de fêmea é descalça na cozinha.

Mariana deteve-se o tempo suficiente para lhe deitar a língua de fora, mas afastou com o pé as chinelas que estavam no chão à saída da sala.

De dentro da cozinha levantou a voz:

– Tenho aqui Quiche Lorraine, é só pôr no micro-ondas. Queres?

– Pode ser, gosto bem de quiche. E o vinho de ontem ainda deve estar bom, era uma pena deitar fora uma garrafa quase inteira.

Ao pôr a mesa, ao servir o jantar, durante a refeição, Mariana continuou a exibir o comportamento que tanto intrigava e encantava Ricardo. A todas as oportunidades havia um seio a roçar um braço, ou então apenas um sorriso, um suspiro, um baixar de olhos, um rubor…

– Anda cá, escrava.

– Para quê?

– Anda cá. Levanta a saia.

Quando Mariana chegou junto dele Ricardo introduziu-lhe a mão entre as coxas.

– Estás toda molhada…

– Pois estou… Não me deixaste vir, patife…

– Não estás bem?

– Estou bem, estás farto de saber que estou mesmo muito bem… Não sei como é que isto me pode dar tanto prazer… Mas se daqui a pouco eu entrar em combustão espontânea, já sabes porque foi. Nunca te devia ter pedido autorização.

– É… Pela boca morre o peixe… Mas não te preocupes: amanhã não vai acontecer o mesmo porque vais ter castigo em vez de sexo.

– Está bem… Podes castigar-me, mas também quero sexo.

– Também, o quê?

– Eu sei, não tenho quereres. Vou dizer doutra maneira: também gostava que o meu senhor possuísse a sua escrava. Está bem assim?

– Melhor. Mas ao castigar-te também estou a possuir-te, não te esqueças. Em todo o caso, o castigo amanhã é por ser o nosso último dia. Quero deixar-te marcas que durem até ao próximo encontro.

– Sim, meu querido, também quero ficar marcada. Mas para as marcas nunca desaparecerem o melhor era eu fazer uma tatuagem…

– E hás-de fazê-la, com as minhas iniciais.

Antes de responder, Mariana bebeu um gole de vinho.

– Hmmm, isso deixa-me louca… Louca para ser possuída outra vez pelo meu senhor…

– Primeiro vamos acabar de jantar. E desconfio que mesmo depois disso vais ter um bocado de trabalho para me provocar outra erecção.

O jantar foi rápido, e Mariana arrumou a cozinha num instante. Quando regressou à sala encontrou Ricardo sentado no sofá. Sem hesitação nem preliminares ajoelhou-se no tapete à frente dele, afastou-lhe para os lados as abas do robe e tomou-lhe o sexo na boca. Assim que sentiu bem rijo, atirou o roupão para cima do sofá deitou-se de costas no tapete:

– Anda…

Entre o momento em que saiu da boca da amante e o momento em que se colocou entre as coxas dela em posição de a penetrar, Ricardo quase perdeu a erecção: Mariana teve que o chupar de novo para que ele finalmente lhe penetrasse a vagina – com o pénis um pouco flácido, mas que uma vez dentro dela recuperou a rigidez dos embates anteriores. Estavam ambos bastante doridos, mas mesmo assim Ricardo possuiu Mariana sem hesitação ou demora, indo e vindo nela até que a viu ficar vermelha: primeiro a cara e depois o pescoço, o peito e os seios. Viu-a abrir a boca como se fosse gritar, ouviu-lhe a rápida e forte inalação de ar, cavalgou-lhe o frenesim urgente dos quadris e finalmente assistiu, empolgado, ao gozo da sua escrava: um orgasmo sumptuoso, uma convulsão sísmica que lhe soltou todas as energias acumuladas no corpo e na alma desde que ele a tinha mandado deitar no sofá duas horas antes.

O dia seguinte amanheceu com bom tempo. Algumas nuvens, poucas, juntavam-se ocasionalmente e faziam chover umas raras gotas de água. Ricardo e Mariana foram passear para junto do canal e dos moinhos de vento: ele de calças castanhas com vinco, pullover cor de mel, casaco de cabedal castanho escuro e chapéu de feltro, ela de saia comprida, blusa de seda e casaquinho vermelho. Almoçaram num pavilhão com vista para o canal, conversando sobre o fim de semana que projectavam passar em Paris quando o tempo estivesse um pouco mais quente.

Lá fora a relva estava húmida e muito verde.

– Apetecia-me descalçar-me e correr nesta relva – disse Mariana.

– E a mim apetecia-me mandar-te descalçar.

– Mas não posso, estou de collants e não posso tirá-los diante de toda a gente.

– De collants?! Na presença do teu dono?! Vais mas é já ao quarto de banho para os tirar, e de castigo não voltas a calçar-te hoje.

Mariana ainda alegou o frio, o incómodo, as pessoas à volta; mas acabou por obedecer, um pouco embaraçada no princípio, mas pouco tempo depois corria o jardim descalça com a singeleza impudente duma criança à solta. Ricardo não voltou a permitir-lhe que se calçasse nem no jardim, nem no caminho de casa. E se no jardim o espectáculo duma senhora bem vestida mas de pés nus pareceu banal a quem o viu, o mesmo não se passou percurso que mais tarde fizeram de braço dado nas ruas cheias de gente. Mas o garbo altivo de Ricardo desarmava os olhares e, comunicando-se a Mariana, convertia-lhe o pejo em euforia.

Jantaram pelo caminho. Quando entrou em casa Mariana levava os pés gelados. Mas antes de ir tomar um duche quente ainda se apresentou diante de Ricardo com uma bacia de água quente para lhe lavar os pés cansados, lhe calçar os chinelos, lhe servir uma bebida e lhe acender um charuto.

Depois de tomar duche não se vestiu, envolveu-se em véus transparentes e dançou para ele, tirando-os um a um.

Ricardo assistia beberricando o seu whisky e puxando uma fumaça ocasional. Só os olhos a rir denotavam a atenção com que seguia todos os movimentos da sua amada.

– Vem cá.

– Sim, mas ainda me deves um castigo – disse Mariana.

E Ricardo viu que sem ele notar ela tinha ido ao quarto buscar a vergasta vermelha e lha tinha posto ao alcance da mão.

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Victor chegou pontualmente às oito e vinte. Quando dunya ouviu a chave dele na porta, correu do quarto, onde se encontrava, para a sala, que era onde ele lhe tinha ordenado que o esperasse. Sabia que o slap slap apressado dos seus pés nus, impossível de confundir com qualquer outro ruído de passos, podia ser ouvido da entrada, onde Victor estava neste momento a pendurar o sobretudo e o chapéu.

A mesa estava posta para os dois, a comida estava pronta a ser servida e dunya estava vestida como ele tinha ordenado: pés e seios nus, mamilos pintados da cor dos lábios, cabelos soltos; um sarong preto com franjas compridas à roda das ancas, anéis tanto nos dedos dos pés como nos das mãos, bijuteria nos tornozelos, nos pulsos, no pescoço. Ajoelhou-se junto do sofá, virada para a porta da sala, como mandava o ritual, de modo que ele a visse imediatamente ao entrar.

– Baixa os olhos – ouviu-o dizer, ainda do vestíbulo.

Grata por Victor lhe ter lembrado esta regra e um pouco irritada consigo própria por ser preciso lembrar-lha, dunya baixou os olhos. Isto fez com que só visse do seu Senhor, quando ele se aproximou dela, as calças de bombazine pretas e as botas próprias para a neve. Não resistiu a erguer os olhos um pouco para lhe ver a zona da carcela: a protuberância por baixo do tecido denunciava o sexo erecto, e dunya sentiu-se enlanguescer ao ver que o amante tinha ficado excitado só de a ver.

Quis olhá-lo nos olhos e sorrir-lhe, ver a disposição dele, mas conteve-se. Via-lhe as mãos, primeiro a que ele lhe apresentou para beijar, depois a outra, a esquerda, onde ele segurava um pedaço de tecido preto que pareceu a dunya ser de seda ou cetim.

Quando ele se pôs por trás dela, dunya olhou de novo para o chão. Sentiu que ele lhe afastava os cabelos com a mão, viu num relance o tecido preto à frente do rosto.

– Fecha os olhos.

Victor nunca a tinha vendado antes. Porque o faria agora, precisamente agora, quando ela tinha tanto que fazer, o jantar para servir?

– Toca com a testa no chão.

Para obedecer, dunya ficou com o rabo empinado. Sentiu que o amante lhe levantava o sarong, lhe acariciava brevemente as nádegas e lhe inseria um dedo inquisitivo no sexo, que estava molhado.

– Levanta-te.

Com dificuldade, sem ver nada, pôs-se de pé. Victor ajudou-a e conduziu-a na direcção, pareceu-lhe, da mesa de jantar.

– Ajoelha-te. Senta-te sobre os calcanhares. Abre bem as pernas. Levanta a cabeça. Agora fica assim, não te mexas.

A venda estava bem posta e bem firme e não permitia espreitar por baixo. Dunya ouviu o amante a mexer na louça e nos talheres que ela tinha disposto sobre a mesa, dirigir-se à cozinha, mexer nos armários e no fogão. Ouviu os bifes que ela tinha temperado a grelhar na frigideira. Sentiu-o pôr nas travessas o puré, a salada, os bifes. Depois ouviu-o regressar e soube pelo cheiro que trazia a comida para a sala.

Soube que ele se estava a sentar à mesa pelo arrastar da cadeira.

– Chega-te para mais perto de mim.

Dunya obedeceu. Sentiu-o servir-se. Pensou: Vai ser assim, hoje? Até o privilégio de o servir me vai ser tirado? Mas não disse nada. Victor, pelo contrário, não parava de falar entre uma garfada e outra, chamando-lhe minha querida, minha escrava, minha cadela, e de vez em quando acariciava~lhe os cabelos com uma mão distraída. Dunya estava com fome mas não se atrevia a perguntar se podia comer.

– Abre a boca.

Era uma colher pequena, de sobremesa. Tinha puré. Passado algum tempo Victor chegou-lhe aos lábios, com as pontas dos dedos, um pouco de salada e depois, a intervalos, mais salada, pedacinhos de carne, colherzinhas de puré. Para beber, um ou dois goles de vinho, mais nada. Quando o sentiu levantar e o ouviu levar a louça para a cozinha, dunya ainda tinha fome.

Passado algum tempo ele sentou-se de novo

– Abre a boca.

Desta vez era fruta, que ele tinha descascado e partido em bocadinhos pequenos para lhe dar com os dedos. Dunya esticava o pescoço e os lábios na direcção em que lhe parecia estar a mão do dono e recebia em recompensa pequenos pedaços de comida que no fim a deixaram quase saciada, mais pela demora do que pela quantidade. Ora aqui está uma boa maneira de perder peso, pensou.

– Fica como estás.

Nesta parte da sala não havia tapete e os joelhos de dunya começavam a doer-lhe contra o chão de madeira. Mas apesar do desconforto ficou assim por largos minutos, talvez meia hora, talvez uma hora inteira: de joelhos, sentada sobre os calcanhares, a cabeça baixa, só a erguendo, como uma corça sobressaltada, para tentar seguir pelo ouvido o que o amante estava a fazer.

Primeiro ouviu-o a levantar a mesa, a lavar a louça, a arrumar a cozinha – tarefas que lhe competiam a ela, escrava, e que hoje estava proibida de desempenhar. Depois ouviu a água do duche a correr na casa de banho, os armários e as gavetas do quarto a abrir e a fechar. Por fim ouviu os passos de Victor, calçado não já de botas, mas com as babuchas de cabedal macio que trouxera de Marrocos. Com o sentido da audição aguçado pela falta de visão, ouviu como as palmilhas de couro lhe batiam levemente, ao andar, nas solas dos pés, e percebeu por este ligeiríssimo estalar que ele não trazia peúgas.

Sentia-o agora junto dela, quase encostado. Cheirava a sabonete e a dentífrico e trazia o roupão de cetim.

– Levanta-te. Anda comigo.

Com a mão na mão dele, seguiu-o às cegas para a casa de banho.

– Toma. Já tem pasta.

Era a escova de dentes.

– Toma o teu copo.

Dunya bochechou, escovou os dentes, bochechou de novo. Cuspiu a água para o lavatório. Sentiu Victor a abrir a torneira e a lavar a bacia, salpicando-a um pouco.

– Queres ir à sanita?

– Sim – disse dunya, que precisava urgentemente de urinar.

Victor conduziu-a à sanita, depois ao bidé, depois ao lavatório para lavar as mãos, e por fim de novo para a sala, onde a fez ajoelhar no tapete virada para o sofá.

– Apoia os cotovelos na almofada.

Dunya assim fez, e sentiu-o desatar-lhe o nó do sarong, deixando-a nua. A mão dele a acariciar-lhe as nádegas. Uma leve palmada. Outra carícia. Quis perguntar ao amante se ele a ia sodomizar, mas não se atreveu. Dunya nunca tinha sido sodomizada. Tinha ouvido dizer que doía muito.

– Pode doer muito, ou pouco, ou até nada. Depende de como eu fizer. Na altura decidirei – dissera-lhe Victor quando ela tinha ousado perguntar.

Mas quando ele parou de lhe acariciar as nádegas não foi para a sodomizar. De repente, sem aviso, dunya ouviu um silvo que tão bem conhecia e imediatamente sentiu uma dor atroz, como uma queimadura, nas duas bochechas do rabo. Deu um salto no lugar e não conseguiu evitar um grito.

– Quieta.

Dunya pôs-se de novo em posição e afundou a cara nas almofadas do sofá para não gritar. Tinha medo que os vizinhos ouvissem. Victor nunca a tinha punido assim de chofre; habitualmente começava por a acariciar com a vergasta, depois vergastava-a levemente e ia tornando os golpes gradualmente mais fortes.

Mas o pior não era isto, o pior era não ver, não seguir com os olhos os movimentos do amante, não controlar nada.

Uma segunda vergastada, mais acima. Dunya não conseguiu conter as lágrimas e sentiu como lhe empapavam a venda. E uma terceira, muito mais dolorosa, na parte superior das coxas, junto ao vinco das nádegas. Preparou-se para receber uma quarta vergastada, e uma quinta, se era assim que ele se queria servir dela hoje, era assim que ela o queria servir.

Mas não, as vergastadas pararam à terceira. A uma ordem de Victor, levantou a parte superior do corpo e recuou um pouco de modo a dar-lhe espaço entre ela e o sofá. Sentiu-o passar por ela, o cetim do robe roçando-lhe o corpo nu, e sentar-se diante dela com as pernas um pouco abertas.

Ia servir-se dela pela boca, então. Dunya respirou fundo, agora sabia o que fazer. Primeiro, a saudação necessária: inclinou-se para o chão, procurou às apalpadelas os pés do dono e começou a beijá-los lentamente, com um respeito infinito. Para os ver, não dispunha dos olhos, só das mãos, dos lábios e da língua. Por isso se esmerou ainda mais do que de costume em acariciá-los, em beijá-los, em lambê-los por entre os dedos.

Uma carícia dele deu-lhe a entender que a homenagem estava concluída; era altura de começar a dar-lhe outro tipo de prazer. Devagar, começou a beijar o amante pelas pernas acima. Admirou-se por não sentir o menor vestígio de impaciência e por a lentidão lhe ser tão agradável: era por não o ver, comprendeu. Para contemplar o corpo dele só tinha as mãos e os lábios e isto tornava necessário que cada centímetro quadrado de pele fosse acariciado e beijado. E apercebeu-se de que ele também não tinha pressa: a carícia que lhe fazia nos cabelos não era leve por displicência ou arrogância, como a que lhe tinha feito enquanto jantava, mas pelo propósito de não a distrair da sua tarefa.

Era estranho como o corpo dele, sentido com as mãos e com a boca, lhe parecia diferente do corpo visto com os olhos. Havia partes que lhe pareciam mais duras ou mais moles, superfícies mais ásperas e mais macias, refegos de pele mais fundos ou mais planos. A pouco e pouco dunya foi-se entregando toda à exploração do corpo de Victor, os lábios a e língua nos joelhos dele, nas coxas, nas virilhas, por fim no pénis, e as mãos erguidas para o peito como as duma suplicante.

– Agora, escrava.

Dum movimento só dunya engoliu o pénis do dono e começou a mover a cabeça para cima e para baixo, tendo o cuidade de não o tocar com os dentes. A venda, longe de lhe dar a ilusão de estar a chupar um pénis qualquer, permitia-lhe concentrar-se mais do que nunca nas características próprias que faziam do pénis de Victor tão reconhecível para ela como o rosto. E permitia-lhe também concentrar-se nos movimentos e carícias que tinha aprendido com ele e de que sabia que ele gostava: o lento deslizar dos lábios ao longo da haste, os chupões vigorosos na glande, a exploração com a língua da grossa veia de baixo, os movimentos à volta da glande, as pequenas estocadas na abertura da ponta.

Estava cansada, os múscuos do maxilar doiam-lhe, mas não queria parar. Sentiu a mão do dono na nuca e pensou que ele a quisesse acariciar ou forçá-la a engoli-lo ainda mais fundo – mas não, o que ele fez foi retirar-lhe a venda num movimento rápido.

Das luzes da sala, estava apenas aceso o candeeiro com a lâmpada mais fraca – mas que mesmo assim dava luz suficiente para que dunya visse, com os seus olhos habituados à escuridão, o membro viril que tinha diante dos olhos.

E foi como se o visse pela primeira vez. Cada pormenor, cada veia azulada, o rosado escuro e a prodigiosa macieza da glande; a não menos prodigiosa tesão que o arqueava para cima; a grossura invulgar; a cor de mármore; as rugas finíssimas; a pele delicada: o ligeiro pulsar; o modelado subtil das formas – tudo naquele momento contribuía para transformar o pénis de Victor em algo mais real que a realidade – um raio de luz, um ceptro de realeza ou divindade, um talismã.

Dunya sentiu que um êxtase a possuía; e foi neste êxtase que inclinou de novo a cabeça como quem diz uma oração; que o tomou de novo na boca como quem recebe um sacramento; e que o adorou com todo o seu ser até a boca e a garganta se lhe inundarem de luz e de esperma.

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Alguns dias depois, foi Doce-Amiga ao balneário do palácio. As outras escravas esmeraram-se em dar-lhe o melhor dos banhos. Lavaram-lhe as pernas, os braços, a cabeça; massajaram-na; usaram caramelo para a depilar; esfregaram-lhe almíscar puro nos cabelos; tingiram-lhe as unhas das mãos e dos pés; alongaram-lhe as pestanas e as sobrancelhas, sombreando-as; queimaram-lhe aos pés braseiros de incenso e âmbar, perfumando-a toda; depois, lançaram-lhe sobre o corpo uma toalha rescendente a flores de laranjeira e a rosas, envolveram-lhe os cabelos numa outra toalha, fumegante, e conduziram-na por fim à câmara que lhe fora reservada e onde a mulher do vizir, a mãe do belo Ali-Nur, a esperava.

O Livro Das Mil e Uma Noites.

Marta acordou quando Camila entrou no quarto e correu as cortinas.

“Venho ajudá-la a vestir-se. Vai estar muito calor, hoje.”

Ao passar pela jovem, que a esperava à porta do quarto de banho, Marta roçou-lhe ao de leve, com a sua carne nua, o blusão de couro eriçado de enfeites metálicos. Mais uma vez se surpreendeu ao notar-lhe a frágil estatura: a rapariga era tão enérgica e senhora de si que parecia maior do que realmente era. “A dois metros de distância,” pensou Marta, “parece tão grande como os meus filhos; mas ainda é mais pequena do que eu.”

Camila seguiu-a até à banheira. Não a deixou lavar-se sozinha: molhou-a e ensaboou-a toda com um sabonete que cheirava a folhas verdes, pôs-lhe shampoo no cabelo, três vezes, enxaguando bem de cada vez; depois secou-a, penteou-a, vestiu-a e levou-a ao dono, que a esperava na biblioteca.

Ali tomaram os três o pequeno almoço, servidos por uma grande rapariga submissa e loira, chamada Rosa, contratada temporariamente para o serviço doméstico. Duas grandes portas envidraçadas davam para o jardim. Assim que Rosa levantou a mesa e se retirou o amante de Marta fechou a porta.

“Agora quero ver-te bem. Caminha um pouco pela sala.”

Marta caminhou com a cabeça erguida, descalça como tinha vindo do quarto. Ao virar-se para o dono pôs as mãos na nuca, fazendo escorrer entre os dedos o cabelo, que tinha escuro e longo. Este movimento fez com que se erguesse o curto bolero que trazia, mostrando a parte inferior dos seios: não estavam tão bronzeados como o resto do corpo, e o azul das veias transparecia sob a pele dourada. O bolero era vermelho escuro, ricamente bordado a ouro. A saia tinha a cintura muito baixa, de modo que deixava a descoberto a maior parte do ventre; era uma peça cor de açafrão, quase transparente, que lhe chegava aos tornozelos. Debaixo do tecido, o triângulo muito escuro do púbis era apenas uma sombra entre outras, talvez a mais negra. O cinto que segurava a saia era feito de pequenas moedas de ouro.

Quando Marta alongou o corpo Camila reparou em como os músculos das costas se lhe moviam debaixo da pele, e não pôde deixar de se comover com as duas covinhas gémeas logo acima das nádegas, com o sulco ao longo da espinha. Miguel viu-a erguer os braços, e notou o requebro com que a sua escrava se lhe oferecia. O ventre distendeu-se com este movimento; um umbigo perfeito marcava-lhe o centro. Viu-a atirar a cabeça para trás num movimento de dança e pôr um pé para a frente, só com as pontas rosadas dos dedos a tocar no chão envernizado. A racha ao longo da saia abriu-se, descobrindo a coxa esquerda e revelando, à volta do tornozelo, uma argola de moedas iguais às do cinto.

A um sinal do amante Marta correu para ele, risonha, com um tilintar de moedas, e atirou-se-lhe nos braços numa brincadeira destinada a fazer-lhe perder o equilíbrio; mas ele agarrou-a e dançou com ela à volta da biblioteca, rindo e beijando-lhe a cara, e passando-lhe os dedos pelo cabelo. Depois despiu-lhe o bolero, fazendo-lho deslizar sobre a cabeça; e Marta ajudou-o erguendo de novo os braços. O rubor que a coloriu até aos seios devia-se tanto à excitação que começava a sentir como à consciência de que qualquer pessoa que passasse no jardim – a criada Rosa, ou o homem que vinha tratar das plantas – a poderia ver, assim nua, através das vidraças. Marta estava de costas para a varanda, e quando sentiu as mãos do amante sobre as nádegas soube que este gesto seria imediatamente visível a quem olhasse para dentro da sala.

Abraçado a ela, de pé, o amante afagou-a com a mão, começando nas nádegas e percorrendo toda a extensão das costas até à nuca, numa longa carícia. Ao segurar-lhe a cabeça sentiu sob os polegares a pele macia da face. Muito terno agora, quase hesitante – enquanto ela se lhe enlaçava, os braços à roda do pescoço, a boca suplicando beijos; e se erguia no bico do pé direito, tentando rodear-lhe a cintura com a coxa esquerda; e fazia tilintar as moedas que lhe pendiam do tornozelo, na tentativa de subir por ele acima – ele tacteava-lhe suavemente o rosto com as pontas dos dedos, como um cego, aprendendo-o todo, acariciando a textura de pêssego junto aos ouvidos, percorrendo o delineamento onduloso dos lábios. Marta tentava beijar-lhe os dedos, no ávido esforço de lhe reter o toque; e ele sentiu este apelo, mas ainda assim, com cruel deliberação, não demorou a carícia, nem aceitou os lábios que ela lhe oferecia. Em vez disso puxou-a para si abruptamente, desequilibrando-a. Susteve-a então nos braços; curvou-se para lhe beijar o pescoço; e chupou-lhe e mordeu-lhe a carne morena até a deixar coberta de marcas avermelhadas. Depois segurou-a pelos ombros e olhou-a nos olhos:

“Tira o resto da roupa,” ordenou. “Deixa ficar a corrente que tens no tornozelo.”

Quando a viu nua abraçou-a de novo. Com os dedos abertos de uma das mãos segurou-a pela cinta; a outra estava-lhe assente nas nádegas, puxando-lhe o corpo de encontro ao dele.

Marta procurou obedecer a esta pressão apertando-se contra ele ainda com mais força; depois libertou-se gentilmente e ajoelhou-se para o despir. Quando terminou ergueu-se de novo de encontro ao amante, que pôde finalmente sentir-lhe o corpo sem impedimento: a dureza das costelas no fundo do tórax; a firmeza elástica do ventre; e o mais macio de tudo, a ternura absoluta dos seios.

Como um gato que brinca com a presa capturada antes de a consumir, assim o amante de Marta se pôs a brincar com ela. Beijou-lhe a boca de fugida, primeiro num dos lábios, depois noutro, depois na comissura dos dois, e depois várias vezes no mesmo sítio. De vez em quando, subitamente, enrolava a língua na dela, mas antes que ela conseguisse corresponder já ele tinha voltado à tarefa minuciosa de lhe beberricar beijos à roda da boca. Ao mesmo tempo esticava o braço para baixo, por trás do corpo dela, apalpando-lhe as nádegas e procurando, apesar da diferença de estaturas, introduzir-lhe a mão entre as coxas. Embora ela se erguesse em bicos de pés para o ajudar os dedos dele não conseguiam chegar-lhe ao sexo: ficou-se-lhe a carícia pelo rego macio entre o ânus e a vagina.

Para Marta, este afago era delicioso. Era também tantalizante: a qualquer momento, pensou, ia conseguir despojar-se do seu próprio peso, que a prendia ao chão, e flutuar ao encontro do amante. Parecia-lhe que estava quase a conseguir; quando chegasse lá acima ia enfim sentir-lhe a carícia dos dedos no clitóris, e a boca, finalmente firme, contra a sua.

Por fim ele decidiu curvar-se para a beijar de vez, num trago fundo e prolongado que lhes matasse a sede aos dois. Sentiu os lábios femininos que se abriam para ele e comprimiu-os com os seus, e delineou-os firmemente com a língua antes de lha introduzir profundamente na boca.

Finalmente.

O tempo tinha parado. Sentada numa poltrona, Camila olhava os dois amantes, com um livro esquecido no regaço. Uma ligeira brisa matinal soprou da janela, perturbando a imobilidade das cortinas e acariciando-lhes os corpos nus. Um perfume seco, estival, a carqueja e glicínias, insinuou-se na sala. A boca de Marta parecia querer fundir-se, de tão macia, na do amante; ao beijar-lhe os lábios, ele teve a sensação que a ia sorver toda num hausto, que ia encher os pulmões com a sua substância; que o corpo da fêmea se tinha tornado desprovido de peso e que se estava a transformar numa espécie de nuvem, num fluído cor de carne, morno, tangível, inebriante, e que este fluído o ia permear todo.

Marta trepava por ele e à roda dele, erguia-se para ele como um perfume, um farrapo de fumo, um génio saído de uma lâmpada, até que acabou por lhe fazer sentir na ponta do pénis a maciez húmida dos lábios vaginais, que o beijavam famintos. Tinha conseguido subir o suficiente: podia agora deixar-se descer de novo, lentamente, empalando-se no sexo erecto com um único, continuado movimento. Durante a penetração não interromperam o beijo. Ele, carregado com ela e de pé, mal se podia mexer; e ela começou a rolar suavemente as ancas de modo a compensar-lhe a incapacidade de executar o vaivém regular e ritmado de que ambos precisavam.

Cansados deste esforço, e sem fôlego devido ao beijo, acabaram por ter que se apartar. O pénis estava tão rígido, e a vagina de Marta tão apertada à volta dele, que quando ele a deixou Camila ouviu um pequeno som molhado, plop, como o desrolhar de uma garrafa. Com uma ligeira palmada nas nádegas nuas de Marta, o amante conduziu-a em direcção uma grande mesa de trabalho junto à janela:

“Anda depressa.”

Fê-la deitar-se atravessada sobre o tampo da secretária, os seios achatados contra a frescura do vidro, pernas abertas, os pés fincados no chão. Quando o amante lhe segurou os pulsos, Marta disse: “Vais amarrar-me.” Como se tivesse estado à espera desta deixa, Camila tirou de uma gaveta quatro grossos cordões de seda vermelha.

“A pequena sabia,” pensou Marta. “Sabia exactamente onde estavam as cordas.” Este pensamento fez com que lhe esmorecesse a excitação. O que lhe estava agora a acontecer obedecia talvez a uma encenação concebida noutro tempo e noutro lugar. Tudo à sua roda, a sala aprazível, a brisa suave, ganhou os contornos de um cenário, de um mundo irreal e distante onde talvez a mesma representação se viesse repetindo desde há muito.

Como num sonho, sentiu que o amante lhe atava os pulsos e os tornozelos às quatro pernas da secretária. Para fazer isto, ele teve que lhe passar pela frente mais do que uma vez, com o pénis rígido ao nível dos olhos dela. Marta via-lhe claramente a ponta rosada, as veias perto da superfície, os sucos que ela própria produzira e que o cobriam como um verniz ainda húmido. Virando a cabeça para o lado podia ver um dos cordões vermelhos que a prendiam; e lembrou-se doutra ocasião, em Brugges, quando ele lhe tinha amarrado os pulsos com as fitas de seda vermelha que ela própria lhe oferecera.

O dono montou-a por trás. Desde o primeiro contacto, logo que a glande lhe tocou no sexo, Marta acendeu-se no mais estranho dos orgasmos: um clímax lento, um fogo subterrâneo que lhe pareceu prolongar-se por várias horas, mas que na realidade só durou o tempo em que ele a possuiu. Impedida, pelas cordas que a prendiam, de ver o amante, contentou-se com escutar-lhe os sons do prazer. E foi com alegria – mas as cordas, como é que Camila sabia – e com um sentimento de triunfo – e quantas outras mulheres – e finalmente com uma espécie de êxtase, que ela lhe sentiu o apressar do fôlego, e lhe ouviu a voz enrouquecer de excitação, e suportou finalmente os últimos embates impiedosos que lhe comprimiram o ventre contra a dureza do vidro.

O amante de Marta sentiu o seu próprio orgasmo avolumar-se-lhe nas raízes do corpo. A posição em que estava não lhe permitia beijá-la na boca, mas ainda tinha nos lábios a memória do beijo violento que tinham trocado antes. Ainda sentia o sabor da boca da mulher, levemente salgada por uma gota de sangue. Sangue dele ou dela? Os aromas do sexo combinavam-se com o cheiro a sabonete do chuveiro matinal. Tanto a pele dela como a dele estavam molhadas e escorregadias nos pontos de contacto, secas e macias onde só as tocava a brisa do jardim. Por trás de Marta, olhando-a, viu-a abanar a cabeça para a esquerda e para a direita num gesto de recusa ou avidez; e pareceu-lhe que o corpo dela estava a reagir aos impulsos nervosos do seu próprio cérebro, que os gestos dela exprimiam o seu próprio avassalamento perante a enormidade das sensações que o invadiam – sim agora é agora, sim, não, ainda não; sim. Sim! – e os sons que ela produzia, de dor ou prazer, tornavam-se os únicos sons do mundo, e estes sons de fêmea corriam para dentro dele e inundavam-no, e enchiam-no até a pressão se tornar quase intolerável, e finalmente derramavam-se para fora dele, transmutados na sua própria voz, no seu próprio esperma: como se o ar que se lhe escapava num largo sopro pela laringe, e o líquido que lhe corria incontido pelas raízes do corpo, fossem o mesmo fluído torrencial e ingovernável.

Marta mal notou que o dono a desamarrava. Da biblioteca passava-se por uma porta para um pequeno quarto de banho, para onde ele a conduziu. Com a assistência de Camila, o amante ajudou-a a lavar e a secar. No fim levaram-na os dois para um grande sofá e sentaram-se junto dela, um de cada lado: ele tinha-se vestido, e Camila trazia, como sempre, as suas calças de ganga preta, blusão de cabedal, e botas. Durante quase uma hora Marta permaneceu nua entre os dois, quase sem falar, a ouvir-lhes a conversa e a responder-lhes às carícias, e sentindo no corpo – mas só ela é que o sentia – o leve sopro de Verão que entrava pelas janelas.

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