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Posts Tagged ‘vergasta’

– Não sei se me poderás domar…

Esta frase, meio desafio e meio apelo, dissera-lha a noiva no dia em que a pedira ao pai, no ano longínquo de 1959. Tal como ele, Helena pertencia a uma das famílias mais proeminentes da vila, mas não faltara quem o tentasse dissuadir do enlace. As comadres, sempre ciosas dos bons costumes, viam na filha do notário uma liberdade nos modos, uma sensualidade no olhar e nos movimentos, que lhes despertavam as piores suspeitas.

– Sabe muito… – rosnavam.

– Passa a vida no café…

E se alguém lhes objectasse que Helena, quando entrava no café da vila, ia sempre acompanhada pelas suas colegas do Magistério Primário, não desarmavam:

– Já foi vista a fumar, em Braga… Também o pai, é do reviralho, deve ensinar-lhe essas liberdades.

O pai de Helena, tal como o de Bernardo, estava, com efeito, conotado com a oposição a Salazar; mas enganava-se quem supusesse que ao seu liberalismo político correspondia um igual liberalismo de costumes. Pelo contrário, inquietava-se com o comportamento da filha e com os zunzuns de cujos ecos se apercebia.

Não assim os Santaclara, salazaristas fiéis, no que respeita os filhos homens. Como proprietários rurais, excediam em fortuna a família de Helena somada à de Bernardo; mas nunca nenhum deles, apesar de várias gerações terem passeado por Coimbra a sua bravata, se tinha chegado a formar. E se o filho mais velho participava na administração das propriedades familiares, já o mais novo, Leandro, empregava o seu tempo em caçadas e arruaças, nos bordéis do Porto, e na perseguição às moças da terra.

Mas disto tudo, no seu regresso a Coimbra depois de pedir Helena ao pai, Bernardo só pensava nas palavras da noiva. Porque precisaria Helena de ser domada? Nada nela indicava uma natureza selvagem, apenas uma natural vivacidade que a ele o atraía. Adolescente ainda, Bernardo tinha visto no circo um homem que tirava, com um chicote comprido, o cigarro da boca de outro; e não descansara enquanto não aprendera a manejar esta arma com a mesma destreza. Começara por procurar o próprio artista, que, depois de o avisar que o chicote que usava era uma arma letal, não se recusara a vender-lhe um dos que tinha de reserva nem a dar-lhe as primeiras lições. Depois tivera que se ensinar a si próprio, treinando horas infinitas até transformar o chicote de três metros numa extensão do seu próprio braço e dos seus próprios dedos. Ao falar em ser domada, Helena fizera com que se estabelecesse no espírito do noivo uma ligação incómoda entre esta expressão e aquilo que nunca passara, para ele, duma habilidade de circo e de um desporto.

Nem pensou no chicote quando as cartas de Helena começaram a rarear e a apresentar um certo tom de desafio ou menosprezo. Mas veio-lhe imediatamente ao espírito quando alguém veio propositadamente a Coimbra para o avisar que Helena era vista frequentemente no café com Leandro e que este se gabava junto dos amigos de se ter já gozado dela.

– Não gozou, não… Eu conheço a Helena.

– Também penso assim – respondeu-lhe o amigo. – Mas também sei como ela é insatisfeita com a vida da aldeia, e como gosta do perigo. E o Leandro é perigoso que chegue para a atrair… Anda a dizer que se apareceres por lá a desafiá-lo te enfia, desculpa, uma bala nos cornos.

Nesse mesmo dia Bernardo despiu a capa e batina, envergou o fato com que viajava entre a vila e Coimbra e meteu-se no automóvel que o pai lhe tinha oferecido por completar com distinção o terceiro ano de Direito. Chegado à vila, perguntou por Helena. Estava no café. E acompanhada de Leandro, conforme Bernardo verificou ao entrar, de chicote na mão, neste estabelecimento.

– Com que então, gozaste-te da minha noiva – disse Bernardo.

– Eu nunca disse isso – defendeu-se Leandro, enquanto Helena olhava para ele como se o visse pela primeira vez.

– E enfiavas-me uma bala nos cornos… Tens aí com quê?

– Eu nunca disse isso…

– Se não tens, arma-te e anda ter comigo cá fora. Helena, já para o meu carro.

Leandro estava armado, com efeito, mas nunca se tinha servido do revólver para outra coisa que não fosse tiro ao alvo: latas, garrafas, cães  vadios e uma vez, bêbedo, um relógio de parede no café. Saiu para a praça com a arma na mão, nauseado com a ideia de ser obrigado a um duelo. Quando viu que Bernardo não tinha à vista mais que o chicote, apontou tão atabalhoadamente que o tiro foi atingir um dos bebedouros do jardim central, fazendo com que um repuxo de água se erguesse no ar e encharcasse os circunstantes.

Bernardo, por sua vez, só tinha utilizado o chicote em alvos inanimados, mas manteve o sangue-frio suficiente para enrolar o chicote no braço direito de Leandro e puxar, fazendo-o largar a arma. Depois, de cada vez que o outro se baixava para a apanhar aplicava-lhe um golpe nas costas que o desequilibrava e lhe rasgava a roupa, tingindo-a de sangue a pouco e pouco. Quando se cansou deste jogo, fez com que a ponta do chicote se enrolasse na pistola e puxou-a para si, segurando-a na mão esquerda.

– Não dispares, Bernardo! Não o mates! Não te desgraces, homem! – ouviu gritar de todos os lados.

Mas não era sua intenção matar Leandro. Com um golpe final de chicote retalhou-lhe a face esquerda, cortando tão fundo que lhe deixou os dentes à vista.

– Levem esse desgraçado ao hospital para o coserem, antes que sangre como um porco – ordenou. – Duma bela cicatriz já não se livra.

E enquanto os colegas de farra do adversário, que não o tinham defendido antes, se precipitavam agora para o socorrer, Bernardo voltou-lhes as costas e dirigiu-se ao automóvel onde Helena o esperava, encolhida no extremo do banco corrido. Tomou a estrada alcatroada que conduzia para fora da vila, virando logo a seguir para o caminho de terra batida que levava a uma das quintas da família. Helena, que sabia a casa abandonada e meio em ruínas, arriscou uma pergunta:

– Também me vais chicotear?

– Com este chicote? Não. Retalhava-te toda.

Ao chegar ao portão meio coberto de silvas, parou o carro e tirou o bolso um canivete suíço, que abriu numa lâmina com dentes como uma serra.

– Descalça-te e vai cortar uma vergasta naqueles bambus.

– Descalça porquê?

– Por penitência.

– Quer dizer que ainda me queres?

– Veremos. Vai lá.

No interior poeirento da casa, Helena sentiu-se tão incapaz de recusar o abraço de Bernardo como seria incapaz de recusar o castigo. Quando sentiu a mão dele levantar-lhe o vestido e insinuar-se-lhe entre as coxas, abriu um pouco as pernas; mas ele só lhe afastou as calcinhas para o lado para se certificar que estava molhada e para introduzir o dedo até onde foi possível.

– Bom. Ainda estás virgem.

– Perdoa… – murmurou Helena.

– Por estares virgem?

– Por te ter levado a pensar que….

– E virgem vais continuar, até casarmos.

Mas mandou-a despir para o castigo. Tomada duma vertigem, Helena obedeceu. Quando ele terminou, mandou-a vestir e levou-a para casa. À ansiedade dos pais dela respondeu com a exigência de que a fizessem examinar por uma parteira para determinar se estava virgem. À saída da mulher, chamou-a de parte, passou-lhe discretamente para a mão uma nota de quinhentos escudos e murmurou-lhe ao ouvido:

– A quem lhe perguntar, Dona Ermelinda, conte o que viu, mas não tudo o que viu. Está-me a entender?

A mulher acenou que sim. As vergastadas no corpo de Helena ficariam em segredo. Mas Bernardo sabia que ela daria a entender a toda a gente, por alusões e silêncios, que ele não era homem para sofrer vexames.

Faltava combinar o casamento. A sós com Helena, Bernardo ordenou:

– Quando fores combinar a data com o padre, vais confessar-te. Vais pedir-lhe a absolvição pelo escândalo que provocaste e vais pedir-lhe que te dê a penitência de casar descalça.

– Descalça, Bernardo? Vou morrer de vergonha!

– Não vais. Quando chegar o dia, já toda a vila se terá habituado à ideia. Ou pensas que a modista vai guardar segredo, como o padre?

– Está bem… Mas vou de branco, não vou? Isso ainda mereço…

– De branco, e de flor de laranjeira.

Na noite de núpcias, antes de a penetrar, Bernardo avisou:

– Vai doer.

– Tanto melhor – respondeu Helena. E depois de ele gozar nela:

– Tua escrava… Meu Senhor.

Agora, passados mais de cinquenta anos, recordando isto tudo, Bernardo sorriu. Quase todas as personagens desta história tinham já morrido: Leandro, a parteira, o padre, a modista, os pais de Helena. A própria Helena, seu único amor. E a ele poucos meses restavam de vida: se se cumprisse a promessa do médico, em breve se juntaria a ela.

Durante décadas, os filhos e os netos tinham encarado com naturalidade o hábito de Helena andar sempre descalça em casa. E os vergões da vergasta, frequentemente renovados, tinham permanecido o seu segredo de amantes.

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Arminda tinha a chave do apartamento da filha, mas raramente lá ia sem ela lá estar, e nunca sem autorização. Um dia, Joana pediu-lhe que passasse por lá e lhe levasse uma pasta que lá tinha; depois, quando jantassem as duas, poderia entregar-lha, evitando assim que ela tivesse ir a casa primeiro.

– Depois de jantar ainda vais para a Faculdade?

– Tenho que ir – respondeu Joana. – Há uma coisa que tem que ficar pronta ainda hoje.

Arminda pegou na pasta e já vinha a sair quando uma curiosidade súbita a levou a voltar para trás e ir espreitar o quarto. E viu, sobre a cama, uma vergasta. Era vermelha, revestida dum tecido que parecia o das velas dos barcos. O punho era de cabedal preto, em tiras entrançadas. Na ponta tinha outra tira de cabedal, dobrada sobre si própria. Estava atada a meio com uma fita de seda preta que formava um laço e a identificava como um presente.

O laço foi o que mais a chocou.

Conduziu o carro até casa tentando controlar o batimento do coração, concentrando-se no trânsito, tentando imaginar toda a espécie de explicações inocentes para o que tinha visto; mas não conseguiu imaginar nenhuma.

– Ouve lá – disse à filha, mal ela lhe entrou em casa. – O que é aquilo que estava em cima da tua cama?

Joana nem se deu ao trabalho de perguntar à mãe com que direito lhe tinha ido meter o nariz no quarto.

– É uma vergasta, mãe – respondeu serenamente.

– Que é uma vergasta, sei eu. O que não sei é o que está a fazer uma vergasta em cima da tua cama. Foi o Rui que ta deu?

– Não, mãe; eu é que a vou dar ao Rui.

Arminda retirou-se de rompante para a cozinha. A filha seguiu-a e começou a ajudá-la em silêncio.

– Nunca pensei que o Rui tivesse essa tara de ser vergastado. Nem nunca pensei que uma filha minha se prestasse a essas poucas-vergonhas.

Joana suspirou. Não devia ter deixado a vergasta tão à vista, mas a verdade é que nem sequer se lembrara. Alguma vez teria que ter esta conversa, mas não esperava tê-la tão cedo; e era muito difícil.

– O Rui não gosta de ser vergastado, mãe. Quem vai ser vergastada, sou eu.

Pronto, está dito, pensou; agora, seja o que Deus quiser.

Arminda voltou-se para ela, desvairada:

– Eu, nunca! Nunca, ouviste?! Nunca admitiria que o teu pai me pusesse um dedo em cima!

– Nem ele o faria, mãe.

– Lá nisso, tens tu razão! O fulano pode ser uma besta e um sacana, mas nunca me tocou!

– Ao passo que o Rui, que está longe de ser uma besta ou um sacana, é perfeitamente capaz de me dar meia dúzia de vergastadas no rabo.

A Arminda, no estado emocional em que estava, estas palavras da filha pareceram dum cinismo atroz. Remeteu-se a um espesso silêncio, que só foi quebrado quando a filha lhe disse que Rui lhe tinha proposto viverem juntos e ela aceitara.

– Ai sim? Felicidades – respondeu Arminda, secamente.

Joana suspirou e tentou conciliar a mãe.

– O pai nunca te bateu, e ainda bem. Tu nunca o admitirias. A mim, também não. E se calhar, algumas vezes, fez mal em não me dar umas palmadas.

Arminda voltou-lhe as costas e encolheu os ombros, recusando aplacar-se. As palmadas de que a filha precisara em criança, tinha-lhas dado ela; mas com uma criança é diferente, pensou.

– Até amanhã, mãe – disse Joana ao sair.

– Até amanhã.

Só muito depois é que ocorreu a Arminda que as palmadas que dera à filha, por justas e necessárias que fossem, tinham sido dadas a uma criança que não se podia defender, e que nunca tinha consentido nelas; mas que Joana, adulta, não só se sabia defender muito bem, como era competente para dar o seu consentimento. Nessa noite não dormiu, consumida por uma ira tumultuosa contra a filha, contra Rui e contra si própria.

Voltou a nunca se encontrar com Rui nas tertúlias semanais, mas desta vez não ocultou às suas amigas a animosidade que nutria contra ele e a filha: só lhes ocultou, por muito tempo, o motivo dessa animosidade. Rui, por seu lado, começou a aparecer com menos frequência, por vezes acompanhado de Joana, que algumas amigas da mãe conheciam desde criança. Nunca deram mostras de retribuir a amargura de Arminda; nunca revelaram o seu motivo, nem fingiram que não o conheciam; nunca deixaram que as outras senhoras pensassem que ela tinha ciúmes; e nunca permitiram que alguém lhe atribuísse as culpas pela desavença. Arminda não tinha razão, mas tinha as suas razões, que eles compreendiam; não tencionavam voltar atrás nas suas decisões pessoais – que não disseram quais eram – mas esperavam que um dia Arminda as aceitasse e se reconciliasse com eles. Em suma: a cabra que havia em Joana aflorava cada vez menos à superfície, e as amigas da mãe não sabiam se deviam atribuir isto a hipocrisia ou à influência de Rui.

Os meses seguintes foram dedicados, por parte de Joana, à minuciosa aprendizagem dos ritos e das regras da sua nova condição. Nesta aprendizagem encontrava, por vezes, prazeres novos e imprevistos; mas também humilhações que lhe seriam insuportáveis senão tivesse decidido, teimosamente, levar até às últimas consequências a experiência iniciada e o compromisso assumido. Descobrira, com surpresa, que o castigo físico a afectava pouco: não lhe dava prazer, mas só era difícil de suportar enquanto durava. Submeteu-se a ele desde o início e nunca recusou deixar-se manietar para o sofrer. Custou-lhe muito mais submeter-se a actos que a humilhavam ou embaraçavam, sobretudo perante terceiros. Também lhe custou muito a habituar-se a ordens ou a regras cujo propósito não compreendesse e às que lhe parecessem caprichosas ou fúteis. Rui nem sempre se explicava:

– Basta que seja este o meu prazer – dizia, por vezes, quando ela o questionava.

Joana começou a compreender que qualquer ordem ou regra, mesmo que aparentemente não tivesse sentido nem propósito, servia ao menos para lhe lembrar que estava sujeita ao prazer de Rui.

Mas o que mais lhe custou, de longe, a ponto de quase a fazer desistir, foi perder o direito de escolher as suas próprias roupas. Não é que Rui tivesse mau gosto, mas tinha um gosto diferente do dela; e ao transitar lentamente do seu estilo, que era o da profissional competente, para o estilo boémio construído por Rui, sentia que estava a perder identidade. Quando confessou isto a Rui, ele respondeu:

– Essa identidade que estás a perder é falsa; essa mulher não és tu.

Quando Joana ouviu isto, a cabra veio à superfície:

– E tu é que sabes quem eu sou, suponho?! A identidade que me deres é que é verdadeira?!

– Se não for verdadeira – respondeu Rui, placidamente – havemos ambos de nos dar conta disso, e bem depressa. Estaremos a tempo de construir outra. O que te posso garantir, é que essa outra não obedecerá a qualquer convenção pré-fabricada.

– E a tua vontade? E o teu prazer?

– Serão determinantes, é claro – disse Rui. – Não serás só o que já és, serás também o resultado da educação que eu te der.

Por muito brutais que estes propósitos parecessem a Joana, tinha que reconhecer que a primeira coisa que dissera a Rui – que dissera à mãe, para ser mais exacta – é que precisava de quem a educasse.

Este mesmo período foi, para Arminda, de lenta reconciliação com a filha. Por mais que o não quisesse ver, não podia deixar de notar que Joana andava melhor: mais serena, mais feliz, mais segura de si e menos agressiva. Mantinha a animosidade contra Rui: em parte por teimosia, em parte por ciúmes, em parte pela ideia de incesto que a relação, irracionalmente, lhe sugeria; mas também porque não conseguia suportar a ideia de ver a filha maltratada e humilhada às mãos de um homem de quem fora amiga e que sempre se lhe apresentara como gentil e inofensivo.

– E é mesmo gentil, mãe – dizia-lhe Joana. – Gentil, honesto e justo. Inofensivo não é, certamente: mas quanto a isto, foi ele que te iludiu, ou tu que te iludiste?

Foi muito a custo, e ao fim de muita insistência, que Arminda aceitou encontrar-se com a filha e com Rui em casa deste. Não se surpreendeu por Joana a receber descalça: numa das raras ocasiões em que, vencida pela curiosidade, sondara a filha sobre pormenores da sua vida, ela contara-lhe o que os pés nus simbolizavam e as ordens que tinha de nunca se calçar em casa. Recordava-se da tendência que Joana tivera, em criança e adolescente, de se descalçar sempre que podia; e de como ela tinha reprimido esta tendência, a ponto de a filha ter interiorizado a sua aversão a andar descalça e se ter habituado, como ela, a nunca sair da cama sem enfiar os pés nuns chinelos. Agora, ao obedecer a Rui, Joana estava finalmente a desobedecer à mãe; e esta não deixou de se aperceber deste facto.

Arminda cumprimentou Rui com alguma distância, distância esta que ele respeitou, embora deixasse claro que estava na disposição de a transpor. A casa pareceu-lhe decorada totalmente à homem: não notou a mão da filha em nenhum pormenor. Na sala, Rui convidou-a a sentar-se no sofá.

– Fica aqui com o Rui, mãe – disse Joana. – Eu vou buscar uma bebida.

Quando Joana regressou com três copos de vinho branco num tabuleiro, Arminda deu-se conta, de repente, que sempre tinha sido ela a servir a filha à mesa, e que mantivera este hábito mesmo depois de ela se tornar adulta. Rui agradeceu e fez sinal com os olhos a Joana que se sentasse no sofá ao lado da mãe, que ficaria assim entre os dois.

– Tenho uma notícia a dar-te, Arminda – disse Rui. – Vou casar com a Joana.

Arminda, que era cada vez mais contra o casamento como instituição e não desejava ver a filha mais presa a Rui do que já estava, não ficou contente com a notícia.

– E para que é que vão casar? – perguntou. – Não estão bem como estão? Para que querem vocês um papel passado?

– O papel não é importante – disse Rui. – O que é importante, para mim, é ter alguém a quem deixar o que é meu. Se eu morresse agora, iria tudo para os meus sobrinhos do Canadá, que mal conheço, e a Joana ficava a ver navios. Acho que tenho o direito de deixar as minhas coisas à pessoa de quem gosto.

Contra isto não havia argumentos, pensou Arminda. E a naturalidade com que Rui tinha falado em gostar de Joana… Sentiu um impulso de simpatia para com ele, mas logo o reprimiu: nunca fora interesseira e não queria sê-lo agora. Mas Joana não tinha nada o ar de se estar a sacrificar por dinheiro. Pelo contrário: ao olhar para ela, Arminda notou-lhe um ar resplandecente que a levou a perguntar, tomada duma súbita suspeita:

– Por acaso não estarás grávida?

Joana deu uma risada franca, como Arminda não lhe ouvira havia muito tempo:

– Grávida, mãe?! Não, está descansada. Por enquanto, o Rui e eu queremos ser só dois.

E se a filha estivesse grávida, que mal teria isso? Com um filho em casa, pensou Arminda, não se poderia entregar tão livremente a jogos eróticos que a mãe nem queria imaginar.

– Vê lá, não adies muito. Olha que já não és uma criança, e o tempo passa.

– Terei isso em conta – disse Rui.

Está a informar-me, pensou Arminda, que a decisão será dele. O impulso de simpatia que sentira começou a desvanecer-se. Mas também me está a informar que está disposto a dar à Joana o que ela sempre quis. O ex-marido de Joana nunca quisera filhos, e esta tinha sido uma das causas do divórcio.

– E vou deixar de trabalhar – disse Joana. – Já apresentei o meu pedido de exoneração.

Ah, não. Isto, não. Deitar fora anos de estudo e de formação profissional?! Abortar uma carreira que mal começara?! Ficar na dependência dum homem?!

– E o que és que vais fazer? Vais passar o resto da vida a estupidificar no meio dos tachos e das panelas?

– Ora, ora, mãe – disse Joana. – Sabes muito bem que nunca gostei do meu trabalho; e sabes que hoje em dia, no nosso país, para uma pessoa da minha idade, não há carreiras, só há empregos, e precários ainda por cima. Tu vais-te reformar quando fizeres sessenta anos; eu reformo-me aos trinta, é tudo. E não vou estupidificar, vou viajar com o Rui pelo mundo todo.

Durante o jantar, Arminda não parou de oscilar entre sentimentos contraditórios. Pedro, um homem trabalhador e pacato, que parecera ter todas as condições para fazer a filha feliz, fizera-a profundamente infeliz; Rui, que parecia ter tudo para a destruir e anular, fazia-a resplandecer; a filha parecia que estava a deitar fora tudo o que a geração de Arminda tinha conquistado para as mulheres, e no entanto dava mais a sensação de estar a ganhar terreno que a perdê-lo. Tudo isto era demasiado para ela assimilar rapidamente, mas teria que o assimilar sob pena de ficar isolada num mundo que deixara de compreender. Não é por aí que vou ficar velha, decidiu; e foi a partir desta decisão que começou a dar o benefício da dúvida a Rui e à filha.

Recomeçou a comparecer na tertúlia nos mesmos dias que Rui. As amigas foram convidadas para o casamento. A pouco e pouco, foi-lhes permitido que se apercebessem da natureza da relação entre Rui e Joana, e isto deu lugar a semanas de debate.

– Se é assim que eles querem, deixá-los – decidiu por fim a mais velha, que era madrinha de Joana.

É claro que não foram felizes para sempre. Tiveram doenças, tiveram conflitos, tiveram que enfrentar a velhice; dos dois filhos que Rui fez a Joana, um deu-lhes problemas muito graves durante a adolescência; e Rui, quando morreu, deixou na vida muitas pontas soltas que Joana teve de atar sozinha. Por outro lado, enquanto viveram, nunca se arrependeram de terem decidido ser senhor e escrava. Se morrer sem arrependimento é a única vitória possível do homem sobre a vida e sobre os deuses, a vida deles foi um êxito total.

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Cap. 33: NO LIMITE

Nas semanas seguintes, Ana e Miguel tornaram-se frequentadores do Justine, primeiro na companhia de Raul e Teresa, depois, muitas vezes, sozinhos. Conversando com as pessoas que conheceram, depressa se aperceberam que o compromisso absoluto de Raul e Teresa era muito mais radical do que era costume no meio. Não era uma questão de mais submissão ou menos submissão, mais dor ou menos dor, mas daquilo em que cada um centrava os seus desejos e a sua ideia de felicidade. Antes de frequentarem o Justine, Ana e Miguel pensavam que, quando uma pessoa submissa encontrava uma pessoa dominante, a história tinha chegado mais ou menos ao fim: pouco mais restava do que serem felizes para sempre. Verificavam agora que isto estava longe de ser o caso: era difícil encontrar o dominante certo para o submisso certo, e no Justine, como em qualquer outro lugar, não faltavam corações partidos. Aprenderam também a tolerância, uma vez que os centros do desejo eram quase tantos como as pessoas à sua volta: para uns a moda e o fetiche, para outros a dor física ou a humilhação, para outros a restrição de movimentos, para outros a entrega – que não era a mesma coisa que dádiva; alguns praticavam a monogamia mais estrita, outros viam a expressão máxima do domínio na cedência a terceiros do submisso ou da submissa, sem lhe permitir qualquer escolha quanto à identidade, quanto ao número, ou quanto ao sexo, da pessoa ou pessoas a quem temporariamente servia.

Quase sempre os centros do desejo eram múltiplos, o que tornava tudo ainda mais complicado. Miguel e Ana estavam convencidos que eram o dominante certo para a submissa certa, mas nem por isso deixaram de beneficiar do convívio que tiveram com outros frequentadores do bar. Não os surpreendeu a adesão quase fanática de todos a uma ética muito rígida e muito simples que se exprimia na máxima “safe, sane and consensual”: uma regra como esta era necessária num meio em que se cruzavam personalidades e desejos tão diversos, e era uma boa base para que a comunidade pudesse organizar uma rede informal mas eficaz de protecção mútua contra predadores e psicopatas.

Raul e Teresa eram menos assíduos. Quando ia ao Justine, Teresa costumava levar, enfiado na vagina, o primeiro óvulo de controlo remoto que Raul tinha adquirido. O óvulo mais recente, operado por telemóvel, nunca era usado no Justine e raramente noutros lugares: só algumas vezes, quando Teresa ia às compras ou encontrar-se com amigos e familiares. No Justine, Teresa estava sempre consciente que, estivesse a fazer o que estivesse – a falar com outros frequentadores do clube, a arranjar-se nos lavabos, a trazer uma bebida ao dono, a qualquer momento se poderia desencadear no interior do seu corpo, sem aviso, aquela vibração que para a sua sensibilidade continuava a misturar sofrimento e prazer. Miguel perguntou a Raul onde podia adquirir um aparelho semelhante, e passados poucos dias Ana passou também a usar um óvulo na vagina; mas para ela a sensação era de puro prazer.

Ana e Miguel não se tratavam por “meu senhor” ou “minha escrava”; perante terceiros, ele referia-se a ela como “a Ana” – ou, no Justine, “a trilby” – e ela a ele como “o meu Dono”. Descontadas estas formalidades, que não eram importantes, a sua relação parecia encaminhar-se numa direcção semelhante à de Raul e Teresa. Isto preocupava um pouco o par mais velho, que se sentia responsável e sabia que nem todas as relações de domínio e submissão se conformam a modalidades tão exigentes como a que tinham escolhido para si próprios. Preocupava-os a possibilidade de os dois jovens fazerem uma escolha que mais tarde um ou outro não pudesse suportar. Por isso viam com bons olhos a maneira como eles se iam integrando na comunidade: assim podiam conhecer outras formas de domínio e submissão e construir por si próprios a que mais se adaptava às suas necessidades particulares.

Um assunto que discutiam muito era o que aconteceria se as necessidades de um deixassem alguma vez de corresponder às do outro.

– Mas não correspondem? – perguntava sempre Raul.

– Correspondem – respondia sempre Ana ou Miguel. – Mas se não correspondessem, como era?

– Em teoria prevaleceriam as necessidades do Miguel – preconizava Teresa, radical como sempre.

– Mas na prática – prevenia Raul – têm que ter algo em comum para que os desejos de um possam enriquecer os do outro. É este o vosso caso, parece-me, e por isso não vejo porque se preocupam. Teriam razão para se preocuparem, por exemplo, se para um de vós uma coisa qualquer tivesse um valor simbólico ou erótico muito grande, que a tornasse indispensável, e para o outro essa coisa fosse absolutamente insuportável.

– Mas por outro lado – disse Teresa durante uma destas conversas – se aquilo que o senhor exige não for de todo insuportável para a escrava, esta dificuldade até pode ser uma coisa boa: pode ser uma forma de tornar a escrava mais escrava. É como os meus pés nus: no imaginário do Raul os pés nus sempre foram um símbolo importante de humildade e submissão. Agora já o são também no meu imaginário, que por isso mesmo está mais rico: já faziam antes parte dele, mas tinham outro significado, diferente e mais limitado. Este significado não se perdeu, apenas se lhe acrescentou o que Raul lhe deu. Claro que andar descalça é muitas vezes um grande sacrifício, e por vezes, em público, quase morro de vergonha. Mas para mim vale a pena: uma escrava que não esteja preparada para fazer sacrifícios grandes não merece o nome de escrava.

[ …]

Raul sorriu levemente, fez-lhe uma pequena festa no rosto e virou-lhe as costas para ir pousar o chicote na banca. Depois voltou com cordas para lhe amarrar os pulsos e os tornozelos aos quatro cantos do rectângulo formado pelas colunas. Teresa deixou-se amarrar docilmente; fechou os olhos e começou a murmurar repetidamente “amo-te, amo-te, amo-te”, como se a repetição infinita desta verdade fosse o mantra que a ia proteger na provação que a esperava.

– Agora vou-te vendar – disse Raul. – Posso?

Para não interromper o “amo-te, amo-te, amo-te” que continuava a dizer baixinho, Teresa limitou-se a acenar que sim. Se estivesse em estado de achar graça a alguma coisa, teria sorrido por ele ter pedido permissão para a vendar quando não precisava de permissão para nada do que estava a fazer. Continuou a dizer baixinho “amo-te, amo-te, amo-te” enquanto tentava prever ao fim de quantas chicotadas começaria a gritar.

Começou a gritar logo à primeira, um berro agudo e ensurdecedor que dificilmente se acreditaria que pudesse ficar confinado entre as paredes do quarto, ou sequer da casa. Esta chicotada atingiu-a obliquamente nas nádegas, marcando um traço que ia da parte superior da esquerda à inferior da direita. A segunda atingiu-a horizontalmente e um pouco mais acima, arrancando-lhe um grito tão forte como o primeiro. Das que se seguiram, nenhuma correspondia a nada que ela pudesse ter imaginado ser capaz de suportar. Mais do que todas as outras, doeram-lhe as que a atingiram no rego entre as nádegas e as coxas; mas por esta altura já se tinha cansado de gritar. Os primeiros gritos que soltara tinham sido emitidos num soprano cristalino, mas pouco a pouco foram enrouquecendo até se tornarem urros que quase nada tinham de humano. E mesmo estes acabaram por dar lugar a arquejos de aflição, entremeados de rosnidos de fera encurralada.

O chicote não fazia um silvo tão agudo como o da vergasta, e o som que fazia ao contactar com a carne não era tão seco. Mas a dor era inconcebivelmente maior, maior do que qualquer punição que Teresa já tivesse recebido.

Quanto tempo durou isto? Não é possível contá-lo, nem em segundos, nem em minutos, nem em número de golpes desferidos. Teresa só soube que o seu tormento tinha terminado quando Raul lhe tirou a venda. Olhou à sua volta, espantada: o quarto era o mesmo, o mundo não tinha mudado. Quando Raul lhe libertou os tornozelos, esfregou os pés um no outro, tentando restaurar a circulação. Depois, quando ele lhe libertou os pulsos, as mãos voaram-lhe para onde tinham estado antes de ele a amarrar: cruzadas em frente ao sexo, escondendo-o, tapando-o, negando-o ao olhar e ao desejo do macho. Raul não lhe ordenou que descruzasse as mãos: pôs-se em frente dela, olhou-a nos olhos – que ela não conseguiu furtar aos dele – disse-lhe “amo-te” e foi de novo buscar o chicote.

Teresa bem sabia para que era agora o chicote, era para ela o beijar: e nesse momento sentiu-se invadir por uma tal revolta, que numa fracção de segundo, na sua imaginação, saiu dali, vestiu-se, fez a mala, chamou um táxi, foi para o aeroporto e regressou ao seu apartamento no Corso Magenta. Mas na realidade, o que fez foi ajoelhar-se e beijar o chicote, sem que Raul precisasse de lho ordenar. Depois levantou os olhos para o dono e viu-o imóvel, de pé, à espera. À espera de quê? Que mais que queria ele ainda? Que ela lhe dissesse o que disse, é claro:

– Obrigada, meu dono.

No momento em que estas palavras lhe saíram da boca aconteceu uma coisa que a fez sentir ódio por si mesma: enrubesceu, os lábios entreabriram-se, os quadris rodaram num círculo imperceptível, como se tivessem vontade própria, e sentiu-se a ficar molhada. Este ódio por si própria, assim como veio, assim desapareceu; a vergonha a que ele deu lugar também teve a vida curta; a excitação, essa sim, permaneceu – e com ela surgiu-lhe na alma um sentimento de orgulho que a levou a repetir:

– Obrigada, meu senhor. Amo-te. Faças de mim o que fizeres, hei-de amar-te sempre.

Esta expressão de submissão não lhe amainou de todo a revolta: uma coisa era aceitar, por sua deliberada vontade, a dor que ele lhe quisesse dar, outra era responder-lhe com uma reacção involuntária do corpo. Mas não, estava a ser injusta: o acto de vontade tinha vindo antes, tinha sido responsabilidade sua; e se o corpo estava de acordo com a vontade, não merecia censura. Rola os quadris, escrava, entreabre a boca, semicerra os olhos, pensou Teresa. Afasta as pernas. Deixa que a cona se molhe. Tens direito a tudo isso: fui eu, enquanto mulher livre, que to dei.

[ … ]

Nem fazer segredo, nem fazer alarde, pensou Teresa. Era este o princípio que ela e Raul tinham adoptado. Numa aula de dança, em que está presente apenas um número limitado de pessoas, vestir-se como de costume não seria fazer alarde, tapar-se toda é que seria fazer segredo. Já o tinha feito uma vez, não ia fazê-lo de novo. Vamos lá ver o que acontece, pensou, e apresentou-se na aula com uma saia vermelha de cintura baixa que lhe deixava a descoberto quase todas a zonas do corpo onde tinha sido chicoteada.

O que aconteceu foi espanto, repulsa, solicitude e indignação. Não serviu de muito explicar que tudo se tinha passado com o seu consentimento: somente nalguns casos a indignação deixou de ser contra Raul e passou a ser contra ela. Em algumas das mulheres presentes, porém, a indignação foi mais convencional que sentida; houve as que ficaram um momento pensativas e não disseram nada; e Ana, é claro, ficou fascinada, querendo saber tudo, se tinha doído muito, se tinham feito amor depois, se ela própria seria capaz de suportar o mesmo, se Miguel quereria alguma vez, ou poderia, castigá-la assim.

– Se o Miguel te fizesse isto, suportavas?

– Claro que suportava! – respondeu Ana.

– Não sabes o que dói… – disse Teresa. – Dói mesmo muito, e parece que dura séculos.

– Não interessa, suportava e agradecia – respondeu Ana.

Teresa ficou sem saber se tamanha certeza lhe vinha do auto-conhecimento, dalguma necessidade antiga, ou apenas da extrema juventude, que não teme nada. Dançou particularmente bem nesse dia; se isto a fez subir ou descer na consideração das colegas, nunca chegou a sabê-lo.

[ … ]

Era um Setembro quente, mais quente do que tinha sido Agosto. Nestes primeiros dias do mês, Teresa tinha sido punida quase diariamente com uma variedade de instrumentos, uns mais dolorosos do que outros, mas o chicote que lhe causara a dor maior e as marcas mais fundas não voltara a ser usado. Cada punição confirmava o que Teresa já sabia: que a expectativa a excitava um pouco; que a experiência, enquanto durava, lhe tirava toda a excitação; e que se voltava a excitar, confirmando-se como escrava de Raul de um modo cada vez mais inegável, no momento em que se ajoelhava para beijar o chicote e para agradecer o castigo. Teresa compreendia e aprovava a intenção, que adivinhava em Raul, de transformar esta confirmação em rotina: não bastava que o “obrigada” e o “amo-te” que proferia ritualmente fossem verdade, como de facto eram: era preciso que se tornassem inevitáveis, automáticos, evidentes, a tal ponto que a sua eventual omissão se tornasse, ela sim, uma mentira.

Uma noite, Raul colocou um banco almofadado entre as duas colunas, mandou-a sentar e atou-lhe os pulsos aos capitéis, esticando-lhe os braços. Para dar folga às cordas, bastaria a Teresa pôr-se de pé, mas ele apertou-lhe um cinto aos quadris e atou-o com cordas a duas argolas na base das colunas. Agora ela já não poderia aliviar a tensão dos braços, mesmo que quisesse; mas mesmo assim Raul esticou as cordas ainda mais. Teresa ainda tinha os pés assentes no chão, mas ele amarrou-lhe os tornozelos, fê-la levantar as pernas e amarrou as pontas das cordas às mesmas argolas a que tinha amarrado os pulsos: Teresa tinha agora os braços e as pernas no ar, as nádegas assentes no banco, e o sexo arreganhado, todo à vista. Foi nesta posição que ele a vergastou, assentando-lhe os golpes na pele fina do interior das coxas, na parte de baixo das nádegas, e sobretudo na vulva. Teresa já tinha desistido de comparar dor com dor: já tinha aprendido que a punição que dói mais era sempre a que estava a sofrer no momento. Entregou-se toda à dor; ou, melhor dizendo, não foi preciso entregar-se, porque a dor se apoderou dela como sempre, totalmente, sem deixar lugar para qualquer outra sensação ou pensamento.

[ … ]

Dias depois, teve mais uma sessão de depilação eléctrica, e temia que a esteticista lhe visse as marcas da vergasta. De facto ainda as tinha, mas não sentiu a vergonha que teria sentido uns meses antes. A esteticista, quando as viu, comentou que a senhora afinal estava habituada a dores piores do que as que ela lhe provocava; para além disto não teve qualquer reacção, a menos que por reacção se contasse o especial cuidado com que a tratou. As pessoas nunca são quem julgamos, pensou Teresa, ao dar-se conta de que não sabia a que atribuir aquela vaga simpatia da esteticista: entrariam ali todos os dias mulheres com marcas de vergasta no sexo? Todas as semanas? Todos os anos? Ou teria sido ela a primeira, destinada talvez a ser também a última? Teria esta jovem tranquila visto alguma vez marcas semelhantes noutros contextos, noutros corpos, quem sabe se no seu próprio? Quantos mundos existem à nossa volta, diferentes uns dos outros, diferentes daquele que julgamos estar a ver?

[ … ]

De tarde vestiu uma saia que tanto servia para andar na rua como para dançar. Na parte superior do corpo pôs um choli que, ao contrário dum top rígido, permitiria que os seios lhe oscilassem sem terem que ficar nus, escandalizando as outras alunas. Na aula, prestou atenção a todas as instruções da professora, de modo a que todos os movimentos fossem exactos e perfeitos mas ao mesmo tempo fluidos e soltos.

– Hoje dançou muito bem – disse-lhe a professora. – Houve momentos em que pareceu inspirada.

Antes de ir lanchar com Ana, Teresa queria passar pelas colegas e pela professora uma folha em que elas pusessem os endereços para lhes poder enviar os convites para o casamento. Recolhida a folha, verificou que algumas a tinham passado adiante sem escrever nada: estavam no seu direito. No dia seguinte de manhã, depois da aula de pompoar, passou outra folha e ficou contente porque desta vez todas as colegas escreveram os seus endereços. Esta aula foi a primeira em que as alunas usaram vibradores; mas, ao contrário do que Teresa chegara a temer, desligados. O objectivo era ver se eram capazes de sugar o vibrador para dentro da vagina e de o expulsar sem usar outros músculos além dos que tinham estado a exercitar nas aulas anteriores. Teresa não foi das que tiveram mais dificuldade, mas o esforço foi tão grande que, ao saber que mais tarde se esperaria dela e das colegas que sugassem e expulsassem o vibrador dezenas de vezes seguidas, duvidou que tal fosse possível.

Teresa sempre tinha exercido uma profissão, e isto tinha-lhe alargado o mundo. Até puta fui, pensava por vezes, cada vez com menos amargura mas talvez com mais melancolia. Depois decidira dedicar-se inteiramente a Raul, mas sempre com uma réstia de medo que esta opção a confinasse a uma estreiteza de vida que não desejava. Verificava agora que o amor e o sexo, a obediência e o serviço prestados a um senhor, podem constituir uma ocupação a tempo inteiro, exigindo organização, disciplina e um treino intenso e difícil. Não se sentia menos digna como escrava do que se tinha sentido quando era uma mulher de carreira no mundo do jornalismo e da moda; tinha passado, pelo contrário, dum estatuto virtual para um estatuto real que a fazia sentir-se mais presente no mundo.

Foi assim, serena e segura de si como uma matriarca antiga, que assistiu à assinatura dos últimos papéis e ao cumprimento das últimas formalidades que conferiam à sua irmã Carolina a propriedade da empresa que tinha fundado. Também Carolina teve neste dia o seu acesso a um mundo ligeiramente diferente: abandonava o proletariado, tornava-se senhora de si e não tinha ninguém a quem prestar contas. E se não se deu conta que por este caminho tão diferente tinha chegado exactamente ao mesmo ponto que a irmã, já a esta o facto não passou despercebido. O Mundo é com efeito prodigioso e vário.

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Cap. 32: DISCÍPULOS

[ … ]

Entre as colegas de Teresa na dança havia uma jovem que também era colega dela no pompoar: chamava-se Ana e ainda não tinha vinte anos. Foi esta jovem que uma tarde convidou Teresa para lanchar. Quando Teresa lhe disse que não podia aceitar este convite sem autorização do namorado, Ana não mostrou repulsa nem surpresa, antes deleite:

– Então pede-lhe, por favor!

Mal tinham tido tempo de mandar vir as meias de leite e as torradas quando Ana, impaciente, começou a conversa:

– Quer dizer que nunca fazes nada sem autorização do teu namorado?

Teresa sorriu.

– É claro que faço muitas coisas por minha iniciativa, nem ele quereria que fosse doutra maneira. Mas uma das coisas em que combinámos que eu não teria qualquer liberdade foi o uso do meu tempo: por isso é que tive que lhe telefonar antes de aceitar lanchar contigo.

Ana bebeu um pouco de café com leite antes de se decidir a dizer:

– Acho isso tão bonito… Pensava que não havia mais ninguém como eu e o Miguel.

– O Miguel é o teu namorado? – perguntou Teresa. – E costumas obedecer-lhe?

– Adoro obedecer-lhe, e ele adora que eu lhe obedeça… Nunca contámos a nenhum dos nossos amigos, tivemos medo que nos gozassem ou que se afastassem de nós. Posso contar-te um segredo? Ele às vezes bate-me com uma vergasta, e eu deixo… Não ficas a pensar mal de nós?

– Claro que não, minha querida – respondeu Teresa. – O Raul também me vergasta algumas vezes, e castiga-me fisicamente doutras maneiras. Eu não tenho nenhum prazer em ser castigada, mas tenho um prazer enorme em poder sê-lo. Compreendes isto?

– Não sei, acho que nesse ponto somos um pouco diferentes. Eu tenho prazer em ser vergastada, pelo menos pelo Miguel. Com outro homem, nunca experimentei. Mas pensando bem, agora que falamos nisso, acho que o meu prazer maior é o direito que ele tem de me vergastar. É, é isso. Nisso somos parecidas, tu e eu.

– E o Miguel, gosta de te castigar?

– Acho que gosta um bocadinho, como eu, mas agora começo a pensar se o prazer maior dele não será ter esse direito… E o teu namorado? Também gosta de te fazer doer?

– Talvez seja como o teu: gosta, mas isso para ele não é o principal.

Ana calou-se de novo, a ganhar coragem, e disse finalmente:

– O nosso maior problema, meu e do Miguel, é não sabermos como se fazem as coisas.

Teresa franziu o sobrolho, intrigada:

– Como se faz o quê?

Ana pareceu um pouco atrapalhada:

– Não sei… Deve haver regras… Sabe, o que se faz na cena BDSM… Não conhecemos ninguém nesse meio a não ser a si, e a Teresa não corresponde nada às imagens que vemos nos media… De modo que não sabemos as regras, nem a maneira correcta de vestir… Espero que isto não fosse um abuso, mas tenho falado de si ao Miguel e ele diz que um dia gostava de a conhecer e ao seu namorado.

Ana trazia uma saia comprida de renda preta sobre outra opaca e mais curta. Tinha uma T-shirt preta sem mangas, muito decotada, e sobre esta, uma blusa preta transparente de mangas compridas. Não trazia as unhas nem os lábios pintados de preto, nem piercings visíveis, nem a profusa joalharia de prata, própria do visual gótico: apenas uns brincos de prata compridos que lhe chegavam aos ombros. Nos pés trazia umas sandálias pretas de tiras, com uns saltos altíssimos.

– Diz-me uma coisa, Ana – perguntou Teresa. – Esse teu modo de vestir corresponde mais ao teu gosto ou ao gosto do Miguel?

– Não sei bem… Devia ser ao do dele, não devia? Mas acho que é ao dos dois. Ou então talvez seja mais uma questão do que achamos apropriado ao nosso lifestyle.

Teresa sorriu um pouco da expressão em inglês:

– E que maneira de vestir acham vocês apropriada para o vosso lifestyle?

– De preto, acho eu… Mas ele, não é só por causa das regras que se veste de preto, é porque gosta mesmo. Do que ele não gosta é de usar adornos, nem enfeites, nem penteados esquisitos. É roupa preta, barba feita, cabelo à escovinha, e já está. É o estilo dele.

– Posso dar-te um conselho? – perguntou Teresa.

– Até agradeço.

– Não te vistas para nenhum lifestyle. Não há lifestyles. Quer dizer, havê-los, há, mas são pura diversão, não passam disso. Os estilos de vida, somos nós que os fazemos. Não há uma maneira apropriada para mulheres como nós se vestirem. Veste-te como ele gostar de te ver, nem que seja de cor-de-rosa bebé, ou de vestidinho às pintinhas. Se tu também gostares, tanto melhor, mas isso não é importante: o importante é o que ele gosta. Outra coisa, e esta é mesmo importante: não há regras. Ou melhor, só há uma regra, que é respeitar o outro. Se sentires que o Miguel não te ama ou não te respeita, larga-o. Mas se ele te ama e respeita, então não há regras. Isto é mesmo muito importante. Conta-lhe esta conversa e vê o que ele pensa.

Ana ficou pensativa.

– Posso falar-lhe de si e do seu namorado? – perguntou.

– Não precisas de dizer meu namorado – disse Teresa. – Podes dizer meu dono ou meu senhor, que eu não me importo. E claro que podes falar de nós ao Miguel.

– Obrigada – disse Ana, à despedida. – Ele vai gostar de ter tudo isto em que pensar. E eu também vou ter que pensar, especialmente nessa questão do respeito.

Quando Teresa contou a Raul esta conversa, ele sugeriu-lhe que convidasse Ana e Miguel para lanchar no Majestic no fim da semana seguinte. No dia do encontro, Agosto estava a meio, e o tempo estava muito quente. Raul e Teresa chegaram propositadamente atrasados para que Ana e Miguel os vissem chegar: Raul de jeans e T-shirt pretos e cabelo curto, num estilo muito semelhante ao de Miguel; Teresa compareceu descalça, sem calcinhas e sem soutien: sem nada sobre o corpo que não fosse um vestido comprido em tons de rosa, lilás e branco, que deixava adivinhar à transparência os mamilos escuros, e só não deixava ver o triângulo da púbis por esta se encontrar depilada. Ana estava toda de preto: top atado nas costas com atilhos, mini-saia justa, meias de rede e sandálias de salto muito alto. Via-se que tinha feito um esforço especial para exprimir a sua condição de namorada submissa. Depois das apresentações, o diálogo entre os dois homens consistiu em pouco mais que uma troca de ideias gerais. Já Ana quis saber tudo, particularmente o significado dos pés nus de Teresa, se ela costumava andar assim na rua, que distância tinha percorrido desta vez, se lhe tinha custado muito.

– Não ando muitas vezes descalça na rua – disse Teresa. – O Raul só me costuma dar essa ordem em ocasiões especiais, como hoje. Em casa, sim, tenho que andar sempre descalça.

– Em casa, e na Fundação de Serralves – interrompeu Raul.

– Em Serralves?! – exclamou Ana – Porquê?!

– Por capricho meu – explicou Raul. – Mas também porque me seduz a variedade de texturas no chão da casa e nos jardins. E além disso há qualquer coisa naquele ambiente que parece que o exige.

– É verdade – disse Miguel. – Nunca me tinha ocorrido, mas é verdade.

– Mas não te custou vir descalça até aqui? – insistiu Ana.

– Nem por isso – respondeu Teresa. – Deixámos o carro no parque dos Poveiros: lá dentro o chão está fresco. O passeio cá fora é branco, não aquece muito. Só me podia ter queimado um bocado ao atravessar a rua, que é de alcatrão preto e fica muito quente… o truque é aproveitar as faixas brancas da passadeira, que não queimam. Aqui na Rua de Santa Catarina o chão é claro, não aquece muito. Com as texturas é mais difícil, algumas são muito ásperas, é preciso estar habituada… a única coisa a que nunca me habituei é o olhar das pessoas. Ainda fico embaraçada…

Miguel olhou para ela estreitando os olhos, e a seguir para Ana.

– Pois a mim, o que me daria prazer – disse ele – seria precisamente ver a Ana assim embaraçada.

Raul olhou atentamente para os dois. Ana estava vermelha e olhava para as mãos, mas um leve sorriso bailava-lhe nos lábios.

– Olhe, Miguel, não sei quais são os termos do seu compromisso com a sua namorada – disse Raul. – Não sei se o seu compromisso o autoriza a fazer-lhe este tipo de exigências, nem se a obriga a obedecer-lhes…

– Autoriza-o, sim, e a mim obriga-me – interrompeu Ana. – O Miguel é que talvez ainda não se tenha apercebido. São coisas de homem, de cavalheiro…

Foi a vez de Miguel enrubescer; e Teresa riu-se ao ver que Raul também tinha corado.

– Um cavalheiro um bocado obtuso, pelos vistos – respondeu Miguel. – Andei a ver a net e os fóruns e convenci-me que numa relação como a nossa havia convenções a respeitar: roupa preta, cabedal, todas as mulheres de saltos altos… A Ana e eu nunca fomos a um clube sadomasoquista: mas se a Ana fosse vestida, por exemplo, como a Teresa está agora, deixavam-nos entrar?

– Depende do clube – disse Raul. – Numa grande cidade europeia pode haver clubes centrados em certos fetiches, e aí teriam que se conformar a eles; mas aqui no Porto não temos dimensão para essas especializações. Num clube daqui, todos estariam a par do que esta indumentária da Teresa significa.

Miguel ficou calado por alguns instantes.

– Confesso que uma submissa descalça me diz mais que uma de saltos altos – disse por fim. – Isto não é de agora, sempre foi assim, mas parecia-me que isso não era… como hei-de dizer… ortodoxo…

– Não há regras nem ortodoxias – disse Raul. – Só a vontade do dono conta.

– Mas continuo a gostar de ver a Ana de preto, e de minissaia justa.

– Não há regras – repetiu Raul. – Se o Miguel tem esse direito sobre a Ana…

– Claro que tem – disse Ana em tom decidido.

Miguel olhou para ela como se a estivesse a ver pela primeira vez e quisesse fixar-lhe as feições.

– Claro que tenho… – murmurou para si mesmo.

E em voz alta disse:

– Ana, o que vais fazer agora é isto: vais lá dentro aos lavabos, deitas no caixote do lixo os sapatos e as meias, e voltas para aqui. No caminho para cá, passas pelo balcão e pedes um fino para esta mesa. Ou dois, se o Raul também quiser.

– Com todo o gosto – disse Raul.

Ana fez menção de objectar, mas, antes que tivesse tempo de o fazer, o namorado acrescentou:

– Ah, e já agora deixas lá ficar também as calcinhas.

Ana ficou um momento sentada, a olhar para as mãos. Depois, de rompante, levantou-se:

– Está bem.

Dirigiu-se para dentro do café, de cabeça levantada, para cumprir o que lhe tinha sido ordenado. E já que se sentia embaraçada, e não queria ceder ao embaraço, fez questão de ir até ao fundo do café por uma das duas coxias que correm entre as mesas e regressar pela outra, de modo a que todos os presentes lhe vissem bem, primeiro a mini-saia, e depois os pés descalços.

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Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

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(Início do Capítulo 16)

Dias mais tarde, andando Teresa a arrumar o apartamento, decidiu esvaziar completamente um armário embutido que não tinha arrumado antes e que, estando no escritório, se prestava a que lhe substituíssem as portas por umas de vidro, obtendo assim um espaço que se podia estantear para guardar livros. Encontrou a parte de cima cheia de malas velhas que era preciso deitar fora; e abrindo uma destas deu com um chicote preto, de couro, dos que doem mais. Há quantos anos estaria aquilo ali? O couro estava baço e manchado, mas ainda flexível; e Teresa decidiu que na primeira oportunidade havia de o limpar e restaurar, porque era um lindo objecto, muito decorativo, que ficaria bem na parede do quarto dos castigos.

De noite mostrou-o a Raul, que ficou espantado:

− Eh, pá! Onde foste desencantar isso? Nem me lembrava que ele existisse. É de quando? Do meu tempo de solteiro, seguramente.

− A Isabel alguma vez levou com ele?

− A Isabel? Parece-me que nem nunca o viu. E por falar nela: tem-te telefonado?

− Tem, e eu marco sempre encontros, e falto sempre. Mas deixa lá a Isabel e olha para isto: não é um lindo objecto? Quando eu o limpar e restaurar, vai ficar perfeito.

Passaram mais uns dias. Teresa tinha planeado uma viagem com Carolina a Milão. Na véspera, serviu o jantar a Raul, vestida com o seu uniforme de criada em xadrez cor-de-rosa e branco. Depois de arrumar a cozinha, e quando se preparava para ir mudar de roupa, ele deteve-a:

− Hoje não, meu tesouro. Não te vás vestir. Hoje quero que te ponhas toda nua e me esperes no quarto dos castigos.

Teresa empalideceu. Sem dizer uma palavra, voltou-lhe as costas, foi para o quarto, despiu-se completamente, e foi esperar por Raul no quarto dos castigos: de pé, braços caídos, olhos baixos, sem ousar tocar em nada. Quando Raul chegou, disse-lhe em voz sumida:

− Meu senhor, desculpa, ainda não limpei o teu chicote preto…

− Não faz mal, minha pequenina – respondeu Raul. − Não é esse que estou a pensar usar. Dá-me a mão.

Teresa ergueu a mão direita e Raul atou-lhe o pulso com uma corda de seda negra, dando várias voltas e deixando livre uma ponta com mais de meio metro.

− A outra – disse Raul.

Com a mesma docilidade, e em silêncio, Teresa deixou amarrar o pulso esquerdo. Quando ele a conduziu, puxando-a pelas cordas, à banca abaulada que estava à direita das colunas, debruçou-se sobre ela sem que ele lho ordenasse e ficou com o rabo empinado enquanto ele lhe prendia os pulsos a uma argola perto do chão. Teresa sentia os seios esborrachados contra a superfície de couro, mas tinha a cabeça livre, podendo erguê-la para olhar em frente ou baixá-la para ver os pulsos amarrados à argola, que rebrilhava, limpa por ela própria nessa mesma manhã. Depois sentiu Raul atrás dela, prendendo-lhe os tornozelos, e de lado, passando-lhe à volta da cintura uma correia de couro que depois fixou com cordas a outras argolas de modo a que ela não se pudesse mover para os lados. Depois de a imobilizar completamente, saiu do quarto. Teresa ouviu música vinda de outra parte da casa, não sabia de onde, tocada tão alto que mesmo ali ela a reconheceu: era a Salomé, de Richard Strauss. Não soube quanto tempo ficou à espera: pelo menos tanto quanto durou a abertura da ópera, e o suficiente para ouvir a soprano que uivava por “Jokanaan, Jokanaan”. Quando Raul regressou e fechou a porta atrás de si, a música deixou de se ouvir. Também não ouvirão os meus gritos, pensou. Depois viu-o diante dela, trazendo na mão uma vergasta, que lhe mostrou; era uma vergasta flexível, forrada de seda vermelha e com cabo de cabedal preto.

− Beija a vergasta – disse Raul, chegando-lha aos lábios.

Teresa beijou a vergasta e ergueu os olhos para Raul, numa interrogação muda. Ele acenou com a cabeça, como se estivesse a responder “sim” a uma pergunta que ela tivesse feito, e colocou-se por trás dela. Teresa esperou pela primeira vergastada, dividida entre o desejo de que ela nunca viesse e o de que viesse já, para terminar tudo mais depressa. Ouviu um silvo, contraiu os músculos todos do corpo, mas o golpe não chegou: Raul estava ainda a experimentar a flexibilidade do instrumento. Mas o segundo silvo culminou numa dor intolerável, numa queimadura que lhe atravessou as nádegas dum lado ao outro. Os olhos rebentaram-lhe em lágrimas logo ao primeiro golpe, a garganta em gritos a partir do terceiro ou quarto; mas nem lágrimas, nem gritos detiveram Raul, e o tormento prolongou-se pela sua já conhecida eternidade. Por fim tudo terminou; Teresa distendeu os músculos, encheu o peito de ar – só para sofrer a mais cruel desilusão quando as vergastadas recomeçaram, desta vez vindas da sua direita. Raul tinha mudado a chibata de uma mão para a outra, era tudo.

Só acreditou que tudo tinha terminado de verdade quando viu Raul à sua frente, pondo-lhe a vergasta ao alcance dos lábios:

− Beija a vergasta, escrava.

Teresa beijou-a.

− Agradece o castigo.

Teresa agradeceu, entre lágrimas:

− Obrigada, meu senhor.

− Diz que me amas.

− Amo-te, meu senhor. Amo-te…

E era verdade. Amava-o com toda a amplitude de um coração que ainda lhe parecia estar a rebentar do castigo.

− Amo-te… − repetiu.

Agora que já não estava perdida na dor e recomeçava a ter a noção das coisas, dava-se conta que já tinha recebido castigos bem mais dolorosos do que aquele, e que havia, sem dúvida, de os receber no futuro. Raul tinha escolhido, da panóplia de instrumentos que ela própria lhe enviara, um dos que doíam menos. Mas durante o castigo não se tinha apercebido desta diferença, e tinha gritado tanto como gritaria se ele tivesse sido mais severo. Em frente dos olhos tinha a braguilha das calças dele. Viu-o desapertar o cinto, abrir os botões das calças e das cuecas, tirar o sexo para fora, e sentiu-o encostar-lhe a ponta aos lábios.

− Abre.

Abriu a boca. Pouco tempo depois de ele a penetrar, deu por si a fazer-lhe as carícias e a repetir os movimentos que ele lhe ensinara: como era isto possível? Mas fez as carícias, repetiu os movimentos, usou a língua, e durante este tempo sentiu uma espécie de orgulho, como se o impensável que ele ousava fosse também uma ousadia dela, um teste, uma prova iniciática que a elevava acima de todas as mulheres. Durante o tempo todo não fechou os olhos: fechou-os só quando ele ejaculou, talvez para se perder no momento, talvez para fechar os sentidos a tudo o que não fosse o esperma que lhe enchia a boca e lhe descia pela garganta.

Por fim deixou pender a cabeça, relaxou o corpo todo, deixou-se cair, enquanto ele metodicamente a desamarrava. Já liberta, não saiu do sítio: foi preciso que ele lhe pegasse na mão, a ajudasse a levantar, a conduzisse para o quarto e para a cama que partilhariam nessa noite, como sempre. No percurso ainda inclinou a cabeça sobre o ombro dele e murmurou que o amava, mas em voz tão baixa que ele não a ouviu.

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Não se trata aqui dum excerto, mas de vários, tirados de capítulos diferentes do romance. Em todo o caso, espero que agradem aos meus leitores habituais.

Não custou tanto a Teresa percorrer descalça o caminho até ao carro como tinha custado à vinda. Tinha outra questão a preocupá-la: se o facto de ter posto um soutien por baixo da blusa transparente constituía ou não uma desobediência, e em caso afirmativo que punição iria receber. No carro ficou silenciosa: discutir esta questão com Raul seria indigno se não a discutisse primeiro consigo própria. Quando ele lhe tinha estabelecido a regra de nunca usar soutien na sua presença, isto aplicava-se em todos os casos, ou só a quando a roupa era opaca? Em todos os casos, é claro: se assim não fosse, ele tê-lo-ia dito. Decidiu não mencionar a transparência da blusa: isso seria uma mera desculpa e rebaixá-la-ia aos olhos dele e dos seus próprios. O facto que tinha que assumir é que não tinha tido coragem e por isso tinha desobedecido. Isto, sim, podia ser dito, porque era a verdade.

− Vais-me castigar, meu senhor, não vais?

Raul, que estava a manobrar para entrar na garagem do prédio, demorou um pouco a responder.

− Porque é que achas isso? – perguntou.

− Pois, porque eu mereço…

− Mereces, sem dúvida. Mas diz-me uma coisa: achas que te vou castigar sempre que mereceres?

Pergunta difícil, pensou Teresa. Calou-se para reflectir enquanto saiam do carro e entravam no elevador, e no fim deixou falar a intuição:

− Não, meu senhor. Acho que vai haver vezes em que eu vou merecer castigo e tu não mo vais dar. Sei que não és um homem cruel…

O elevador tinha chegado ao último andar; Teresa interrompeu-se enquanto Raul abria a porta; mas uma vez dentro de casa, e já com os agasalhos despidos, retomou o que tinha a dizer:

− Não és um homem cruel, e tenho a certeza que na altura certa és capaz de perdoar uma desobediência… mas esta não é a altura certa, e tu sabes isso tão bem como eu.

Foi a vez de Raul ficar sem palavras. Sabia que Teresa estava a falar por intuição, mas nem por isso era menos implacável na sua lucidez. Restava-lhe a ele confiar na sua própria intuição, que o mandava ser igualmente lúcido e igualmente implacável.

− Vai tomar um duche – ordenou. – Não te seques. Vem ter comigo toda nua, e ainda molhada. Traz um dos meus chinelos marroquinos. Estarei à tua espera na sala.

Enquanto Teresa se ia preparar, Raul serviu-se dum whisky e começou a beberricá-lo enquanto percorria a sala para trás e para diante, pálido e inquieto. Já tinha aplicado castigos dolorosos a mulheres, sempre a pedido delas ou com o seu consentimento; mas nunca o tinha feito a uma mulher que amasse, e estava agora a descobrir que neste caso o consentimento dela, ou mesmo o seu pedido explícito, não chegavam para que o fizesse de consciência perfeitamente tranquila. Lembrando-se que Teresa ia estar molhada quando viesse, foi ao outro quarto de banho buscar algumas toalhas com que proteger da água um dos sofás de couro. Quando ela se lhe apresentou, deixando um rasto de água no chão atrás de si, trazia, além do chinelo que ia servir para a punir, uma écharpe de seda.

− Meu senhor, desculpa, é para me servir de mordaça, se consentires. Tolero tão mal a dor física… não sei se me poderei impedir de gritar.

Raul acenou com a cabeça. Tinha os lábios apertados um contra o outro e notava-se-lhe uma palidez nas narinas e à volta da boca. Teresa aproximou-se dele e encostou-lhe a cara ao peito, sem se importar de o molhar.

− Não encontrei cordas em parte nenhuma… nem tenho mais écharpes; não me vais poder amarrar, meu querido, mas vou fazer tudo por tudo por não me debater.

Raul acenou de novo e disse:

− Abre a boca. Fizeste bem em arranjar uma mordaça. Trinca bem o pano.

Depois de lhe fazer uma festa na cara, amordaçou-a e ordenou-lhe que se debruçasse sobre o braço esquerdo do sofá, com os pés no chão e o peito e a cara apoiados no assento. Teresa assim fez, e Raul, vendo que o corpo dela começava a secar, passou-lhe a borda da mão pelas costas, empurrando para as nádegas as gotas de água que a salpicavam. Teresa, ajoelhada com o rabo para cima, gemeu um pouco, consciente que o castigo sobre a pele molhada seria mais doloroso.

Raul ainda demorou algum tempo a encontrar a melhor maneira de segurar o chinelo na mão. Depois, sem hesitar, deu o primeiro golpe com toda a força que tinha. Teresa deu um salto e deixou-se cair para o chão, mas logo se levantou e voltou a assumir a posição em que estava. Já tinha esquecido a dor provocada por castigos mais severos, e este parecia-lhe quase insuportável; mas estava decidida a não dar parte de fraca. Raul iniciou então uma série de golpes, num ritmo lento e regular que indicava não estar aqui em questão a obtenção de qualquer espécie de prazer, nem para a sua escrava, nem para si próprio. Durante todo o castigo não houve uma única vez em que Teresa se conseguisse manter quieta entre duas pancadas, mas conseguiu ao menos, com um esforço enorme, manter as nádegas em posição. Quando as lágrimas lhe vieram aos olhos, o que aconteceu logo aos primeiros golpes, virou a cara para as costas do sofá para que Raul as não visse; mas a certa altura não conseguiu mais evitar que os ombros se lhe sacudissem em soluços. O facto de Raul continuar o castigo sem ter estes soluços em consideração provocou nela um quase orgulho, um quase alívio: não seria pelas lágrimas que alguma vez o poderia controlar.

Não contou os golpes, nem se deu conta que ele os estivesse a contar. A dor tornou-se a tal ponto uma eternidade que a certa altura Teresa perdeu a expectativa, a esperança, e até o desejo de que ela alguma vez acabasse. Mas acabou: a primeira indicação que teve disto foi sentir a mão de Raul a desatar o nó da mordaça, e depois a mão dele a pegar-lhe no queixo e a virar-lhe o rosto, e depois os lábios dele a beijar-lhe as faces molhadas. Assim que pôde falar, murmurou:

− Meu senhor querido, perdoa-me…

Raul pôs-se muito sério:

− Ouve bem, Teresa D’Ávila. Nunca mais me peças perdão depois de eu te ter castigado. Um castigo decidido por mim e dado por mim apaga tudo, nem que seja só uma reguada na palma da mão: depois de terminar não tenho mais nada a perdoar-te.

Teresa, que entretanto se tinha estendido a todo o comprimento do sofá, ergueu-se sobre um cotovelo e ofereceu-lhe a boca para que ele a beijasse.

− Eu sei, meu senhor – disse-lhe por fim. – Não te estava a pedir perdão por ter ido de soutien, estava-te a pedir perdão por estar ainda a chorar…

Raul beijou-lhe de novo os olhos.

− Isso talvez seja porque este castigo foi um castigo mesmo – sugeriu. – Se tivesse sido para meu prazer ou meu capricho, acho que neste momento estarias já a sentir algum prazer, se é verdade o que me contaste de ti sobre este assunto.

− Sim, estaria a sentir prazer; mas agora não estou. Estou feliz, o que é diferente; mas prazer, não sinto. Era por isso que te estava a pedir perdão.

− Se é por isso, estás perdoada – respondeu Raul, rindo. – Quanto ao prazer, vamos já tratar disso. Pelo menos do meu, que é para o que tu serves.

Teresa riu-se também, por entre as lágrimas. Estendeu os braços para o abraçar e disse-lhe ao ouvido:

− Lá por isso, se sirvo só para o teu prazer, de que é que estás à espera para te servires de mim?

E foram os dois abraçados para o quarto, onde ele com efeito se serviu dela tão copiosamente que não adormeceram antes das cinco da manhã.

[ … ]

Nos dias seguintes Manfredi tratou de negócios: não só dos de Teresa, presumiu Raul, mas também dos doutros clientes que pudessem ter interesses no Norte de Portugal. Só no próprio dia da partida teve tempo para aceitar o convite de Raul. Para entrar no quarto dos castigos era necessário subir um degrau: isto, explicou Raul, porque o isolamento sonoro e o revestimento do chão tinham obrigado a levantar o pavimento doze centímetros. Ainda bem que a casa era antiga e o quarto grande, com tecto alto, de outro modo teria ficado minúsculo com a grossura do isolamento. As paredes estavam revestidas a tijolo maciço em cor natural, com um verniz mate.

– Só tive duas dificuldades – explicou Raul. – A primeira foi desmontar o pavimento irradiante para o instalar depois de novo sobre a camada de isolamento. Isto só o vai tornar mais eficiente, é claro, mas deu uma trabalheira. A outra foi explicar estas colunas – e apontou para duas grossíssimas traves de madeira que se erguiam, separadas uma da outra por pouco mais que um metro, do chão ao tecto – aos homens que cá andaram a trabalhar.

– Difícil, porquê? – perguntou Manfredi.

– Tive que as fixar ao chão original e ao tecto original, e isto só podia ser antes das obras. Gastei dezasseis cantoneiras de aço e 96 parafusos de 8x80mm. Quando os homens me perguntaram se eu queria isto para pendurar motores de automóveis, tive que inventar uma coisa qualquer, que ia fixar barras para fazer ginástica… Ficaram a olhar para mim como para um lunático.

Manfredi deu uma pequena risada:

– Pois é, as vicissitudes dum dominante… people have no idea.

[ … ]

O que Raul decidiu, afinal, em relação ao quarto dos castigos, foi construir uma plataforma resistente, assente sobre traves fixas às paredes e às colunas, onde Teresa, de pé, ficasse com as nádegas à altura mais conveniente para a mão dele. Sobre essa plataforma ser-lhe-ia possível fixar dois móveis pesados: num deles, uma espécie de divã abaulado, podia fazer deitar a sua escrava, de barriga para cima, com os quadris e o ventre a um nível meio metro mais alto do que a cabeça e os pés, de modo a poder fustigá-la comodamente no ventre e no peito. As pernas ficariam mais fechadas ou mais abertas conforme as argolas que ele escolhesse para lhe amarrar os tornozelos ou as coxas. A superfície deste móvel seria acolchoada de modo a que Raul não magoasse os joelhos ou os cotovelos quando a possuísse sobre ele. O outro móvel era um banco alto, também acolchoado, onde Teresa se podia debruçar de modo a ficar com o rabo empinado, e do outro lado com a cabeça livre de modo a poder ser possuída pela boca.

Raul, que queria que estes móveis fossem sólidos, bonitos, bem construídos, bem acabados, de madeira nobre e couro da melhor qualidade, não teve outro remédio senão mandá-los fazer em Paços de Ferreira, dizendo que os destinava a uma nova espécie de ginásio. As argolas que serviriam para prender Teresa – anéis metálicos com cinco centímetros de diâmetro e um de grossura, presos à madeira por uma haste em forma de parafuso com seis centímetros de comprimento e sete milímetros de espessura junto à base – teriam que ser de bronze, para que Teresa tivesse a responsabilidade de as manter sempre limpas e brilhantes. Além disso, por razões estéticas de que Raul não prescindia, a parte em forma de anel tinha que ser separada da parte em parafuso por um batente circular com doze ou quinze milímetros de diâmetro. Nas lojas de ferragens e de “faça você mesmo” que Raul visitou não havia nada disto. Foi às lojas de artigos náuticos mais tradicionais de Matosinhos, onde lhe disseram que noutros tempos, talvez, mas que hoje era tudo fibra de vidro e aço cromado. Acabou por ter de mandar fazer o que queria numa oficina de fundição.

Enquanto esperava que as argolas de bronze ficassem prontas, chegaram mais caixotes de Milão: chicotes, vergastas, canas, vibradores, algemas, correntes, cadeados, pénis de borracha ou silicone, cordas macias de seda ou abrasivas de cânhamo, sapatos, sandálias, botas, roupas de couro, de cetim, de seda, opacas, transparentes, soltas, apertadas, para além de uma série de outros objectos que Raul nem sabia para que serviam. Resolveu pendurar alguns em ganchos nas paredes, dispor numa bancada os que pensava utilizar, e comprar um armário com vitrina para expor os restantes. Para as roupas e sapatos, resolveu comprar um armário fechado, que não podia ser grande demais para não atravancar o aposento. Algumas destas roupas teriam que ficar, juntas com as do dia-a-dia, no roupeiro embutido do corredor, junto ao quarto, que tinha ficado reservado para Teresa e já continha algumas peças de roupa que ela tinha deixado ficar nas visitas anteriores.

[ … ]

Chegados ao apartamento, Teresa ficou encantada com o quarto dos castigos, embora tanto ela como Raul já tivessem a ideia muito nítida de que aquela decoração e aqueles instrumentos não correspondiam exactamente ao tipo de relação que tinham em mente. O que aquele quarto exprimia era um domínio e uma submissão formais, ritualizados, estilizados, balizados por regras e limites, e muito centrados na punição física; enquanto o que eles pretendiam era algo de muito menos formal e muito mais radical e consequente. Como Teresa disse a Raul, não era tanto um estilo de vida como uma opção de vida.

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O presente excerto é tirado do fim do capítulo 3 do romance. Não se passa nele nada de especialmente erótico, mas é um passo importante no enredo…

Um dia, já moça púbere, Teresa tinha lido um poema que começava assim: “Eu quero amar, amar perdidamente…” Se aos dezoito anos de idade alguém lhe tivesse perguntado o que mais queria da vida, ela teria citado esta linha – caso não se calasse por vergonha, ou não desse uma resposta mais conveniente e menos verdadeira. Se esse alguém prosseguisse o interrogatório e lhe perguntasse o que era amar, Teresa ter-se-ia calado quase de certeza, ou dado uma resposta evasiva, ou dito que não sabia. E talvez, ao dizer que não sabia, estivesse de certo modo a dizer a verdade, porque uma coisa é saber uma coisa, outra é saber as palavras com que ela se diz. Mas também é possível que de noite, na cama, sozinha consigo mesma, tivesse dado a resposta – a sua resposta, porque da dos outros não sabia nada: amar é servir, obedecer e sofrer.

Se este inquisidor interior, a quem não é possível mentir e a quem nada se oculta, insistisse com as perguntas e quisesse saber se ela gostava de servir, responderia sem hesitação que sim. Desde quando? Desde criança pequena. Em casa dos avós, numa terra onde ainda havia criadas, se brincasse às famílias com os irmãos e os primos a criada era sempre ela. E tinha continuado a ser assim na pré-adolescência e na adolescência: num piquenique, numa festa de anos, numa festa da escola, era sempre ela quem circulava com os tabuleiros e servia os outros. Os pais, os professores, os colegas, se reparassem nisto, imaginavam sem dúvida que o fazia por amabilidade, ou por boa educação, ou para que gostassem dela; mas a verdade era que o fazia por prazer. O mesmo quanto à obediência: podiam os adultos pensar que ela obedecia por boa educação, mas a verdade é que obedecia por ter prazer nisso. E isto tanto era assim, que bem depressa apareceu, entre os seus amigos e colegas de escola, quem se apercebesse da sua permanente disponibilidade para fazer qualquer recado ou prestar qualquer serviço que lhe fosse solicitado. Era uma criança de quem as outras crianças gostavam e nunca lhe faltou o amor da família; e por isso, se houve sempre quem abusasse da sua obediência, houve sempre também quem a protegesse contra os piores abusos: Teresa não foi infeliz na infância nem na adolescência.

A pergunta difícil era a terceira: gostava Teresa de sofrer? Não, não gostava. Isto era muito claro para ela. Nunca lhe ocorreu beliscar-se para experimentar a que sabia a dor física. Sabia que algumas colegas suas de escola se cortavam nos braços com lâminas de barbear ou com facas, mas nunca lhe ocorreu fazer o mesmo. Mas se assim era (insistia o nosso hipotético inquisidor); se o sofrimento físico não lhe dava prazer, seria que o sofrimento mental lho dava?

Muito menos, responderia Teresa. Em todo o caso, não sabia muito bem o que essa expressão, sofrimento mental, significava. Se era ter um desgosto, ela já tinha tido vários, e não tinha tido prazer nenhum nisso. Um desgosto não é um prazer, é um desgosto. Nenhum facto pode ser mais claro nem mais evidente do que este.

Muito bem, diria o nosso inquisidor, tentando aclarar as ideias. Se Teresa não tinha prazer em sofrer, o que é que a fazia ter tanta certeza de que amar é sofrer? Teresa não sabia porque é que tinha essa certeza, só sabia que a tinha. Pois, mas então, se não desejava sofrer, o que é que a levava a desejar tanto uma condição em que o sofrimento estava, segundo a sua própria convicção inabalável, necessariamente incluído? Mais uma vez Teresa não sabia. Não sabia porque queria amar, só sabia que queria amar. Perdidamente, não o esqueçamos: amar não era só servir, obedecer e sofrer, era também perder-se. Felizmente para Teresa – e para a sua família, que poupou assim uma fortuna em consultas psiquiátricas – este nosso hipotético inquisidor nunca chegou a aparecer, e aos dezoito anos Teresa nunca tinha tido ocasião de pôr nada disto em palavras.

As palavras de que precisava vieram-lhe da leitura de um livro: A “História de O” de Pauline Réage. A sua identificação com “O” foi quase completa. De todos os tormentos sofridos por “O”, só não invejou um: a promiscuidade obrigatória, a entrega sem escolha a todos os homens que conhecessem a sua condição, independentemente da atracção ou da repulsa que pudesse sentir por eles. A isto chamava “O” a sua prostituição. Teresa não lha invejou, e talvez houvesse nisto algo de premonitório: não podia adivinhar que estava destinada a passar por este tormento, e a ser quase destruída por ele, mas a consciência que teve da sua possibilidade material não a seduziu. Tudo o resto, pelo contrário, a fascinou: as cordas, as cadeias, as regras, o silêncio, e sobretudo a atitude de “O” perante a punição física: amá-la antes de a sofrer, amá-la depois de a ter sofrido, detestá-la enquanto a sofria. Aqui estava, cabal e posta em palavras, a resposta a todas as objecções que alguém pudesse pôr à sua necessidade de amar e à sua compreensão do amor. A “História de O” era um conto de fadas, sem dúvida; nunca ocorreu a Teresa exigir ao mundo real que contivesse um lugar como Roissy; e no entanto nenhuma história tinha tido uma influência tão profunda como a desta no seu imaginário e no seu projecto de vida desde que tinha lido na infância, ou lhe tinha sido contada, a história da Bela Adormecida.

Enquanto esperava pelo Príncipe que a acordaria com um beijo, ou pelo Sir Stephen que a abraçaria com correntes de aço, Teresa pôs-se à procura do filme, do romance ou do poema que lhe desse o mesmo prazer que a “História de O” lhe tinha dado. Para sua desilusão, não os encontrou. O filme baseado no livro, que comprou em DVD na sucursal francesa da Amazon, era uma obra menor de pornografia soft-core – com a agravante de ser insuportavelmente pretensioso e com a agravante ainda maior, que lhe causou literalmente náuseas, duma cena final que não era mais do que uma concessão meretrícia e transparente às exigências do politicamente correcto: a imagem da actriz que fazia de “O” a apagar um charuto nas costas da mão de “Sir Stephen”. De um livro politicamente incorrecto, mas profundamente moral, tinha-se feito um filme um pouco menos incorrecto politicamente, mas imoral até à medula. Viu alguns filmes um pouco melhores, mas por cada um destes viu dúzias muito piores, muitos dos quais a fizeram envergonhar-se de partilhar o estatuto de ser humano com os seus autores e actores. De poemas, viu bom, mas pouco, e tudo de autoria feminina: Florbela Espanca, Maria Teresa Horta e pouco mais. De romances e contos, o melhor que leu – Anaïs Nin, A.N. Roquelaure, Miller, Bukowski, Bataille, Arsan − não se aproximava sequer do cânone estabelecido por Pauline Réage; e o pior que leu – categoria em que incluía os best-sellers de John Norman – ficava ainda mais longe de a satisfazer.

Na Internet encontrou de tudo, desde o que lhe pareceu serem verdadeiras almas gémeas, até gente que mal lhe parecia possível que habitasse o mesmo planeta que ela. Mas o mais provável era que quer uns, quer outros, não passassem de personagens virtuais, e esta suspeita levou-a a nunca se encontrar pessoalmente com ninguém que tivesse conhecido online.

A primeira grande guerra da vida de Teresa foi contra as freiras do colégio em Braga, quando anunciou em plena aula que Deus, a Virgem, os santos, as escrituras sagradas, era tudo uma grande treta, a que ninguém com dois dedos de testa concederia um minuto de crédito. Uma afirmação destas, mesmo nos tempos um pouco desabridos em que foi feita, passaria sem grande reparo numa escola católica de qualquer país Europeu que não fosse a Irlanda ou a Polónia, ou de qualquer cidade portuguesa que não fosse Braga; mas a Teresa trouxe-lhe alguns dissabores, que resultaram na sua transferência para um estabelecimento de ensino privado, onde terminou o curso secundário para se matricular a seguir na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Daqui seguiu para Milão, ao abrigo do programa Erasmus. Em Milão estudou design de moda, o que, além de lhe garantir uns poucos créditos para o curso que estava a fazer em Portugal, acabou de a convencer que quanto mais se fascinava pela estética do catolicismo bracarense, com a sua arquitectura barroca e a procissão do Senhor dos Passos, menos se deixava iludir pela sua doutrina e pela sua ética.

Foi em Milão que conheceu, aos vinte anos, Ettore Tedeschi. Não voltou a Portugal para concluir o curso de Arquitectura: em vez disso foi acumulando, em Milão, curso sobre curso em design de moda e de interiores. Ettore era quinze anos mais velho do que ela: herdeiro duma fortuna ligada à moda e à comunicação social, accionista e administrador de várias publicações especializadas – umas de grande prestígio e circulação restrita, outras de prestígio menor e grande circulação − foi ele quem a ensinou a fazer design de moda, a escrever sobre moda e a dominar os meandros de um negócio muito mais lucrativo, mas também muito mais competitivo e cruel, do que ele alguma vez tinha imaginado.

Tudo isto, porém, era nada e fumo em comparação com o que ele lhe ensinou de essencial: servir, obedecer, sofrer. Teresa tinha finalmente encontrado o seu Príncipe Encantado, o seu Sir Stephen. Com ele aprendeu as cordas, as correntes, as vendas, as mordaças. Com ele aprendeu os limites do seu corpo. Com ele aprendeu a detestar e a temer a dor física ao mesmo tempo que amava a expectativa e a recordação dessa mesma dor, como a “O” de Pauline Réage. Foi ele que a transformou numa actriz consumada, capaz de representar com igual facilidade, nas salas das famílias e nas sedes dos bancos, o papel duma senhora milanesa elegante e sóbria, e nos clubes sadomasoquistas que frequentavam o papel duma galdéria sem vergonha, com os seus uniformes em vinil e cabedal, justos ao corpo, as maquilhagens espampanantes, os decotes vertiginosos, as meias pretas de rede, os cintos de ligas, as transparências reveladoras, os sapatos de salto tão alto que a deixavam dorida e exausta ao fim de uma hora ou duas de uso.

Quando Ettore, ao fim dos primeiros meses, decidiu que viveriam juntos, Teresa obedeceu, assim como obedeceu com prontidão e alegria quando ele lhe comunicou que tinha decidido oficializar a relação casando com ela. E assim viveram, durante cinco anos, uma existência de conto de fadas, até à noite em que deflagrou um incêndio no clube semi-privado em que se encontravam.

Ao primeiro sinal de alarme, Ettore segurou Teresa pelo pulso e puxou-a para a portas das traseiras, que dava para um parque de estacionamento e que parecia de mais fácil acesso do que a porta da frente. Mas, apesar da força com que ele a segurava, a pressão da multidão acabou por separá-los: quando Teresa viu Ettore já ele estava a salvo, do lado de fora, olhando para trás com a expressão desesperada de Orfeu no momento em que perdia Eurídice. Lá fora havia mais claridade, e ele era um bom palmo mais alto do que a maioria dos outros: Teresa conseguia vê-lo, mas ele, por mais que olhasse para dentro do clube, não a via.

− Ettore! – gritou Teresa, num clamor que quase lhe desfez a garganta.

E ele deve tê-la ouvido, porque subitamente se lançou de novo para dentro da sala, acotovelando, pisando, derrubando quem se lhe interpusesse. Era um homem possante e conseguiu chegar até ela. Mas já não conseguiu sair: então, num arranque medonho, ergueu-a no ar e arremessou-a pelo ar para fora da sala, por sobre as cabeças da multidão em pânico.

Quando Teresa voltou a si, estava no hospital, cheia de equimoses e com um braço engessado. Tivera sorte, disseram-lhe, em só ter partido um osso depois do voo que fizera. Tinha sorte em estar viva, disseram-lhe. E Ettore? Ninguém sabia de Ettore. As autoridades ainda não tinham conseguido identificar todos os mortos, e ainda menos os sobreviventes. Quem sabe se Ettore não estaria entre estes? Que tivesse esperança, disseram-lhe.

No dia seguinte levaram-na numa cadeira de rodas à morgue do hospital para identificar o cadáver. A acompanhá-la, um irmão mais novo de Ettore e o Avvocato Manfredi – amigo íntimo do casal e seu gestor de negócios, e uma das pouquíssimas pessoas que o acompanhavam tanto na vertente respeitável e burguesa da sua vida em comum como nas suas aventuras sadomasoquistas. O rosto de Ettore estava intacto, e não lhe mostraram o resto do corpo.

− É ele – disse Teresa. – É Ettore Tedeschi, il mio marito.

E nos dias e semanas que se seguiram não disse mais nada a mais ninguém.

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Autor: M’Ahmed ben Chérif Effendi

Tradução: Vanderdecken

Zima dirige-se de novo ao Príncipe e diz:

− Permite, Amo e Senhor, que vistamos as nossas roupas de modo a que esta virgem sofra ainda mais com a sua nudez.

A um aceno de concordância do Khan desaparecem os três para logo voltarem completamente vestidos. Zima traz um vestido de seda negra bordado a prata que lhe realça as linhas do corpo esbelto. Os dois rapazes conservam os calções vermelhos debruados a prata, mas o bolero foi substituído por um colete russo justo à cintura.

Desceram vários degraus, conduzidos por Zima até chegarem a um corredor longo e sombrio com paredes nuas, mal iluminado por tochas fumarentas. De súbito param diante duma porta maciça em madeira de carvalho, fechada por grossos fechos de ferro. Zima bateu três vezes com a pesada aldraba de ferro. Este lugar provocava um medo angustiante, e o eco abafado da aldraba sob as abóbadas despertava sonhos sangrentos. Quase se podia acreditar que se viam ainda os vestígios das várias torturas que numerosos infelizes tinham sofrido ao longo de muitos anos. Uma velha com feições descarnadas e aspecto temeroso apareceu para abrir a porta. Ao ver Zima cumprimentou-a tomando na mão manchada de henna a mãozinha da jovem e beijando-a com reverência. A seguir, sem dizer palavra, conduziu o pequeno grupo a uma cave escura cuja porta fechou depois de pedir licença aos visitantes.

Esta câmara, que na sua desolação esquálida contrastava singularmente com o luxo dos andares superiores, recebia um pouco de luz natural por uma fresta estreita; uma lamparina a óleo iluminava o compartimento com uma chama bruxuleante. Vários objectos pendiam das paredes húmidas; alguns bancos e uma banheira em pedra constituíam o parco mobiliário desta tumba. E no meio, atada a um pesado bloco de madeira, gritava e debatia-se uma jovem.

As cordas que a prendem firmemente entram-lhe pela carne e obrigam-na à imobilidade. A garganta está presa por uma banda de ferro que lhe pesa sobre os ombros como uma canga. Por debaixo dos sovacos correm-lhe cordas finas que lhe deformam os seios e os friccionam até fazer sangue. Uma tábua presa com fios de cânhamo fixa-lhe os braços ao bloco; pelo mesmo sistema tem imobilizadas as articulações das mãos. Uma tira de couro cravejada por dentro com picos de aço rodeia-lhe a cintura. As pernas estão presas ao bloco da mesma maneira que os braços, e os pés apoiam-se numa tabuazinha recurva com pregos de ponta arredondada, que não ferem mas provocam dores excruciantes.

Esta jovem é Alifa, a escrava rebelde que mereceu esta punição devido a inúmeros delitos. O castigo foi adiado para este dia para servir o prazer do Khan, como outrora os Césares gozavam o martírio dos cristãos. A sua punição é ainda aumentada pela vergonha que o olhar dum homem sobre a sua carne virgem representa.

Este espectáculo transforma o Príncipe; sem saber porquê, fica repleto dum ódio profundo contra a jovem indefesa exposta perante ele. Desperta nele toda a crueldade do Hindu, os seus lábios contraem-se num sorriso maldoso: assim é o tigre quando se prepara para se lançar sobre a presa. Hassan odeia esta jovem!

– Cadela de escrava! – brama, depois de ter apreciado calado este quadro sinistro por algum tempo. – Metes nojo! Pois bem! Agora vais sofrer para expiar os teus erros!

– Piedade! – suspira a infeliz entre lágrimas. – Os meus membros doem-me, o meu peito sangra… Poderoso Senhor, pela tua mãe, sê misericordioso! Manda-me soltar! Piedade!

– Vais ser torturada – responde ele.

Com um esforço sobre-humano a jovem procura romper os laços que a prendem, mas eles enterram-se-lhe ainda mais na carne. A dor é avassaladora, um grito de partir o coração rompe-lhe da garganta e ela desfaz-se em soluços. As lágrimas diminuem pouco a pouco e o seu olhar suplicante dirige-se de novo para o Príncipe. Mas este permanece inamovível, e um sorriso sardónico paira-lhe nos lábios cerrados. Atemorizada, Alifa baixa os olhos e sofre em silêncio…

– Olha para mim! – ruge o Khan ao mesmo tempo que mostra à escrava o seu pénis posto a nu. Alifa enrubesce e baixa de novo os olhos, mas Hassan, no cúmulo da cólera, ordena às duas negras que têm Alifa a seu cargo:

– Peguem nos chicotes e chicoteiem esta cadela na barriga pelo tempo que for preciso até ela olhar para o meu sexo!

Os golpes silvam no ar e estalam na barriga branca da jovem. Esta nova tortura arranca-lhe novos gritos de dor. Depois do terceiro golpe, procura erguer o olhar para o Príncipe, mas debalde, porque o pudor a obriga a baixar de novo as pálpebras. Os golpes continuam a chover, e de novo, por várias vezes, ela se esforça por contemplar o membro de Hassan, mas sempre sem êxito. Por fim aparece um fino fio de sangue nos vergões do chicote e ela desmaia…

As negras revivem-na com uma massagem e dão-lhe a sorver uma bebida retemperadora. Como ela continuava de cabeça baixa, prenderam-lhe um peso aos cabelos compridos para lhe puxar a nuca para trás e obrigar a pobre a olhar em frente. Com o rosto vermelho de vergonha, ainda não ousa obedecer; pouco a pouco, porém, vai-se habituando, e ao ser ameaçada com um ferro em brasa decide finalmente olhar para o Khan, a quem o olhar temeroso dirigido às suas partes sexuais excita em alto grau. E a jovem vê pela primeira vez na vida como o membro de um homem se vai endireitando lentamente, aos arrancos, até ficar direito e rijo.

Olha agora com espanto, esquecendo as dores que sente, este membro comprido que se move para cima e para baixo, endurece, passa de vermelho a roxo e se dilata ao ponto de parecer quase a explodir… Por fim Hassan, que receia um orgasmo demasiado rápido, cobre-se de novo com a sua camisa de seda e senta-se num banco.

Ordena que a desamarrem; uma ideia diabólica passa-lhe pela mente. Quando Alifa se sente livre a sua primeira reacção é pôr as mãos a esconder o sexo, num movimento instintivo ditado pelo seu pudor virginal.

– Tira as mãos! – ordena o Príncipe.

A jovem não obedece e mantém-se na mesma posição: imediatamente silvam dois chicotes de couro que lhe atingem os braços, e a dor obriga-a a obedecer ao desejo do Khan. Este chama as duas negras e dá-lhes instruções em voz baixa. Estas compreendem: tomam nas mãos as vergastas e põem-se à espera. O Príncipe ergue-se, deita fora a camisa de seda e dirige-se a Alifa todo nu. Ao ver aproximar-se de si este homem ávido, ela apressa-se a fugir: o Khan persegue-a e ela corre por toda a sala para escapar ao amplexo que a ameaça. Mas ao escapar tem que passar pelas negras, que a cada passagem a atingem com os chicotes nos ombros, nas coxas e no rabo. E o Príncipe persegue-a sem querer a sério apanhá-la. A escrava urra de dor a cada golpe do chicote, e os seus gritos originam, estas abóbadas subterrâneas, um eco assustador.

De repente, no fim das suas forças, pára, vira-se e dá ao Khan, antes que ele tenha tempo de se defender, uma sonora bofetada na cara. Ao receber este insulto inaudito ele fica desconcertado, pasmado, durante um momento; mas logo a cólera e a fúria lhe fazem perder a cabeça; com mãos trémulas agarra num chicote, prende a jovem pela garganta, atira-a ao chão e vergasta-a sem piedade.

Quando ele, esgotada por agora a sua cólera, termina, as negras ajudam a jovem a levantar-se e mergulham-na totalmente na banheira cheia de água gelada.

A infeliz sente-se finalmente melhor; bebe ainda um cordial, e depois de algum tempo de sossego vai-se recompondo cada vez mais. Contudo, arde-lhe o corpo todo, os membros doem-lhe horrivelmente, e julga sentir dentro de si um fogo que a consome; mas não ousa queixar-se porque teme uma nova punição: pois não duvida que os seus sofrimentos ainda não chegaram ao fim, e que o rude selvagem que a contempla com olhos ávidos e cruéis ainda não está saciado. E o Khan odeia-a agora com todo o ódio dum homem insultado. Ditará a sangue frio, para obter vingança, as penas mais terríveis.

– Pede perdão – rosna ele. – Diz que me queres, cadela miserável!

As negras sopram à jovem, para que ela obedeça ao seu Senhor, as palavras que deve dizer, e acompanham estas palavras com vergastadas.

– Poderoso Senhor – soluça ela – perdoa… à tua ínfima escrava o ultraje que ela cometeu contra ti… Desejo-te, meu amado, gostaria… de sentir o teu corpo sobre o meu… gostaria que o teu sexo penetrasse em mim… Sou uma cadela miserável… que não deseja mais nada que servir-te… Sei que sou indigna de ti… O teu membro é belo… é vermelho… é grosso… Quando se introduzir em mim há-de rasgar-me toda…

Este discurso continua ainda por muito tempo, sempre ditado pelas negras, que a cada hesitação abatem as vergastas sobre os braços nus de Alifa. A jovem está vermelha de vergonha por ter que dizer tais palavras; um tremor nervoso apodera-se de todo o seu corpo e apercebe-se do tormento que ainda a espera. Momentos de rancor surdo alternam no seu espírito com o mais profundo abatimento. Dá-se conta da sua impotência e quereria defender-se, desejaria não deixar macular a sua pureza virginal diante de tantos olhos; as palavras que diz doem-lhe na boca, e crê sentir um vento de loucura a percorrer-lhe o espírito.

Depois de um curto intervalo é obrigada a fazer um novo discurso que ultraja ainda mais o seu pudor. É constrangida a acompanhar as palavras de gestos e a mostrar as partes do corpo a que se refere.

– Olha para os meus seios, meu Amo, ainda são pequenos… mas são firmes como o mármore e têm bicos rosados… que apontam para ti… Observa os meus pés, poderoso Senhor, estão vermelhos dos tormentos que sofreram para te dar prazer… Vê a minha barriga tão branca… Aqui, entre as minhas coxas, meu Amo, está um lugar encantador. Onde quero que penetres.

Com estas palavras abre as coxas, coagida pelas negras, curva o corpo para trás e mostra o lugar de que fala.

– Vê também, Senhor, o meu rabo redondo e carnudo; pertence-te, embora não seja digno de te servir… Se quiseres, há-de abrigar o teu membro poderoso, e hás-de vir-te dentro dele.

Ao acabar de dizer estas palavras a jovem baixa a cabeça e desfaz-se em soluços…

– Está bem – responde o Khan. – Vais provar que é verdade o que disseste.

O Khan ergue-se e aproxima-se da jovem; acaricia-lhe as maçãs do rosto, mete-lhe um dedo entre os lábios, percorre-lhe o cabelo com a mão, ergue-lhe os braços e titila-lhe os sovacos. Depois desce, apalpa-lhe a barriga e chega finalmente ao lugar mais secreto, no qual tenta introduzir um dedo. Ao sentir este contacto, Alifa solta um grito e cobre o rosto com ambas as mãos, chorando lágrimas amargas. Estes soluços, porém, não incomodam o Khan, antes lhe fazem recrudescer a paixão. Afaga com a mão o rabo da escrava e belisca-lhe lascivamente as nádegas. Estes actos de concupiscência enchem a jovem de vergonha, e de novo as lágrimas lhe correm copiosas…

– Mostra a cara! – ordena o Khan, e como Alifa não obedece esbofeteia-a com força, mas debalde… A excitação dele cresce; belisca-a cruelmente nas coxas e enterra-lhe as unhas nos braços brancos.

O Khan observa-a em silêncio durante um momento, e depois continua a apalpá-la. As suas mãos passeiam-se pela carne da donzela sem que esta profira uma queixa ou uma palavra.

– Tens que te habituar – ralha uma das negras. – Se este magnânimo Senhor não te possuir, talvez sejas violada e chicoteada já amanhã por cem homens. Não sejas tão arrogante e deixa-te conquistar, víbora!

A jovem fixa com olhos espantados ambas as megeras, que lhe introduziram na alma a semente de um novo terror.

É-lhe concedido um pouco de sossego. Deita-se a um canto sobre o chão de pedra nua cuja frescura contribui para acalmar um pouco a ardência que lhe queima a carne. O Khan senta-se ao seu lado e fuma um cigarro. No fundo dos seus olhos cinzentos arde-lhe uma chama de luxúria; consome a donzela com o olhar. Quer possuí-la. Dá conhecimento deste desejo a Zima, e esta dá instruções às negras para que preparem tudo no compartimento vizinho para o sacrifício que o Príncipe quer oferecer ao deus Eros. As núbias lançam-se ao trabalho. Alifa continua estendida no chão, respirando com força, a cara virada para a parede e a mão colocada entre as nádegas para esconder o rabo. Apesar das dores, o seu pudor ainda oferece resistência. O jovem Ali não descia os olhos dela nem por um minuto; o seu membro viril levanta-se furioso.

Finalmente as duas megeras regressam: está tudo pronto. Cada uma delas toma um braço da jovem para a conduzir a um quarto espaçoso, mobilado com simplicidade e sem luxo. O Khan, Zima e Ali seguem-nas. Uma carpete espessa no chão, dois divãs de veludo verde, algumas poltronas baixas forradas a seda: é este todo o mobiliário. As paredes são simplesmente brancas, e uma lamparina fumarenta, pendente do tecto, ilumina a câmara com uma luz fraca.

Chegadas aqui, as duas negras largam a jovem e retiram-se. Só ficam o Khan, Zima, Ali e Alifa. Esta deixa-se cair sobre um divã e segura a cabeça com as mãos. Tem a noção do que lhe vai acontecer e sente nos lábios um gosto amargo. Neste momento teria recebido a morte com alegria. Tudo o que sofreu até agora lhe parece trivial em comparação com o sacrifício do seu corpo a este homem que odeia, cuja face brutal e cruel a enche de medo; já não ouve nem vê nada, está tão imersa em si mesma que não se dá conta do mundo exterior. De súbito ergue a cabeça e vê diante de si o Príncipe todo nu: o seu sexo erecto aponta para ela a cabeça vermelha.

Um pouco mais longe está o rapaz, também ele nu, e o seu membro está igualmente duro. Todos têm o olhar dirigido para ela, que observa a cena de olhos arregalados. O seu peito ergue-se e desata aos soluços. Chegou o momento em que o seu corpo virginal há-de ser conspurcado, primeiro por este selvagem, depois pelo rapaz que ainda mal pode ser chamado um homem.

– Alifa – diz o Príncipe – vou tomar posse de ti. Estás a ver o meu sexo: pois bem, ele vai penetrar no teu ventre!

No seu desespero avassalador a jovem encontra um pouco de coragem e brada:

– Não! Mil vezes não! Não me haveis de ter, hei-de defender-me!

Nos lábios do Khan aparece um sorriso sardónico. Aproxima-se lentamente da sua vítima, e esta recua alguns passos para logo começar a correr, perseguida por Hassan, à volta da sala… Agacha-se, pega numa almofada e atira-a à cara do Khan. Este carrega sobre ela, que tenta escapar mas passa junto de Ali, que estende a perna e faz com que ela caia no chão. O Khan pega-lhe logo pelos braços; ela arranha-o e defende-se – debalde! Ele arremessa-a com rudeza para cima de um divã e cai sobre ela. Desesperada, ela repele-o e fecha as pernas com toda a força. Sente o grosso membro do seu perseguidor, ora sobre a barriga, ora sobre as coxas. Com as mãos procura afastar o rosto do homem, que aproxima os lábios dos dela cheio duma aterradora concupiscência. Agarra-o pelo bigode e puxa-o para trás. Mas ele põe os braços à volta dela e puxa-a irresistivelmente contra o seu peito. –

O peito dela toca no dele; ele deposita um beijo nos seus lábios húmidos e morde-lhos com voluptuosidade. Aperta-a cada vez mais – até quase a sufocar. O membro duro embate-lhe no ventre. Agora quer possuí-la completamente. Segurando sempre o torso da jovem entre os seus braços musculosos, ele ergue-se um pouco e força um joelho entre as coxas dela, contra o seu monte de Vénus. Ela debate-se até que as pernas cedem, cansadas, e os joelhos do Khan descem até tocarem finalmente no divã. Um estertor fundo rompe-lhe da garganta; está vencida e sente-se enfraquecer. Com um movimento súbito, recua, e consegue apoiar-se de lado sobre a anca; com isto o Príncipe perde o terreno que tinha ganho, pois com este movimento as suas pernas saíram da posição conquistada. Furiosamente aperta-a ainda mais e comprime o membro erecto contra o corpo dela. Mas é tarde demais, e ela será a vencedora nesta luta desigual. No paroxismo da sua ânsia o Príncipe já não consegue conter-se, e um jacto de esperma derrama-se sobre o corpo virginal de Alifa.

Ele levanta-se, fora de si, segura-a pelos cabelos e começa a bater-lhe sem piedade. Chovem sobre ela os murros e os pontapés. Por fim acalma-se e permite que ela se levante também. Apesar da sua exaustão, paira nos lábios da jovem um sorriso de triunfo; pega numa almofada e seca com ela o esperma que lhe alagou as coxas.

Mais uma vez o mosquito venceu o leão, a escrava fraca conseguiu defender-se do homem robusto; este sente-se melindrado; a sua força esgotou-se, o seu pénis está flácido. No seu coração já só habita o ódio, misturado com a ira. Há-de vingar-se desta mulher que o humilhou, a ele, o Príncipe Hassan-Khan, o chefe temido e respeitado de todo um clã!

– Cadela – rosna ele. – Não cheguei a possuir-te, mas vai possuir-te este rapaz que aqui vês; Eu mesmo o ajudarei, e o seu membro há-de livrar-te dessa virgindade que defendes com tanta paixão.

Ao ouvir estas palavras o rapaz levanta-se; o seu membro ergue no ar a cabeça vermelha, os seus olhos relampejantes trespassam o corpo da escrava. Só espera um sinal do seu Senhor para se lançar sobre ela. Por fim o Príncipe dá a ordem. De um salto fica o rapaz junto da jovem, que deita ao chão no seu ímpeto; segura-a pelo pescoço com os braços e deita-se com todo o corpo sobre ela…

O Príncipe e Zima apressam-se para junto deles; esta segura os braços de Alifa, Hassan ocupa-se das pernas, que afasta com um impulso poderoso e mantém assim abertas. O corpo do jovem está agora entre as coxas da escrava. As pernas desta já não se podem fechar e isto permite ao Príncipe largar-lhe os pés para apontar o membro do rapaz. Este começa por fim a penetrar nela. Um grito de alegria rompe da garganta de Ali – e um soluço abafado da boca de Alifa. O rapaz está a rasgá-la, ela sente o membro que se vai introduzindo aos arrancos, cada impulso dele para diante é uma dor para ela. Subitamente parece que todo o seu ventre dá de si, apodera-se dela uma dor avassaladora, e passada esta não sente quase nada. Só o entrar e sair do membro lhe lembra a realidade do que está a acontecer. Deixa-se possuir, imóvel, desta vez derrotada. Não experimenta qualquer prazer, só a domina uma impressão bizarra. Os seus olhos fecham-se, dos seus lábios escapa uma respiração sibilante. Finalmente derrama-se um líquido aos borbotos no seu ventre e ela desperta do seu meio sono ao sentir-se inundada.

Neste momento sai-lhe um último soluço da garganta. O esperma de Ali traz-lhe à consciência a realidade completa. Compreende que tudo acabou e chora ainda pelo ultraje feito ao seu corpo. Tudo terminou. Com um último beijo entre os seios dela, o jovem afasta-se dela e levanta-se.

Alifa está livre, Zima largou-lhe os braços, e o Khan está de pé diante dela a olhá-la com uma expressão trocista. Ela foge para o outro extremo da sala e volta a chorar. A escrava Alifa perdeu a virgindade: nada de importante.

Agora o Khan quer também possuir a jovem. Desta vez são tomadas todas as medidas para que toda a resistência da escrava seja em vão. Como o Príncipe já não está excitado é preciso primeiro provocar-lhe uma erecção suficiente. Zima e Ali encarregam-se disto. Finalmente, quando os nervos do Príncipe se encontram de novo suficientemente atiçados, ele dirige-se a Alifa e obriga-a a apertar-lhe o pénis com a mão. Finalmente chegou o momento.

– Cadela – brada-lhe o Khan. – Não quiseste que eu te tivesse pela frente; agora vais ver, vou gozar no teu rabo, víbora!

O Khan aproxima-se e começa por lhe titilar com o membro o buraco do rabo. Alifa solta um berro e imediatamente cai sobre ela uma correia de couro. O Príncipe ri-se. Num repente, com um movimento brusco, dá uma estocada tão forte com o pénis que Alifa dá um uivo ensurdecedor. Tem o corpo todo em fogo e da testa caem-lhe gotas de suor frio enquanto o Khan se move para a frente e para trás no rabo dela. O seu membro grosso sente-se fortemente apertado nesta abertura estreita e o seu prazer é extraordinário, mas por muito tempo o esperma não vem. Este dia cheio de excessos esgotou-lhe a força viril.

Recua para descansar um pouco, mas logo se volta a introduzir com o mesmo movimento brusco no rabo da jovem.

Contudo não consegue ejacular; começa a mover-se desmesuradamente, descansa a face sobre a cabeça da escrava e acelera o movimento… nada acontece, só o suor lhe sai do corpo por todos os lados. A respiração torna-se-lhe arquejante.

Por fim o prazer está próximo, ele sente-o chegar, os seus movimentos tornam-se ainda mais rápidos. Sente um titilar lascivo no membro viril, acredita que tudo terminou, e contudo ainda não. Então o membro dilata-se, cresce no rabo de Alifa e deita um jacto de esperma. O prazer é demasiado: o Khan perde o domínio de si, aperta Alifa com os dois braços contra o peito. Fica deitado sobre o corpo dela, sem se mexer, com um tremor nos membros e os nervos exaustos…

De quando em quando o seu membro ainda palpita um pouco e deixa sair uma gota de esperma. O Príncipe não se move e não se aparta do abraço. Parece encontrar um novo prazer neste prolongamento da sua união. Também Alifa permanece sem emitir um som ou fazer um movimento; o seu sacrifício está acabado e é irreversível; já tudo lhe aconteceu, está definitivamente vencida. A sua carne já não lhe pertence, e ela entrega-a sem se queixar, quase sem um lamento no coração. Só subsiste ainda nela uma amarga aversão aos prazeres da carne, mas esta aversão há-de desaparecer com os novos amplexos, no harém do Khan há-de acabar por perdê-la… Um espasmo generalizado torce-lhe os músculos, parece que um anel de ferro lhe comprime a cabeça, está febril.

O Khan já não é a fera cruel que era ainda há pouco; cobre Alifa de beijos ternos, envolve-a em carícias suaves e palavras amáveis. Já não é uma vítima do amor que tem diante de si, já não é uma cadela que ele despreza, mas sim uma mulher que através da entrega do seu corpo – involuntária, é certo, mas entrega mesmo assim – lhe proporcionou um prazer sem medida. Toma-a nos braços e deita-a ternamente no divã; ainda lhe beija as pálpebras, a testa, os seios. E durante um momento os seus lábios prendem-se entre as coxas brancas e firmes.

Com isto começa a entrar qualquer coisa de novo e insuspeitado no coração da escrava: esta ternura e esta bondade fazem com que a sua ira se comece a desvanecer e sente-se presa – não de amor, mas de uma simpatia, um certo bem-querer a este homem que há poucos momentos ainda era o seu verdugo. O seu estado de espírito sofre uma singular transformação e desta hora em diante ela dedica a este homem o seu corpo, porque este corpo o faz tão amável!

O Khan levanta-se por fim, vira-se para Zima e diz-lhe:

– Já que desflorei esta jovem, tenho, segundo as regras desta casa, que a comprar. Pois bem, compro-a, e com ela o jovem Ali. Será a Huri graciosa que adulará os nossos desejos e servirá o nosso prazer, o meu e o de Ali. Ali, de hoje em diante ela pertence-te como me pertence a mim. Podes servir-te dela e tirar prazer dela como e quando quiseres.

O rapaz lança-se aos pés do seu Senhor e agradece-lhe comovido.

– Poderoso Senhor – diz ele. – Fico agradecido pela felicidade que recebo das tuas mãos; o meu corpo pertence-te como o duma escrava. Permite-me só que me sirva agora desta jovem. Quero-a tanto, meu Amo, que não posso mais esperar, permite, suplico-te, que eu a tome como tu acabas de a tomar!

O Khan nega por enquanto ao seu jovem escravo esta permissão, pois quer dar à jovem algum sossego. De resto ele próprio começa a sentir, depois desta longa sucessão de desvarios, algum cansaço; deseja sossegar o quanto antes os seus membros cansados numa cama macia.

(Continua)

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Clara teve finalmente que admitir perante si própria que já não se sentia escrava de Lúcio. Mais do que isto: teve que admitir, o que de certa maneira foi ainda mais difícil, que Lúcio já não se sentia seu Senhor. Tornara-se dependente, possessivo e ciumento. Já não dispunha dela com a liberdade de outrora – uma liberdade esplêndida, insolente, que era quase uma displicência; em vez disto agarrava-se a ela com um amor timorato e inquieto.

Ela, por sua vez, sentia-se culpada: culpada de já não se sentir dele por mais que dissesse a si mesma que havia de o ser sempre. Cada vez mais se lembrava das palavras com que tinham selado, meses atrás, o seu pacto: «a tua única liberdade é deixares de ser minha escrava quando quiseres.» Muito bem; lindas palavras; mas para Clara o exercício desta liberdade, a mera admissão de que ela pudesse ser exercida, aparecia como uma traição e um fracasso.

E havia ainda Ricardo. Pensar em Ricardo, como Clara não se conseguia impedir de fazer, era outra deslealdade para com Lúcio. A maior traição, porém, a traição que Clara não perdoava a si própria, era o quadro que a sua imaginação lhe pintava com cada vez maior frequência – sempre inesperado, sempre súbito, sempre indesejado: ela própria aos pés de Ricardo em vez de aos de Lúcio: Ricardo, e não Lúcio, na posição de Senhor – um Senhor verdadeiro, mais atento, mais firme, mais seguro de si, mais exigente.

Culpada, portanto. Sabia-se culpada. Porque não via Lúcio que ela era culpada? Porque não a punia? Porque não se apoderava de novo dela, e a fazia sua, e lhe tirava da cabeça o pensamento indesejado de pertencer a outro?

A relação não terminou com um corte limpo nem repentino. Teve afastamentos e reconciliações, lágrimas, discussões, dias de felicidade quase perfeita. Durante um desses períodos de afastamento, Clara, sem saber se era livre ou não, começou a encontrar-se com Ricardo; e ao fim de alguns destes encontros teria sem dúvida chegado a ir para a cama com ele se ele se tivesse prestado a isso sem que estivessem perfeitamente definidos os seus direitos sobre ela.

– Não podes ter dois donos – disse ele no dia em que ela lhe ofereceu a boca num beijo.

Tão estranho é o coração humano que Lúcio, quando soube dos encontros entre Clara e Ricardo, se ressentiu mais desta infidelidade não consumada do que se teria ressentido da mais tórrida e apaixonada das ligações eróticas. Numa das últimas discussões que tiveram disse à amante, entre desencantado e furioso:

– Finalmente, não és minha escrava.

Clara ainda não estava preparada para admitir esta verdade. Foi buscar o chicote, disse a Lúcio que não a poupasse, e ele de facto não a poupou; mas no fim, perante as lágrimas dela e os vergões em carne viva que lhe cobriam o corpo, continuou a dizer:

– Não, Clara. Já não és a minha escrava.

Dias depois, durante a noite, quando ele tinha acabado de sair de dentro dela, ela murmurou, como tantas vezes antes, «sou tua».

– Pois se és minha – respondeu Lúcio – não te vais entregar ao Ricardo.

Clara não respondeu. Entregar-se a Ricardo era o seu maior desejo, e sobre isto não podia mentir. Além disso não tinha compreendido bem as palavras de Lúcio, que pareciam uma ameaça mas não tinham sido ditas em tom de ameaça. Só compreendeu quando ele continuou:

– Não te vais entregar a ele. Se não te pertences, não te podes entregar a ninguém. Quem te vai entregar ao Ricardo sou eu.

E sem mais palavras, surdo aos pedidos e às perguntas dela, levantou-se, vestiu-se a saiu. Nos dias que se seguiram, Clara não o encontrou nem em casa, nem nos lugares que ele costumava frequentar, e não conseguiu contactá-lo por meio nenhum. Durante este tempo todos os encontros que teve com Ricardo foram para falar de Lúcio, do estado de espírito de Lúcio, do medo que Clara tinha de que ele fizesse «alguma asneira».

Por fim foi Ricardo quem lhe disse:

– O Lúcio telefonou-me.

– Telefonou-te? A ti? Onde é que ele está?

– Está em Itália. Chega amanhã. Quer encontrar-se contigo e quer que eu esteja presente.

Clara ficou sem saber o que pensar. Ao fim de um longo silêncio, perguntou:

– E tu vais?

– Vou. E tu também. Vamos os dois. Mas esta noite dormes comigo.

Nessa noite, quando os corpos dos dois se uniram pela primeira vez, foi como se fossem amantes de longa data, reencontrados ao longo duma longa e penosa ausência. Amaram-se toda a noite com lágrimas e sorrisos, com denodo e temor, com violência e brandura. Mas nem por uma vez ele disse «és minha» ou ela disse «sou tua».

O encontro foi em casa de Lúcio, que os recebeu num compartimento mobilado como uma biblioteca. Convidou Ricardo a sentar-se numa poltrona e fez sinal a Clara que se sentasse no chão, como tantas vezes antes. Quando ela, corando, fez menção de se ajoelhar no seu lugar habitual em frente ao sofá, ele abanou a cabeça e indicou-lhe com o queixo o tapete à frente de Ricardo.

– Aceita um whisky? Um charuto?

– Com todo o gosto – respondeu Ricardo. – Mas só o whisky, por favor.

– Clara, queres servir-nos?

Clara, que já estava ruborizada, enrubesceu ainda mais ao ouvir esta frase que lhe pareceu cheia de segundos sentidos. Ao verter a bebida atrapalhou-se e deitou um pouco por fora de um dos copos. Poucos dias antes este lapso teria sido pretexto para um castigo severo, mas desta vez Lúcio limitou-se a dizer:

– Deixa estar, não faz mal. Depois a empregada limpa.

Parecia não estar com pressa: esperou que ela servisse os dois whiskies e se sentasse de novo no chão aos pés de Ricardo antes de perguntar:

– Diga-me, Ricardo, a Clara alguma vez lhe disse que me pertencia?

– Sim – respondeu Ricardo. – Várias vezes.

– Ah. E alguma vez lhe disse que tinha deixado de me pertencer?

– Não, nunca.

– Nem que lhe pertencia a si?

– Também não. Tanto quanto sei, a Clara considera-se propriedade sua.

Lúcio sorriu levemente.

– Nem nunca lhe disse que desejava ser sua?

– Os desejos da Clara – respondeu Ricardo, pausadamente – não contam.

Lúcio levantou-se do sofá e serviu-se doutro whisky.

– Da última vez que estive com a Clara – murmurou – disse-lhe que não queria que ela se entregasse a si. Queria ser eu a entregar-lha. Ela contou-lhe?

Ricardo assentiu com a cabeça e Lúcio continuou:

-Sabe, Ricardo? Há uma coisa sobre mim de que a Clara provavelmente nunca se deu conta. Não esteve comigo tempo suficiente para isso. Mas é importante que o saibam agora, ela e você.

Ricardo levantou uma sobrancelha e esperou polidamente que Lúcio prosseguisse.

– Sou um jogador, meu caro Ricardo Sempre o fui, desde que me conheço. Não por compulsão, nem por qualquer tendência auto-destrutiva. Pertenço à espécie rara dos que ganham mais do que perdem.

Ricardo inclinou um pouco a cabeça:

– Espécie rara, com efeito.

– Mas mesmo assim aprendi a perder – disse Lúcio, como se o não tivesse ouvido. E acrescentou, perdendo pela primeira vez um pouco da calma com que até então tinha conduzido a conversa:

– Aprendi a perder, e aprendi sobretudo a nunca jogar a feijões. Está-me a entender?

– Não – disse Ricardo. – Lamento, mas não estou a compreender aonde quer chegar.

Lúcio mostrava agora alguns sinais de agitação:

– Aonde quero chegar? Quero chegar aqui: sei que vou perder a Clara, se não a perdi já. Mas não quero que você a ganhe sem pagar um preço. Reflecti muito enquanto estive em Itália, e decidi isto: a Clara, nunca lha darei, mas vendo-lha. Se você a quiser e puder pagar, eu vendo-lha. Aceita?

Sentada no chão, Clara teve um sobressalto violento. Ter-se-ia levantado de repente se Ricardo, com um gesto imperioso, a não tivesse obrigado a ficar quieta.

– E já pensou no preço? – perguntou ele, serenamente.

Lúcio bebeu um trago de whisky e mencionou uma quantia que levou Clara a dar outro salto no lugar. Porquê isto? Lúcio era rico, bem mais rico que Ricardo. Nem precisava de dinheiro, nem era ganancioso: disto tinha Clara a certeza. E para Ricardo a quantia pedida era, sem ser ruinosa, significativa. Teria Lúcio tido em conta as circunstâncias do outro?

– Por esse preço não a quero – disse Ricardo, impassível. – Dou-lhe o dobro.

A estas palavras Lúcio ergueu o queixo.

– Peço-lhe que não me insulte. Pedi-lhe um preço por esta mulher, é esse preço que está em discussão.

– Tem razão – disse Ricardo. – Peço desculpa. Estou de acordo com o preço, naturalmente.

E sem mais palavras tirou do bolso o livro de cheques. Enquanto desenroscava a tampa da caneta virou-se para Clara:

– Descalça-te, Clara. Agora és propriedade minha.

Com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto, Clara tirou os sapatos de salto muito alto com que Lúcio gostava de a ver e que tinha trazido calçados em homenagem a ele. Viu o cheque mudar de mãos. Aproximou-se de Ricardo, ajoelhou, beijou-lhe a mão.

À despedida, o sorriso que deu a Lúcio foi tanto de agradecimento como de compaixão. Os sapatos, deixou-os com ele.

(Publicado no Blogger a 08/09/07)

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De repente Dúnia sentiu que não aguentava mais.
– Pára! Pára, meu Senhor, pára!

E num pânico cego rolou sobre a cama, para o mais longe possível, fugindo ao chicote. Nem ela saberia explicar porquê: não era a primeira vez que sofria o chicote – ai, nem de longe – e já tinha tido castigos mais prolongados e mais dolorosos.

Ricardo não conseguiu travar uma última vergastada, que já ia a caminho e aterrou onde ele não queria: no ventre dela, subitamente exposto, subitamente no lugar onde uma fracção de segundo antes tinham estado as nádegas; e nos braços que ela interpusera para se proteger.

Aproximou-se dela, que soluçava:

– Perdoa… Perdoa, meu Senhor, não fui capaz…

Ricardo não disse nada, não perguntou nada. Sentou-a no sofá, sentou-se ao lado dela, abraçou-a e começou a afagá-la e a beijá-la enquanto os soluços se lhe iam acalmando. Só ao fim de longos minutos é que acabou por falar:

– Então? Então que cenas são estas? Tolinha…

Dúnia sorriu por entre as lágrimas e chegou-se mais a ele:

– Não fui capaz… Perdoa-me, meu querido, não fui capaz…

Ricardo recomeçou a acariciá-la e a beijá-la ao mesmo tempo que brincava com ela chamando-lhe nomes:

– Piegas… Coisa mais piegas… Medricas…

Dúnia indignava-se, queria protestar, não era piegas nem medricas, mas ele com os beijos não a deixava falar, e só parou quando a viu soltar uma risada aberta.

– Anda, vai-me fazer o jantar…

E ao vê-la fazer menção de pegar no vestido:

– Não, não te vistas. Quero-te assim nua.

Depois do jantar e da cozinha arrumada sentaram-se os dois no sofá, abraçados. Depois dum longo silêncio, durante o qual os pensamentos de Dúnia passaram em revista tudo o que tinha acontecido naquele dia, Ricardo soltou um leve suspiro, olhou-a nos olhos e disse:

– Vamos recomeçar?

Dúnia tinha chegado a ter esperança de que não recomeçariam. Com o coração na garganta, conseguiu dizer:

– Sim… Sim, meu Senhor.

Ricardo levantou-se e dirigiu-se para o escritório. Para quê? O chicote estava ali…

Mas quando ele regressou não vinha de mãos vazias. Trazia um longo pedaço de corda preta que parecia de seda. Dúnia nunca tinha sido amarrada mas não ousou protestar.

– Dá-me os pulsos – disse ele.

Dúnia deu-lhe os pulsos cruzados. Ricardo atou-os com várias voltas de tal modo apertadas que ela sentiu que nunca se conseguiria libertar. Depois, puxando-a pela corda, conduziu-a ao hall de entrada, onde havia cabides montados nas paredes.

– Não, meu Senhor – disse Dúnia; mas não ofereceu resistência.

Então Ricardo prendeu-a firmemente a um dos cabides e vergastou-a sem piedade. No fim, como era regra, obrigou-a a beijar o chicote e a agradecer de joelhos o castigo. Dúnia agradeceu; mas nunca lhe chegou a dizer que a maior parte da gratidão que sentia era pelas cordas que não a tinham deixado fugir.

(Publicado no Blogger a 28/08/07)

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No intervalo, finalmente, Marina não resistiu. A actuação durante a primeira parte tinha-lhe corrido bem. O Rui estava inspirado na guitarra, o Raul e o Quim, nas violas, pareciam ligados por laço invisível: e o público estava repassado daquela concentração, feita de entusiasmo contido, que é a mais perfeita caixa de ressonância para o canto do poeta, ou do cantor.
Sentado a uma mesa, sobre o lado esquerdo da sala, estava um homem que Marina não conhecia – atento mas distante, um pouco frio mas não demasiado, os olhos franzidos numa expressão que ela não saberia dizer se era de ironia ou de atenção. Nos lábios firmes bailava-lhe um ligeiro sorriso que Marina achou ambíguo: mais de indulgência que de troça, em todo o caso. Estava de fato claro, beberricava uma bebida cor de âmbar num cálice de conhaque, fumava charuto e os cabelos começavam a ficar-lhe grisalhos.
Marina não resistiu. À mesa com ele estava um casal que ela conhecia vagamente, gente do Bairro Alto: decoradores, galeristas ou coisa semelhante. Foi-se sentar com eles, a fazer sala e a completar o quarteto.

– Estão a gostar?
– Muito – disse a galerista.
E o marido:
– Um talento como o seu…
E voltando-se para o companheiro de mesa:
– Esta é a Marina Liebknecht. Viu o nome dela à entrada, certamente. Um enorme talento…
O senhor do fato claro ouviu, sorriu a sua concordância, mas não disse nada sobre o talento de Marina. Sacudiu para o cinzeiro a cinza do charuto, olhou-a bem nos olhos e apresentou-se:

– Prazer em conhecê-la. Chamo-me Castilho, Miguel Castilho.
Durante algum tempo conversaram os quatro. Depois o casal conhecido de Marina saiu e deixou-a sozinha com o seu companheiro de ocasião. O intervalo estava a mais de meio e ela ainda tinha que se ir arranjar para a segunda parte. Por um momento ficou sem nada para dizer; mas de repente, sem que as tivesse pensado ou planeado, vieram-lhe à boca estas palavras:
– Porque é que estava a olhar para mim assim?
– Assim?
– Assim, de cima a baixo. Com menosprezo. Cantei assim tão mal?
Olhando para ele, Marina sentiu (mais do que viu ou ouviu) um secreto borbulhar de divertimento que lhe subia do fundo do peito. Haverá alguma coisa mais masculina, pensou ela, do que este riso silencioso e solto? Sem deixar de a olhar nos olhos, o homem puxou uma baforada do charuto e disse, devagar:
– Menosprezo? Pelo contrário… Acho que poucas vezes na vida prezei alguém ou alguma coisa como te prezo a ti neste momento.
Marina já tinha pouco tempo para se levantar e ir para os bastidores, mas não podia terminar ali a conversa:
– Mas estava a olhar para mim como quem olha para uma coisa… sei lá, para um animal, para uma cabeça de gado… Não me estava a ouvir cantar?
Desta vez o sorriso dele abriu-se, radioso:
– Sim, estava-te a ouvir. Quis fechar os olhos para te ouvir melhor… Mas não consegui despegá-los do teu rosto.
E depois duma curta pausa:
– Nem do teu rosto, nem do resto…
– Ah… – disse Marina.

As respostas prontas e cáusticas que ela tinha sempre preparadas para piropos deste género desertaram-na todas. Não se lembrou de nenhuma. Baixou os olhos e só lhe ocorreu dizer:
– E em que é que pensou ao olhar para mim?
Silêncio. Marina chegou a acreditar que ele nunca lhe ia responder. Quando finalmente levantou os olhos e o olhou no rosto, viu que a expressão trocista tinha dado lugar a algo que talvez fosse curiosidade, ou talvez compaixão ou calculismo.
– Estava a pensar em ti com marcas de vergasta, ajoelhada aos meus pés.
Isto, com o ar mais natural deste mundo, numa voz segura, com uma enunciação exacta. Por um momento Marina esqueceu-se de respirar. Teria sido a indignação que sentiu, súbita e imprevista, que a tinha feito perder o fôlego? Marina sentiu que corava. Ainda bem que estava maquilhada, senão, mesmo na penumbra da sala, todos teriam reparado. Quem era aquele homem, aquele desconhecido? Ela, de joelhos? Diante de um homem? Com marcas de vergasta? Quem se julgava ele? Algum imperador? Algum louco? E quem era ele para a tratar por tu?
Mas não tive forças para me levantar de repente da mesa e fazer uma cena. Nem vontade. A tremer, num doce esvaimento, estendeu a mão e pegou na dele:
– Tenho que me ir embora… O intervalo está no fim…
– Sim – disse ele. – Vai lá arranjar-te.
Levantou-se devagar, sem tirar a mão da dele. Via-se bem que não era um louco – em todo o caso, não mais louco de que todos nós. Todo ele era urbanidade e humor, no fato cor de linho, na gravata de seda, nos sapatos italianos. Marina inclinou-se como que para o cumprimentar com um beijo. E, muito baixinho, pediu-lhe:
– Dê-me uma ordem para eu cumprir.
Miguel voltou a sorrir:
– Uma ordem. Está bem. Quando estiveres lá dentro tira as calcinhas e o soutien. Quero que voltes para a sala sem nada por baixo do vestido.
E Marina obedeceu. Sem saber porquê, mas obedeceu; e pareceu-lhe a coisa mais natural deste mundo. No cubículo que lhe servia de camarim tirou a roupa interior, incluindo uma combinação que tinha posto porque o vestido era ligeiramente translúcido. A seguir, num impulso súbito, tirou também os sapatos, que ficaram no meio do chão, abandonados. É a moda, disse a si própria; muitas colegas minhas cantam descalças. Mas sabia muito bem que não era por ser moda que se estava a descalçar, nem por truque de marketing ou de imagem, nem por homenagem à arte que era a sua.
Tratava-se duma homenagem, sim, porque escondê-lo? Mas era uma homenagem prestada a um ser de carne e osso, a um estranho misterioso e desenvolto que tinha tido a panache de lhe dizer, tratando-a por tu, que a imaginava de joelhos, vergastada, aos seus pés.
Os clientes da casa e os críticos podiam no dia seguinte inventar as razões que quisessem para os pés nus da cantadeira; podiam dizer que ela estava a imitar esta ou aquela colega de ofício – mas iam andar longe da verdade, como sempre. Marina sorriu: a razão dos seus pés nus seria o seu segredo. Seu e d’Ele.

O vestido não tinha sido feito para usar sem soutien. Durante toda a segunda parte, Marina teve que ter cuidado para o decote não resvalar; e apesar de todas as precauções ficou com a certeza de pelo menos uma vez ter deixado à mostra um mamilo (e ela que os tinha grandes e escuros). Mas isso que interessava? O olhar de Miguel queimava: sentado sozinho à mesa, resplandecia de orgulho e de admiração por ela. E Marina sentiu no mais fundo de si que nunca tinha cantado tão bem como naquela segunda parte, nem nunca tinha sido tão fêmea no cantar.

(Publicado no Blogger a 14/08/07)

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As Flagelantes

Os Romanos já conheciam bem a relação entre o prazer e a dor…

(Publicado no Blogger a 15/09/06)

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Cryseis era a mulher mais bela que Pedro tinha visto em toda a sua vida.
Esta convicção surgiu-lhe de repente, sem avisar, com a força duma evidência, três semanas depois de terem começado a viver juntos. Já se conheciam havia anos, tinham sido colegas, depois amigos, depois algo mais do que amigos; e Pedro, que sempre tinha considerado Cryseis uma mulher bonita, deu-se conta de repente que bonita e bela são coisas muito diferentes.

Se lhe pedissem para explicar a beleza de Cryseis, Pedro não o saberia fazer. Saberia dizer, sim, porque é que a considerava bonita: o cabelo castanho escuro caído pelos ombros, os olhos brilhantes, a boca carnuda, as feições regulares… uma mulher bonita como tantas outras, bem vestida, bem tratada, com formas um pouco cheias demais para o gosto corrente. Se alguma coisa nela transcendia o comum das mulheres bonitas, era a pele muito clara e muito lisa, com reflexos de pérola nas redondezas dos ombros, dos seios e das nádegas. Pedro apreciava devidamente esta e outras perfeições, porém não a ponto de considerar Cryseis mais do que bonita. Isto, até ao momento em que repentinamente abriu os olhos.

Cryseis não era alta nem magra. Não tinha as pernas invulgarmente compridas. Não dava ares de rapazinho adolescente nem de potro recém-nascido. Dava, sim, ares de mulher; e isto, numa época em que a beleza feminina é desvalorizada a favor da beleza andrógina, leva a que as mulheres verdadeiramente belas sejam muitas vezes invisíveis.

Na relação de Pedro e Cryseis, Pedro sempre tinha sido o parceiro dominante, mesmo quando eram só amigos. Um dia, ainda nessa época, tinham combinado ir ao teatro com outras duas pessoas. Cryseis tinha-se atrasado, fazendo com que os outros só pudessem entar na sala ao intervalo. Depois, em casa de um deles, alguém tinha sugerido meio a brincar que a causadora do atraso devia ser punida com palmadas no rabo.

– Só se for o Pedro a dar-mas – disse Cryseis.

Pedro olhou para ela e viu que ela lhe olhava para as mãos com um certo ar concentrado e atento que ele conhecia muito bem. Pedro ainda não sabia – havia de sabê-lo nessa mesma noite – que era este o rosto de Cryseis nos momentos de excitação sexual; mas sabia que este sobrolho um pouco franzido, este ligeiro entreabrir dos lábios, eram indicações de que ela estava a viver um momento intensamente.

– Então vem cá. Deita-te de bruços sobre os meus joelhos – disse Pedro.

E depois de lhe levantar o vestido assentou-lhe quatro vigorosas palmadas nas nádegas, o que causou ao casal de amigos – que esperavam assistir apenas a um par de palmadinhas simbólicas – um pouco de admiração e embaraço.

Nessa noite Pedro dormiu pela primeira vez na cama de Cryseis. No momento em que ele a penetrou pela primeira vez, ela disse-lhe «sou tua». E algumas semanas mais tarde, num entardecer de Outono, conversando sobre o futuro num banco de jardim:

– Eu sou tua, faz de mim o que quiseres.

Pedro assim fez. Uma das coisas que fez dela foi ordenar-lhe que passasse a usar só saias ou vestidos e se desfizesse de quaisquer peças de roupa que fechassem entre as pernas – com excepção de alguns pares de calcinhas para quando estivesse menstruada.

Mais tarde trocaram os apartamentos em que viviam por um maior. Três semanas depois Pedro descobriu um par de jeans no armário de Cryseis e deitou-o ao lixo, o que provocou a primeira discussão entre eles. A discussão terminou num beijo durante o qual Pedro bebeu as lágrimas de Cryseis, beijo este seguido de palmadas, depois de carícias e suspiros, finalmente duma cópula durante a qual ela foi proibida, pela primeira vez, de ter orgasmo.

No dia seguinte Cryseis comprou uma vergasta. À noite ofereceu-a a Pedro. E foi nesse momento que ele, ao ver na sua amada um olhar tão limpo, tão directo, tão sem medo, um olhar que ele já tinha visto tantas vezes mas a que nunca tinha dado verdadeira atenção – foi nesse momento que Pedro, finalmente, a viu deveras.

(Publicado no Blogger a 18/08/06)

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Ou: Mistérios da Alma Feminina

Ela aceita que ele a ignore. Aceita que ele a convoque sem aviso. Aceita ser criada dele. Aceita que ele lhe proíba o orgasmo. Aceita que ele a amarre. Aceite que ele a use. Aceita que ele a vergaste. Aceita que ele a canse toda a noite quando tem que trabalhar no dia seguinte. Aceita que ele tenha outras escravas. Aceita que ele a entregue a outros homens. Até já aceitou, em teoria, que ele a marque com um ferro em brasa.
Só não aceita que ele lhe escolha a roupa.

(Publicado no Blogger a 31/07/06)

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Estavas a viver em … digamos, em Brugges, como a personagem da minha ficção que te retrata. E eu vivia, digamos, em Heidelberg. Combinámos um fim de semana em Paris: eu marquei o hotel e um espectáculo, e encontrámo-nos na Gare de L’Est.
Gostaria de poder dizer a quem lê este post que te apeaste descalça do comboio, mas não apeaste – julgo recordar-me, de resto, que não to tinha ordenado. Nem me cumprimentaste beijando-me a mão, e isso lembro-me de o ter querido.

Trazias uma saia larga e comprida – não, não era a vermelha, essa vestiste-a no dia seguinte – e não trazias soutien. O hotel não era longe e a bagagem não era muita: fomos a pé. Subimos logo para o quarto. Tomámos duche, vestimos os roupões – às vezes éramos assim pudicos, e ambos gostamos do toque do cetim – e saciámos no corpo um do outro a nossa fome de meses. Depois saímos e começámos a andar até à Pigalle, que era longe: mas ainda era de dia e nós não tínhamos pressa. Lembro-me que a cidade nos pareceu bastante suja – por essa altura o nosso termo de comparação não era Portugal – mas não nos importámos porque estávamos na disposição de ter prazer em tudo. Subimos na galhofa o Boulevard Magenta, percorremos Rochechouart aos beijos. Perto do Moulin Rouge entrámos num pequeno bar onde se tocava jazz e depois continuámos até ao fim do Boulevard de Clichy.

De repente deu-nos a pressa. Tínhamos que ir para o hotel, já, já. Tomámos um táxi, subimos ao quarto, despimo-nos à pressa e não quisemos saber, nem do teu robe cor de pérola, nem do meu robe vermelho. Os dois nus, eu Senhor e tu escrava, recomeçámos o nosso ritual de beijos e carícias. Partilhando a cama connnosco tinha eu posto a vergasta que tu já conhecias, aquela com o punho e a ponta em cabedal negro e revestida a seda vemelha em todo o comprimento.

Era linda, a vergasta, não era? Mais tarde, muito depois de nos separarmos, vim a usá-la na Dúnia, e mais tarde ainda, talvez te interesse saber, deitei-a fora. As saudades que tive quando a deitei fora, tive-as de ti.

Nessa noite não usei a vergasta nem fiz contigo nada que não pudesse ser feito por um casal baunilha. (Não sabes o que é um casal «baunilha»? Eu também não sabia, nessa altura. É um casal em que não há domínio nem submissão, ou em que o domínio e a submissão são impostos por um ao outro por meio de violências, chantagens e mentiras. Só mais tarde vim a aprender isto, quando aprendi o que era o BDSM. Também não sabes o que é o BDSM? Deixa lá, não é importante, éramos BDSM sem o sabermos ou então nunca o fomos: as palavras são só palavras e o que havia entre nós era outra coisa. Sem violências nem chantagens nem mentiras: do primeiro ao último dia e mesmo para além deste).

No dia seguinte fomos passear pela cidade. Nessa altura, sim, levaste a tua saia vermelha até aos pés e uma T-shirt ou blusa de seda cinzenta, forrada à frente para não se verem os seios. Por cima trazias um casaquinho branco. Andámos nos jardins do Louvre e nas Tuilleries, na Place de la Concorde, e quando atravessámos a ponte para a margem esquerda exigi-te que te descalçasses, o que fizeste entre risos e corando um pouco. Nessa figura percorreste comigo um pouco do Boulevard Saint-Germain, depois voltámos à esquerda em direcção ao rio.

Nas imediações do Museu d’Orsay, numa esplanada, almoçámos; durante o almoço permiti que te calçasses o tempo suficiente para entrares no restaurante, ires à casa de banho e virares a blusa de trás para a frente de modo a que se te vissem os seios à transparência. Protestaste um pouco, mas sabias muito bem que tu própria tinhas mencionado logo de manhã essa possibilidade… e de qualquer modo, com o casaquinho branco vestido mal se notava, como mal se notavam os teus pés nus por baixo da saia comprida.

Sentados nos degraus do museu, tirámos fotografias um ao outro e pedimos que no-las tirassem. Ainda tenho uma das tuas, sentada nos degraus, descalça, com o casaquinho branco pousado ao teu lado. Estás a rir e fazes menção de tapar a cara com a mão, como uma japonesinha envergonhada.

Depois não sei se visitámos o museu ou não. Tantas vezes o visitei sem ti, e não consigo lembrar-me se o visitei contigo! Lembro-me que andámos a fazer tropelias ao longo do Sena: pisaste descalça a ponte de la Concorde, as pontes des Invalides, Alexandre III, de l’Alma… Eu tirava-te fotografias quando havia poucas pessoas à nossa volta e consentias, a medo, em tirar o casaco e exibir-me os seios sob a blusa.

Como fomos parar ao Arco do Triunfo, não sei. Talvez tenhamos ido de metro, não me lembro. Descemos os Champs Élysées a todo o comprimento, a pé, sem que eu te autorizasse a calçares as socas; atravessámos de novo a praça de la Concorde e, ao entrarmos na rua de Rivoli, exigi-te que tirasses de novo o casaco, o que fizeste com uma espécie de orgulho. É curioso como nunca te enganavas a distinguir uma ordem dum pedido, embora dados pelas mesmas palavras e no mesmo tom de voz.

A maior parte das pessoas que se cruzavam connosco fingiam que não te viam os seios à transparência, mas houve um senhor – lembras-te? – que não conseguiu conter um pequeno movimento de surpresa que te fez corar (e a mim me deliciou).

Senti, porém, pouco depois, que tinha chegado a altura de te deixar calçar e de permitir que vestisses a blusa na posição habitual. As sombras começavam a alongar-se. Comemos por ali, magret de canard acompanhado a Châteauneuf-du-Pape, e metemo-nos num taxi para irmos ao hotel mudar de roupa. Tínhamos bilhetes para o Crazy Horse que imaginávamos, não sei porquê, que ficava na zona de Pigalle. Afinal ficava na zona de l’Étoile, não muito longe da Avenue Foch, por cujas transversais tínhamos andado nesse dia ou havíamos de andar no seguinte – não me lembro de mais do que isto – a ver nas montras peças de design de Issey Myake e doutros monstros sagrados.

No Crazy Horse bebemos vodka com sumo de laranja. Achaste graça ao nome em inglês da mistura, screwdriver, chave de parafusos, e durante um bocado não nos cansámos de fazer uns trocadilhos bastante pueris sobre as diversas acepções da palavra. Outra coisa que te divertiu imenso foi o trajo das bailarinas num dos números, uns vestidos transparentes iguais ao teu, com a diferença que não tinham forro. Tinhamo-lo comprado em Brugges; era roxo e caía em pontas assimétricas até quase ao tornozelo. As bailarinas estavam nuas por baixo dos vestidos, como tu, mas nelas isso era visível e em ti não.

Na rua, e depois no táxi, estavas perdida de riso e de tesão. Durante todo o percurso para o hotel beijei-te e masturbei-te, e as tuas mãos não pararam de me tentar desabotoar as calças. O motorista guiava, aparentemente impassível, mas a toda a velocidade e cortando todas as esquinas. Depois de nos deixar no hotel arrancou bruscamente, com um chiar de pneus: quem diria que nós os dois íamos conseguir escandalizar um motorista de táxi parisiense!

No quarto tiraste o forro ao vestido, calçaste de novo os sapatos de salto alto com que tinhas saído, e fizeste para mim um Crazy Horse que não ficou atrás do outro. As fotografias que te tirei nessa altura, já não as tenho, devolvi-tas, mas lembro-me tão bem delas, do teu riso aberto, da pose provocante…

Depois despimo-nos, deitámo-nos, trocámos os beijos e as carícias que o coração nos pedia – e então saiste da cama e foste, pela primeira vez desde que eras minha escrava, buscar por tua iniciativa a vergasta, que me entregaste com um beijo. Sei que nessa noite mal dormimos; sei que te puni e possuí; sei que choraste e riste e que dissemos um ao outro todas as loucuras que se podem dizer, para não falar nas que fizemos; só não me lembro por que ordem fizemos isso tudo ou por que fórmula, se a houve.

(Publicado no Blogger a 27/07/06)

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Agora que estou a chegar ao fim das “Histórias de Mariana” resolvi intercalar a escrita dela com a escrita dum novo romance, do qual ainda não tenho o título. O texto que se segue é um prólogo em que é apresentada a principal personagem masculina e uma personagem feminina que também será, provavelmente a principal. É uma narrativa que tem muito menos de auto-biográfico de que a outra e que estará mais organizada quanto ao enredo. Espero que gostem.

Subitamente Miguel deu por si brandindo a vergasta. O punho entrançado era de cabedal verdadeiro, e não lhe escorregava na palma da mão como aconteceria se fosse de material sintético. Miguel não se recordava da última vez que se encontrara naquela situação, mas sabia, como se sabe nos sonhos, que ela não lhe era estranha; pelo contrário, tinha-a vivido muitas vezes e sabia exactamente o que tinha que fazer. Não precisou dos olhos para saber que o punho entrançado que segurava na mão era preto, que o resto do instrumento era feito de um material duro e flexível como bambu e estava coberto de seda vermelha, que a mulher prosternada a seus pés, de quem sentia nos tornozelos o bafo quente e a macieza dos cabelos, era a sua “prima” Letícia, que conhecia desde a adolescência e que sempre lhe tinha sido apresentada pela família como exemplo a seguir.

Olhou para baixo e viu a sua própria mão segurando o instrumento de castigo: os nós dos dedos brancos com a força que fazia, os pelos macios sobre a pele clara. Mais abaixo, o seu próprio sexo erecto e recurvo, erguendo-se de entre os pelos negros do púbis. A abaixo de tudo o corpo de Letícia, as mãos dela voando-lhe sobre as pernas numa carícia ansiosa, o cabelo escuro espraiado sobre os ombros sardentos, a forma dos quadris e das nádegas como o corpo dum violoncelo.

Miguel nunca tinha visto Letícia nua, e surpreendeu-se um pouco com a robustez do corpo, com os músculos que se adivinhavam por baixo da fina camada de gordura feminina. Era uma mulher grande e atlética, muito branca de pele: sem roupa adquiria o porte clássico duma estátua de mármore.

Na lógica do sonho não lhe pareceu estranho estar assim com Letícia a seus pés. Nem lhe pareceu estranho que ela lhe pedisse perdão e castigo (por uma falta que ele se recordava nitidamente ter existido sem se recordar em que tinha consistido).

– Ajoelha-te diante do sofá – ordenou Miguel. – Cruza os braços sobre o assento e pousa neles a cabeça.

O sofá era baixo: para fazer o que Miguel ordenava, Letícia tinha que ficar com o rabo empinado no ar. Obedeceu prontamente, porém – o que não surpreendeu Miguel e lhe pareceu, no sonho, perfeitamente natural. Mas uma parte dele, talvez a parte que começava a acordar, sentiu surpreendeu-se vagamente por não estar surpreendido.

Uma vez, outra vez, Miguel vibrou algumas fortes chibatadas, não só no rabo empinado de Letícia, mas também nas costas, nas coxas e na pele especialmente sensível entre as coxas e as nádegas. Letícia sofreu a maior parte dos golpes apenas com um estremecimento e um gemido, apenas se debatendo e gritando um pouco ao receber os mais dolorosos; mas mesmo assim voltando sempre à posição que lhe tinha sido ordenada para receber a punição até ao fim.

– Agora vira-te para mim – disse Miguel. – E agradece-me.

– Obrigada, meu Senhor – disse Letícia.

E foi quando ela, ainda de joelhos, lhe beijou as mãos, e lhas molhou de lágrimas, que Miguel teve um orgasmo e acordou. Demorou algum tempo a compreender onde estava: na cama, em casa da mãe, no seu antigo quarto de estudante. Que diriam elas, a mãe, a tia, se a empregada lhes contasse que tinha encontrado os lençóis do menino sujos de esperma? E que diria Letícia, que estava a passar o fim-de-semana lá em casa e dormia no quarto ao lado do dele, se soubesse a que perversas fantasias tinha dado azo?

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Eram oito da noite de sexta-feira e Mariana estava a pôr a mesa para Ricardo. Só para ele, porque hoje ia servi-lo sem participar na refeição como se fosse uma criada. Quanto a ela, já tinha comido: uma salada com cubos de queijo, pão torrado e um molho à base de iogurte magro.

Ricardo, calculava Mariana, devia estar neste momento a sair do seu gabinete em Heidelberg e a fazer-se à estrada num carro alugado, para estar com ela o mais cedo possível. Ia chegar cansado e sem jantar, depois de um dia de trabalho duro e de duas ou três horas a conduzir na Autobahn.

Não valia a pena cozinhar-lhe uma ceia completa, ele ficava sempre sem apetite quando viajava. Em vez disso Mariana preparou tostas, uma tábua de queijos e uma tacinha com framboesas e abriu uma garrafa de vinho, que deixou num aparador a respirar. A seguir dispôs velas aromáticas na sala, deixou a caixa de fósforos à mão, subiu a temperatura no termóstato, ligou o dispositivo de aquecer as toalhas na casa de banho e preparou os óleos para a massagem que tencionava dar ao amante se ele não se agarrasse logo a ela e não a arrastasse para a cama.

Tomou duche antes de tomar banho, como as gueixas; lavou a cabeça, enrolou o cabelo molhado numa toalha, meteu-se na banheira com sais aromáticos, enxugou-se, amaciou o corpo com um creme perfumado, secou e escovou o cabelo.

Tinha-se depilado toda de manhã. Quando o dono lhe ordenara que fizesse isto, tinha protestado, mas agora estava a gostar de se ver lisa como uma menina impúbere.

Pintou as unhas dos pés e das mãos com a mistura de vernizes de que ele gostava: metade transparente, um quarto cor de rosa pálido, um quarto branco-pérola. Vestiu-se e maquilhou-se como ele tinha dito que queria: saia comprida e rodada em tons de terra e laranja, semi-transparente, sem calcinhas; corpo nu da cinta para cima; cinto de fantasia; bijutaria profusa nos pés, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas e sobre o peito; um pouco de rouge, muito pouco, na cara; baton cor de framboesa nos lábios e nos mamilos. Pôs umas chinelas, para usar até ao momento em que ele tocasse à campainha de baixo: Ia recebê-lo como ele tinha mandado, com os pés nus em sinal de respeito; mas também, em sinal do mesmo respeito, com eles limpos.

Quando a campainha tocou guardou as chinelas e foi-se pôr à porta do apartamento para ele não ter que esperar no patamar. Ao sentir-lhe os passos abriu-lhe a porta; lá vinha ele, arrastando o seu velho trolley de viagem azul. Na mão esquerda trazia um ramo de rosas vermelhas atadas com um fio de ráfia: devia ter-se picado nelas ao sair do carro ou ao tocar à campainha, porque trazia um arranhão entre o polegar e o indicador que ainda ressumava perolazinhas de sangue.

Mariana franqueou-lhe a entrada, fechou a porta atrás dele e, mal lhe dando tempo a pousar o trolley, lançou-se-lhe ao pescoço. Ricardo correspondeu apaixonadamente a este beijo, atrapalhado apenas por ter só um braço livre; com o outro mantinha afastado dela o ramo das rosas, para que não a picassem. Quando ele por fim lhe entregou o ramo Mariana levou-o ao nariz, aspirou-lhe o perfume, e ajoelhou com um gesto natural e gracioso para beijar a mão do amante.

– Anda para a sala. Tens fome?

– Não tenho muita…

Mas depois de tirar o casaco e de ir à casa de banho sentou-se à mesa. Mariana, ajoelhada, pousava a cabeça nas coxas dele beijava-lhe a mão quando ele a acariciava. Só se levantou uma vez, para lhe servir o vinho. Duas tostas, dois cubos de queijo, algumas framboesas que ele ia comendo ou dando a comer à amante, e meio copo de Barolo: a isto se resumiu a refeição de Ricardo.

– Estás cansado, meu querido.

– Um pouco. Preciso de tomar um duche.

– Senta-te no sofá, eu dispo-te.

Ricardo fechou os olhos e deixou-se despir como um menino ensonado. A meio do duche Mariana foi ter com ele para acabar de o ensaboar. No fim ajudou-o a secar e levou-o de novo para a sala.

– Deita-te no sofá. Vou dar-te uma massagem para te tirar essa tensão dos ombros.

– Se fizeres isso ainda adormeço aqui mesmo e depois não te sirvo para nada – respondeu ele com um sorriso.

– Não faz mal. Deita-te. Espera, vou pôr aí uma toalha.

Mariana tirou todos os ornamentos que trazia no corpo e pôs-se nua para ter mais liberdade de movimentos. À massagem que deu ao dono com as mãos acrescentou umas carícias com os seios e com o sexo depilado que o fizeram ronronar como um gato.

– Hmmm, tão bom…

A previsão que Ricardo tinha feito de adormecer não se cumpriu completamente. Terminada a massagem rolou do sofá para cima do tapete, pôs-se de barriga para cima, fechou os olhos e estendeu os braços como uma criança a pedir mimo:

– Vem cá, minha escrava…

Mariana trepou para cima dele, montou-o e começou a acariciar-lhe o pénis ainda flácido com a vulva acetinada e húmida. Ricardo sorriu, consolado:

– Tão bom…

A erecção que tinha tido lugar intermitentemente desde que Ricardo tinha entrado em casa de Mariana não tardou a estabelecer-se de novo com renovada pujança, e Mariana empalou-se nela com um suspiro de prazer.

Começou então uma noite memorável, com Mariana a movimentar vigorosamente os quadris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, para os lados, em círculos, e com Ricardo a erguer-se ao encontro dela, mais fundo, mais fundo.

Por vezes ela inclinava-se toda para trás para conseguir o ângulo que mais a excitava, mas o pénis dele estava tão retesado que lhe doía ao ser vergado para baixo. Então puxava-a com força para si de modo a sentir-lhe os seios contra o peito; ela soprava como um gato assanhado mas obedecia, e deixava pender a cabeça para a frente de modo a poder acariciá-lo também com os cabelos.

Ricardo sentia o orgasmo quase a chegar mas, fosse pelo cansaço que sentia, fosse por estar por baixo, ou fosse ainda pela dor que Mariana lhe provocava quando se inclinava para trás, a excitação em que estava só crescia sem se resolver num desenlace. Por vezes o cansaço dos músculos levava-o a ficar passivo enquanto Mariana dançava por cima dele, mas logo o desejo, louco, o obrigava a acelerar e ampliar as estocadas que dava na amante.

Mariana veio-se. E veio-se outra vez. E veio-se outra e outra, tantas vezes que não as pôde contar, tantas vezes que a certa altura já não tinha orgasmos separados, tinha um único orgasmo que continuava e continuava e parecia nunca mais acabar.

Por fim – depois, quando olharam para o relógio, viram que passava das quatro da manhã – Ricardo deu um urro cavernoso, e num último, prodigioso arranque esvaiu-se todo dentro dela, que arquejava «dá-me, dá-me tudo» e se veio também pela última vez nessa noite.

Nem se lavaram. Conseguiram ir os dois, aos tropeções, da sala para o quarto, onde se deitaram em cima da cama e adormeceram imediatamente. Quando acordaram tinham, ele o pénis quase em carne viva, ela a vagina em idêntico estado, e no tapete sobre o qual tinham feito amor vieram a encontrar uma pequena mancha de sangue que nunca vieram a saber se era dele ou dela.

Mariana acordou tarde e viu o amante ainda adormecido ao seu lado. Durante a noite tinham arranjado maneira de puxar o edredon para cima deles, e ainda bem porque a casa estava um pouco fria. Começou preguiçosamente a dar pequenos beijinhos na cara de Ricardo e viu como mesmo a dormir o rosto dele se adoçava num ligeiro sorriso. Depois pousou a cabeça no travesseiro e deixou-se ficar numa deliciosa indolência até o ver acordar e espreguiçar-se.

Esta visão deu-lhe vontade, como que por contágio, de se espreguiçar também e de bocejar longamente.

– Tens fome, meu querido?

– Mais que fome, estou esfaimado. Se não me dás de comer, como-te a ti.

– Então deixa-me tomar duche primeiro, depois tomas tu enquanto eu te preparo o pequeno-almoço.

Ricardo ainda fechou os olhos por uns minutos. Depois levantou-se, vestiu o roupão, calçou os chinelos de quarto e dirigiu-se para a casa de banho, de onde Mariana estava a sair embrulhada numa toalha.

Ao enxugar-se – vigorosamente, como era seu costume – reparou que lhe doía ao esfregar o pénis com a toalha, apesar de esta ser invulgarmente fofa e macia. A pele estava muito vermelha e sensível. Tinham sido horas seguidas de fricção no corpo da amante, e ainda bem que ela estava depilada e macia, porque aquele tempo todo a roçá-lo com os pelos púbicos teria sido mais do que poderia aguentar.

Quando entrou na sala de roupão e chinelas, Mariana já estava vestida, com uma saia preta pelos tornozelos e uma blusa de seda branca. A mesa estava posta e da cozinha vinha um cheiro bom de café e torradas com manteiga.

– Senta-te. Vai bebendo o sumo, que eu já te trago o resto.

À porta da cozinha estavam umas chinelas.

– Vou calçar-me. A tijoleira da cozinha está muito fria. Posso?

– Sim, hoje podes, mas só na cozinha.

Um ruído de louça e talheres a remexer, um súbito aroma a ovos fritos a a bacon, e lá vinha Mariana com um cesto enorme de torradas.

– Vai comendo enquanto estão quentes.

Sentou-se em frente ao dono para beber o sumo de laranja e depois levantou-se, com uma torrada na mão para ir de novo à cozinha. Quando regressou trazia uma travessa de ovos mexidos com bacon e salsichas, e mais torradas. Pôs música a tocar no leitor de CD’s (a sonata de violino e piano «Primavera», de Beethoven), e sentou-se a comer. Por vezes dava-lhe na boca um pedacinho de torrada, ou ele a ela. Serviu muesli misturado com iogurte de cereja, que comeu com um apetite igual ao do amante. Por fim foi à cozinha buscar o café.

– Queres mais?

– Só se for mais café.

– Então vou buscá-lo quente, não bebas esse.

Ficaram mais de meia hora à mesa, a beber café, a pegar nas mãos um do outro e a conversar de coisas sem importância. Quando viram as horas era quase uma da tarde.

– Ai… Ainda vou ter que arrumar isto tudo…

– Eu ajudo-te.

– Não, vai-te vestir.

Ricardo vestiu as suas calças de bombazina cor de mel e uma camisa de flanela aos quadrados, com uma T-shirt por baixo. Não demorou muito a vestir-se e a calçar as peúgas: ainda teve tempo de arrumar a sala e o quarto e fazer a cama enquanto Mariana terminava de lavar a louça e limpar a cozinha.

De tarde foram passear em Brugges, ao longo dos canais. Pararam em frente ao edifício gótico da Câmara Municipal, viram as montras nas ruas centrais, fizeram algumas compras num supermercado. O Equinócio da Primavera já tinha passado, a hora tinha mudado, os dias estavam mais longos e estava sol, mas não se demoraram na rua: depois de lancharem numa confeitaria voltaram para o apartamento de Mariana, onde ficaram sentados a ouvir música e a conversar enquanto lhes apeteceu.

– Daqui a pouco vou fazer o jantar – disse Mariana, abraçando o amante e dando-lhe um beijo. – Queres tomar alguma coisa antes?

– Sim, meu amor. Tens um whisky?

– Já to vou dar. Deixa-te estar sentado.

Mas em vez de se dirigir para o armário das bebidas Mariana meteu-se no quarto, de onde emergiu uns minutos depois com um vestido que Ricardo não lhe conhecia: cintado, preso aos ombros por alças, com uma saia pelos tornozelos muito rodada, e todo às riscas verticais em vários tons de rosa. Na sua versão original devia ter um forro, mas era fácil de ver que Mariana o tinha tirado e que não trazia nada por baixo.

– Gostas do meu traje de escrava?

– Muito. Vestiste-o para me servires o whisky?

– O whisky e não só. Mas espera, primeiro vou-te calçar os chinelos.

Os chinelos de Ricardo estavam no armário da entrada. Mariana foi-os buscar, ajoelhou-se e descalçou o dono, beijando-lhe cada um dos pés depois de tirar a respectiva peúga e antes de lhe pôr o chinelo. Concluída esta tarefa pôs música no leitor de CD’s – Shepherd Moons, da cantora irlandesa Enya – trouxe um tabuleiro que enganchava no sofá, e sobre este pôs um naperon, um copo de cristal e um cinzeiro.

– Um cinzeiro? – admirou-se Ricardo

– Sim. Hoje vais fumar. E não discutas.

A seguir tirou duma gaveta um estojo de cabedal para dois charutos, uma caixa de fósforos e um aparelho de cortar as pontas, e pousou tudo no tabuleiro ao lado de Ricardo. O estojo continha dois Cohibas.

– Não tinhas mais em que gastar o teu dinheiro? – ralhou Ricardo.

Mariana riu-se, foi ao armário das bebidas, tirou uma garrafa de whisky por abrir e mostrou o rótulo ao amante

Cigar? – disse ele. – Não conhecia essa marca.

– Na loja disseram-me que era muito bom. E que era o ideal para acompanhar um bom havano.

Ricardo riu-se e preparou-se para abrir a garrafa, mas a amante deteve-o:

– Não. Tu não fazes nada. Eu sirvo.

Obediente, Ricardo recostou-se no sofá e ficou a contemplar com um olhar de ternura a sua escrava que se esforçava, ajoelhada, por abrir a garrafa. Depois de o ter conseguido deitou no copo dois dedos de whisky, cortou as pontas a um dos charutos, meteu-o na boca e acendeu-o, rolando-o entre os dedos como tinha visto o dono fazer. Ricardo viu-a sugar as bochechas para dentro para puxar o fumo, exactamente como fazia qundo lhe chupava o sexo, e com um brilho nos olhos acariciou-lhe o cabelo.

Levadas a bom termo todas estas tarefas Mariana sentou-se no chão aos pés de Ricardo e começou a contar-lhe todos os pormenores da sua mais recente exposição. De vez em quando levantava-se, animada, e ia buscar um quadro que se tinha esquecido de lhe mostar antes, ou fotografias de outros quadros, que lhe ia dispondo sobre os joelhos para ele ver. Entusiasmada, explicava-lhe as novas técnicas que tinha aprendido desde a última visita: as tintas, os betumes, os vernizes, as areias coloridas, as espátulas, os pincéis, as folhas e as bagas recolhidas no bosque e coladas na tela.

Ao esmorecer da conversa Ricardo inclinou-se para a frente, segurou-lhe o queixo e beijou-a ternamente nos lábios.

– Agora vou-te possuir, minha escrava.

– Sim…

Mariana num instante se pôs nua, o vestido saía pela cabeça e ela não trazia mais nada sobre o corpo.

– Deita-te aqui no sofá – disse Ricardo. Quando a viu deitada ajoelhou-se sobre o tapete, debruçou-se sobre ela e começou a cobri-la de beijos, começando nos ombros, subindo ao pescoço, aos olhos, às orelhas e à comissura dos lábios, e descendo aos seios. Por longos minutos não fex mais nada além de lhe lamber e chupar os mamilos enquanto lhe insinuava a mão entre as coxas. Mariana começou logo a abrir um pouco as pernas, ou melhor, as pernas abriam-se-lhe por si próprias, sem que ela sequer o notasse. Sem pressa nenhuma Ricardo foi descendo com os lábios ao longo do corpo dela, às vezes voltando para cima em direcção aos seios e ao pescoço, mas indo sempre um pouco mais abaixo de cada vez que descia. Meteu-lhe a língua no umbigo, beijou-lhe os flancos do sovaco à anca, explorando-lhe com a língua os espaços entre as costelas, e ao lamber-lhe o monte de Vénus depilado sentenciou:

– Sim, estás mesmo macia, com a língua é que se nota…

… e depois, cruelmente, começou de novo a subir-lhe pelo corpo acima.

Se a boca que Mariana tinha entre as pernas tivesse voz, teria gritado de frustração. Mas não por muito tempo, porque de repente Ricardo afastou-lhe as coxas com as mãos e beijou-lhe o sexo como se lhe beijasse a boca, para logo moderar este ímpeto e começar a procurar-lhe com os lábios e a língua todas as dobras e minúsculas refegas. A língua procurava, dardejante, o botão do amor, para logo o abandonar e tentar insinuar-se no interior da vagina ou para lamber todo o comprimento da vulva.

Quando começou a chupar-lhe o clítoris mais vigorosamente, como se o quisesse sugar e engolir, ouviu-a dizer:

– Meu senhor… Posso-me vir?…

Ricardo nunca tinha imposto a Mariana que pedisse autorização para ter orgasmo e agora ela própria, sem que ele entendesse bem porquê, inaugurava esta regra.

– Não, minha escrava, não podes.

Mas continuou a beijá-la até já não poder distinguir se os sons que ela fazia eram de prazer ou de sofrimento. Por fim, cansado, parou, e começou a percorrer com os lábios e a língua o caminho oposto ao que tinha feito antes até lhe chegar de novo à boca, que beijou, enleando a língua na dela apaixonadamente. Só então se levantou, devagar, mantendo a boca unida á dela e esperando até ao último segundo para a largar.

– Espera um pouco – disse, e dirigiu-se para o quarto.

Saiu de lá pouco depois, competemente nu, e trazia na mão uma fita vermelha que Mariana reconheceu imediatamente: era a prenda que ela lhe tinha dado por ocasião dum encontro anterior, também em Brugges.

– Dá cá as mãos.

Mariana estendeu-lhe as mãos com os pulsos cruzados. Ricardo atou-as rapidamente com uma ponta da fita, mandou-a esperar, foi ao trolley buscar a máquina fotográfica e começou a ordenar-lhe que assumisse poses: de joelhos, posternada, exibindo as marcas e as equimoses da vergasta, de pé, com os braços erguidos, mostrando os pulsos amarrados… Mariana acedia a tudo, obediente, meiga, apaixonada. Ricardo apercebeu-se nela dum estado de espírito invulgar: um dengue, uma excitação, um roçar-se por ele como que por acaso, uma intensidade, uma atenção ardente ao momento vivido…

– Não me deixaste ter orgasmo… Meu amor…

Isto disse Mariana a certa altura, baixando os olhos, num momento em acabava de se ajoelhar e mostrava à objectiva os pulsos atados. E Ricardo sentia nela, por baixo da mansidão e da obediência, o fogo larvar dum desejo que se satisfazia na insatisfação.

Quando acabou de a fotografar, não a desamarrou: mandou-a deitar de costas no tapete e amarrou a outra ponta da fita de seda ao cano do aquecimento, no ponto em que este saía do chão. Estendido sobre ela sem lhe fazer peso, voltou a beijá-la e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos numa carícia firme como se faz aos animais.

– Meu senhor…

– Diz.

– Vais possuir-me?

– Vou, sim, minha escrava.

– Queria pedir-te…

Ricardo apertou-lhe o seio esquerdo e chupou-lhe o mamilo antes de a encorajar a continuar:

– Querias pedir-me…

– Queria pedir-te que fosses meigo. Estou tão dorida de ontem…

Ricardo deu uma risada:

– Vou ser meigo, sim. Até porque eu também estou dorido, tenho tudo em carne viva…

Mariana já tinha as pernas abertas: Ricardo penetrou-a numa carícia longa e, sem chegar a ir até ao fundo, começou a mover dentro dela a ponta do pénis, beijando-a ao mesmo tempo profusamente nos lábios e nos seios. Com as mãos amarradas, Mariana não o conseguia abraçar, por isso o envolvia com as coxas, acariciando-lhe com os calcanhares a barriga das pernas e a parte de trás dos joelhos.

– E desta vez posso vir-me, meu senhor?

– Não, minha escrava, não podes. Ocupa-te só do meu prazer.

No gemido que Mariana soltou misturava-se um imenso lamento com um prazer novo, um prazer que ela não conhecia. Começou a mover as ancas e a tentar controlar os músculos da vagina de maneira a apertar e a chupar o sexo do amante, a dar-lhe o prazer que ele lhe exigia e ao qual tinha obviamente todo o direito, a erguer os seios de encontro ao peito dele para o acariciar brandamente, até que o sentiu acelerar os movimentos e ejacular dentro dela com um gemido que parecia, também ele, um lamento.

Admirou-se por não sentir frustração nem ressentimento por não ter gozado, mas sim uma enorme vontade de continuar a servir. «Serei na verdade assim tão fêmea e tão escrava?», pensou; e quando o dono rolou de cima dela para o chão começou a chegar-se para ele, a acariciá-lo com as pernas e com os pés, já que tinha as mãos amarradas. Todo o corpo dela era movimento, e todos os seus movimentos iam no sentido de se chegar ao dono, de o acariciar, de lhe suplicar um toque ou uma palavra. Lembrou-se de ter dito uma vez a Ricardo que ele a tinha «desligado»; pois bem, agora estava «ligada», com toda a sua energia de fêmea apaixonada a fluir-lhe no corpo e todos os sistemas a funcionar em alerta máximo.

– Desamarra-me, meu senhor…

Assim que Ricardo a desamarrou Mariana começou a fazer-lhe festas e beijá-lo por todo o corpo

– Estou tão louca… Não me deixaste ter orgasmo, e estou tão louca…

– É, estou intrigado com uma coisa… Porque é que me pediste autorização? Eu por mim era capaz de nunca me ter lembrado de to proibir– disse Ricardo..

– Não sei o que é que me deu. Disseste-me muitas vezes que uma escrava não tem direito ao prazer, se calhar foi por isso.

– Disse, e tu concordaste. Mas fizeste bem em lembrar-me … De hoje em diante tens que pedir sempre autorização.

Mariana revirou os olhos e fez uma careta, logo desmentida pela grinalda de beijos com que cobriu o peito do amante:

– Oh, não, o que é que eu fui dizer! – exclamou, numa aflição fingida. – O que pode uma pobre escrava fazer para servir o seu senhor, se ele até até a proíbe de se vir?

– Uma pobre escrava, não sei, mas se esta rica escrava que aqui está está assim tão empenhada em servir o seu senhor, pode muito bem ir para a cozinha, por exemplo, e fazer o jantar para ele, que está cheio de fome…

Mariana, a rir-se, começou a bater com os seus pequenos punhos no peito de Ricardo

– Cafajeste… sem vergonha… Escravidão é escravidão, não é?!

– Pois é… – disse Ricardo.

E quando viu Mariana levantar-se quase de um salto, vestir o roupão, entregar-lhe o dele e dirigir-se à cozinha, acrescentou:

– E descalça, se fazes favor. Não quero cá essa história de tijoleira fria, como de manhã. Lugar de fêmea é descalça na cozinha.

Mariana deteve-se o tempo suficiente para lhe deitar a língua de fora, mas afastou com o pé as chinelas que estavam no chão à saída da sala.

De dentro da cozinha levantou a voz:

– Tenho aqui Quiche Lorraine, é só pôr no micro-ondas. Queres?

– Pode ser, gosto bem de quiche. E o vinho de ontem ainda deve estar bom, era uma pena deitar fora uma garrafa quase inteira.

Ao pôr a mesa, ao servir o jantar, durante a refeição, Mariana continuou a exibir o comportamento que tanto intrigava e encantava Ricardo. A todas as oportunidades havia um seio a roçar um braço, ou então apenas um sorriso, um suspiro, um baixar de olhos, um rubor…

– Anda cá, escrava.

– Para quê?

– Anda cá. Levanta a saia.

Quando Mariana chegou junto dele Ricardo introduziu-lhe a mão entre as coxas.

– Estás toda molhada…

– Pois estou… Não me deixaste vir, patife…

– Não estás bem?

– Estou bem, estás farto de saber que estou mesmo muito bem… Não sei como é que isto me pode dar tanto prazer… Mas se daqui a pouco eu entrar em combustão espontânea, já sabes porque foi. Nunca te devia ter pedido autorização.

– É… Pela boca morre o peixe… Mas não te preocupes: amanhã não vai acontecer o mesmo porque vais ter castigo em vez de sexo.

– Está bem… Podes castigar-me, mas também quero sexo.

– Também, o quê?

– Eu sei, não tenho quereres. Vou dizer doutra maneira: também gostava que o meu senhor possuísse a sua escrava. Está bem assim?

– Melhor. Mas ao castigar-te também estou a possuir-te, não te esqueças. Em todo o caso, o castigo amanhã é por ser o nosso último dia. Quero deixar-te marcas que durem até ao próximo encontro.

– Sim, meu querido, também quero ficar marcada. Mas para as marcas nunca desaparecerem o melhor era eu fazer uma tatuagem…

– E hás-de fazê-la, com as minhas iniciais.

Antes de responder, Mariana bebeu um gole de vinho.

– Hmmm, isso deixa-me louca… Louca para ser possuída outra vez pelo meu senhor…

– Primeiro vamos acabar de jantar. E desconfio que mesmo depois disso vais ter um bocado de trabalho para me provocar outra erecção.

O jantar foi rápido, e Mariana arrumou a cozinha num instante. Quando regressou à sala encontrou Ricardo sentado no sofá. Sem hesitação nem preliminares ajoelhou-se no tapete à frente dele, afastou-lhe para os lados as abas do robe e tomou-lhe o sexo na boca. Assim que sentiu bem rijo, atirou o roupão para cima do sofá deitou-se de costas no tapete:

– Anda…

Entre o momento em que saiu da boca da amante e o momento em que se colocou entre as coxas dela em posição de a penetrar, Ricardo quase perdeu a erecção: Mariana teve que o chupar de novo para que ele finalmente lhe penetrasse a vagina – com o pénis um pouco flácido, mas que uma vez dentro dela recuperou a rigidez dos embates anteriores. Estavam ambos bastante doridos, mas mesmo assim Ricardo possuiu Mariana sem hesitação ou demora, indo e vindo nela até que a viu ficar vermelha: primeiro a cara e depois o pescoço, o peito e os seios. Viu-a abrir a boca como se fosse gritar, ouviu-lhe a rápida e forte inalação de ar, cavalgou-lhe o frenesim urgente dos quadris e finalmente assistiu, empolgado, ao gozo da sua escrava: um orgasmo sumptuoso, uma convulsão sísmica que lhe soltou todas as energias acumuladas no corpo e na alma desde que ele a tinha mandado deitar no sofá duas horas antes.

O dia seguinte amanheceu com bom tempo. Algumas nuvens, poucas, juntavam-se ocasionalmente e faziam chover umas raras gotas de água. Ricardo e Mariana foram passear para junto do canal e dos moinhos de vento: ele de calças castanhas com vinco, pullover cor de mel, casaco de cabedal castanho escuro e chapéu de feltro, ela de saia comprida, blusa de seda e casaquinho vermelho. Almoçaram num pavilhão com vista para o canal, conversando sobre o fim de semana que projectavam passar em Paris quando o tempo estivesse um pouco mais quente.

Lá fora a relva estava húmida e muito verde.

– Apetecia-me descalçar-me e correr nesta relva – disse Mariana.

– E a mim apetecia-me mandar-te descalçar.

– Mas não posso, estou de collants e não posso tirá-los diante de toda a gente.

– De collants?! Na presença do teu dono?! Vais mas é já ao quarto de banho para os tirar, e de castigo não voltas a calçar-te hoje.

Mariana ainda alegou o frio, o incómodo, as pessoas à volta; mas acabou por obedecer, um pouco embaraçada no princípio, mas pouco tempo depois corria o jardim descalça com a singeleza impudente duma criança à solta. Ricardo não voltou a permitir-lhe que se calçasse nem no jardim, nem no caminho de casa. E se no jardim o espectáculo duma senhora bem vestida mas de pés nus pareceu banal a quem o viu, o mesmo não se passou percurso que mais tarde fizeram de braço dado nas ruas cheias de gente. Mas o garbo altivo de Ricardo desarmava os olhares e, comunicando-se a Mariana, convertia-lhe o pejo em euforia.

Jantaram pelo caminho. Quando entrou em casa Mariana levava os pés gelados. Mas antes de ir tomar um duche quente ainda se apresentou diante de Ricardo com uma bacia de água quente para lhe lavar os pés cansados, lhe calçar os chinelos, lhe servir uma bebida e lhe acender um charuto.

Depois de tomar duche não se vestiu, envolveu-se em véus transparentes e dançou para ele, tirando-os um a um.

Ricardo assistia beberricando o seu whisky e puxando uma fumaça ocasional. Só os olhos a rir denotavam a atenção com que seguia todos os movimentos da sua amada.

– Vem cá.

– Sim, mas ainda me deves um castigo – disse Mariana.

E Ricardo viu que sem ele notar ela tinha ido ao quarto buscar a vergasta vermelha e lha tinha posto ao alcance da mão.

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As Flagelantes

Os Romanos já conheciam bem a relação entre o prazer e a dor…

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Felizmente a exposição tinha terminado. Mariana tinha levado para casa os quadros que tinham ficado por vender (poucos, felizmente), e o galerista tinha ficado de entregar os outros aos respectivos compradores. Para já, não estava com vontade de recomeçar a pintar. Brugges, no fim da Primavera, estava florida e verdejante. As trovoadas dos últimos dias estavam a dar lugar a dias cada vez mais luminosos e Mariana aguardava, numa feliz e serena expectativa, a sexta-feira, dia em que tinha combinado com Ricardo encontrar-se com ele em Paris, na Gare de l’Est.

Ricardo tinha marcado um quarto num hotel muito próximo da estação. O comboio dele tinha chegado cerca de meia hora antes do dela, e logo que se apeou Mariana viu o amante no cais, aproximando-se dela e sorrindo. Abraçaram-se, ela erguendo-se um pouco na ponta dos pés para lhe chegar aos lábios, ele inclinando um pouco a cabeça. O beijo demorou muito tempo, tanto quanto o necessário para preencher os meses de ausência precedentes; no fim, Ricardo acariciou os cabelos e a face de Mariana e deu-lhe a mão a beijar, o que ela fez num movimento rápido depois de olhar à volta e ver que ninguém parecia estar a reparar neles.

Mariana trazia uma saia comprida e rodada, ao estilo do que com o tempo se tinha tornado o seu traje de escrava; e, de acordo com o mesmo código, não trazia soutien, como Ricardo verificou, agradado, ao passar-lhe a mão pelas costas; mas não vinha descalça, trazia os pés enfiados numas socas que a faziam parecer mais alta.

Saíram da estação por uma porta lateral, a que ficava mais perto do hotel. No quarto, demoraram a desfazer as malas porque havia sempre mais um beijo ou uma carícia que interrompia a tarefa. Ricardo tirou da mala a vergasta vermelha que levava sempre quando ia ver Mariana e colocou-a bem visível sobre a escrivaninha. Para limpar o suor e o pó da viagem tomaram um duche rápido, um de cada vez, e vestiram os roupões de cetim que tinham trazido e que já faziam parte do seu ritual – o dela branco-marfim, o dele vermelho escuro com riscas verticais cor de creme.

Os roupões, de resto, pouco ocultavam. A Ricardo, sentado na pequena poltrona do quarto, as abas abriam-se dos lados, descobrindo-lhe as coxas. Mariana, ao ajoelhar à frente do amante, pôde ver-lhe o sexo já meio erecto, ao mesmo tempo que lhe mostrava no decote bambo os seios nus.

Pouco tempo gastaram em carícias, porém. Mariana mal tinha aflorado com os lábios o sexo do dono, e Ricardo mal tinha sopesado os seios oferecidos da sua escrava, quando esta se levantou, despiu o robe e se deitou de costas sobre a cama:

– Vem…

– Sim, minha escrava.

E deitou-se sobre ela para lhe beijar a boca e para logo a seguir a penetrar com uma única estocada que a magoou um pouco.

– Vou vir-me já, minha escrava, não vou aguentar.

– Sim, meu querido, vem-te já, dá-me tudo.

Mas apesar da rapidez com que Ricardo atingiu o orgasmo, Mariana também teve o seu, apesar de nada ter feito por isso e de ter dedicado todos os seus movimentos ao prazer do amante.

Assim ficaram uns minutos, parados, trocando beijos, Ricardo descansando sobre Mariana, o sexo ainda a desintumescer dentro dela, como gostavam os dois.

Da conversa que tiveram na sesta não conto, porque foi igual a todas as que os meus leitores experimentaram na mesma situação. Direi apenas que conversaram entre beijos e carícias, e que passado algum tempo o sexo de Ricardo começou a endurecer e a crescer de novo dentro de Mariana; que esta, sentindo-o, rolou para cima do amante e começou a encorajá-lo com pequenos movimentos rotativos dos quadris; e que desta vez o amor que fizeram se prolongou o suficiente para lhes deixar os corpos macerados e exaustos de prazer.

Por fim sentiram fome; mas, como não lhes apetecia comer em público num restaurante e o hotel não tinha room service, voltaram a lavar-se, vestiram-se e desceram à rua. Nas imediações da Gare de l’Est há ainda pequenas mercearias, lojas de fruta e padarias: compraram pão, fruta, queijo, patés, água e vinho e fizeram um piquenique a dois no quarto enquanto iam desfazendo as malas e arrumando as roupas nos cabides. Ricardo tirou da mala a vergasta que Mariana já conhecia, uma vara flexível, muito bonita, revestida a seda vermelha com a ponta e o punho em cabedal preto, e colocou-a em lugar visível sobre a secretária.

Arrumado o quarto e tomada a refeição, desceram e foram passear para a rua. Começaram a andar na direcção de Pigalle: era longe, mas não tinham pressa, ainda era de dia e o tempo estava bom. Comparada com Brugges e com Heidelberg, Paris pareceu-lhes bastante suja, mas na disposição em que estavam de ter prazer em tudo essa sujidade não foi para eles incómodo. Subiram o Boulevard Magenta divertindo-se como dois adolescentes com tudo o que viam, percorreram Rochechouart aos beijos, passaram o Moulin Rouge e ao anoitecer estavam sentados à mesa, de mãos dadas, num pequeno bar onde uma banda jazz tocava clássicos dos anos quarenta. Já era de noite quando prosseguiram a caminhada até ao fim do Boulevard de Clichy.

De repente deu-lhes a pressa. O corpo de cada um deles pedia o do outro, colado contra si a todo o comprimento. Tinham que ir para o hotel, já, já, sem demora. Tomaram o primeiro táxi que viram, pagaram exageradamente ao motorista, subiram ao quarto e despiram-se atabalhoadamente um ao outro. Por fim, nus, recomeçaram o ritual de beijos e carícias que tinham iniciado no táxi. Nessa noite Ricardo não amarrou Mariana, nem usou nela a vergasta, limitou-se a possui-la uma vez sem contemplações nem piedade, e depois outra vez, com ternura e cruel requinte, no intervalo duma conversa de travesseiro que durou pela noite fora.

No dia seguinte, logo de manhã, foram os dois passear pela cidade. O tempo estava de primavera, um pouco fresco mas com uma promessa de calor para a tarde. As nuvens que no dia anterior tinham visto durante a viagem tinham-se reduzido a uns poucos farrapos muito brancos atrás dos quais o sol raramente se escondia. A luz – a luz era a luz de Paris, inconfundível com a de qualquer outra cidade, uma luz que tinge tudo em que toca dum cinzento nacarado quase branco. Ricardo trazia um blusão de cabedal preto sobre uma T-shirt branca e uns jeans, Mariana uma saia vermelha até aos pés e um top translúcido de seda cinzenta, forrado à frente. Por cima trazia um casaquinho branco e nos pés as socas do dia anterior. Tomaram o Metro para a Place de la Concorde, andaram nos jardins do Louvre e nas Tuilleries, observando os parisienses e os turistas que bebiam refrescos nas esplanadas ou tiravam fotografias junto às fontes.

Subitamente, a meio da ponte de La Concorde, Ricardo exigiu que Mariana se descalçasse, o que ela fez prontamente e entre risos, mas corando um pouco e olhando à volta a ver se alguém reparava. Ele próprio guardou as socas da amante no saco que trazia a tiracolo, tirando-lhe assim a possibilidade de se calçar de novo sem pedir primeiro; Mariana mostrou-se um pouco mais envergonhada do que já estava, mas não se opôs e passado uns minutos estava de novo risonha e descuidada, pendurando-se animadamente no braço de Ricardo enquanto percorriam um pouco do Boulevard Saint-Germain para depois voltar à esquerda de novo em direcção ao rio.

Nas imediações do Museu d’Orsay, numa esplanada, almoçaram; durante o almoço Ricardo permitiu que Mariana se calçasse o tempo suficiente para entrar no restaurante e ir à casa de banho, mas ao mesmo tempo ordenou-lhe que virasse o top de trás para a frente de modo a que o forro ficasse atrás e se vissem os seios à transparência. Mariana protestou um pouco contra esta exigência do seu dono, mas ele sorriu: sabia muito bem que o protesto era um pró-forma, que se ela própria não tivesse mencionado logo de manhã essa possibilidade que o top oferecia não seria ele a dar-se conta dela… e de qualquer modo, com o casaquinho branco vestido mal se notava, como mal se notavam os pés nus por baixo da saia comprida.

Antes de entrarem no museu estiveram os dois sentados nos degraus da entrada lateral, a comer gelados. Nesta posição a saia vermelha de Mariana subia-lhe um pouco pelos tornozelos acima, revelando os pés nus; e Ricardo mandou-a tirar o casaco. Um turista consentiu em fotografá-los juntos: Ricardo sentado um degrau acima de Mariana, as sacolas e os casacos pousados, o top dela mais transparente na fotografia do que parecia ao vivo. Mariana aparece risonha e um pouco envergonhada, a tapar a boca com a mão.

– Posso calçar-me? Não me vão deixar entrar descalça no museu…

– Vamos ver – respondeu Ricardo.

– Mas ao menos visto o casaco…

– Está bem.

À entrada os funcionários mostraram a mais gaulesa das indiferenças perante o traje da visitante. As socas ficaram no vestiário, dentro de um dos sacos, e Mariana descobriu, como havia de confessar mais tarde, que não há maneira mais íntima nem mais confortável de percorrer um museu do que fazê-lo assim, de pés nus sobre o chão polido.

Bem mais áspero era o pavimento na rua. Sobre as pontes de La Concorde, des Invalides, Alexandre III, de l’Alma, Ricardo fotografava Mariana, sempre em movimento, caminhando em direcção a ele ou de perfil, porque se ficasse parada a saia comprida lhe ocultaria os pés. Mariana vestia o casaco sempre que chegava a um lugar com muita gente, não queria mostrar os seios à transparência sob o top cinzento, mas Ricardo estava sempre a ordenar-lhe que o tirasse e ela obedecia, um pouco corada mas sem que isso lhe custasse por aí além.

Por fim habituou-se aos olhares que atraía (poucos e discretos, para dizer a verdade), ou esqueceu-se de sentir vergonha, ou começou a sentir prazer na liberdade do corpo sob o céu primaveril. Atravessou a Place de La Concorde de braço dado com o dono e começou a ver com ele as montras dos antiquários e dos joalheiros na Rue de Rivoli, tão à vontade na sua nudez que foi ele que se lembrou, quando as sombras se começaram a alongar, de a mandar vestir o casaco e de lhe devolver as socas.

Jantaram por ali num pequeno restaurante. Comeram magret de canard e beberam vinho da Borgonha, um Châteauneuf du Pape que devolveu a Mariana, pouco habituada ao álcool, a animação que crepúsculo lhe tirara. A refeição foi rápida porque Ricardo tinha bilhetes para o Crazy Horse e ainda precisavam de ir ao hotel mudar de roupa. Mariana tinha um vestido roxo transparente, com um forro opaco da mesma cor, que tinha comprado numa boutique em Brugges durante um passeio com Ricardo. Calçou umas sandálias prateadas de salto alto, vestiu umas cuequinhas minúsculas de renda lilás e não pôs soutien porque Ricardo não lho autorizou. Com aquele vestido e aquelas sandálias não podia usar dourados: pôs um discreto colar de pérolas, uns brincos de prata, e uma pulseira de escrava também de prata. Ricardo trocou os sapatos desportivos por uns pretos, vestiu umas calças com vinco, uma camisa azul clara e um casaco de cabedal castanho-escuro.

Na recepção do hotel pediram que lhes chamassem um táxi. Ricardo imaginava que o Crazy Horse ficava na zona de Pigalle, nas imediações do Moulin Rouge, mas o táxi levou-os em vez disso para a zona de l’Étoile, não muito longe da Avenue Foch, dos hotéis de luxo e das embaixadas. Um arrumador vestido de smoking conduziu-os aos seus lugares – não em mesas, como tinham imaginado, mas num anfiteatro, com pequenas superfícies à frente das poltronas para os espectadores pousarem as bebidas. O palco era muito mais pequeno do que parecia na televisão, mas, como puderam ver ao longo do espectáculo, dispunha de condições técnicas dignas de qualquer grande sala.

Bonsoir, Monsieur-Dame. Vous désirez?

Two screwdrivers, please – respondeu Ricardo em inglês.

Parfaitement, Monsieur.

Mariana quis saber o que era um screwdriver:

– Isso não quer dizer chave de parafusos?

– Sim, mas também quer dizer vodka com sumo de laranja – respondeu Ricardo. Só não pedi vodka-orange porque não quis falar com este fulano na língua dele.

– Ora aí está uma boa regra – comentou Mariana.

Bebeu um trago e perguntou:

– Porque é que um vodka-laranja se chama chave de parafusos?

Because it makes you screw like crazy after you drink it.

Mariana engasgou-se de riso:

– Isso é uma promessa?

– Não, é uma lei da natureza. Logo vais ver.

O espectáculo centrava-se nos efeitos de luz sobre os corpos nus das bailarinas pelos quais o Crazy Horse é famoso, mas incluía também números de cabaret, de ilusionismo, de acrobacia e de comédia. Ao ver um dos números Ricardo e Mariana tiveram dificuldade em conter o riso porque as bailarinas vinham cobertas por uns vestidos transparentes iguais o dela, só com a diferença de não terem forro e de elas estarem completamente nuas por baixo.

Por esta altura já Ricardo e Mariana tinham bebido o seu segundo e último screwdriver. Quando o espectáculo terminou pouco depois, saíram os dois abraçados para a rua, onde tinha começado a chuviscar. Enlaçaram-se sem querer saber da chuva, Mariana colou-se toda ao seu dono, ao seu amante, com os braços à volta do pescoço dele e um pé no ar, na pose clássica dum beijo cinematográfico.

Só depois trataram de arranjar táxi. No banco traseiro do carro, perdidos de riso e de tesão, caíram um sobre o outro. Ricardo ordenou a Mariana que se soerguesse no banco e tirou-lhe as calcinhas, que guardou no bolso do casaco. Depois pôs-lhe a mão direita entre as coxas de modo a que o motorista não visse e começou a acariciar-lhe o sexo, que encontrou alagado.

Mariana teve que se conter para não gemer de prazer. O motorista olhava para eles de vez em quando pelo espelho retrovisor, aparentemente imperturbável, mas era impossível que não se desse conta. Com a sua mão pequenina procurou a saliência nas calças de Ricardo: em parte porque não cabia em si de impaciência, em parte porque o queria distrair da concentração que ele punha em masturbá-la. Um orgasmo ali, num táxi, com o motorista a ver e a ouvir tudo, não podia ser!

O carro seguia a toda a velocidade, cortando as esquinas, às vezes derrapando um pouco, e desmentindo assim a aparente impassibilidade do chauffeur. Depois de os deixar no hotel e receber o preço da corrida o homem arrancou bruscamente, com um chiar de pneus que exprimia o que pensava de semelhantes passageiros. Ricardo e Mariana conseguiam cada vez menos conter o riso: quebrar o cool dum taxista parisiense não é façanha para qualquer um.

Atravessaram assim o átrio do hotel, hílares e abraçados, perante o ar de divertida tolerância do concierge, sem reparar que as calcinhas de Mariana estavam meio caídas do bolso de Ricardo. No quarto, depois de se terem arranjado os dois e de Ricardo ter vestido o roupão, Mariana fechou-se na casa de banho para emergir uns minutos depois com as mesmas sandálias, as mesmas jóias e o mesmo vestido que tinha levado à rua – mas desta vez sem o forro opaco.

– Agora vai haver outra vez Crazy Horse – anunciou.

Ricardo não resistiu a pegar na máquina fotográfica e registar o riso solto da sua escrava, a cabeça lançada para trás, o corpo visto à transparência por baixo do vestido. Capturou-a encostada à porta numa pose de vamp, no meio do quarto a dançar o Charleston, junto à janela a olhá-lo por cima do ombro com os olhos semicerrados. Depois fotografou-a a despir-se: primeiro a tirar os brincos – um dos gestos mais excitantes que uma mulher pode fazer; depois as outras jóias. Ao tirar as sandálias, Mariana atirou-lhe um beijo:

– Pronto, aqui tens de novo a tua escrava descalça.

Ricardo sorriu:

– Ai é? Então amanhã vou querê-la descalça o dia inteiro.

– Julgas que não sou capaz? Eu sou capaz de tudo.

Dum gesto só tirou o vestido. Sentou-se na cama toda nua ao lado do amante e abraçou-se a ele, que a comia com beijos. Abriu-lhe o roupão para lhe procurar e acariciar o sexo erecto, abriu as pernas à mão que lhe subia pelas coxas e retribuiu-lhe apaixonadamente todos os beijos, lábios com lábios e língua. Mas quando ele a quis montar, disse-lhe:

– Espera.

E saltou agilmente para fora da cama, para junto da secretária onde repousava, esquecida, a vergasta vermelha.

– Toma, meu senhor – disse ao amante, estendendo-lha com ambas as mãos. – Castiga a tua escrava.

Se ao perscrutar a sua amante ajoelhada Ricardo a tivesse visto de olhos baixos, como sugere a convenção, não teria pegado na vergasta que ela lhe oferecia. Mas deparou-se com um olhar directo e frontal que não era desafio nem prece, mas sim confiança e certeza. Levantou-se da cama, mal reparando que ao fazê-lo açoitava sem querer, com o pénis erecto, a face da sua amada. De pé diante dela ordenou:

– Então beija a vergasta.

Depois mandou-a deitar de bruços na cama e começou a açoitá-la nas nádegas. Cada açoite deixava uma marca vermelha escura na pele morena. Mariana estremecia ao ouvir cada silvo e gritava baixinho a cada golpe, virando para Ricardo uns olhos que pareciam perguntar porquê; depois enterrou a cara na almofada e ficou assim, gemendo quando a dor era mais forte. A cada pancada o corpo saltava num espasmo, para logo regressar à posição que lhe tinha sido determinada. Nas nádegas de Mariana os vergões formavam agora um padrão em losangos, vermelhos, ligeiramente salientes. Ricardo passou a alternar as vergastadas que lhe dava nas nádegas com algumas nas costas, até aos ombros que tremiam. Ao fim de uma eternidade terminou o castigo com duas vergastadas nas coxas, uma das quais caiu mesmo na dobra das nádegas e arrancou a Mariana um grito que nem a almofada conseguiu abafar.

Mariana deixou-se estar na mesma posição, com a cara escondida, ouvindo o dono mover-se pelo quarto. Sobressaltou-se apenas quando sentiu um flash, e então virou para a máquina fotográfica o rosto lavado em lágrimas.

– Não me tires fotografias, olha o estado em que tenho a cara.

Mas Ricardo queria uma reportagem completa daquela noite. Fotografou-lhe os olhos macerados, as marcas no corpo, o corpo inteiro. Fotografou-a deitada de bruços, sentada na cama, ajoelhada, beijando o instrumento da sua tortura, símbolo da sua servidão.

Depois desembaraçou-se do roupão, que ainda tinha vestido, e deitou-se de costas todo nu no meio da cama, o pénis rígido e arrogante erguido no ar.

– Anda cá, escrava.

Mariana deitou-se ao lado de Ricardo e começou a beijá-lo na cara, secando as lágrimas com os cabelos, os seus e os dele.

– Meu amor…

Lentamente começou a subir para cima dele, primeiro um beijo na boca, uma carícia no peito com os seios macios, depois uma coxa a cobrir-lhe a perna… Ricardo continuava aparentemente impassível, as mãos cruzadas por baixo da nuca, respondendo só com beijos às múltiplas carícias da amante. Esta, mais afoita minuto a minuto, trepava por cima dele, insinuava-se, beijava-lhe o pescoço e os pequenos mamilos de homem, montava nele por fim, escarranchada, beijava-lhe o sexo com os lábios da vulva e procurava empalar-se nele. Mas ele esquivava-se, fugia-lhe com o corpo e consentia apenas em acariciar-lhe a racha com a ponta do pénis.

Mariana começou então a esfregar-se nele, deslizando o sexo molhado para trás e para diante sobre a grossa, túrgida veia que se estendia da raiz à glande. Mas ele deteve-a:

– Não, minha escrava, assim não. Beija-me com os teus lábios de baixo.

Mariana sentiu vontade de ganir, presa por esta ordem do dono como por uma corrente de aço. Pôs-se a tactear a glande do amante – tão grossa, tão macia! – com os lábios do sexo, com o clítoris, com o vestíbulo e a entrada da vagina, até ao lugar onde teria o hímen se ainda fosse virgem.

Este tormento, este prazer, durou uma eternidade, talvez minutos, talvez horas, até que Ricardo subitamente tirou as mãos da almofada para a virar brutalmente de costas, lhe cruzar os pulsos delicados, segurá-los numa das mãos, deitar-se com todo o seu peso em cima dela, e penetrá-la de um só golpe que a fez vir-se imediatamente. Mas ainda não tinha acabado de se servir dela: as estocadas com que a possuía repetiam-se, vigorosas, o ventre dele contra o dela fazia um ruído molhado de palmadas, os joelhos peludos obrigavam-na a abrir as coxas mais e mais, até que ao primeiro orgasmo se seguiu outro, e outro, Mariana nunca veio a saber quantos, o último dos dela acompanhado pelo único do amante.

Por fim ele descansou sobre ela, ofegante, todo o peso do corpo sobre ela, a cabeça repousada no ombro macio, chamando-lhe meu amor, minha escrava linda, o pénis a ficar flácido sem sair da vagina. Mariana sorria-lhe entre lágrimas, dizia-lhe «descansa, meu amor», beijava-lhe o cabelo e, apesar de ainda estar aprisionada debaixo dele, acariciava-o como podia.

Por fim um dos dois fez um movimento para se ajeitar melhor e o sexo dele, já completamente flácido, saiu de dentro dela sem que o pudessem evitar. Mariana levantou-se para se ir lavar e Ricardo voltou a deitar-se de costas, desta vez com um braço a tapar os olhos e o sexo caído para a esquerda sobre o ventre, esperando que Mariana voltasse com toalhas, água morna e sabonete para o limpar como ele gostava.

– Agora vou-te lavar, meu querido.

– Sim, minha escrava, mas primeiro limpa-me com a boca…

E quando Mariana, cumprida esta ordem, se ia a levantar, Ricardo acrescentou:

– E beija de novo a vergasta.

– Sim, meu senhor querido.

Mariana pegou de novo na vergasta, da qual tinha as marcas no corpo, mais vermelhas ainda do que imediatamente a seguir ao castigo; ajoelhou-se, fechou os olhos e beijou-a. Depois pousou-a sobre a cama e começou a lavar o seu senhor com delicadeza e ternura até o perfume do sabonete predominar sobre os odores do sexo que permaneciam no quarto. Por fim deitou-se ao lado dele, abraçou-o, e começaram os dois a fazer o balanço do dia, Mariana descalça no Museu d’Orsay diante dos quadros de Manet e Ingres, a blusa virada de trás para a frente, as lojas na Rue de Rivoli, o peito de pato e o vinho da Borgonha, o Crazy Horse, as bailarinas de roxo, o taxista…

Ricardo possuiu Mariana ainda uma vez nessa noite, meigamente, docemente; esvaiu-se nela e adormeceram os dois.

O domingo amanheceu com sol e poucas nuvens. Ricardo e Mariana saíram do hotel de manhã. Faltando à promessa que tinha feito na noite anterior, Ricardo autorizou que Mariana saísse calçada do hotel, mas em troca proibiu-lhe o casaquinho branco – felizmente estava calor – e exigiu que o top cinzento fosse de novo usado de modo a que se vissem à transparência os seios da amante, muito redondos e um pouco grandes para o tórax estreito. Também a saia era a mesma do dia anterior, comprida, vermelha e um pouco pesada no cair.

Tomaram o metro para Les Halles, onde mudaram para a linha que os havia de levar à Avenue Georges V. Aí chegados, Ricardo ordenou finalmente a Mariana que se descalçasse, o que ela fez prontamente e de boa vontade. Perdida por cem, perdida por mil: pôs à cintura uma écharpe às franjas que tinha pensado vir a pôr mais tarde pelos ombros, se Ricardo autorizasse, para tapar um pouco os seios. Desceram a avenida em direcção à ponte de l’Alma, onde já tinham estado no dia anterior, e depois viraram pela Avenida do Presidente Wilson. À sua esquerda, do outro lado do rio, ia-se agigantando a torre Eiffel, mas não viraram na sua direcção. Subiram a Avenue d’Iéna com todos os vagares, com a amante de Ricardo vestida de cigana a meter o nariz nas ruas transversais, onde moram os elegantes e os milionários, e a escolher para caminhar as superfícies mais lisas dos passeios.

No Arco do Triunfo descansaram e comeram alguma coisa. Desceram a pé os Campos Elísios, divertidos com todas as coisas que viam, grandes ou pequenas, desde a arquitectura de Barão de Haussmann até às lojas, aos turistas e aos pardais que depenicavam no chão. A luz que inundava tudo parecia-lhes mais viva por contraste com as sombras decentes e discretas do Seizième Arrondissement, por onde tinham andado de manhã. Mariana parecia já não se lembrar, ou não se importar, com os pés descalços nem com os seios semi-nus. Nem mesmo depois de atravessarem a Place de La Concorde em direcção à Rue de Rivoli, onde as pessoas andam muito mais apertadas e se vêem de muito mais perto, e de um senhor de idade com aspecto de dandy ter tido um pequeno sobressalto de surpresa ao ver-lhe o peito, nem depois disto ocorreu à amante de Ricardo tapar-se um pouco mais. Só ao fim da tarde pediu ao dono que a deixasse pôr as socas, quando já estavam na estação do metro de Les Halles prontos a regressar ao hotel; mas não insistiu quando ele recusou.

Teve só um pouco de vergonha quando atravessou o átrio do hotel. No quarto, a primeira coisa que fez foi tomar um duche, mas não conseguiu raspar completamente das solas dos pés a sujidade acumulada durante um dia inteiro a pisar a poeira e o alcatrão das ruas.

Comeram os dois no quarto, de roupão, sentados na cama: pão, queijo iogurtes e fruta. Depois, como não queriam abandonar Paris sem brindar com champanhe, mandaram vir uma garrafa e duas flûtes, capricho este que lhes ficou por um preço exorbitante.

No momento de brindar Mariana quis beijar de novo a vergasta, que tinha ficado abandonada em cima da cama e que as camareiras tinham arrumado sobre a secretária. À noite o amor que fizeram foi já uma despedida: abraçaram-se com força, beijaram-se com ânsia, e não adormeceram antes que o céu começasse a clarear.

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«Não há duas mulheres iguais», pensou Vítor, um pouco admirado.

Nem mesmo tratando-se de escravas. Seria de esperar que a condição de escrava simplificasse tudo e uniformizasse tudo, afinal todas as escravas são iguais nos seus direitos, que são apenas dois: o de se tornarem escravas e o de deixarem de o ser, sendo que entremeio não têm nenhuns.

Mas não, aqui estava perante ele a sua escrava lassie, a dizer-lhe com o ar mais determinado deste mundo, «não, isso não, isso nunca o poderei fazer». E isto por causa duma ordem a que nunca nenhuma sua escrava se negara antes, nem mesmo a dúnia, que tinha da vergasta um verdadeiro pavor: a de beijar a vergasta antes e depois do castigo, como sinal de submissão e reconciliação.

Recusa tanto mais surpreendente por vir da lassie, uma escrava de cujos limites Vítor pensara até então que já tinha uma ideia muito aproximada. Uma escrava que em muitos aspectos era, das quatro que tinha tido ao longo da vida, a que mais prontamente obedecia às ordens mais difíceis, a que mais dolorosos castigos suportava, a que mais alegremente se humilhava diante dele.

……………………..

Lassie perscrutou o rosto do seu novo dono: como ia ele reagir a esta recusa, a primeira desde o pacto de escravidão que tinham celebrado? Viu-o pôr-se sério, de repente. Depois viu-lhe os olhos atentos, indagadores, que a estudavam e pareciam penetrá-la até ao fundo da alma. A seguir pareceu-lhe ver – mas nisto podia estar enganada – um brevíssimo lampejo de compaixão, logo substituído por uma expressão que lassie conhecia, mas não sabia de onde.

Até que se lembrou: tinha-a visto num filme, no rosto de um samurai que se preparava para o ritual do seppuku. Imediatamente afastou a ideia: é claro que nenhum Senhor se vai suicidar e abrir a barriga com uma espada só porque uma escrava se recusou a obedecer a uma ordem. Mas o que via no rosto de Vítor era a mesma determinação que vira no actor do filme, a mesma imensa saudade pela vida que ia ficar por viver.

– Minha escrava, não tens o direito de recusar.

– Eu sei, não estou a recusar, é que não posso mesmo – disse lassie.

Tratava-se duma insignificância, seguramente, porque sentia ela o coração tão apertado? E o que ia ele fazer, ele, o seu Senhor amado, que intenção tinha ele no coração que lhe punha os olhos daquela maneira, iguais aos do samurai do filme?

– Lassie, minha escrava, sempre que te dou uma ordem estou a arriscar a tua felicidade e a minha. Compreendes isto?

Lassie compreendia, vagamente. Vítor explicou melhor:

– Quando te dou uma ordem estou a apostar que a podes cumprir. Porque se não podes, ou não queres, o único direito que tens é o de deixar de ser minha escrava naquele preciso momento. E eu, a única possibilidade que tenho é libertar-te, mesmo que ao fazê-lo a minha vida deixe de ter sentido.

– A tua vida não vai deixar de fazer sentido só porque eu não quis obedecer a uma insignificância qualquer! – exaltou-se lassie.

– Pois não. Só deixa de fazer sentido se por causa dessa insignificância eu já não te sentir minha.

Lassie encolheu os ombros, irritada.

– Tu pensas que te é impossível cumprir uma ordem que te dei – disse Vítor. – Talvez tenhas razão. Eu penso, e posso estar errado, que consegues. Talvez seja muito difícil para ti, mas impossível não é. É essa a minha aposta. Sei o risco que corro e que te faço correr. A ordem mantém-se: beija a vergasta.

– Não posso…

Por um longuíssimo momento, que pareceu durar horas, Vítor manteve os olhos fixos nos de lassie. Por fim pareceu encontrar qualquer coisa, ela nunca soube o quê, no fundo dela: a expressão com que a olhava suavizou-se de repente e deu lugar a um pequeno sorriso em que a ternura se misturava a um pouco de melancolia.

– Está bem, minha escrava.

E mandou-a, com a voz mais meiga que ela já lhe tinha ouvido, colocar-se em posição de ser punida; de joelhos diante do sofá, os cotovelos e os seios pousados no assento, as nádegas empinadas e nuas.

Enquanto esperava pelo castigo, lassie examinou os seus sentimentos. Não se sentia vitoriosa, pelo contrário. Sentia-se como se tivesse acabado de perder alguma coisa, não sabia o quê. Uma parte dela desejava ardentemente que Vítor repetisse a ordem de beijar a vergasta, e dizia a si própria que se ele o fizesse se precipitaria para obedecer. Mas sabia também que aquela ordem não seria repetida nas próximas semanas ou meses, e que talvez nunca mais o fosse.

Quando o castigo finalmente veio – duro, súbito, impiedoso – foi uma libertação e um deslumbramento: lassie entregou-se a ele e perdeu-se nele como um suicida entrega o corpo ao mar.

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Victor chegou pontualmente às oito e vinte. Quando dunya ouviu a chave dele na porta, correu do quarto, onde se encontrava, para a sala, que era onde ele lhe tinha ordenado que o esperasse. Sabia que o slap slap apressado dos seus pés nus, impossível de confundir com qualquer outro ruído de passos, podia ser ouvido da entrada, onde Victor estava neste momento a pendurar o sobretudo e o chapéu.

A mesa estava posta para os dois, a comida estava pronta a ser servida e dunya estava vestida como ele tinha ordenado: pés e seios nus, mamilos pintados da cor dos lábios, cabelos soltos; um sarong preto com franjas compridas à roda das ancas, anéis tanto nos dedos dos pés como nos das mãos, bijuteria nos tornozelos, nos pulsos, no pescoço. Ajoelhou-se junto do sofá, virada para a porta da sala, como mandava o ritual, de modo que ele a visse imediatamente ao entrar.

– Baixa os olhos – ouviu-o dizer, ainda do vestíbulo.

Grata por Victor lhe ter lembrado esta regra e um pouco irritada consigo própria por ser preciso lembrar-lha, dunya baixou os olhos. Isto fez com que só visse do seu Senhor, quando ele se aproximou dela, as calças de bombazine pretas e as botas próprias para a neve. Não resistiu a erguer os olhos um pouco para lhe ver a zona da carcela: a protuberância por baixo do tecido denunciava o sexo erecto, e dunya sentiu-se enlanguescer ao ver que o amante tinha ficado excitado só de a ver.

Quis olhá-lo nos olhos e sorrir-lhe, ver a disposição dele, mas conteve-se. Via-lhe as mãos, primeiro a que ele lhe apresentou para beijar, depois a outra, a esquerda, onde ele segurava um pedaço de tecido preto que pareceu a dunya ser de seda ou cetim.

Quando ele se pôs por trás dela, dunya olhou de novo para o chão. Sentiu que ele lhe afastava os cabelos com a mão, viu num relance o tecido preto à frente do rosto.

– Fecha os olhos.

Victor nunca a tinha vendado antes. Porque o faria agora, precisamente agora, quando ela tinha tanto que fazer, o jantar para servir?

– Toca com a testa no chão.

Para obedecer, dunya ficou com o rabo empinado. Sentiu que o amante lhe levantava o sarong, lhe acariciava brevemente as nádegas e lhe inseria um dedo inquisitivo no sexo, que estava molhado.

– Levanta-te.

Com dificuldade, sem ver nada, pôs-se de pé. Victor ajudou-a e conduziu-a na direcção, pareceu-lhe, da mesa de jantar.

– Ajoelha-te. Senta-te sobre os calcanhares. Abre bem as pernas. Levanta a cabeça. Agora fica assim, não te mexas.

A venda estava bem posta e bem firme e não permitia espreitar por baixo. Dunya ouviu o amante a mexer na louça e nos talheres que ela tinha disposto sobre a mesa, dirigir-se à cozinha, mexer nos armários e no fogão. Ouviu os bifes que ela tinha temperado a grelhar na frigideira. Sentiu-o pôr nas travessas o puré, a salada, os bifes. Depois ouviu-o regressar e soube pelo cheiro que trazia a comida para a sala.

Soube que ele se estava a sentar à mesa pelo arrastar da cadeira.

– Chega-te para mais perto de mim.

Dunya obedeceu. Sentiu-o servir-se. Pensou: Vai ser assim, hoje? Até o privilégio de o servir me vai ser tirado? Mas não disse nada. Victor, pelo contrário, não parava de falar entre uma garfada e outra, chamando-lhe minha querida, minha escrava, minha cadela, e de vez em quando acariciava~lhe os cabelos com uma mão distraída. Dunya estava com fome mas não se atrevia a perguntar se podia comer.

– Abre a boca.

Era uma colher pequena, de sobremesa. Tinha puré. Passado algum tempo Victor chegou-lhe aos lábios, com as pontas dos dedos, um pouco de salada e depois, a intervalos, mais salada, pedacinhos de carne, colherzinhas de puré. Para beber, um ou dois goles de vinho, mais nada. Quando o sentiu levantar e o ouviu levar a louça para a cozinha, dunya ainda tinha fome.

Passado algum tempo ele sentou-se de novo

– Abre a boca.

Desta vez era fruta, que ele tinha descascado e partido em bocadinhos pequenos para lhe dar com os dedos. Dunya esticava o pescoço e os lábios na direcção em que lhe parecia estar a mão do dono e recebia em recompensa pequenos pedaços de comida que no fim a deixaram quase saciada, mais pela demora do que pela quantidade. Ora aqui está uma boa maneira de perder peso, pensou.

– Fica como estás.

Nesta parte da sala não havia tapete e os joelhos de dunya começavam a doer-lhe contra o chão de madeira. Mas apesar do desconforto ficou assim por largos minutos, talvez meia hora, talvez uma hora inteira: de joelhos, sentada sobre os calcanhares, a cabeça baixa, só a erguendo, como uma corça sobressaltada, para tentar seguir pelo ouvido o que o amante estava a fazer.

Primeiro ouviu-o a levantar a mesa, a lavar a louça, a arrumar a cozinha – tarefas que lhe competiam a ela, escrava, e que hoje estava proibida de desempenhar. Depois ouviu a água do duche a correr na casa de banho, os armários e as gavetas do quarto a abrir e a fechar. Por fim ouviu os passos de Victor, calçado não já de botas, mas com as babuchas de cabedal macio que trouxera de Marrocos. Com o sentido da audição aguçado pela falta de visão, ouviu como as palmilhas de couro lhe batiam levemente, ao andar, nas solas dos pés, e percebeu por este ligeiríssimo estalar que ele não trazia peúgas.

Sentia-o agora junto dela, quase encostado. Cheirava a sabonete e a dentífrico e trazia o roupão de cetim.

– Levanta-te. Anda comigo.

Com a mão na mão dele, seguiu-o às cegas para a casa de banho.

– Toma. Já tem pasta.

Era a escova de dentes.

– Toma o teu copo.

Dunya bochechou, escovou os dentes, bochechou de novo. Cuspiu a água para o lavatório. Sentiu Victor a abrir a torneira e a lavar a bacia, salpicando-a um pouco.

– Queres ir à sanita?

– Sim – disse dunya, que precisava urgentemente de urinar.

Victor conduziu-a à sanita, depois ao bidé, depois ao lavatório para lavar as mãos, e por fim de novo para a sala, onde a fez ajoelhar no tapete virada para o sofá.

– Apoia os cotovelos na almofada.

Dunya assim fez, e sentiu-o desatar-lhe o nó do sarong, deixando-a nua. A mão dele a acariciar-lhe as nádegas. Uma leve palmada. Outra carícia. Quis perguntar ao amante se ele a ia sodomizar, mas não se atreveu. Dunya nunca tinha sido sodomizada. Tinha ouvido dizer que doía muito.

– Pode doer muito, ou pouco, ou até nada. Depende de como eu fizer. Na altura decidirei – dissera-lhe Victor quando ela tinha ousado perguntar.

Mas quando ele parou de lhe acariciar as nádegas não foi para a sodomizar. De repente, sem aviso, dunya ouviu um silvo que tão bem conhecia e imediatamente sentiu uma dor atroz, como uma queimadura, nas duas bochechas do rabo. Deu um salto no lugar e não conseguiu evitar um grito.

– Quieta.

Dunya pôs-se de novo em posição e afundou a cara nas almofadas do sofá para não gritar. Tinha medo que os vizinhos ouvissem. Victor nunca a tinha punido assim de chofre; habitualmente começava por a acariciar com a vergasta, depois vergastava-a levemente e ia tornando os golpes gradualmente mais fortes.

Mas o pior não era isto, o pior era não ver, não seguir com os olhos os movimentos do amante, não controlar nada.

Uma segunda vergastada, mais acima. Dunya não conseguiu conter as lágrimas e sentiu como lhe empapavam a venda. E uma terceira, muito mais dolorosa, na parte superior das coxas, junto ao vinco das nádegas. Preparou-se para receber uma quarta vergastada, e uma quinta, se era assim que ele se queria servir dela hoje, era assim que ela o queria servir.

Mas não, as vergastadas pararam à terceira. A uma ordem de Victor, levantou a parte superior do corpo e recuou um pouco de modo a dar-lhe espaço entre ela e o sofá. Sentiu-o passar por ela, o cetim do robe roçando-lhe o corpo nu, e sentar-se diante dela com as pernas um pouco abertas.

Ia servir-se dela pela boca, então. Dunya respirou fundo, agora sabia o que fazer. Primeiro, a saudação necessária: inclinou-se para o chão, procurou às apalpadelas os pés do dono e começou a beijá-los lentamente, com um respeito infinito. Para os ver, não dispunha dos olhos, só das mãos, dos lábios e da língua. Por isso se esmerou ainda mais do que de costume em acariciá-los, em beijá-los, em lambê-los por entre os dedos.

Uma carícia dele deu-lhe a entender que a homenagem estava concluída; era altura de começar a dar-lhe outro tipo de prazer. Devagar, começou a beijar o amante pelas pernas acima. Admirou-se por não sentir o menor vestígio de impaciência e por a lentidão lhe ser tão agradável: era por não o ver, comprendeu. Para contemplar o corpo dele só tinha as mãos e os lábios e isto tornava necessário que cada centímetro quadrado de pele fosse acariciado e beijado. E apercebeu-se de que ele também não tinha pressa: a carícia que lhe fazia nos cabelos não era leve por displicência ou arrogância, como a que lhe tinha feito enquanto jantava, mas pelo propósito de não a distrair da sua tarefa.

Era estranho como o corpo dele, sentido com as mãos e com a boca, lhe parecia diferente do corpo visto com os olhos. Havia partes que lhe pareciam mais duras ou mais moles, superfícies mais ásperas e mais macias, refegos de pele mais fundos ou mais planos. A pouco e pouco dunya foi-se entregando toda à exploração do corpo de Victor, os lábios a e língua nos joelhos dele, nas coxas, nas virilhas, por fim no pénis, e as mãos erguidas para o peito como as duma suplicante.

– Agora, escrava.

Dum movimento só dunya engoliu o pénis do dono e começou a mover a cabeça para cima e para baixo, tendo o cuidade de não o tocar com os dentes. A venda, longe de lhe dar a ilusão de estar a chupar um pénis qualquer, permitia-lhe concentrar-se mais do que nunca nas características próprias que faziam do pénis de Victor tão reconhecível para ela como o rosto. E permitia-lhe também concentrar-se nos movimentos e carícias que tinha aprendido com ele e de que sabia que ele gostava: o lento deslizar dos lábios ao longo da haste, os chupões vigorosos na glande, a exploração com a língua da grossa veia de baixo, os movimentos à volta da glande, as pequenas estocadas na abertura da ponta.

Estava cansada, os múscuos do maxilar doiam-lhe, mas não queria parar. Sentiu a mão do dono na nuca e pensou que ele a quisesse acariciar ou forçá-la a engoli-lo ainda mais fundo – mas não, o que ele fez foi retirar-lhe a venda num movimento rápido.

Das luzes da sala, estava apenas aceso o candeeiro com a lâmpada mais fraca – mas que mesmo assim dava luz suficiente para que dunya visse, com os seus olhos habituados à escuridão, o membro viril que tinha diante dos olhos.

E foi como se o visse pela primeira vez. Cada pormenor, cada veia azulada, o rosado escuro e a prodigiosa macieza da glande; a não menos prodigiosa tesão que o arqueava para cima; a grossura invulgar; a cor de mármore; as rugas finíssimas; a pele delicada: o ligeiro pulsar; o modelado subtil das formas – tudo naquele momento contribuía para transformar o pénis de Victor em algo mais real que a realidade – um raio de luz, um ceptro de realeza ou divindade, um talismã.

Dunya sentiu que um êxtase a possuía; e foi neste êxtase que inclinou de novo a cabeça como quem diz uma oração; que o tomou de novo na boca como quem recebe um sacramento; e que o adorou com todo o seu ser até a boca e a garganta se lhe inundarem de luz e de esperma.

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Ela jamais compreendera, mas acabou por reconhecer como uma verdade inegável e importante, a confusão contraditória e cons­tante dos seus sentimentos; amava a ideia do suplício mas, quando o sofria, teria traído o mundo inteiro para lhe escapar; quando acabava, sentia-se feliz por tê-lo sofrido, tanto mais feliz quanto mais cruel e mais longo tivesse sido.

Pauline Réage, História de O


Uma tarde o dono de Mariana disse-lhe: “Uma das próximas vezes que vier ter contigo vou trazer um chicote.”

Estavam os dois na cama. Mariana nunca tinha sido castigada fisicamente. Tinham acabado de fazer amor com va­gar e com ternura e ela estava debruçada sobre o amante, dando-lhe pequenos bei­jos no peito. Quando, desorientada pelas palavras dele, quis ob­jectar, ele pôs-lhe um dedo sobre os lábios e começou a retribuir-lhe os beijos, e depois derrubou-a de costas sobre os lençóis amarrotados para lhe beijar e chu­par os seios, e o ventre, e o sexo, até que ela se abriu para ele e se esqueceu do que ia dizer; mas não era uma objecção importante.

Uma noite, havia vários meses, o amante tinha-lhe dado duas ou três palmadas nas nádegas com a mão aberta enquanto faziam amor. Mas isto não se podia chamar um verdadeiro castigo, e não contava.

Horas antes, na praia, tinham jogado um risonho jogo de esquivas: “Não te obedeço. Não sou tua. Que farás se a tua escrava não te obedecer?” Noutra vida, noutro mundo, Mariana era Marta; tinha um marido e uma profissão, e hábitos de autonomia. Mariana era o seu heterónimo de escrava: dócil ou rebelde conforme a hora. O amante, com a voz velada, entrava-lhe no jogo: “Castigo-te. Se não me obedeceres bato-te.”

Mas nessa noite longínqua a fome tinha sido outra, saciada ainda pelo riso mas já também pela ternura; e o castigo, quando veio, veio tímido e tarde, como um intruso. Havia lon­gos minutos que ela e o amante se acariciavam e beijavam, ofegantes e meigos, e Mariana sentia no sexo o florescer húmido do desejo. Ela própria tinha iniciado o jogo: “Olha. Não tens muita sorte. Sou uma escrava desobediente.” À primei­ra palmada nas nádegas sentiu esmorecer a excitação; à segunda sentiu que o sexo se lhe contraía e secava, mas ainda assim não quis protestar. À terceira todo o de­sejo tinha desaparecido e Marta rolou para o outro lado da cama. “Desactivaste-me.”

A ele nunca lhe tinha ocorrido esta palavra para exprimir o fim da excitação. Olhou para ela muito atento e muito sério, mas sem sinais de contrição; e se continuou a acariciá-la e beijá-la, Mariana viu bem que a carícia era agora de ternura e não de desejo. Também ele estava desactivado, como se as palmadas que lhe tinha dado tives­sem tido sobre ele o mesmo efeito que sobre ela.

Mas não exacta­mente o mesmo efeito: enquanto a desacti­vação de Mariana se tinha produzido em três fases instantâneas, coincidentes com os golpes recebidos, a dele estava a ser lenta e gra­dual. O quarto de hotel em que se encontravam era acolhedor e o barulho das on­das chegava-lhes pela ja­nela aberta. Sobre os lençóis amarrotados, muito brancos, destacava-se o pequeno corpo moreno e macio de Mariana. No fundo dos olhos do amante, que falava com ela em tom sereno e voz pausada, podia ver-se uma centelha de riso. A paixão que minutos antes os possuíra tinha desa­parecido – ou melhor, tinha ficado latente sob a ternura dos gestos e das pala­vras.

Mas um pouco mais tarde, de repente, sem que Mariana se desse conta da transição, a excitação do amante tinha voltado; o pénis que se com­primia contra as suas coxas estava erecto de novo. Ela própria se encontrou subitamente activada, embora com uma excitação diferente da que tinha sentido antes. Sem querer reflectir em que consistia a di­ferença, inclinou-se sobre o corpo do amante:

“Deixa-me fazer. Meu senhor.”

Não era frequente, nesse tempo, que Mariana tratasse o amante por Senhor, nem que lhe tomasse o sexo na boca – carícia que ela já tinha confessado ser-lhe penosa e que ele, de resto, quase nunca lhe exigia. Desta vez aplicou-se em dar-lhe todo o prazer de que foi capaz; quando ele, perto do fim, lhe fez sinal de que não conseguiria evitar a ejaculação por mais tempo, redobrou de esforços para lha provocar, e recebeu-a no fundo da garganta. Ainda se abraçou a ele por alguns segundos antes de se levantar e de ir para a casa de banho.

Tudo isto tinha acontecido havia meses. Entretanto várias coisas se tinham passado entre Mariana e o dono: tinha-se habituado, por exemplo, a descalçar-se diante dele, a soltar os cabelos, em sinal de respeito e submissão; tinha aprendido a reco­nhecer e a aceitar, em si mesma e nele, a crescente dor da ausência; e uma tarde, num banco de jardim, por palavras da sua própria boca, e quase por sua própria iniciativa, tinha confessado e feito explícito o seu estatuto de escrava. Abraçada ao seu senhor, nessa tarde, falando-lhe ao ouvido, sem querer olhar para ele, tinha enunciado uma a uma as condi­ções e as consequên­cias da sua escravidão. Mas tinha havido uma condição e uma consequência que ela não tinha mencionado, uma condição e uma consequência em que não queria sequer pensar: a sujeição ao castigo, a necessária sujeição ao castigo. Mariana lembrava-se das muitas ve­zes que perguntara ao amante, “que farás se a tua escrava não te obedecer”.

“Castigo-te,” respondia ele sempre. Talvez fosse por recear uma resposta mais explícita que Mariana tinha começado a fazer-lhe a pergunta menos vezes. E embora tanto a pergunta como a resposta fossem parte de uma representação, de um desafio, a verdade é que cada vez mais correspondiam a uma real perplexi­dade: o que faria ele, o que fariam am­bos, no momento inevitável em que ela não quisesse ou não pudesse cumprir a servidão que se impusera?

Um Senhor não é um marido, não amua, não retalia com frasezinhas veneno­sas ou silêncios estudados. Qualquer punição que o dono de Mariana lhe viesse a impor seria ne­cessariamente física. Era isto que ela não ousava admitir, como não ousava admitir que a perspectiva a fascinava – não pelo prazer que o castigo físico lhe pu­desse dar, que era nenhum, mas pelo que significava de submissão. Mas ele não tinha voltado a puni-la, nem ela o tinha que­rido, desde a noite em que a tinha desactivado.

Se o seu senhor alguma vez viesse a castigá-la, não o faria, pensava ela, para satisfazer o seu próprio prazer; nem para lhe dar prazer a ela. E sobretudo nunca o faria para resolver brutalmente um conflito ou uma frustração. Mariana dizia a si mesma que estava pronta a ser castigada pela primeira razão, embora lhe parecesse pouco provável que o amante alguma vez lho exigisse. Para ter ela própria prazer, não; a dor não lhe dava prazer. E era claro para ela que o amante nunca desceria a castigá-la pela terceira razão.

Estava portanto a salvo. Além destas três razões, não conseguia imaginar mais nenhuma que pudesse levar um homem a querer punir fisicamente a mulher amada, ou esta a aceitar ser punida. Mas estava a enganar-se a si mesma, sabia-o bem. Havia uma quarta razão possível para o amante a punir. Se estivesse verdadeiramente a salvo, nem sequer lhe ocorreria, a ela ou ao amante, pensar no assunto; e muito menos abordá-lo. E de resto, quantas vezes não tinha querido ela própria arranhar, morder, magoar os que lhe estavam mais próximos? Sim, até a mãe, o marido, as amigas mais íntimas; até os filhos. E não para tirar daí prazer, obviamente; nem, o que seria igualmente grotesco, para lhes dar prazer; nem mesmo para vencer discussões ou libertar violências reprimidas – mas sim, precisamente, para melhor os possuir. Para os amar, se tal palavra se pode dizer neste contexto sem empalidecer de terror.

“Para o meu dono me castigar,” reconhecia Mariana finalmente, “basta que me queira possuir.” Não era necessária outra razão para o castigo: eis o que lhe custava a aceitar. Não queria sofrer, mas queria per­tencer ao amante – e para isso teria de estar sujeita não sabia a que sofrimentos, sem poder tirar deles um prazer masoquista, e sem se poder consolar com a ideia que lhe estava a dar a ele um prazer sádico.

Um dia, em Lisboa, perto da Praça da Figueira, Marta passou pela montra de um seleiro. Lá dentro, entre estribos e botas de montar, viu uma pequena ver­gasta de bambu, fina e flexível, com um punho de couro e acabamentos em latão brilhante. Era uma bonita peça artesanal, forte e delicada, de um castanho quase negro e com o brilho discreto que só um fabrico perfeito pode dar. Marta en­trou na loja e pediu que lha mostrassem: era do ta­manho exacto para o saco de viagem que costumava levar nos seus encon­tros. Ao pagar ainda se perguntou o que estava a fazer; mas não quis ou não pôde responder à sua própria pergunta.

Alguns dias depois Mariana mostrou a vergasta ao amante: “É para ti. Para mim.”

O amante sorriu-lhe, aparentemente desatento à impossível ousadia desta dádiva, beijou-a ao de leve, e pousou a vergasta sobre o toucador aos pés da cama. Depois fez com que ela se despisse e mandou-a ajoelhar.

Mariana já se tinha dado conta que quando o amante a possuía pela boca o prazer dele era mais intenso, mas muito mais demorado, do que quando a pe­netrava pelo sexo. Desta vez foi-a penetrando alternadamente nas duas aberturas, durante o que a ela lhe pareceu horas. Por fim fê-la gemer num or­gasmo intermi­nável ao mesmo tempo que se lhe esvaía no fundo da vagina. Depois de tudo terminado ele deitou-se de costas e puxou-a para si. E foi nesta posição que Mariana acabou por adorme­cer, a meio da conversa: uma coxa sobre as pernas dele, os cabelos pretos espalhados sobre o peito masculino; e nunca chegou a saber que o dono tinha ficado acordado muito tempo a velar-lhe o sono.

De manhã, quando estavam os dois a fazer as malas, a primeira coisa que ele guardou foi a vergasta. Antes de a arrumar no fundo do saco passou-lhe os dedos por todo o comprimento: “Obrigado, Mariana. É muito bonita. Vou passar a trazê-la sempre comigo quando nos encontrarmos.” E assim fez, mas nos encontros seguintes não chegou a tirá-la da pasta; Mariana, aliviada, chegou a pensar que ele não tencionava usá-la nunca.

E com efeito só veio a usá-la alguns anos mais tarde, já depois de terem ido viver para fora de Portugal e regressado. Foi no Inverno, numa casinha de pedra no Gerês, ao calor da lareira. Mariana tor­ceu-se de dor sob os golpes, que a queima­vam como ferros em brasa. Pela tercei­ra ou quarta vez desde que se conheciam chorou na presença do amante; mas as lágrimas anteriores tinham sido de felicidade, ou de saudade pelos anos perdidos, ou de angústia pelo futuro, e era impossível dizer qual destes elementos predominava. Nas de hoje não havia ambiguidade, eram de dor e revolta: talvez viesse desta certeza a sensação de liberdade que a invadia.

Mariana nunca tinha chorado um choro assim desfeito. No fim do castigo perscrutou o rosto do amante, e viu-o angustiado, tão pálido como a serra sob o céu cinzento. Abraçou-se a ele toda nua, como que para o consolar, molhando-lhe a roupa com as últimas lágrimas e sentindo-lhe as mãos na carne ainda dorida. Depois, quase a medo, fizeram amor. Uma acha crepitou na fogueira. Lá fora nevava, e ouvia-se o vento, e um ramo molhado vergastava a vi­draça.

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Sou um dominador desde que me lembro: comecei a sê-lo nas minhas fantasias, depois estas foram-se tornando realidade. Já na minha primeira adolescência os meus devaneios eram de domínio sobre escravas belas como anjos e sensuais como gatas.
A minha primeira escrava foi também o meu primeiro amor. Não começámos como Senhor e escrava, começámos como qualquer outro par de namorados, descobrindo-nos reciprocamente a pouco e pouco, antecipando o momento em que nos veríamos nus, descobrindo juntos que chegara o momento de fazermos amor pela primeira vez…
Éramos ambos virgens, e nenhum de nós tinha alguma vez ouvido falar em BDSM. Tínhamos lido Sade e Sacher-Masoch, mas nessa época líamos tudo o que tivesse letras. Amar era para nós o suficiente, as confidências que tínhamos a fazer um ao outro eram muitas e o tempo para as fazer nunca chegava. Durante muitos meses não senti a necessidade de falar à minha namorada das fantasias de domínio que continuava a ter.
O que precipitou a conversa foi um pedido dela – vamos pôr-lhe um nome suposto: Sofia – enquanto fazíamos amor: que lhe batesse. Eu ouvi este pedido com algum alvoroço e satisfi-lo com prazer – mas um pouco a medo. Olhando para trás, considerando o quanto éramos jovens, lembrando-me que éramos os dois de esquerda, progressistas, feministas – admiro-me de ter aceite com tão poucas reservas bater na mulher que amava.
E a minha fantasia não era tanto provocar dor, era obter uma submissão consentida.
Mas não é difícil conciliar a fantasia dum homem que quer ter uma escrava com a fantasia duma mulher que quer ser castigada, principalmente se os dois se amarem e quiserem dar prazer um ao outro. Ao princípio havia como que uma troca, eu castigo-te como tu desejas e tu obedeces-me como eu desejo; mas com o tempo cada um aprendeu a integrar na sua fantasia a fantasia do outro.
Foi então que descobrimos a «História de O». Tornou-se a nossa bíblia, o nosso modelo. Fizemos um chicote artesanal, preto, que passei a usar nela regularmente – depois de lhe ter pedido que o usasse em mim uma única vez, para saber a dor que provocava (era intensa). Desenhei e pintei dezenasde retratos da Sofia vestida como O – de corpete apertado, seios nus, saias longas caindo em largas pregas. Íamos de férias ou de fim de semana, e eu inventava recados para a mandar fazer descalça – comprar-me cigarros, por exemplo.
Não sei qual de nós se lembrou pela primeira vez de a amarrar. Sei que foi com ela amarrada que a possuí analmente pela primeira vez. Na minha ignorância, não sabia ainda como fazê-lo sem dor, e a Sofia, que eu amava, andou dias a sentir a dor daquela penetração.
E pensar que ambos tivemos prazer nesse prolongamento!
Foi a minha primeira escrava. Foi o meu primeiro amor. Foi a minha primeira aprendizagem. Nunca a esquecerei, e nunca deixarei de lhe estar grato.

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