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Posts Tagged ‘vergasta’

– Não sei se me poderás domar…

Esta frase, meio desafio e meio apelo, dissera-lha a noiva no dia em que a pedira ao pai, no ano longínquo de 1959. Tal como ele, Helena pertencia a uma das famílias mais proeminentes da vila, mas não faltara quem o tentasse dissuadir do enlace. As comadres, sempre ciosas dos bons costumes, viam na filha do notário uma liberdade nos modos, uma sensualidade no olhar e nos movimentos, que lhes despertavam as piores suspeitas.

– Sabe muito… – rosnavam.

– Passa a vida no café…

E se alguém lhes objectasse que Helena, quando entrava no café da vila, ia sempre acompanhada pelas suas colegas do Magistério Primário, não desarmavam:

– Já foi vista a fumar, em Braga… Também o pai, é do reviralho, deve ensinar-lhe essas liberdades.

O pai de Helena, tal como o de Bernardo, estava, com efeito, conotado com a oposição a Salazar; mas enganava-se quem supusesse que ao seu liberalismo político correspondia um igual liberalismo de costumes. Pelo contrário, inquietava-se com o comportamento da filha e com os zunzuns de cujos ecos se apercebia.

Não assim os Santaclara, salazaristas fiéis, no que respeita os filhos homens. Como proprietários rurais, excediam em fortuna a família de Helena somada à de Bernardo; mas nunca nenhum deles, apesar de várias gerações terem passeado por Coimbra a sua bravata, se tinha chegado a formar. E se o filho mais velho participava na administração das propriedades familiares, já o mais novo, Leandro, empregava o seu tempo em caçadas e arruaças, nos bordéis do Porto, e na perseguição às moças da terra.

Mas disto tudo, no seu regresso a Coimbra depois de pedir Helena ao pai, Bernardo só pensava nas palavras da noiva. Porque precisaria Helena de ser domada? Nada nela indicava uma natureza selvagem, apenas uma natural vivacidade que a ele o atraía. Adolescente ainda, Bernardo tinha visto no circo um homem que tirava, com um chicote comprido, o cigarro da boca de outro; e não descansara enquanto não aprendera a manejar esta arma com a mesma destreza. Começara por procurar o próprio artista, que, depois de o avisar que o chicote que usava era uma arma letal, não se recusara a vender-lhe um dos que tinha de reserva nem a dar-lhe as primeiras lições. Depois tivera que se ensinar a si próprio, treinando horas infinitas até transformar o chicote de três metros numa extensão do seu próprio braço e dos seus próprios dedos. Ao falar em ser domada, Helena fizera com que se estabelecesse no espírito do noivo uma ligação incómoda entre esta expressão e aquilo que nunca passara, para ele, duma habilidade de circo e de um desporto.

Nem pensou no chicote quando as cartas de Helena começaram a rarear e a apresentar um certo tom de desafio ou menosprezo. Mas veio-lhe imediatamente ao espírito quando alguém veio propositadamente a Coimbra para o avisar que Helena era vista frequentemente no café com Leandro e que este se gabava junto dos amigos de se ter já gozado dela.

– Não gozou, não… Eu conheço a Helena.

– Também penso assim – respondeu-lhe o amigo. – Mas também sei como ela é insatisfeita com a vida da aldeia, e como gosta do perigo. E o Leandro é perigoso que chegue para a atrair… Anda a dizer que se apareceres por lá a desafiá-lo te enfia, desculpa, uma bala nos cornos.

Nesse mesmo dia Bernardo despiu a capa e batina, envergou o fato com que viajava entre a vila e Coimbra e meteu-se no automóvel que o pai lhe tinha oferecido por completar com distinção o terceiro ano de Direito. Chegado à vila, perguntou por Helena. Estava no café. E acompanhada de Leandro, conforme Bernardo verificou ao entrar, de chicote na mão, neste estabelecimento.

– Com que então, gozaste-te da minha noiva – disse Bernardo.

– Eu nunca disse isso – defendeu-se Leandro, enquanto Helena olhava para ele como se o visse pela primeira vez.

– E enfiavas-me uma bala nos cornos… Tens aí com quê?

– Eu nunca disse isso…

– Se não tens, arma-te e anda ter comigo cá fora. Helena, já para o meu carro.

Leandro estava armado, com efeito, mas nunca se tinha servido do revólver para outra coisa que não fosse tiro ao alvo: latas, garrafas, cães  vadios e uma vez, bêbedo, um relógio de parede no café. Saiu para a praça com a arma na mão, nauseado com a ideia de ser obrigado a um duelo. Quando viu que Bernardo não tinha à vista mais que o chicote, apontou tão atabalhoadamente que o tiro foi atingir um dos bebedouros do jardim central, fazendo com que um repuxo de água se erguesse no ar e encharcasse os circunstantes.

Bernardo, por sua vez, só tinha utilizado o chicote em alvos inanimados, mas manteve o sangue-frio suficiente para enrolar o chicote no braço direito de Leandro e puxar, fazendo-o largar a arma. Depois, de cada vez que o outro se baixava para a apanhar aplicava-lhe um golpe nas costas que o desequilibrava e lhe rasgava a roupa, tingindo-a de sangue a pouco e pouco. Quando se cansou deste jogo, fez com que a ponta do chicote se enrolasse na pistola e puxou-a para si, segurando-a na mão esquerda.

– Não dispares, Bernardo! Não o mates! Não te desgraces, homem! – ouviu gritar de todos os lados.

Mas não era sua intenção matar Leandro. Com um golpe final de chicote retalhou-lhe a face esquerda, cortando tão fundo que lhe deixou os dentes à vista.

– Levem esse desgraçado ao hospital para o coserem, antes que sangre como um porco – ordenou. – Duma bela cicatriz já não se livra.

E enquanto os colegas de farra do adversário, que não o tinham defendido antes, se precipitavam agora para o socorrer, Bernardo voltou-lhes as costas e dirigiu-se ao automóvel onde Helena o esperava, encolhida no extremo do banco corrido. Tomou a estrada alcatroada que conduzia para fora da vila, virando logo a seguir para o caminho de terra batida que levava a uma das quintas da família. Helena, que sabia a casa abandonada e meio em ruínas, arriscou uma pergunta:

– Também me vais chicotear?

– Com este chicote? Não. Retalhava-te toda.

Ao chegar ao portão meio coberto de silvas, parou o carro e tirou o bolso um canivete suíço, que abriu numa lâmina com dentes como uma serra.

– Descalça-te e vai cortar uma vergasta naqueles bambus.

– Descalça porquê?

– Por penitência.

– Quer dizer que ainda me queres?

– Veremos. Vai lá.

No interior poeirento da casa, Helena sentiu-se tão incapaz de recusar o abraço de Bernardo como seria incapaz de recusar o castigo. Quando sentiu a mão dele levantar-lhe o vestido e insinuar-se-lhe entre as coxas, abriu um pouco as pernas; mas ele só lhe afastou as calcinhas para o lado para se certificar que estava molhada e para introduzir o dedo até onde foi possível.

– Bom. Ainda estás virgem.

– Perdoa… – murmurou Helena.

– Por estares virgem?

– Por te ter levado a pensar que….

– E virgem vais continuar, até casarmos.

Mas mandou-a despir para o castigo. Tomada duma vertigem, Helena obedeceu. Quando ele terminou, mandou-a vestir e levou-a para casa. À ansiedade dos pais dela respondeu com a exigência de que a fizessem examinar por uma parteira para determinar se estava virgem. À saída da mulher, chamou-a de parte, passou-lhe discretamente para a mão uma nota de quinhentos escudos e murmurou-lhe ao ouvido:

– A quem lhe perguntar, Dona Ermelinda, conte o que viu, mas não tudo o que viu. Está-me a entender?

A mulher acenou que sim. As vergastadas no corpo de Helena ficariam em segredo. Mas Bernardo sabia que ela daria a entender a toda a gente, por alusões e silêncios, que ele não era homem para sofrer vexames.

Faltava combinar o casamento. A sós com Helena, Bernardo ordenou:

– Quando fores combinar a data com o padre, vais confessar-te. Vais pedir-lhe a absolvição pelo escândalo que provocaste e vais pedir-lhe que te dê a penitência de casar descalça.

– Descalça, Bernardo? Vou morrer de vergonha!

– Não vais. Quando chegar o dia, já toda a vila se terá habituado à ideia. Ou pensas que a modista vai guardar segredo, como o padre?

– Está bem… Mas vou de branco, não vou? Isso ainda mereço…

– De branco, e de flor de laranjeira.

Na noite de núpcias, antes de a penetrar, Bernardo avisou:

– Vai doer.

– Tanto melhor – respondeu Helena. E depois de ele gozar nela:

– Tua escrava… Meu Senhor.

Agora, passados mais de cinquenta anos, recordando isto tudo, Bernardo sorriu. Quase todas as personagens desta história tinham já morrido: Leandro, a parteira, o padre, a modista, os pais de Helena. A própria Helena, seu único amor. E a ele poucos meses restavam de vida: se se cumprisse a promessa do médico, em breve se juntaria a ela.

Durante décadas, os filhos e os netos tinham encarado com naturalidade o hábito de Helena andar sempre descalça em casa. E os vergões da vergasta, frequentemente renovados, tinham permanecido o seu segredo de amantes.

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Arminda tinha a chave do apartamento da filha, mas raramente lá ia sem ela lá estar, e nunca sem autorização. Um dia, Joana pediu-lhe que passasse por lá e lhe levasse uma pasta que lá tinha; depois, quando jantassem as duas, poderia entregar-lha, evitando assim que ela tivesse ir a casa primeiro.

– Depois de jantar ainda vais para a Faculdade?

– Tenho que ir – respondeu Joana. – Há uma coisa que tem que ficar pronta ainda hoje.

Arminda pegou na pasta e já vinha a sair quando uma curiosidade súbita a levou a voltar para trás e ir espreitar o quarto. E viu, sobre a cama, uma vergasta. Era vermelha, revestida dum tecido que parecia o das velas dos barcos. O punho era de cabedal preto, em tiras entrançadas. Na ponta tinha outra tira de cabedal, dobrada sobre si própria. Estava atada a meio com uma fita de seda preta que formava um laço e a identificava como um presente.

O laço foi o que mais a chocou.

Conduziu o carro até casa tentando controlar o batimento do coração, concentrando-se no trânsito, tentando imaginar toda a espécie de explicações inocentes para o que tinha visto; mas não conseguiu imaginar nenhuma.

– Ouve lá – disse à filha, mal ela lhe entrou em casa. – O que é aquilo que estava em cima da tua cama?

Joana nem se deu ao trabalho de perguntar à mãe com que direito lhe tinha ido meter o nariz no quarto.

– É uma vergasta, mãe – respondeu serenamente.

– Que é uma vergasta, sei eu. O que não sei é o que está a fazer uma vergasta em cima da tua cama. Foi o Rui que ta deu?

– Não, mãe; eu é que a vou dar ao Rui.

Arminda retirou-se de rompante para a cozinha. A filha seguiu-a e começou a ajudá-la em silêncio.

– Nunca pensei que o Rui tivesse essa tara de ser vergastado. Nem nunca pensei que uma filha minha se prestasse a essas poucas-vergonhas.

Joana suspirou. Não devia ter deixado a vergasta tão à vista, mas a verdade é que nem sequer se lembrara. Alguma vez teria que ter esta conversa, mas não esperava tê-la tão cedo; e era muito difícil.

– O Rui não gosta de ser vergastado, mãe. Quem vai ser vergastada, sou eu.

Pronto, está dito, pensou; agora, seja o que Deus quiser.

Arminda voltou-se para ela, desvairada:

– Eu, nunca! Nunca, ouviste?! Nunca admitiria que o teu pai me pusesse um dedo em cima!

– Nem ele o faria, mãe.

– Lá nisso, tens tu razão! O fulano pode ser uma besta e um sacana, mas nunca me tocou!

– Ao passo que o Rui, que está longe de ser uma besta ou um sacana, é perfeitamente capaz de me dar meia dúzia de vergastadas no rabo.

A Arminda, no estado emocional em que estava, estas palavras da filha pareceram dum cinismo atroz. Remeteu-se a um espesso silêncio, que só foi quebrado quando a filha lhe disse que Rui lhe tinha proposto viverem juntos e ela aceitara.

– Ai sim? Felicidades – respondeu Arminda, secamente.

Joana suspirou e tentou conciliar a mãe.

– O pai nunca te bateu, e ainda bem. Tu nunca o admitirias. A mim, também não. E se calhar, algumas vezes, fez mal em não me dar umas palmadas.

Arminda voltou-lhe as costas e encolheu os ombros, recusando aplacar-se. As palmadas de que a filha precisara em criança, tinha-lhas dado ela; mas com uma criança é diferente, pensou.

– Até amanhã, mãe – disse Joana ao sair.

– Até amanhã.

Só muito depois é que ocorreu a Arminda que as palmadas que dera à filha, por justas e necessárias que fossem, tinham sido dadas a uma criança que não se podia defender, e que nunca tinha consentido nelas; mas que Joana, adulta, não só se sabia defender muito bem, como era competente para dar o seu consentimento. Nessa noite não dormiu, consumida por uma ira tumultuosa contra a filha, contra Rui e contra si própria.

Voltou a nunca se encontrar com Rui nas tertúlias semanais, mas desta vez não ocultou às suas amigas a animosidade que nutria contra ele e a filha: só lhes ocultou, por muito tempo, o motivo dessa animosidade. Rui, por seu lado, começou a aparecer com menos frequência, por vezes acompanhado de Joana, que algumas amigas da mãe conheciam desde criança. Nunca deram mostras de retribuir a amargura de Arminda; nunca revelaram o seu motivo, nem fingiram que não o conheciam; nunca deixaram que as outras senhoras pensassem que ela tinha ciúmes; e nunca permitiram que alguém lhe atribuísse as culpas pela desavença. Arminda não tinha razão, mas tinha as suas razões, que eles compreendiam; não tencionavam voltar atrás nas suas decisões pessoais – que não disseram quais eram – mas esperavam que um dia Arminda as aceitasse e se reconciliasse com eles. Em suma: a cabra que havia em Joana aflorava cada vez menos à superfície, e as amigas da mãe não sabiam se deviam atribuir isto a hipocrisia ou à influência de Rui.

Os meses seguintes foram dedicados, por parte de Joana, à minuciosa aprendizagem dos ritos e das regras da sua nova condição. Nesta aprendizagem encontrava, por vezes, prazeres novos e imprevistos; mas também humilhações que lhe seriam insuportáveis senão tivesse decidido, teimosamente, levar até às últimas consequências a experiência iniciada e o compromisso assumido. Descobrira, com surpresa, que o castigo físico a afectava pouco: não lhe dava prazer, mas só era difícil de suportar enquanto durava. Submeteu-se a ele desde o início e nunca recusou deixar-se manietar para o sofrer. Custou-lhe muito mais submeter-se a actos que a humilhavam ou embaraçavam, sobretudo perante terceiros. Também lhe custou muito a habituar-se a ordens ou a regras cujo propósito não compreendesse e às que lhe parecessem caprichosas ou fúteis. Rui nem sempre se explicava:

– Basta que seja este o meu prazer – dizia, por vezes, quando ela o questionava.

Joana começou a compreender que qualquer ordem ou regra, mesmo que aparentemente não tivesse sentido nem propósito, servia ao menos para lhe lembrar que estava sujeita ao prazer de Rui.

Mas o que mais lhe custou, de longe, a ponto de quase a fazer desistir, foi perder o direito de escolher as suas próprias roupas. Não é que Rui tivesse mau gosto, mas tinha um gosto diferente do dela; e ao transitar lentamente do seu estilo, que era o da profissional competente, para o estilo boémio construído por Rui, sentia que estava a perder identidade. Quando confessou isto a Rui, ele respondeu:

– Essa identidade que estás a perder é falsa; essa mulher não és tu.

Quando Joana ouviu isto, a cabra veio à superfície:

– E tu é que sabes quem eu sou, suponho?! A identidade que me deres é que é verdadeira?!

– Se não for verdadeira – respondeu Rui, placidamente – havemos ambos de nos dar conta disso, e bem depressa. Estaremos a tempo de construir outra. O que te posso garantir, é que essa outra não obedecerá a qualquer convenção pré-fabricada.

– E a tua vontade? E o teu prazer?

– Serão determinantes, é claro – disse Rui. – Não serás só o que já és, serás também o resultado da educação que eu te der.

Por muito brutais que estes propósitos parecessem a Joana, tinha que reconhecer que a primeira coisa que dissera a Rui – que dissera à mãe, para ser mais exacta – é que precisava de quem a educasse.

Este mesmo período foi, para Arminda, de lenta reconciliação com a filha. Por mais que o não quisesse ver, não podia deixar de notar que Joana andava melhor: mais serena, mais feliz, mais segura de si e menos agressiva. Mantinha a animosidade contra Rui: em parte por teimosia, em parte por ciúmes, em parte pela ideia de incesto que a relação, irracionalmente, lhe sugeria; mas também porque não conseguia suportar a ideia de ver a filha maltratada e humilhada às mãos de um homem de quem fora amiga e que sempre se lhe apresentara como gentil e inofensivo.

– E é mesmo gentil, mãe – dizia-lhe Joana. – Gentil, honesto e justo. Inofensivo não é, certamente: mas quanto a isto, foi ele que te iludiu, ou tu que te iludiste?

Foi muito a custo, e ao fim de muita insistência, que Arminda aceitou encontrar-se com a filha e com Rui em casa deste. Não se surpreendeu por Joana a receber descalça: numa das raras ocasiões em que, vencida pela curiosidade, sondara a filha sobre pormenores da sua vida, ela contara-lhe o que os pés nus simbolizavam e as ordens que tinha de nunca se calçar em casa. Recordava-se da tendência que Joana tivera, em criança e adolescente, de se descalçar sempre que podia; e de como ela tinha reprimido esta tendência, a ponto de a filha ter interiorizado a sua aversão a andar descalça e se ter habituado, como ela, a nunca sair da cama sem enfiar os pés nuns chinelos. Agora, ao obedecer a Rui, Joana estava finalmente a desobedecer à mãe; e esta não deixou de se aperceber deste facto.

Arminda cumprimentou Rui com alguma distância, distância esta que ele respeitou, embora deixasse claro que estava na disposição de a transpor. A casa pareceu-lhe decorada totalmente à homem: não notou a mão da filha em nenhum pormenor. Na sala, Rui convidou-a a sentar-se no sofá.

– Fica aqui com o Rui, mãe – disse Joana. – Eu vou buscar uma bebida.

Quando Joana regressou com três copos de vinho branco num tabuleiro, Arminda deu-se conta, de repente, que sempre tinha sido ela a servir a filha à mesa, e que mantivera este hábito mesmo depois de ela se tornar adulta. Rui agradeceu e fez sinal com os olhos a Joana que se sentasse no sofá ao lado da mãe, que ficaria assim entre os dois.

– Tenho uma notícia a dar-te, Arminda – disse Rui. – Vou casar com a Joana.

Arminda, que era cada vez mais contra o casamento como instituição e não desejava ver a filha mais presa a Rui do que já estava, não ficou contente com a notícia.

– E para que é que vão casar? – perguntou. – Não estão bem como estão? Para que querem vocês um papel passado?

– O papel não é importante – disse Rui. – O que é importante, para mim, é ter alguém a quem deixar o que é meu. Se eu morresse agora, iria tudo para os meus sobrinhos do Canadá, que mal conheço, e a Joana ficava a ver navios. Acho que tenho o direito de deixar as minhas coisas à pessoa de quem gosto.

Contra isto não havia argumentos, pensou Arminda. E a naturalidade com que Rui tinha falado em gostar de Joana… Sentiu um impulso de simpatia para com ele, mas logo o reprimiu: nunca fora interesseira e não queria sê-lo agora. Mas Joana não tinha nada o ar de se estar a sacrificar por dinheiro. Pelo contrário: ao olhar para ela, Arminda notou-lhe um ar resplandecente que a levou a perguntar, tomada duma súbita suspeita:

– Por acaso não estarás grávida?

Joana deu uma risada franca, como Arminda não lhe ouvira havia muito tempo:

– Grávida, mãe?! Não, está descansada. Por enquanto, o Rui e eu queremos ser só dois.

E se a filha estivesse grávida, que mal teria isso? Com um filho em casa, pensou Arminda, não se poderia entregar tão livremente a jogos eróticos que a mãe nem queria imaginar.

– Vê lá, não adies muito. Olha que já não és uma criança, e o tempo passa.

– Terei isso em conta – disse Rui.

Está a informar-me, pensou Arminda, que a decisão será dele. O impulso de simpatia que sentira começou a desvanecer-se. Mas também me está a informar que está disposto a dar à Joana o que ela sempre quis. O ex-marido de Joana nunca quisera filhos, e esta tinha sido uma das causas do divórcio.

– E vou deixar de trabalhar – disse Joana. – Já apresentei o meu pedido de exoneração.

Ah, não. Isto, não. Deitar fora anos de estudo e de formação profissional?! Abortar uma carreira que mal começara?! Ficar na dependência dum homem?!

– E o que és que vais fazer? Vais passar o resto da vida a estupidificar no meio dos tachos e das panelas?

– Ora, ora, mãe – disse Joana. – Sabes muito bem que nunca gostei do meu trabalho; e sabes que hoje em dia, no nosso país, para uma pessoa da minha idade, não há carreiras, só há empregos, e precários ainda por cima. Tu vais-te reformar quando fizeres sessenta anos; eu reformo-me aos trinta, é tudo. E não vou estupidificar, vou viajar com o Rui pelo mundo todo.

Durante o jantar, Arminda não parou de oscilar entre sentimentos contraditórios. Pedro, um homem trabalhador e pacato, que parecera ter todas as condições para fazer a filha feliz, fizera-a profundamente infeliz; Rui, que parecia ter tudo para a destruir e anular, fazia-a resplandecer; a filha parecia que estava a deitar fora tudo o que a geração de Arminda tinha conquistado para as mulheres, e no entanto dava mais a sensação de estar a ganhar terreno que a perdê-lo. Tudo isto era demasiado para ela assimilar rapidamente, mas teria que o assimilar sob pena de ficar isolada num mundo que deixara de compreender. Não é por aí que vou ficar velha, decidiu; e foi a partir desta decisão que começou a dar o benefício da dúvida a Rui e à filha.

Recomeçou a comparecer na tertúlia nos mesmos dias que Rui. As amigas foram convidadas para o casamento. A pouco e pouco, foi-lhes permitido que se apercebessem da natureza da relação entre Rui e Joana, e isto deu lugar a semanas de debate.

– Se é assim que eles querem, deixá-los – decidiu por fim a mais velha, que era madrinha de Joana.

É claro que não foram felizes para sempre. Tiveram doenças, tiveram conflitos, tiveram que enfrentar a velhice; dos dois filhos que Rui fez a Joana, um deu-lhes problemas muito graves durante a adolescência; e Rui, quando morreu, deixou na vida muitas pontas soltas que Joana teve de atar sozinha. Por outro lado, enquanto viveram, nunca se arrependeram de terem decidido ser senhor e escrava. Se morrer sem arrependimento é a única vitória possível do homem sobre a vida e sobre os deuses, a vida deles foi um êxito total.

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Cap. 33: NO LIMITE

Nas semanas seguintes, Ana e Miguel tornaram-se frequentadores do Justine, primeiro na companhia de Raul e Teresa, depois, muitas vezes, sozinhos. Conversando com as pessoas que conheceram, depressa se aperceberam que o compromisso absoluto de Raul e Teresa era muito mais radical do que era costume no meio. Não era uma questão de mais submissão ou menos submissão, mais dor ou menos dor, mas daquilo em que cada um centrava os seus desejos e a sua ideia de felicidade. Antes de frequentarem o Justine, Ana e Miguel pensavam que, quando uma pessoa submissa encontrava uma pessoa dominante, a história tinha chegado mais ou menos ao fim: pouco mais restava do que serem felizes para sempre. Verificavam agora que isto estava longe de ser o caso: era difícil encontrar o dominante certo para o submisso certo, e no Justine, como em qualquer outro lugar, não faltavam corações partidos. Aprenderam também a tolerância, uma vez que os centros do desejo eram quase tantos como as pessoas à sua volta: para uns a moda e o fetiche, para outros a dor física ou a humilhação, para outros a restrição de movimentos, para outros a entrega – que não era a mesma coisa que dádiva; alguns praticavam a monogamia mais estrita, outros viam a expressão máxima do domínio na cedência a terceiros do submisso ou da submissa, sem lhe permitir qualquer escolha quanto à identidade, quanto ao número, ou quanto ao sexo, da pessoa ou pessoas a quem temporariamente servia.

Quase sempre os centros do desejo eram múltiplos, o que tornava tudo ainda mais complicado. Miguel e Ana estavam convencidos que eram o dominante certo para a submissa certa, mas nem por isso deixaram de beneficiar do convívio que tiveram com outros frequentadores do bar. Não os surpreendeu a adesão quase fanática de todos a uma ética muito rígida e muito simples que se exprimia na máxima “safe, sane and consensual”: uma regra como esta era necessária num meio em que se cruzavam personalidades e desejos tão diversos, e era uma boa base para que a comunidade pudesse organizar uma rede informal mas eficaz de protecção mútua contra predadores e psicopatas.

Raul e Teresa eram menos assíduos. Quando ia ao Justine, Teresa costumava levar, enfiado na vagina, o primeiro óvulo de controlo remoto que Raul tinha adquirido. O óvulo mais recente, operado por telemóvel, nunca era usado no Justine e raramente noutros lugares: só algumas vezes, quando Teresa ia às compras ou encontrar-se com amigos e familiares. No Justine, Teresa estava sempre consciente que, estivesse a fazer o que estivesse – a falar com outros frequentadores do clube, a arranjar-se nos lavabos, a trazer uma bebida ao dono, a qualquer momento se poderia desencadear no interior do seu corpo, sem aviso, aquela vibração que para a sua sensibilidade continuava a misturar sofrimento e prazer. Miguel perguntou a Raul onde podia adquirir um aparelho semelhante, e passados poucos dias Ana passou também a usar um óvulo na vagina; mas para ela a sensação era de puro prazer.

Ana e Miguel não se tratavam por “meu senhor” ou “minha escrava”; perante terceiros, ele referia-se a ela como “a Ana” – ou, no Justine, “a trilby” – e ela a ele como “o meu Dono”. Descontadas estas formalidades, que não eram importantes, a sua relação parecia encaminhar-se numa direcção semelhante à de Raul e Teresa. Isto preocupava um pouco o par mais velho, que se sentia responsável e sabia que nem todas as relações de domínio e submissão se conformam a modalidades tão exigentes como a que tinham escolhido para si próprios. Preocupava-os a possibilidade de os dois jovens fazerem uma escolha que mais tarde um ou outro não pudesse suportar. Por isso viam com bons olhos a maneira como eles se iam integrando na comunidade: assim podiam conhecer outras formas de domínio e submissão e construir por si próprios a que mais se adaptava às suas necessidades particulares.

Um assunto que discutiam muito era o que aconteceria se as necessidades de um deixassem alguma vez de corresponder às do outro.

– Mas não correspondem? – perguntava sempre Raul.

– Correspondem – respondia sempre Ana ou Miguel. – Mas se não correspondessem, como era?

– Em teoria prevaleceriam as necessidades do Miguel – preconizava Teresa, radical como sempre.

– Mas na prática – prevenia Raul – têm que ter algo em comum para que os desejos de um possam enriquecer os do outro. É este o vosso caso, parece-me, e por isso não vejo porque se preocupam. Teriam razão para se preocuparem, por exemplo, se para um de vós uma coisa qualquer tivesse um valor simbólico ou erótico muito grande, que a tornasse indispensável, e para o outro essa coisa fosse absolutamente insuportável.

– Mas por outro lado – disse Teresa durante uma destas conversas – se aquilo que o senhor exige não for de todo insuportável para a escrava, esta dificuldade até pode ser uma coisa boa: pode ser uma forma de tornar a escrava mais escrava. É como os meus pés nus: no imaginário do Raul os pés nus sempre foram um símbolo importante de humildade e submissão. Agora já o são também no meu imaginário, que por isso mesmo está mais rico: já faziam antes parte dele, mas tinham outro significado, diferente e mais limitado. Este significado não se perdeu, apenas se lhe acrescentou o que Raul lhe deu. Claro que andar descalça é muitas vezes um grande sacrifício, e por vezes, em público, quase morro de vergonha. Mas para mim vale a pena: uma escrava que não esteja preparada para fazer sacrifícios grandes não merece o nome de escrava.

[ …]

Raul sorriu levemente, fez-lhe uma pequena festa no rosto e virou-lhe as costas para ir pousar o chicote na banca. Depois voltou com cordas para lhe amarrar os pulsos e os tornozelos aos quatro cantos do rectângulo formado pelas colunas. Teresa deixou-se amarrar docilmente; fechou os olhos e começou a murmurar repetidamente “amo-te, amo-te, amo-te”, como se a repetição infinita desta verdade fosse o mantra que a ia proteger na provação que a esperava.

– Agora vou-te vendar – disse Raul. – Posso?

Para não interromper o “amo-te, amo-te, amo-te” que continuava a dizer baixinho, Teresa limitou-se a acenar que sim. Se estivesse em estado de achar graça a alguma coisa, teria sorrido por ele ter pedido permissão para a vendar quando não precisava de permissão para nada do que estava a fazer. Continuou a dizer baixinho “amo-te, amo-te, amo-te” enquanto tentava prever ao fim de quantas chicotadas começaria a gritar.

Começou a gritar logo à primeira, um berro agudo e ensurdecedor que dificilmente se acreditaria que pudesse ficar confinado entre as paredes do quarto, ou sequer da casa. Esta chicotada atingiu-a obliquamente nas nádegas, marcando um traço que ia da parte superior da esquerda à inferior da direita. A segunda atingiu-a horizontalmente e um pouco mais acima, arrancando-lhe um grito tão forte como o primeiro. Das que se seguiram, nenhuma correspondia a nada que ela pudesse ter imaginado ser capaz de suportar. Mais do que todas as outras, doeram-lhe as que a atingiram no rego entre as nádegas e as coxas; mas por esta altura já se tinha cansado de gritar. Os primeiros gritos que soltara tinham sido emitidos num soprano cristalino, mas pouco a pouco foram enrouquecendo até se tornarem urros que quase nada tinham de humano. E mesmo estes acabaram por dar lugar a arquejos de aflição, entremeados de rosnidos de fera encurralada.

O chicote não fazia um silvo tão agudo como o da vergasta, e o som que fazia ao contactar com a carne não era tão seco. Mas a dor era inconcebivelmente maior, maior do que qualquer punição que Teresa já tivesse recebido.

Quanto tempo durou isto? Não é possível contá-lo, nem em segundos, nem em minutos, nem em número de golpes desferidos. Teresa só soube que o seu tormento tinha terminado quando Raul lhe tirou a venda. Olhou à sua volta, espantada: o quarto era o mesmo, o mundo não tinha mudado. Quando Raul lhe libertou os tornozelos, esfregou os pés um no outro, tentando restaurar a circulação. Depois, quando ele lhe libertou os pulsos, as mãos voaram-lhe para onde tinham estado antes de ele a amarrar: cruzadas em frente ao sexo, escondendo-o, tapando-o, negando-o ao olhar e ao desejo do macho. Raul não lhe ordenou que descruzasse as mãos: pôs-se em frente dela, olhou-a nos olhos – que ela não conseguiu furtar aos dele – disse-lhe “amo-te” e foi de novo buscar o chicote.

Teresa bem sabia para que era agora o chicote, era para ela o beijar: e nesse momento sentiu-se invadir por uma tal revolta, que numa fracção de segundo, na sua imaginação, saiu dali, vestiu-se, fez a mala, chamou um táxi, foi para o aeroporto e regressou ao seu apartamento no Corso Magenta. Mas na realidade, o que fez foi ajoelhar-se e beijar o chicote, sem que Raul precisasse de lho ordenar. Depois levantou os olhos para o dono e viu-o imóvel, de pé, à espera. À espera de quê? Que mais que queria ele ainda? Que ela lhe dissesse o que disse, é claro:

– Obrigada, meu dono.

No momento em que estas palavras lhe saíram da boca aconteceu uma coisa que a fez sentir ódio por si mesma: enrubesceu, os lábios entreabriram-se, os quadris rodaram num círculo imperceptível, como se tivessem vontade própria, e sentiu-se a ficar molhada. Este ódio por si própria, assim como veio, assim desapareceu; a vergonha a que ele deu lugar também teve a vida curta; a excitação, essa sim, permaneceu – e com ela surgiu-lhe na alma um sentimento de orgulho que a levou a repetir:

– Obrigada, meu senhor. Amo-te. Faças de mim o que fizeres, hei-de amar-te sempre.

Esta expressão de submissão não lhe amainou de todo a revolta: uma coisa era aceitar, por sua deliberada vontade, a dor que ele lhe quisesse dar, outra era responder-lhe com uma reacção involuntária do corpo. Mas não, estava a ser injusta: o acto de vontade tinha vindo antes, tinha sido responsabilidade sua; e se o corpo estava de acordo com a vontade, não merecia censura. Rola os quadris, escrava, entreabre a boca, semicerra os olhos, pensou Teresa. Afasta as pernas. Deixa que a cona se molhe. Tens direito a tudo isso: fui eu, enquanto mulher livre, que to dei.

[ … ]

Nem fazer segredo, nem fazer alarde, pensou Teresa. Era este o princípio que ela e Raul tinham adoptado. Numa aula de dança, em que está presente apenas um número limitado de pessoas, vestir-se como de costume não seria fazer alarde, tapar-se toda é que seria fazer segredo. Já o tinha feito uma vez, não ia fazê-lo de novo. Vamos lá ver o que acontece, pensou, e apresentou-se na aula com uma saia vermelha de cintura baixa que lhe deixava a descoberto quase todas a zonas do corpo onde tinha sido chicoteada.

O que aconteceu foi espanto, repulsa, solicitude e indignação. Não serviu de muito explicar que tudo se tinha passado com o seu consentimento: somente nalguns casos a indignação deixou de ser contra Raul e passou a ser contra ela. Em algumas das mulheres presentes, porém, a indignação foi mais convencional que sentida; houve as que ficaram um momento pensativas e não disseram nada; e Ana, é claro, ficou fascinada, querendo saber tudo, se tinha doído muito, se tinham feito amor depois, se ela própria seria capaz de suportar o mesmo, se Miguel quereria alguma vez, ou poderia, castigá-la assim.

– Se o Miguel te fizesse isto, suportavas?

– Claro que suportava! – respondeu Ana.

– Não sabes o que dói… – disse Teresa. – Dói mesmo muito, e parece que dura séculos.

– Não interessa, suportava e agradecia – respondeu Ana.

Teresa ficou sem saber se tamanha certeza lhe vinha do auto-conhecimento, dalguma necessidade antiga, ou apenas da extrema juventude, que não teme nada. Dançou particularmente bem nesse dia; se isto a fez subir ou descer na consideração das colegas, nunca chegou a sabê-lo.

[ … ]

Era um Setembro quente, mais quente do que tinha sido Agosto. Nestes primeiros dias do mês, Teresa tinha sido punida quase diariamente com uma variedade de instrumentos, uns mais dolorosos do que outros, mas o chicote que lhe causara a dor maior e as marcas mais fundas não voltara a ser usado. Cada punição confirmava o que Teresa já sabia: que a expectativa a excitava um pouco; que a experiência, enquanto durava, lhe tirava toda a excitação; e que se voltava a excitar, confirmando-se como escrava de Raul de um modo cada vez mais inegável, no momento em que se ajoelhava para beijar o chicote e para agradecer o castigo. Teresa compreendia e aprovava a intenção, que adivinhava em Raul, de transformar esta confirmação em rotina: não bastava que o “obrigada” e o “amo-te” que proferia ritualmente fossem verdade, como de facto eram: era preciso que se tornassem inevitáveis, automáticos, evidentes, a tal ponto que a sua eventual omissão se tornasse, ela sim, uma mentira.

Uma noite, Raul colocou um banco almofadado entre as duas colunas, mandou-a sentar e atou-lhe os pulsos aos capitéis, esticando-lhe os braços. Para dar folga às cordas, bastaria a Teresa pôr-se de pé, mas ele apertou-lhe um cinto aos quadris e atou-o com cordas a duas argolas na base das colunas. Agora ela já não poderia aliviar a tensão dos braços, mesmo que quisesse; mas mesmo assim Raul esticou as cordas ainda mais. Teresa ainda tinha os pés assentes no chão, mas ele amarrou-lhe os tornozelos, fê-la levantar as pernas e amarrou as pontas das cordas às mesmas argolas a que tinha amarrado os pulsos: Teresa tinha agora os braços e as pernas no ar, as nádegas assentes no banco, e o sexo arreganhado, todo à vista. Foi nesta posição que ele a vergastou, assentando-lhe os golpes na pele fina do interior das coxas, na parte de baixo das nádegas, e sobretudo na vulva. Teresa já tinha desistido de comparar dor com dor: já tinha aprendido que a punição que dói mais era sempre a que estava a sofrer no momento. Entregou-se toda à dor; ou, melhor dizendo, não foi preciso entregar-se, porque a dor se apoderou dela como sempre, totalmente, sem deixar lugar para qualquer outra sensação ou pensamento.

[ … ]

Dias depois, teve mais uma sessão de depilação eléctrica, e temia que a esteticista lhe visse as marcas da vergasta. De facto ainda as tinha, mas não sentiu a vergonha que teria sentido uns meses antes. A esteticista, quando as viu, comentou que a senhora afinal estava habituada a dores piores do que as que ela lhe provocava; para além disto não teve qualquer reacção, a menos que por reacção se contasse o especial cuidado com que a tratou. As pessoas nunca são quem julgamos, pensou Teresa, ao dar-se conta de que não sabia a que atribuir aquela vaga simpatia da esteticista: entrariam ali todos os dias mulheres com marcas de vergasta no sexo? Todas as semanas? Todos os anos? Ou teria sido ela a primeira, destinada talvez a ser também a última? Teria esta jovem tranquila visto alguma vez marcas semelhantes noutros contextos, noutros corpos, quem sabe se no seu próprio? Quantos mundos existem à nossa volta, diferentes uns dos outros, diferentes daquele que julgamos estar a ver?

[ … ]

De tarde vestiu uma saia que tanto servia para andar na rua como para dançar. Na parte superior do corpo pôs um choli que, ao contrário dum top rígido, permitiria que os seios lhe oscilassem sem terem que ficar nus, escandalizando as outras alunas. Na aula, prestou atenção a todas as instruções da professora, de modo a que todos os movimentos fossem exactos e perfeitos mas ao mesmo tempo fluidos e soltos.

– Hoje dançou muito bem – disse-lhe a professora. – Houve momentos em que pareceu inspirada.

Antes de ir lanchar com Ana, Teresa queria passar pelas colegas e pela professora uma folha em que elas pusessem os endereços para lhes poder enviar os convites para o casamento. Recolhida a folha, verificou que algumas a tinham passado adiante sem escrever nada: estavam no seu direito. No dia seguinte de manhã, depois da aula de pompoar, passou outra folha e ficou contente porque desta vez todas as colegas escreveram os seus endereços. Esta aula foi a primeira em que as alunas usaram vibradores; mas, ao contrário do que Teresa chegara a temer, desligados. O objectivo era ver se eram capazes de sugar o vibrador para dentro da vagina e de o expulsar sem usar outros músculos além dos que tinham estado a exercitar nas aulas anteriores. Teresa não foi das que tiveram mais dificuldade, mas o esforço foi tão grande que, ao saber que mais tarde se esperaria dela e das colegas que sugassem e expulsassem o vibrador dezenas de vezes seguidas, duvidou que tal fosse possível.

Teresa sempre tinha exercido uma profissão, e isto tinha-lhe alargado o mundo. Até puta fui, pensava por vezes, cada vez com menos amargura mas talvez com mais melancolia. Depois decidira dedicar-se inteiramente a Raul, mas sempre com uma réstia de medo que esta opção a confinasse a uma estreiteza de vida que não desejava. Verificava agora que o amor e o sexo, a obediência e o serviço prestados a um senhor, podem constituir uma ocupação a tempo inteiro, exigindo organização, disciplina e um treino intenso e difícil. Não se sentia menos digna como escrava do que se tinha sentido quando era uma mulher de carreira no mundo do jornalismo e da moda; tinha passado, pelo contrário, dum estatuto virtual para um estatuto real que a fazia sentir-se mais presente no mundo.

Foi assim, serena e segura de si como uma matriarca antiga, que assistiu à assinatura dos últimos papéis e ao cumprimento das últimas formalidades que conferiam à sua irmã Carolina a propriedade da empresa que tinha fundado. Também Carolina teve neste dia o seu acesso a um mundo ligeiramente diferente: abandonava o proletariado, tornava-se senhora de si e não tinha ninguém a quem prestar contas. E se não se deu conta que por este caminho tão diferente tinha chegado exactamente ao mesmo ponto que a irmã, já a esta o facto não passou despercebido. O Mundo é com efeito prodigioso e vário.

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Cap. 32: DISCÍPULOS

[ … ]

Entre as colegas de Teresa na dança havia uma jovem que também era colega dela no pompoar: chamava-se Ana e ainda não tinha vinte anos. Foi esta jovem que uma tarde convidou Teresa para lanchar. Quando Teresa lhe disse que não podia aceitar este convite sem autorização do namorado, Ana não mostrou repulsa nem surpresa, antes deleite:

– Então pede-lhe, por favor!

Mal tinham tido tempo de mandar vir as meias de leite e as torradas quando Ana, impaciente, começou a conversa:

– Quer dizer que nunca fazes nada sem autorização do teu namorado?

Teresa sorriu.

– É claro que faço muitas coisas por minha iniciativa, nem ele quereria que fosse doutra maneira. Mas uma das coisas em que combinámos que eu não teria qualquer liberdade foi o uso do meu tempo: por isso é que tive que lhe telefonar antes de aceitar lanchar contigo.

Ana bebeu um pouco de café com leite antes de se decidir a dizer:

– Acho isso tão bonito… Pensava que não havia mais ninguém como eu e o Miguel.

– O Miguel é o teu namorado? – perguntou Teresa. – E costumas obedecer-lhe?

– Adoro obedecer-lhe, e ele adora que eu lhe obedeça… Nunca contámos a nenhum dos nossos amigos, tivemos medo que nos gozassem ou que se afastassem de nós. Posso contar-te um segredo? Ele às vezes bate-me com uma vergasta, e eu deixo… Não ficas a pensar mal de nós?

– Claro que não, minha querida – respondeu Teresa. – O Raul também me vergasta algumas vezes, e castiga-me fisicamente doutras maneiras. Eu não tenho nenhum prazer em ser castigada, mas tenho um prazer enorme em poder sê-lo. Compreendes isto?

– Não sei, acho que nesse ponto somos um pouco diferentes. Eu tenho prazer em ser vergastada, pelo menos pelo Miguel. Com outro homem, nunca experimentei. Mas pensando bem, agora que falamos nisso, acho que o meu prazer maior é o direito que ele tem de me vergastar. É, é isso. Nisso somos parecidas, tu e eu.

– E o Miguel, gosta de te castigar?

– Acho que gosta um bocadinho, como eu, mas agora começo a pensar se o prazer maior dele não será ter esse direito… E o teu namorado? Também gosta de te fazer doer?

– Talvez seja como o teu: gosta, mas isso para ele não é o principal.

Ana calou-se de novo, a ganhar coragem, e disse finalmente:

– O nosso maior problema, meu e do Miguel, é não sabermos como se fazem as coisas.

Teresa franziu o sobrolho, intrigada:

– Como se faz o quê?

Ana pareceu um pouco atrapalhada:

– Não sei… Deve haver regras… Sabe, o que se faz na cena BDSM… Não conhecemos ninguém nesse meio a não ser a si, e a Teresa não corresponde nada às imagens que vemos nos media… De modo que não sabemos as regras, nem a maneira correcta de vestir… Espero que isto não fosse um abuso, mas tenho falado de si ao Miguel e ele diz que um dia gostava de a conhecer e ao seu namorado.

Ana trazia uma saia comprida de renda preta sobre outra opaca e mais curta. Tinha uma T-shirt preta sem mangas, muito decotada, e sobre esta, uma blusa preta transparente de mangas compridas. Não trazia as unhas nem os lábios pintados de preto, nem piercings visíveis, nem a profusa joalharia de prata, própria do visual gótico: apenas uns brincos de prata compridos que lhe chegavam aos ombros. Nos pés trazia umas sandálias pretas de tiras, com uns saltos altíssimos.

– Diz-me uma coisa, Ana – perguntou Teresa. – Esse teu modo de vestir corresponde mais ao teu gosto ou ao gosto do Miguel?

– Não sei bem… Devia ser ao do dele, não devia? Mas acho que é ao dos dois. Ou então talvez seja mais uma questão do que achamos apropriado ao nosso lifestyle.

Teresa sorriu um pouco da expressão em inglês:

– E que maneira de vestir acham vocês apropriada para o vosso lifestyle?

– De preto, acho eu… Mas ele, não é só por causa das regras que se veste de preto, é porque gosta mesmo. Do que ele não gosta é de usar adornos, nem enfeites, nem penteados esquisitos. É roupa preta, barba feita, cabelo à escovinha, e já está. É o estilo dele.

– Posso dar-te um conselho? – perguntou Teresa.

– Até agradeço.

– Não te vistas para nenhum lifestyle. Não há lifestyles. Quer dizer, havê-los, há, mas são pura diversão, não passam disso. Os estilos de vida, somos nós que os fazemos. Não há uma maneira apropriada para mulheres como nós se vestirem. Veste-te como ele gostar de te ver, nem que seja de cor-de-rosa bebé, ou de vestidinho às pintinhas. Se tu também gostares, tanto melhor, mas isso não é importante: o importante é o que ele gosta. Outra coisa, e esta é mesmo importante: não há regras. Ou melhor, só há uma regra, que é respeitar o outro. Se sentires que o Miguel não te ama ou não te respeita, larga-o. Mas se ele te ama e respeita, então não há regras. Isto é mesmo muito importante. Conta-lhe esta conversa e vê o que ele pensa.

Ana ficou pensativa.

– Posso falar-lhe de si e do seu namorado? – perguntou.

– Não precisas de dizer meu namorado – disse Teresa. – Podes dizer meu dono ou meu senhor, que eu não me importo. E claro que podes falar de nós ao Miguel.

– Obrigada – disse Ana, à despedida. – Ele vai gostar de ter tudo isto em que pensar. E eu também vou ter que pensar, especialmente nessa questão do respeito.

Quando Teresa contou a Raul esta conversa, ele sugeriu-lhe que convidasse Ana e Miguel para lanchar no Majestic no fim da semana seguinte. No dia do encontro, Agosto estava a meio, e o tempo estava muito quente. Raul e Teresa chegaram propositadamente atrasados para que Ana e Miguel os vissem chegar: Raul de jeans e T-shirt pretos e cabelo curto, num estilo muito semelhante ao de Miguel; Teresa compareceu descalça, sem calcinhas e sem soutien: sem nada sobre o corpo que não fosse um vestido comprido em tons de rosa, lilás e branco, que deixava adivinhar à transparência os mamilos escuros, e só não deixava ver o triângulo da púbis por esta se encontrar depilada. Ana estava toda de preto: top atado nas costas com atilhos, mini-saia justa, meias de rede e sandálias de salto muito alto. Via-se que tinha feito um esforço especial para exprimir a sua condição de namorada submissa. Depois das apresentações, o diálogo entre os dois homens consistiu em pouco mais que uma troca de ideias gerais. Já Ana quis saber tudo, particularmente o significado dos pés nus de Teresa, se ela costumava andar assim na rua, que distância tinha percorrido desta vez, se lhe tinha custado muito.

– Não ando muitas vezes descalça na rua – disse Teresa. – O Raul só me costuma dar essa ordem em ocasiões especiais, como hoje. Em casa, sim, tenho que andar sempre descalça.

– Em casa, e na Fundação de Serralves – interrompeu Raul.

– Em Serralves?! – exclamou Ana – Porquê?!

– Por capricho meu – explicou Raul. – Mas também porque me seduz a variedade de texturas no chão da casa e nos jardins. E além disso há qualquer coisa naquele ambiente que parece que o exige.

– É verdade – disse Miguel. – Nunca me tinha ocorrido, mas é verdade.

– Mas não te custou vir descalça até aqui? – insistiu Ana.

– Nem por isso – respondeu Teresa. – Deixámos o carro no parque dos Poveiros: lá dentro o chão está fresco. O passeio cá fora é branco, não aquece muito. Só me podia ter queimado um bocado ao atravessar a rua, que é de alcatrão preto e fica muito quente… o truque é aproveitar as faixas brancas da passadeira, que não queimam. Aqui na Rua de Santa Catarina o chão é claro, não aquece muito. Com as texturas é mais difícil, algumas são muito ásperas, é preciso estar habituada… a única coisa a que nunca me habituei é o olhar das pessoas. Ainda fico embaraçada…

Miguel olhou para ela estreitando os olhos, e a seguir para Ana.

– Pois a mim, o que me daria prazer – disse ele – seria precisamente ver a Ana assim embaraçada.

Raul olhou atentamente para os dois. Ana estava vermelha e olhava para as mãos, mas um leve sorriso bailava-lhe nos lábios.

– Olhe, Miguel, não sei quais são os termos do seu compromisso com a sua namorada – disse Raul. – Não sei se o seu compromisso o autoriza a fazer-lhe este tipo de exigências, nem se a obriga a obedecer-lhes…

– Autoriza-o, sim, e a mim obriga-me – interrompeu Ana. – O Miguel é que talvez ainda não se tenha apercebido. São coisas de homem, de cavalheiro…

Foi a vez de Miguel enrubescer; e Teresa riu-se ao ver que Raul também tinha corado.

– Um cavalheiro um bocado obtuso, pelos vistos – respondeu Miguel. – Andei a ver a net e os fóruns e convenci-me que numa relação como a nossa havia convenções a respeitar: roupa preta, cabedal, todas as mulheres de saltos altos… A Ana e eu nunca fomos a um clube sadomasoquista: mas se a Ana fosse vestida, por exemplo, como a Teresa está agora, deixavam-nos entrar?

– Depende do clube – disse Raul. – Numa grande cidade europeia pode haver clubes centrados em certos fetiches, e aí teriam que se conformar a eles; mas aqui no Porto não temos dimensão para essas especializações. Num clube daqui, todos estariam a par do que esta indumentária da Teresa significa.

Miguel ficou calado por alguns instantes.

– Confesso que uma submissa descalça me diz mais que uma de saltos altos – disse por fim. – Isto não é de agora, sempre foi assim, mas parecia-me que isso não era… como hei-de dizer… ortodoxo…

– Não há regras nem ortodoxias – disse Raul. – Só a vontade do dono conta.

– Mas continuo a gostar de ver a Ana de preto, e de minissaia justa.

– Não há regras – repetiu Raul. – Se o Miguel tem esse direito sobre a Ana…

– Claro que tem – disse Ana em tom decidido.

Miguel olhou para ela como se a estivesse a ver pela primeira vez e quisesse fixar-lhe as feições.

– Claro que tenho… – murmurou para si mesmo.

E em voz alta disse:

– Ana, o que vais fazer agora é isto: vais lá dentro aos lavabos, deitas no caixote do lixo os sapatos e as meias, e voltas para aqui. No caminho para cá, passas pelo balcão e pedes um fino para esta mesa. Ou dois, se o Raul também quiser.

– Com todo o gosto – disse Raul.

Ana fez menção de objectar, mas, antes que tivesse tempo de o fazer, o namorado acrescentou:

– Ah, e já agora deixas lá ficar também as calcinhas.

Ana ficou um momento sentada, a olhar para as mãos. Depois, de rompante, levantou-se:

– Está bem.

Dirigiu-se para dentro do café, de cabeça levantada, para cumprir o que lhe tinha sido ordenado. E já que se sentia embaraçada, e não queria ceder ao embaraço, fez questão de ir até ao fundo do café por uma das duas coxias que correm entre as mesas e regressar pela outra, de modo a que todos os presentes lhe vissem bem, primeiro a mini-saia, e depois os pés descalços.

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Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

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(Início do Capítulo 16)

Dias mais tarde, andando Teresa a arrumar o apartamento, decidiu esvaziar completamente um armário embutido que não tinha arrumado antes e que, estando no escritório, se prestava a que lhe substituíssem as portas por umas de vidro, obtendo assim um espaço que se podia estantear para guardar livros. Encontrou a parte de cima cheia de malas velhas que era preciso deitar fora; e abrindo uma destas deu com um chicote preto, de couro, dos que doem mais. Há quantos anos estaria aquilo ali? O couro estava baço e manchado, mas ainda flexível; e Teresa decidiu que na primeira oportunidade havia de o limpar e restaurar, porque era um lindo objecto, muito decorativo, que ficaria bem na parede do quarto dos castigos.

De noite mostrou-o a Raul, que ficou espantado:

− Eh, pá! Onde foste desencantar isso? Nem me lembrava que ele existisse. É de quando? Do meu tempo de solteiro, seguramente.

− A Isabel alguma vez levou com ele?

− A Isabel? Parece-me que nem nunca o viu. E por falar nela: tem-te telefonado?

− Tem, e eu marco sempre encontros, e falto sempre. Mas deixa lá a Isabel e olha para isto: não é um lindo objecto? Quando eu o limpar e restaurar, vai ficar perfeito.

Passaram mais uns dias. Teresa tinha planeado uma viagem com Carolina a Milão. Na véspera, serviu o jantar a Raul, vestida com o seu uniforme de criada em xadrez cor-de-rosa e branco. Depois de arrumar a cozinha, e quando se preparava para ir mudar de roupa, ele deteve-a:

− Hoje não, meu tesouro. Não te vás vestir. Hoje quero que te ponhas toda nua e me esperes no quarto dos castigos.

Teresa empalideceu. Sem dizer uma palavra, voltou-lhe as costas, foi para o quarto, despiu-se completamente, e foi esperar por Raul no quarto dos castigos: de pé, braços caídos, olhos baixos, sem ousar tocar em nada. Quando Raul chegou, disse-lhe em voz sumida:

− Meu senhor, desculpa, ainda não limpei o teu chicote preto…

− Não faz mal, minha pequenina – respondeu Raul. − Não é esse que estou a pensar usar. Dá-me a mão.

Teresa ergueu a mão direita e Raul atou-lhe o pulso com uma corda de seda negra, dando várias voltas e deixando livre uma ponta com mais de meio metro.

− A outra – disse Raul.

Com a mesma docilidade, e em silêncio, Teresa deixou amarrar o pulso esquerdo. Quando ele a conduziu, puxando-a pelas cordas, à banca abaulada que estava à direita das colunas, debruçou-se sobre ela sem que ele lho ordenasse e ficou com o rabo empinado enquanto ele lhe prendia os pulsos a uma argola perto do chão. Teresa sentia os seios esborrachados contra a superfície de couro, mas tinha a cabeça livre, podendo erguê-la para olhar em frente ou baixá-la para ver os pulsos amarrados à argola, que rebrilhava, limpa por ela própria nessa mesma manhã. Depois sentiu Raul atrás dela, prendendo-lhe os tornozelos, e de lado, passando-lhe à volta da cintura uma correia de couro que depois fixou com cordas a outras argolas de modo a que ela não se pudesse mover para os lados. Depois de a imobilizar completamente, saiu do quarto. Teresa ouviu música vinda de outra parte da casa, não sabia de onde, tocada tão alto que mesmo ali ela a reconheceu: era a Salomé, de Richard Strauss. Não soube quanto tempo ficou à espera: pelo menos tanto quanto durou a abertura da ópera, e o suficiente para ouvir a soprano que uivava por “Jokanaan, Jokanaan”. Quando Raul regressou e fechou a porta atrás de si, a música deixou de se ouvir. Também não ouvirão os meus gritos, pensou. Depois viu-o diante dela, trazendo na mão uma vergasta, que lhe mostrou; era uma vergasta flexível, forrada de seda vermelha e com cabo de cabedal preto.

− Beija a vergasta – disse Raul, chegando-lha aos lábios.

Teresa beijou a vergasta e ergueu os olhos para Raul, numa interrogação muda. Ele acenou com a cabeça, como se estivesse a responder “sim” a uma pergunta que ela tivesse feito, e colocou-se por trás dela. Teresa esperou pela primeira vergastada, dividida entre o desejo de que ela nunca viesse e o de que viesse já, para terminar tudo mais depressa. Ouviu um silvo, contraiu os músculos todos do corpo, mas o golpe não chegou: Raul estava ainda a experimentar a flexibilidade do instrumento. Mas o segundo silvo culminou numa dor intolerável, numa queimadura que lhe atravessou as nádegas dum lado ao outro. Os olhos rebentaram-lhe em lágrimas logo ao primeiro golpe, a garganta em gritos a partir do terceiro ou quarto; mas nem lágrimas, nem gritos detiveram Raul, e o tormento prolongou-se pela sua já conhecida eternidade. Por fim tudo terminou; Teresa distendeu os músculos, encheu o peito de ar – só para sofrer a mais cruel desilusão quando as vergastadas recomeçaram, desta vez vindas da sua direita. Raul tinha mudado a chibata de uma mão para a outra, era tudo.

Só acreditou que tudo tinha terminado de verdade quando viu Raul à sua frente, pondo-lhe a vergasta ao alcance dos lábios:

− Beija a vergasta, escrava.

Teresa beijou-a.

− Agradece o castigo.

Teresa agradeceu, entre lágrimas:

− Obrigada, meu senhor.

− Diz que me amas.

− Amo-te, meu senhor. Amo-te…

E era verdade. Amava-o com toda a amplitude de um coração que ainda lhe parecia estar a rebentar do castigo.

− Amo-te… − repetiu.

Agora que já não estava perdida na dor e recomeçava a ter a noção das coisas, dava-se conta que já tinha recebido castigos bem mais dolorosos do que aquele, e que havia, sem dúvida, de os receber no futuro. Raul tinha escolhido, da panóplia de instrumentos que ela própria lhe enviara, um dos que doíam menos. Mas durante o castigo não se tinha apercebido desta diferença, e tinha gritado tanto como gritaria se ele tivesse sido mais severo. Em frente dos olhos tinha a braguilha das calças dele. Viu-o desapertar o cinto, abrir os botões das calças e das cuecas, tirar o sexo para fora, e sentiu-o encostar-lhe a ponta aos lábios.

− Abre.

Abriu a boca. Pouco tempo depois de ele a penetrar, deu por si a fazer-lhe as carícias e a repetir os movimentos que ele lhe ensinara: como era isto possível? Mas fez as carícias, repetiu os movimentos, usou a língua, e durante este tempo sentiu uma espécie de orgulho, como se o impensável que ele ousava fosse também uma ousadia dela, um teste, uma prova iniciática que a elevava acima de todas as mulheres. Durante o tempo todo não fechou os olhos: fechou-os só quando ele ejaculou, talvez para se perder no momento, talvez para fechar os sentidos a tudo o que não fosse o esperma que lhe enchia a boca e lhe descia pela garganta.

Por fim deixou pender a cabeça, relaxou o corpo todo, deixou-se cair, enquanto ele metodicamente a desamarrava. Já liberta, não saiu do sítio: foi preciso que ele lhe pegasse na mão, a ajudasse a levantar, a conduzisse para o quarto e para a cama que partilhariam nessa noite, como sempre. No percurso ainda inclinou a cabeça sobre o ombro dele e murmurou que o amava, mas em voz tão baixa que ele não a ouviu.

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Não se trata aqui dum excerto, mas de vários, tirados de capítulos diferentes do romance. Em todo o caso, espero que agradem aos meus leitores habituais.

Não custou tanto a Teresa percorrer descalça o caminho até ao carro como tinha custado à vinda. Tinha outra questão a preocupá-la: se o facto de ter posto um soutien por baixo da blusa transparente constituía ou não uma desobediência, e em caso afirmativo que punição iria receber. No carro ficou silenciosa: discutir esta questão com Raul seria indigno se não a discutisse primeiro consigo própria. Quando ele lhe tinha estabelecido a regra de nunca usar soutien na sua presença, isto aplicava-se em todos os casos, ou só a quando a roupa era opaca? Em todos os casos, é claro: se assim não fosse, ele tê-lo-ia dito. Decidiu não mencionar a transparência da blusa: isso seria uma mera desculpa e rebaixá-la-ia aos olhos dele e dos seus próprios. O facto que tinha que assumir é que não tinha tido coragem e por isso tinha desobedecido. Isto, sim, podia ser dito, porque era a verdade.

− Vais-me castigar, meu senhor, não vais?

Raul, que estava a manobrar para entrar na garagem do prédio, demorou um pouco a responder.

− Porque é que achas isso? – perguntou.

− Pois, porque eu mereço…

− Mereces, sem dúvida. Mas diz-me uma coisa: achas que te vou castigar sempre que mereceres?

Pergunta difícil, pensou Teresa. Calou-se para reflectir enquanto saiam do carro e entravam no elevador, e no fim deixou falar a intuição:

− Não, meu senhor. Acho que vai haver vezes em que eu vou merecer castigo e tu não mo vais dar. Sei que não és um homem cruel…

O elevador tinha chegado ao último andar; Teresa interrompeu-se enquanto Raul abria a porta; mas uma vez dentro de casa, e já com os agasalhos despidos, retomou o que tinha a dizer:

− Não és um homem cruel, e tenho a certeza que na altura certa és capaz de perdoar uma desobediência… mas esta não é a altura certa, e tu sabes isso tão bem como eu.

Foi a vez de Raul ficar sem palavras. Sabia que Teresa estava a falar por intuição, mas nem por isso era menos implacável na sua lucidez. Restava-lhe a ele confiar na sua própria intuição, que o mandava ser igualmente lúcido e igualmente implacável.

− Vai tomar um duche – ordenou. – Não te seques. Vem ter comigo toda nua, e ainda molhada. Traz um dos meus chinelos marroquinos. Estarei à tua espera na sala.

Enquanto Teresa se ia preparar, Raul serviu-se dum whisky e começou a beberricá-lo enquanto percorria a sala para trás e para diante, pálido e inquieto. Já tinha aplicado castigos dolorosos a mulheres, sempre a pedido delas ou com o seu consentimento; mas nunca o tinha feito a uma mulher que amasse, e estava agora a descobrir que neste caso o consentimento dela, ou mesmo o seu pedido explícito, não chegavam para que o fizesse de consciência perfeitamente tranquila. Lembrando-se que Teresa ia estar molhada quando viesse, foi ao outro quarto de banho buscar algumas toalhas com que proteger da água um dos sofás de couro. Quando ela se lhe apresentou, deixando um rasto de água no chão atrás de si, trazia, além do chinelo que ia servir para a punir, uma écharpe de seda.

− Meu senhor, desculpa, é para me servir de mordaça, se consentires. Tolero tão mal a dor física… não sei se me poderei impedir de gritar.

Raul acenou com a cabeça. Tinha os lábios apertados um contra o outro e notava-se-lhe uma palidez nas narinas e à volta da boca. Teresa aproximou-se dele e encostou-lhe a cara ao peito, sem se importar de o molhar.

− Não encontrei cordas em parte nenhuma… nem tenho mais écharpes; não me vais poder amarrar, meu querido, mas vou fazer tudo por tudo por não me debater.

Raul acenou de novo e disse:

− Abre a boca. Fizeste bem em arranjar uma mordaça. Trinca bem o pano.

Depois de lhe fazer uma festa na cara, amordaçou-a e ordenou-lhe que se debruçasse sobre o braço esquerdo do sofá, com os pés no chão e o peito e a cara apoiados no assento. Teresa assim fez, e Raul, vendo que o corpo dela começava a secar, passou-lhe a borda da mão pelas costas, empurrando para as nádegas as gotas de água que a salpicavam. Teresa, ajoelhada com o rabo para cima, gemeu um pouco, consciente que o castigo sobre a pele molhada seria mais doloroso.

Raul ainda demorou algum tempo a encontrar a melhor maneira de segurar o chinelo na mão. Depois, sem hesitar, deu o primeiro golpe com toda a força que tinha. Teresa deu um salto e deixou-se cair para o chão, mas logo se levantou e voltou a assumir a posição em que estava. Já tinha esquecido a dor provocada por castigos mais severos, e este parecia-lhe quase insuportável; mas estava decidida a não dar parte de fraca. Raul iniciou então uma série de golpes, num ritmo lento e regular que indicava não estar aqui em questão a obtenção de qualquer espécie de prazer, nem para a sua escrava, nem para si próprio. Durante todo o castigo não houve uma única vez em que Teresa se conseguisse manter quieta entre duas pancadas, mas conseguiu ao menos, com um esforço enorme, manter as nádegas em posição. Quando as lágrimas lhe vieram aos olhos, o que aconteceu logo aos primeiros golpes, virou a cara para as costas do sofá para que Raul as não visse; mas a certa altura não conseguiu mais evitar que os ombros se lhe sacudissem em soluços. O facto de Raul continuar o castigo sem ter estes soluços em consideração provocou nela um quase orgulho, um quase alívio: não seria pelas lágrimas que alguma vez o poderia controlar.

Não contou os golpes, nem se deu conta que ele os estivesse a contar. A dor tornou-se a tal ponto uma eternidade que a certa altura Teresa perdeu a expectativa, a esperança, e até o desejo de que ela alguma vez acabasse. Mas acabou: a primeira indicação que teve disto foi sentir a mão de Raul a desatar o nó da mordaça, e depois a mão dele a pegar-lhe no queixo e a virar-lhe o rosto, e depois os lábios dele a beijar-lhe as faces molhadas. Assim que pôde falar, murmurou:

− Meu senhor querido, perdoa-me…

Raul pôs-se muito sério:

− Ouve bem, Teresa D’Ávila. Nunca mais me peças perdão depois de eu te ter castigado. Um castigo decidido por mim e dado por mim apaga tudo, nem que seja só uma reguada na palma da mão: depois de terminar não tenho mais nada a perdoar-te.

Teresa, que entretanto se tinha estendido a todo o comprimento do sofá, ergueu-se sobre um cotovelo e ofereceu-lhe a boca para que ele a beijasse.

− Eu sei, meu senhor – disse-lhe por fim. – Não te estava a pedir perdão por ter ido de soutien, estava-te a pedir perdão por estar ainda a chorar…

Raul beijou-lhe de novo os olhos.

− Isso talvez seja porque este castigo foi um castigo mesmo – sugeriu. – Se tivesse sido para meu prazer ou meu capricho, acho que neste momento estarias já a sentir algum prazer, se é verdade o que me contaste de ti sobre este assunto.

− Sim, estaria a sentir prazer; mas agora não estou. Estou feliz, o que é diferente; mas prazer, não sinto. Era por isso que te estava a pedir perdão.

− Se é por isso, estás perdoada – respondeu Raul, rindo. – Quanto ao prazer, vamos já tratar disso. Pelo menos do meu, que é para o que tu serves.

Teresa riu-se também, por entre as lágrimas. Estendeu os braços para o abraçar e disse-lhe ao ouvido:

− Lá por isso, se sirvo só para o teu prazer, de que é que estás à espera para te servires de mim?

E foram os dois abraçados para o quarto, onde ele com efeito se serviu dela tão copiosamente que não adormeceram antes das cinco da manhã.

[ … ]

Nos dias seguintes Manfredi tratou de negócios: não só dos de Teresa, presumiu Raul, mas também dos doutros clientes que pudessem ter interesses no Norte de Portugal. Só no próprio dia da partida teve tempo para aceitar o convite de Raul. Para entrar no quarto dos castigos era necessário subir um degrau: isto, explicou Raul, porque o isolamento sonoro e o revestimento do chão tinham obrigado a levantar o pavimento doze centímetros. Ainda bem que a casa era antiga e o quarto grande, com tecto alto, de outro modo teria ficado minúsculo com a grossura do isolamento. As paredes estavam revestidas a tijolo maciço em cor natural, com um verniz mate.

– Só tive duas dificuldades – explicou Raul. – A primeira foi desmontar o pavimento irradiante para o instalar depois de novo sobre a camada de isolamento. Isto só o vai tornar mais eficiente, é claro, mas deu uma trabalheira. A outra foi explicar estas colunas – e apontou para duas grossíssimas traves de madeira que se erguiam, separadas uma da outra por pouco mais que um metro, do chão ao tecto – aos homens que cá andaram a trabalhar.

– Difícil, porquê? – perguntou Manfredi.

– Tive que as fixar ao chão original e ao tecto original, e isto só podia ser antes das obras. Gastei dezasseis cantoneiras de aço e 96 parafusos de 8x80mm. Quando os homens me perguntaram se eu queria isto para pendurar motores de automóveis, tive que inventar uma coisa qualquer, que ia fixar barras para fazer ginástica… Ficaram a olhar para mim como para um lunático.

Manfredi deu uma pequena risada:

– Pois é, as vicissitudes dum dominante… people have no idea.

[ … ]

O que Raul decidiu, afinal, em relação ao quarto dos castigos, foi construir uma plataforma resistente, assente sobre traves fixas às paredes e às colunas, onde Teresa, de pé, ficasse com as nádegas à altura mais conveniente para a mão dele. Sobre essa plataforma ser-lhe-ia possível fixar dois móveis pesados: num deles, uma espécie de divã abaulado, podia fazer deitar a sua escrava, de barriga para cima, com os quadris e o ventre a um nível meio metro mais alto do que a cabeça e os pés, de modo a poder fustigá-la comodamente no ventre e no peito. As pernas ficariam mais fechadas ou mais abertas conforme as argolas que ele escolhesse para lhe amarrar os tornozelos ou as coxas. A superfície deste móvel seria acolchoada de modo a que Raul não magoasse os joelhos ou os cotovelos quando a possuísse sobre ele. O outro móvel era um banco alto, também acolchoado, onde Teresa se podia debruçar de modo a ficar com o rabo empinado, e do outro lado com a cabeça livre de modo a poder ser possuída pela boca.

Raul, que queria que estes móveis fossem sólidos, bonitos, bem construídos, bem acabados, de madeira nobre e couro da melhor qualidade, não teve outro remédio senão mandá-los fazer em Paços de Ferreira, dizendo que os destinava a uma nova espécie de ginásio. As argolas que serviriam para prender Teresa – anéis metálicos com cinco centímetros de diâmetro e um de grossura, presos à madeira por uma haste em forma de parafuso com seis centímetros de comprimento e sete milímetros de espessura junto à base – teriam que ser de bronze, para que Teresa tivesse a responsabilidade de as manter sempre limpas e brilhantes. Além disso, por razões estéticas de que Raul não prescindia, a parte em forma de anel tinha que ser separada da parte em parafuso por um batente circular com doze ou quinze milímetros de diâmetro. Nas lojas de ferragens e de “faça você mesmo” que Raul visitou não havia nada disto. Foi às lojas de artigos náuticos mais tradicionais de Matosinhos, onde lhe disseram que noutros tempos, talvez, mas que hoje era tudo fibra de vidro e aço cromado. Acabou por ter de mandar fazer o que queria numa oficina de fundição.

Enquanto esperava que as argolas de bronze ficassem prontas, chegaram mais caixotes de Milão: chicotes, vergastas, canas, vibradores, algemas, correntes, cadeados, pénis de borracha ou silicone, cordas macias de seda ou abrasivas de cânhamo, sapatos, sandálias, botas, roupas de couro, de cetim, de seda, opacas, transparentes, soltas, apertadas, para além de uma série de outros objectos que Raul nem sabia para que serviam. Resolveu pendurar alguns em ganchos nas paredes, dispor numa bancada os que pensava utilizar, e comprar um armário com vitrina para expor os restantes. Para as roupas e sapatos, resolveu comprar um armário fechado, que não podia ser grande demais para não atravancar o aposento. Algumas destas roupas teriam que ficar, juntas com as do dia-a-dia, no roupeiro embutido do corredor, junto ao quarto, que tinha ficado reservado para Teresa e já continha algumas peças de roupa que ela tinha deixado ficar nas visitas anteriores.

[ … ]

Chegados ao apartamento, Teresa ficou encantada com o quarto dos castigos, embora tanto ela como Raul já tivessem a ideia muito nítida de que aquela decoração e aqueles instrumentos não correspondiam exactamente ao tipo de relação que tinham em mente. O que aquele quarto exprimia era um domínio e uma submissão formais, ritualizados, estilizados, balizados por regras e limites, e muito centrados na punição física; enquanto o que eles pretendiam era algo de muito menos formal e muito mais radical e consequente. Como Teresa disse a Raul, não era tanto um estilo de vida como uma opção de vida.

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