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Cap. 33: NO LIMITE

Nas semanas seguintes, Ana e Miguel tornaram-se frequentadores do Justine, primeiro na companhia de Raul e Teresa, depois, muitas vezes, sozinhos. Conversando com as pessoas que conheceram, depressa se aperceberam que o compromisso absoluto de Raul e Teresa era muito mais radical do que era costume no meio. Não era uma questão de mais submissão ou menos submissão, mais dor ou menos dor, mas daquilo em que cada um centrava os seus desejos e a sua ideia de felicidade. Antes de frequentarem o Justine, Ana e Miguel pensavam que, quando uma pessoa submissa encontrava uma pessoa dominante, a história tinha chegado mais ou menos ao fim: pouco mais restava do que serem felizes para sempre. Verificavam agora que isto estava longe de ser o caso: era difícil encontrar o dominante certo para o submisso certo, e no Justine, como em qualquer outro lugar, não faltavam corações partidos. Aprenderam também a tolerância, uma vez que os centros do desejo eram quase tantos como as pessoas à sua volta: para uns a moda e o fetiche, para outros a dor física ou a humilhação, para outros a restrição de movimentos, para outros a entrega – que não era a mesma coisa que dádiva; alguns praticavam a monogamia mais estrita, outros viam a expressão máxima do domínio na cedência a terceiros do submisso ou da submissa, sem lhe permitir qualquer escolha quanto à identidade, quanto ao número, ou quanto ao sexo, da pessoa ou pessoas a quem temporariamente servia.

Quase sempre os centros do desejo eram múltiplos, o que tornava tudo ainda mais complicado. Miguel e Ana estavam convencidos que eram o dominante certo para a submissa certa, mas nem por isso deixaram de beneficiar do convívio que tiveram com outros frequentadores do bar. Não os surpreendeu a adesão quase fanática de todos a uma ética muito rígida e muito simples que se exprimia na máxima “safe, sane and consensual”: uma regra como esta era necessária num meio em que se cruzavam personalidades e desejos tão diversos, e era uma boa base para que a comunidade pudesse organizar uma rede informal mas eficaz de protecção mútua contra predadores e psicopatas.

Raul e Teresa eram menos assíduos. Quando ia ao Justine, Teresa costumava levar, enfiado na vagina, o primeiro óvulo de controlo remoto que Raul tinha adquirido. O óvulo mais recente, operado por telemóvel, nunca era usado no Justine e raramente noutros lugares: só algumas vezes, quando Teresa ia às compras ou encontrar-se com amigos e familiares. No Justine, Teresa estava sempre consciente que, estivesse a fazer o que estivesse – a falar com outros frequentadores do clube, a arranjar-se nos lavabos, a trazer uma bebida ao dono, a qualquer momento se poderia desencadear no interior do seu corpo, sem aviso, aquela vibração que para a sua sensibilidade continuava a misturar sofrimento e prazer. Miguel perguntou a Raul onde podia adquirir um aparelho semelhante, e passados poucos dias Ana passou também a usar um óvulo na vagina; mas para ela a sensação era de puro prazer.

Ana e Miguel não se tratavam por “meu senhor” ou “minha escrava”; perante terceiros, ele referia-se a ela como “a Ana” – ou, no Justine, “a trilby” – e ela a ele como “o meu Dono”. Descontadas estas formalidades, que não eram importantes, a sua relação parecia encaminhar-se numa direcção semelhante à de Raul e Teresa. Isto preocupava um pouco o par mais velho, que se sentia responsável e sabia que nem todas as relações de domínio e submissão se conformam a modalidades tão exigentes como a que tinham escolhido para si próprios. Preocupava-os a possibilidade de os dois jovens fazerem uma escolha que mais tarde um ou outro não pudesse suportar. Por isso viam com bons olhos a maneira como eles se iam integrando na comunidade: assim podiam conhecer outras formas de domínio e submissão e construir por si próprios a que mais se adaptava às suas necessidades particulares.

Um assunto que discutiam muito era o que aconteceria se as necessidades de um deixassem alguma vez de corresponder às do outro.

– Mas não correspondem? – perguntava sempre Raul.

– Correspondem – respondia sempre Ana ou Miguel. – Mas se não correspondessem, como era?

– Em teoria prevaleceriam as necessidades do Miguel – preconizava Teresa, radical como sempre.

– Mas na prática – prevenia Raul – têm que ter algo em comum para que os desejos de um possam enriquecer os do outro. É este o vosso caso, parece-me, e por isso não vejo porque se preocupam. Teriam razão para se preocuparem, por exemplo, se para um de vós uma coisa qualquer tivesse um valor simbólico ou erótico muito grande, que a tornasse indispensável, e para o outro essa coisa fosse absolutamente insuportável.

– Mas por outro lado – disse Teresa durante uma destas conversas – se aquilo que o senhor exige não for de todo insuportável para a escrava, esta dificuldade até pode ser uma coisa boa: pode ser uma forma de tornar a escrava mais escrava. É como os meus pés nus: no imaginário do Raul os pés nus sempre foram um símbolo importante de humildade e submissão. Agora já o são também no meu imaginário, que por isso mesmo está mais rico: já faziam antes parte dele, mas tinham outro significado, diferente e mais limitado. Este significado não se perdeu, apenas se lhe acrescentou o que Raul lhe deu. Claro que andar descalça é muitas vezes um grande sacrifício, e por vezes, em público, quase morro de vergonha. Mas para mim vale a pena: uma escrava que não esteja preparada para fazer sacrifícios grandes não merece o nome de escrava.

[ …]

Raul sorriu levemente, fez-lhe uma pequena festa no rosto e virou-lhe as costas para ir pousar o chicote na banca. Depois voltou com cordas para lhe amarrar os pulsos e os tornozelos aos quatro cantos do rectângulo formado pelas colunas. Teresa deixou-se amarrar docilmente; fechou os olhos e começou a murmurar repetidamente “amo-te, amo-te, amo-te”, como se a repetição infinita desta verdade fosse o mantra que a ia proteger na provação que a esperava.

– Agora vou-te vendar – disse Raul. – Posso?

Para não interromper o “amo-te, amo-te, amo-te” que continuava a dizer baixinho, Teresa limitou-se a acenar que sim. Se estivesse em estado de achar graça a alguma coisa, teria sorrido por ele ter pedido permissão para a vendar quando não precisava de permissão para nada do que estava a fazer. Continuou a dizer baixinho “amo-te, amo-te, amo-te” enquanto tentava prever ao fim de quantas chicotadas começaria a gritar.

Começou a gritar logo à primeira, um berro agudo e ensurdecedor que dificilmente se acreditaria que pudesse ficar confinado entre as paredes do quarto, ou sequer da casa. Esta chicotada atingiu-a obliquamente nas nádegas, marcando um traço que ia da parte superior da esquerda à inferior da direita. A segunda atingiu-a horizontalmente e um pouco mais acima, arrancando-lhe um grito tão forte como o primeiro. Das que se seguiram, nenhuma correspondia a nada que ela pudesse ter imaginado ser capaz de suportar. Mais do que todas as outras, doeram-lhe as que a atingiram no rego entre as nádegas e as coxas; mas por esta altura já se tinha cansado de gritar. Os primeiros gritos que soltara tinham sido emitidos num soprano cristalino, mas pouco a pouco foram enrouquecendo até se tornarem urros que quase nada tinham de humano. E mesmo estes acabaram por dar lugar a arquejos de aflição, entremeados de rosnidos de fera encurralada.

O chicote não fazia um silvo tão agudo como o da vergasta, e o som que fazia ao contactar com a carne não era tão seco. Mas a dor era inconcebivelmente maior, maior do que qualquer punição que Teresa já tivesse recebido.

Quanto tempo durou isto? Não é possível contá-lo, nem em segundos, nem em minutos, nem em número de golpes desferidos. Teresa só soube que o seu tormento tinha terminado quando Raul lhe tirou a venda. Olhou à sua volta, espantada: o quarto era o mesmo, o mundo não tinha mudado. Quando Raul lhe libertou os tornozelos, esfregou os pés um no outro, tentando restaurar a circulação. Depois, quando ele lhe libertou os pulsos, as mãos voaram-lhe para onde tinham estado antes de ele a amarrar: cruzadas em frente ao sexo, escondendo-o, tapando-o, negando-o ao olhar e ao desejo do macho. Raul não lhe ordenou que descruzasse as mãos: pôs-se em frente dela, olhou-a nos olhos – que ela não conseguiu furtar aos dele – disse-lhe “amo-te” e foi de novo buscar o chicote.

Teresa bem sabia para que era agora o chicote, era para ela o beijar: e nesse momento sentiu-se invadir por uma tal revolta, que numa fracção de segundo, na sua imaginação, saiu dali, vestiu-se, fez a mala, chamou um táxi, foi para o aeroporto e regressou ao seu apartamento no Corso Magenta. Mas na realidade, o que fez foi ajoelhar-se e beijar o chicote, sem que Raul precisasse de lho ordenar. Depois levantou os olhos para o dono e viu-o imóvel, de pé, à espera. À espera de quê? Que mais que queria ele ainda? Que ela lhe dissesse o que disse, é claro:

– Obrigada, meu dono.

No momento em que estas palavras lhe saíram da boca aconteceu uma coisa que a fez sentir ódio por si mesma: enrubesceu, os lábios entreabriram-se, os quadris rodaram num círculo imperceptível, como se tivessem vontade própria, e sentiu-se a ficar molhada. Este ódio por si própria, assim como veio, assim desapareceu; a vergonha a que ele deu lugar também teve a vida curta; a excitação, essa sim, permaneceu – e com ela surgiu-lhe na alma um sentimento de orgulho que a levou a repetir:

– Obrigada, meu senhor. Amo-te. Faças de mim o que fizeres, hei-de amar-te sempre.

Esta expressão de submissão não lhe amainou de todo a revolta: uma coisa era aceitar, por sua deliberada vontade, a dor que ele lhe quisesse dar, outra era responder-lhe com uma reacção involuntária do corpo. Mas não, estava a ser injusta: o acto de vontade tinha vindo antes, tinha sido responsabilidade sua; e se o corpo estava de acordo com a vontade, não merecia censura. Rola os quadris, escrava, entreabre a boca, semicerra os olhos, pensou Teresa. Afasta as pernas. Deixa que a cona se molhe. Tens direito a tudo isso: fui eu, enquanto mulher livre, que to dei.

[ … ]

Nem fazer segredo, nem fazer alarde, pensou Teresa. Era este o princípio que ela e Raul tinham adoptado. Numa aula de dança, em que está presente apenas um número limitado de pessoas, vestir-se como de costume não seria fazer alarde, tapar-se toda é que seria fazer segredo. Já o tinha feito uma vez, não ia fazê-lo de novo. Vamos lá ver o que acontece, pensou, e apresentou-se na aula com uma saia vermelha de cintura baixa que lhe deixava a descoberto quase todas a zonas do corpo onde tinha sido chicoteada.

O que aconteceu foi espanto, repulsa, solicitude e indignação. Não serviu de muito explicar que tudo se tinha passado com o seu consentimento: somente nalguns casos a indignação deixou de ser contra Raul e passou a ser contra ela. Em algumas das mulheres presentes, porém, a indignação foi mais convencional que sentida; houve as que ficaram um momento pensativas e não disseram nada; e Ana, é claro, ficou fascinada, querendo saber tudo, se tinha doído muito, se tinham feito amor depois, se ela própria seria capaz de suportar o mesmo, se Miguel quereria alguma vez, ou poderia, castigá-la assim.

– Se o Miguel te fizesse isto, suportavas?

– Claro que suportava! – respondeu Ana.

– Não sabes o que dói… – disse Teresa. – Dói mesmo muito, e parece que dura séculos.

– Não interessa, suportava e agradecia – respondeu Ana.

Teresa ficou sem saber se tamanha certeza lhe vinha do auto-conhecimento, dalguma necessidade antiga, ou apenas da extrema juventude, que não teme nada. Dançou particularmente bem nesse dia; se isto a fez subir ou descer na consideração das colegas, nunca chegou a sabê-lo.

[ … ]

Era um Setembro quente, mais quente do que tinha sido Agosto. Nestes primeiros dias do mês, Teresa tinha sido punida quase diariamente com uma variedade de instrumentos, uns mais dolorosos do que outros, mas o chicote que lhe causara a dor maior e as marcas mais fundas não voltara a ser usado. Cada punição confirmava o que Teresa já sabia: que a expectativa a excitava um pouco; que a experiência, enquanto durava, lhe tirava toda a excitação; e que se voltava a excitar, confirmando-se como escrava de Raul de um modo cada vez mais inegável, no momento em que se ajoelhava para beijar o chicote e para agradecer o castigo. Teresa compreendia e aprovava a intenção, que adivinhava em Raul, de transformar esta confirmação em rotina: não bastava que o “obrigada” e o “amo-te” que proferia ritualmente fossem verdade, como de facto eram: era preciso que se tornassem inevitáveis, automáticos, evidentes, a tal ponto que a sua eventual omissão se tornasse, ela sim, uma mentira.

Uma noite, Raul colocou um banco almofadado entre as duas colunas, mandou-a sentar e atou-lhe os pulsos aos capitéis, esticando-lhe os braços. Para dar folga às cordas, bastaria a Teresa pôr-se de pé, mas ele apertou-lhe um cinto aos quadris e atou-o com cordas a duas argolas na base das colunas. Agora ela já não poderia aliviar a tensão dos braços, mesmo que quisesse; mas mesmo assim Raul esticou as cordas ainda mais. Teresa ainda tinha os pés assentes no chão, mas ele amarrou-lhe os tornozelos, fê-la levantar as pernas e amarrou as pontas das cordas às mesmas argolas a que tinha amarrado os pulsos: Teresa tinha agora os braços e as pernas no ar, as nádegas assentes no banco, e o sexo arreganhado, todo à vista. Foi nesta posição que ele a vergastou, assentando-lhe os golpes na pele fina do interior das coxas, na parte de baixo das nádegas, e sobretudo na vulva. Teresa já tinha desistido de comparar dor com dor: já tinha aprendido que a punição que dói mais era sempre a que estava a sofrer no momento. Entregou-se toda à dor; ou, melhor dizendo, não foi preciso entregar-se, porque a dor se apoderou dela como sempre, totalmente, sem deixar lugar para qualquer outra sensação ou pensamento.

[ … ]

Dias depois, teve mais uma sessão de depilação eléctrica, e temia que a esteticista lhe visse as marcas da vergasta. De facto ainda as tinha, mas não sentiu a vergonha que teria sentido uns meses antes. A esteticista, quando as viu, comentou que a senhora afinal estava habituada a dores piores do que as que ela lhe provocava; para além disto não teve qualquer reacção, a menos que por reacção se contasse o especial cuidado com que a tratou. As pessoas nunca são quem julgamos, pensou Teresa, ao dar-se conta de que não sabia a que atribuir aquela vaga simpatia da esteticista: entrariam ali todos os dias mulheres com marcas de vergasta no sexo? Todas as semanas? Todos os anos? Ou teria sido ela a primeira, destinada talvez a ser também a última? Teria esta jovem tranquila visto alguma vez marcas semelhantes noutros contextos, noutros corpos, quem sabe se no seu próprio? Quantos mundos existem à nossa volta, diferentes uns dos outros, diferentes daquele que julgamos estar a ver?

[ … ]

De tarde vestiu uma saia que tanto servia para andar na rua como para dançar. Na parte superior do corpo pôs um choli que, ao contrário dum top rígido, permitiria que os seios lhe oscilassem sem terem que ficar nus, escandalizando as outras alunas. Na aula, prestou atenção a todas as instruções da professora, de modo a que todos os movimentos fossem exactos e perfeitos mas ao mesmo tempo fluidos e soltos.

– Hoje dançou muito bem – disse-lhe a professora. – Houve momentos em que pareceu inspirada.

Antes de ir lanchar com Ana, Teresa queria passar pelas colegas e pela professora uma folha em que elas pusessem os endereços para lhes poder enviar os convites para o casamento. Recolhida a folha, verificou que algumas a tinham passado adiante sem escrever nada: estavam no seu direito. No dia seguinte de manhã, depois da aula de pompoar, passou outra folha e ficou contente porque desta vez todas as colegas escreveram os seus endereços. Esta aula foi a primeira em que as alunas usaram vibradores; mas, ao contrário do que Teresa chegara a temer, desligados. O objectivo era ver se eram capazes de sugar o vibrador para dentro da vagina e de o expulsar sem usar outros músculos além dos que tinham estado a exercitar nas aulas anteriores. Teresa não foi das que tiveram mais dificuldade, mas o esforço foi tão grande que, ao saber que mais tarde se esperaria dela e das colegas que sugassem e expulsassem o vibrador dezenas de vezes seguidas, duvidou que tal fosse possível.

Teresa sempre tinha exercido uma profissão, e isto tinha-lhe alargado o mundo. Até puta fui, pensava por vezes, cada vez com menos amargura mas talvez com mais melancolia. Depois decidira dedicar-se inteiramente a Raul, mas sempre com uma réstia de medo que esta opção a confinasse a uma estreiteza de vida que não desejava. Verificava agora que o amor e o sexo, a obediência e o serviço prestados a um senhor, podem constituir uma ocupação a tempo inteiro, exigindo organização, disciplina e um treino intenso e difícil. Não se sentia menos digna como escrava do que se tinha sentido quando era uma mulher de carreira no mundo do jornalismo e da moda; tinha passado, pelo contrário, dum estatuto virtual para um estatuto real que a fazia sentir-se mais presente no mundo.

Foi assim, serena e segura de si como uma matriarca antiga, que assistiu à assinatura dos últimos papéis e ao cumprimento das últimas formalidades que conferiam à sua irmã Carolina a propriedade da empresa que tinha fundado. Também Carolina teve neste dia o seu acesso a um mundo ligeiramente diferente: abandonava o proletariado, tornava-se senhora de si e não tinha ninguém a quem prestar contas. E se não se deu conta que por este caminho tão diferente tinha chegado exactamente ao mesmo ponto que a irmã, já a esta o facto não passou despercebido. O Mundo é com efeito prodigioso e vário.

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Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

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Cap.30: VIAGEM AO CENTRO DO CORPO

A caixa era bonita. Oblonga, em acrílico transparente, tinha as arestas facetadas. No interior do material tinha filamentos dourados que desenhavam rosas. A base estava protegida por uma camada de material brando e translúcido, de um rosa cor de carne.

− É para não riscar a mobília – explicou Teresa.

Tinha servido o jantar fardada de criada, coadjuvada por Milena, e, depois de se ter ido vestir para o serão com Raul, trouxera esta caixa que ele agora examinava. À transparência, viam-se duas esferas com quatro a cinco centímetros de diâmetro, da mesma cor que a base da caixa, unidas por um cordão. Quando Raul abriu a caixa, viu um tabuleiro, também em acrílico, com depressões circulares em que se fixavam as esferas. Os desenhos a ouro não o tinham deixado ver que uma das esferas, além de estar ligada à outra, estava presa a outro cordão mais fino que se dobrava sobre si mesmo e se unia a ela pelas duas pontas. Olhou para Teresa e pegou nas esferas: eram de silicone, muito macias, e davam-lhe, ao sopesá-las, uma estranha sensação de desequilíbrio.

− São ocas – explicou Teresa. – São bolas ben-wa. Estas têm outras esferas mais pesadas que se movem dentro delas. A minha professora de pompoar diz que é altura de começarmos a treinar com bolas, trouxe uma colecção delas para nós escolhermos, e pronto, eu trouxe estas para casa para tu veres. São as mais caras que ela trouxe, porque são em silicone e porque as de dentro são em aço inoxidável; também gostei muito da caixa, e tu?

Raul sabia o que são bolas ben-wa, mas nunca tinha visto nenhumas. Sabia que podiam ser usadas no pompoar ou nos exercícios de Kegel. Aprovava cordialmente o facto de estas serem em silicone, que do ponto de vista da higiene é o melhor material, e quanto aos pesos internos não tinha objecção.

− Os cordões são de nylon? – perguntou.

Eram de nylon: mais uma vez o ideal do ponto de vista da limpeza. Perguntou a Teresa o preço, deu-lhe o dinheiro e comunicou-lhe que as iam experimentar imediatamente.

− A professora ofereceu-nos um frasco de lubrificante juntamente com as bolas – disse Teresa. – Assim entram melhor. Está no quarto de banho: vou buscar?

− Vai – disse Raul.

Teresa saiu da sala e regressou com um frasco de plástico, equipado com uma cânula, como os que se vendem nas sex shops. A uma ordem de Raul, levantou as saias, deixando o sexo à mostra. Utilizando a cânula, lubrificou a entrada e o interior da vagina; depois untou as bolas e limpou as mãos a um dos toalhetes húmidos que tinha trazido consigo.

Raul foi lavar as mãos. Quando voltou, Teresa estava recostada no sofá, com o sexo à mostra e uma perna levantada. Quando Raul se sentou no outro sofá, Teresa colocou uma das bolas à entrada da vagina e empurrou-a com o dedo, introduzindo-a facilmente.

− Agora tenho que puxar a outra para dentro – explicou.

Mas, por mais que tentasse, não conseguiu sequer que a bola de dentro puxasse a de fora até a alojar junto da entrada. Raul levantou-se, lubrificou o indicador da mão direita e introduziu o dedo na vagina de Teresa, empurrando gentilmente a bola de dentro até a outra ficar em posição.

– Consegues agora? – perguntou.

Mas mesmo assim Teresa não conseguia. Por fim, sem deixar de tentar usar os músculos da vagina, empurrou a outra gentilmente com o dedo, até só ficar de fora o cordão.

− Levanta-te – ordenou Raul.

Teresa levantou-se, deixando cair a saia, que de novo a cobriu até aos tornozelos. Deu uns passos pela sala, mas de repente soltou um ai alarmado: uma das bolas tinha-lhe saído da vagina e puxava pela outra, que ela procurava desesperadamente reter mas que acabou também por cair no chão.

− A professora bem nos disse – observou Teresa. – Ao princípio não ia ser fácil, mas quando estivéssemos treinadas seríamos capazes de andar o dia inteiro com elas sem as deixar cair… Dá para acreditar? E eu, pronto, tive logo que escolher as maiores e mais pesadas… se calhar não vou conseguir.

− Se tu não conseguires – respondeu Raul – então mais nenhuma das tuas colegas consegue. Quando tens a próxima aula?

− Amanhã de manhã, às dez.

− Então a seguir almoças comigo e depois vamos buscar uma pessoa ao aeroporto.

− Quem? – perguntou Teresa.

Curiosity is not becoming in a kajira – respondeu-lhe Raul, dando-lhe uma palmada no rabo.

Teresa deu uma pequena risada e foram os dois lavar as bolas ben-wa: primeiro com água e sabonete, depois deixando-as imersas por uns minutos numa mistura de água da torneira e um pouco de água oxigenada, e por fim lavando-as de novo.

No dia seguinte, ao almoço, Teresa disse a Raul que tinha conseguido andar quase dez minutos pela sala de aula com as bolas postas, sem as deixar cair. A professora tinha ficado impressionada. O que ela não conseguia ainda, era puxar as bolas para dentro sem o auxílio do dedo; nem sequer a primeira, que segundo a professora era a mais fácil.

− E agora estou toda dorida. Se hoje me possuíres, não sei se te vou servir como deve ser.

− Eu dou um desconto – disse Raul, e pegou-lhe na mão para lhe beijar a concavidade da palma.

Depois, ainda no restaurante, mandou-a descalçar:

– Dá-me as havaianas.

Quando Teresa lhas deu, Raul embrulhou-as num saco de plástico e guardou-as na pasta. Teresa, que andava descalça com toda a naturalidade em lugares como Porto Cristo, não se conseguia habituar a fazê-lo no Porto, onde toda a gente olhava para ela e onde o chão não primava pela limpeza. A pessoa que foram buscar ao aeroporto vinha de São Paulo e chamava-se Clodomiro dos Reis, segundo o cartaz que Raul ergueu na zona de chegadas. Clodomiro dirigiu-se a Raul com um sorriso e estendeu-lhe a mão. Era um mulato pouco mais velho que Teresa, alto e bem constituído. Vinha vestido com umas calças azuis-escuras perfeitamente vincadas e um pólo azul-claro que parecia acabado de passar a ferro. Alguma coisa na aparência dele sugeria uma ligação às profissões médicas, e Teresa perguntou-se o que viria ele fazer ao Porto; mas como a curiosidade não fica bem a uma kajira, calou-se.

– Dr. Raul Morgado? – disse o viajante. – Como está o senhor?

– Dr. Clodomiro? Bem, obrigado, e o senhor? Esta é a minha escrava Teresa.

Era raro que Raul apresentasse Teresa a alguém como sua escrava; o facto de o ter feito agora sobressaltou-a e fez com que hesitasse antes de cumprimentar o recém-chegado com uma vénia. Mas este não pareceu surpreendido e disse, estendendo-lhe a mão:

– Ah, Teresa. Já ouvi falar muito de você, sabe, meu bem? Como está você?

Teresa não era acanhada, mas foi no tom sumido duma adolescente tímida que respondeu:

– Bem, obrigada, senhor…

Chegados ao carro, Raul mandou Teresa sentar-se no banco de trás para poder falar à vontade com Clodomiro, a quem começou por pedir desculpa por tê-lo feito vir de tão longe. A suite reservada no hotel estava pronta, um dos compartimentos com a marquesa, a mesa de apoio e os candeeiros que Clodomiro tinha especificado. Se Clodomiro não se importava, podiam ir já para lá. Chegados ao hotel, subiram os três ao último andar (Teresa agudamente consciente da curiosidade que os seus pés nus provocavam em todas as pessoas com quem se cruzavam), e Clodomiro abriu a porta da suite. Teresa viu-se num pequeno átrio com três portas, uma das quais abria para um vulgar quarto de hotel, outra para o quarto de banho e a terceira para um compartimento mobilado como um consultório médico.

Clodomiro pediu algum tempo para se preparar e Raul sugeriu voltar com Teresa meia hora mais tarde: estava bem assim? Estava, respondeu Clodomiro.

No bar do hotel, enquanto tomavam um café e uma água mineral, Teresa deixou escapar as palavras que tinha retidas no peito:

– Meu senhor, estou nas tuas mãos, mas diz-me: o que é que se vai fazer de mim lá em cima?

– Nada de difícil – respondeu Raul. – O Clodomiro vai-te tirar algumas medidas, e provavelmente fazer algumas recomendações. Depois vamos para casa, ele vai comer um almoço que para ele é jantar, e passado um bocado, se fizer como eu faria no lugar dele, toma um comprimido para dormir, uma dose reforçada de melatonina, e vai para a cama. Amanhã de manhã cedo, venho buscá-lo para o levar ao aeroporto e tu podes ficar a dormir.

– Não é dele que eu estou a perguntar, meu senhor, é de mim. Que medidas me vai ele tirar?

– Pronto, não te atormento mais – disse Raul. – O que o Clodomiro vai medir com toda a exactidão é a tua vulva. Sim, a tua vulva: o comprimento total, as dimensões do clítoris e do seu capuz, a protuberância e espessura dos grandes lábios e dos pequenos lábios, as distâncias entre a comissura superior dos grandes lábios e o clítoris, entre o clítoris e a uretra, entre a uretra e a vagina, entre a vagina e a comissura inferior, e outras medidas que sejam necessárias. As dimensões da vulva variam muito de mulher para mulher, como sabes, por isso é que é preciso tirar medidas. Depois, em São Paulo, é que o Clodomiro vai desenhar e fazer os piercings em titânio de que te falei.

– Só não compreendo porque é que esse desenho e essa colocação têm que ser tão exactas, meu senhor. Muitas mulheres põem piercings nos lábios vaginais sem ser preciso nada disso.

– Pois bem, minha escrava – disse Raul. – Chegou a altura de saberes um pouco mais. Vais ter quatro piercings nos grandes lábios, um de cada lado do clítoris e um de cada lado da vagina. Estes piercings vão estar concebidos de forma que cada um encaixe no do lado oposto de modo unir os grandes lábios sem os repuxar.

– Deixa ver se compreendo: quer dizer que com os piercings encaixados não vou ter acesso nem à minha vagina, nem ao clítoris…

– Não, mas é preciso deixar-te a uretra tão livre quanto possível, de modo a que possas fazer xixi sem grande dificuldade. Já estás a entender porque é que as medidas têm que ser exactas?

– Sim, estou a ver – disse Teresa. – Mas os anéis vão-se poder desencaixar, não vão?

– Claro que sim – respondeu Raul. – Caso contrário, como é que eu me ia poder servir de ti? Quando eu não quiser que os desencaixes, estão previstas aberturas para dois pequenos cadeados.

Cadeados?! Quem é que alguma vez tinha falado em cadeados?! Com o sobressalto, Teresa derrubou o copo de água que tinha à sua frente. Enquanto o empregado limpava o balcão do bar e trazia uma nova garrafa de água, Teresa teve de ficar silenciosa; e ainda bem, porque durante esta pausa teve tempo de se lembrar do que dissera minutos antes: que estava totalmente nas mãos de Raul; e que muitas vezes o tinha instado, sem qualquer hipérbole ou metáfora, a fazer dela o que quisesse; de modo que quando o empregado os deixou de novo a sós se limitou a perguntar como iam ser os cadeados.

– Vão ser fabricados na Suíça especialmente para ti, de acordo com o desenho que o Clodomiro fizer depois de teres os piercings no sítio. A ideia é que sejam o mais pequenos e mais leves possível, mas de alta segurança, e que não oxidem nem causem reacções alérgicas. Por isso vão ser feitos em titânio e aço cirúrgico.

Teresa ficou calada, numa espécie de melancolia feliz. Ter o sexo fechado à chave, e a chave nas mãos do homem que amasse, era uma fantasia que começara a ter, sabia lá, aos treze ou quinze anos, e que nunca a tinha abandonado. O que nunca esperara, era vê-la realizada tão de repente, tão sem consulta, tão sem aviso. Estou realmente nas tuas mãos, pensou; e quando ele subiu de novo para a suite acompanhou-o docilmente, sem sequer reparar, desta vez, nos olhares curiosos que os seus pés nus atraíam. Quando bateram à porta, foram recebidos por Clodomiro, vestido com uma bata branca. Tinha revestido a marquesa com uma protecção de papel e tinha-a colocado com a parte dos pés virada para a janela aberta. Perto da janela, Clodomiro tinha colocado dois potentes focos apontados à marquesa. Numa mesa ao lado repousavam, em tabuleiros de aço, vários instrumentos de medida: réguas, calibradores, compassos e outros objectos de que Teresa não sabia o nome nem a utilidade.

– Tire a saia, meu bem, e deite-se de barriga para cima com os pés para a janela – disse Clodomiro, enquanto calçava umas luvas de cirurgião. – Abra um pouco as pernas, mas não muito.

Durante vários minutos, Teresa sentiu o contacto frio de vários instrumentos com as suas partes íntimas. Nenhum destes contactos a excitou, e de resto parecia-lhe que Clodomiro tinha encenado tudo de modo a evitar qualquer excitação sexual da parte dela. Quando Teresa pensou que tudo estava terminado, ele mandou-a virar-se de barriga para baixo.

– As dimensões de sua vulva não são as mesmas em todas as posições, você sabia? Abra as pernas para eu medir de novo.

A cada medida que tirava, Clodomiro pronunciava algumas palavras para um microfone que trazia preso à lapela da bata. No fim foi chamou Raul:

– Chegue perto, por favor. Vou precisar de sua ajuda.

Raul aproximou-se da marquesa e perguntou em que podia ajudar.

– Fiz todas as medições em sua escrava sem a excitar. Agora preciso medir com ela excitada, e é para isso que preciso do senhor.

Teresa tremeu de indignação; e embora entendesse o despropósito deste sentimento, só a disciplina a que se obrigara a impediu de se recusar. Raul fez-lhe uma festa na face e beijou-a:

– Linda menina…

Depois começou a apalpar-lhe as nádegas expostas, depositando nelas, ora um pequeno beijo, ora uma ligeira palmada. O corpo obediente de Teresa começou logo a reagir: quando Raul lhe acariciou a vulva encontrou os pequenos lábios já húmidos e o clítoris que começava a sobressair do capuz. Passado não mais do que um minuto, disse:

– Venha ver, Dr. Clodomiro. Já chega?

Clodomiro disse que sim, pediu a Raul que acariciasse Teresa noutras partes do corpo de modo a que ela não perdesse a excitação, e reiniciou todo o processo, primeiro com Teresa virada para baixo, e por fim com ela virada para cima. As dimensões da vulva, explicou, variam também com a excitação da mulher. Teresa, que na fase anterior do processo não sentira vergonha, sentia-a agora, e intensa. Escrava, pensou, sou mesmo escrava… obedeço a tudo… Mas Clodomiro ainda não tinha terminado:

– Não se cubra ainda, meu bem, ainda tenho uma coisa para falar com seu senhor.

Era bom, disse Clodomiro, que Teresa já tivesse começado uma depilação definitiva. Mas precisava de saber que tipo de depilação ela estava a fazer, e se ainda estava no princípio ou se estava adiantada, porque depois dos piercings postos não ia poder fazer depilação a laser nem a luz pulsada muito perto deles. Quando Raul lhe deu esta informação, apertou os lábios e disse:

– Então lamento, mas se o senhor quiser que sua escrava fique depilada e com piercings, ela vai ter que sofrer um pouco nos próximos dias. Vou marcar na vulva dela duas zonas onde vai ter que fazer mesmo depilação eléctrica antes de ir para São Paulo. A um aceno de concordância de Raul, Clodomiro tirou da pasta um marcador e desenhou nos grandes lábios de Teresa duas ovais alongadas: aquela zona tinha que ficar depilada num mês, mesmo que para o resto dispusesse de um ano ou dois.

– Esse desenho não vai sair lavando uma vez ou duas, tem que lavar mais, mas eu deixo ficar a caneta para você renovar.

Teresa ficou a pensar como havia de explicar a urgência na clínica de depilação, e concluiu que o melhor era dizer a verdade: afinal, quando regressasse do Brasil, não poderia evitar que lhe vissem os piercings, portanto não valia a pena fazer segredo.

Nessa noite, Teresa voltou a dormir aos pés de Raul, sentindo-se de novo meio loba; mas conhecia muito bem o seu lugar na alcateia, e não era o último. De madrugada, quando o despertador tocou e o ouviu levantar, levantou-se também para lhe preparar o pequeno-almoço. Era tão cedo que Raul só quis uma chávena de café e uma bolacha.

– Não te vistas, fica nua – disse-lhe Raul ao vê-la de pé. – Depois volta a deitar-te, ainda é cedo.

Mas Teresa já não se deitou. Estar nua e em jejum causou-lhe um arrepio, apesar da casa aquecida. Depois de Raul sair, bebeu uma chávena de café com leite, comeu uma bolacha, lavou-se e vestiu a sua farda de criada para o receber com um segundo pequeno-almoço quando ele regressasse. Quando ouviu a chave na porta, correu para o átrio e sentou-se sobre os calcanhares com as coxas abertas e as palmas das mãos viradas para fora para que a primeira coisa que ele visse ao entrar fosse uma kajira, como lhe tinha chamado no dia anterior. No ar pairava já um perfume a café e a torradas com manteiga; Raul entrou, sorriu de a ver assim, inclinou-se para lhe dar um beijo e observou, sorrindo, que para compor a personagem Teresa deveria estar nua – ou vestida, quando muito, com um farrapo de seda ou de serapilheira: nunca com o seu uniforme engomado de empregada doméstica. Depois declarou-se faminto: Teresa deu uma risadinha feliz e correu descalça para a cozinha.

[ … ]

Em casa, Raul quis jantar sozinho, servido pelas suas duas empregadas. Quando acabou de jantar, não quis que Teresa ajudasse Milena a arrumar a cozinha, mas que fosse imediatamente para o quarto e o esperasse nua em cima da cama, só com uma toalha a proteger a coberta. Como a altura de arrumar a cozinha era a oportunidade de Teresa e Milena comerem alguma coisa, esta ordem levou a que Teresa ficasse sem jantar nessa noite, o que não acontecia pela primeira vez. Mas isso que importava? Pôs-se a esperar por Raul, que demorou. Ouviu música vinda do escritório: quem serviria o whisky a Raul, quem lhe acenderia o charuto? Milena não, certamente: fá-lo-ia ele próprio; e foi esta imagem, mais do que a demora de Raul, que a fez sentir-se abandonada. Ouviu Milena a usar o quarto de banho, a entrar no seu quarto e a fechar a porta. Depois, no escritório de Raul, parou a música. Ouviu-lhe os passos: seria finalmente para vir ter com ela? Mas não, os passos pararam noutro lugar; a chave Yale do quarto dos castigos rodou na fechadura, para voltar a rodar passados alguns segundos. Quando Raul chegou ao quarto, trazia na mão umas cordas e mais qualquer coisa que Teresa não chegou a ver, porque ele a pousou em cima da cómoda, que tinha o topo mais alto que a cabeça dela.

Raul inclinou-se sobre ela, beijou-lhe ternamente os lábios e ordenou-lhe que unisse os pulsos, o que ela fez sem hesitar. Atou-lhe os pulsos ao pilar direito da cabeceira da cama, deixando cerca de trinta centímetros de folga. A seguir, aos pés da cama, atou-lhe o tornozelo direito ao pilar direito, deixando-lhe uma folga igual; mas quando lhe atou o tornozelo esquerdo ao pilar correspondente, deixou-lhe uma folga muito maior, que lhe permitia fechar as pernas desde que ficasse deitada no lado esquerdo da cama. Feito isto, despiu-se calmamente, deitou-se ao lado dela e começou a acariciá-la por todo o corpo, evitando de início fazê-lo nos lugares do corpo que mais a excitavam. O facto de ele não a tocar nem beijar nos cabelos, na boca, no pescoço, nos seios ou no sexo (para não falar nos flancos, ao lado das costelas, que em Teresa eram também uma zona erógena) levava-a a sentir uma consciência mais aguda dessas partes do corpo. Era um tormento delicioso sentir a mão ou a boca dele a aproximar-se-lhe dos seios, só para se afastar de novo, no último momento, sem lhes tocar; ou mais tarde, depois de finalmente lhe ter acariciado ou beijado os seios, sentir-lhe a mão ou a boca passar-lhe ao largo dos mamilos sem lhes dar a atenção que eles exigiam. As carícias e os beijos desciam-lhe lentamente do tórax para o umbigo, do umbigo para o monte-de-vénus; por vezes voltavam atrás ou inflectiam para os lados, mas acabavam por voltar ao caminho certo; mas no momento que chegavam à comissura da vulva, ao início da racha, detinham-se e começavam um novo percurso: por fora das coxas ou por dentro, mas sempre, sempre, sem a tocar ou a beijar no sexo.

Quando viu que Teresa não aguentava mais, Raul foi buscar à cómoda o objecto que lá tinha deixado: era o vibrador que lhe tinha oferecido. Quando o viu, Teresa decidiu que suportaria mais do que das vezes anteriores, apesar de esperar que este mais não fosse muito mais.

– A regra é esta, minha escrava – disse-lhe Raul. – Vou usar este vibrador nos teus pequenos lábios e no teu clítoris, como tu gostas. De vez em quando vou introduzir-to um pouco na vagina, muito devagar, até chegar ao limite do que tu suportas; nessa altura começo a acariciar-te outra vez por fora. De acordo?

– Sim, meu senhor…

– Posso continuar a acariciar-te por muito tempo ou por pouco: quanto a isto, não atenderei a quaisquer pedidos teus.

– Sim, meu senhor…

– De vez em quando volto a introduzir-te o vibrador na vagina e a procurar outro limite. Poderá ser uma questão de maior profundidade ou maior duração; ou ambas as coisas, não sei. Mas da segunda vez tentarei ir um pouco mais longe. De acordo?

– Sim, meu senhor, sabes bem que sou tua…

– Isto repetir-se-á até eu entender que cheguei, por hoje, ao limite dos teus limites. Não serás tu a dizer-mo, serei eu a vê-lo nos teus olhos e no teu corpo. No fim servir-me-ei de ti de ti como me der mais prazer. De acordo?

– Sim, meu senhor, sim, sou tua, faz como quiseres…

Por toda a vida Raul havia de se lembrar desta noite. Viu Teresa empalidecer de medo ou enrubescer de excitação; viu-a retrair-se ou entregar-se, por vezes quase no mesmo gesto; ouviu-a gemer, suplicar, chorar, rir, suspirar que sim, gritar que não. Uma vez, duas vezes, várias vezes sentiu-a estremecer como sob um choque eléctrico. Por mais que uma vez viu-lhe nos olhos a expressão de loucura de um cavalo em pânico; e só quando a viu para além deste ponto é que pousou o vibrador na mesinha de cabeceira. Sabia que não podia fazer Teresa regressar de repente do lugar aonde a tinha levado: começou a tocá-la ao longo do corpo, com movimentos que eram parte carícia, parte massagem. Quando a sentia perto, murmurava-lhe meiguices; quando a sentia longe, chamava-a pelo nome. Quando sentiu que ela se começava a aperceber de onde estava e com quem estava, começou a beijá-la no sexo; para lhe provocar um pouco de dor, apertou-lhe os mamilos, e isto trouxe-a de volta mais um pouco. Finalmente encontrou nos olhos dela um olhar que o reconhecia.

– Meu senhor… és tu…

Mas ainda não tinha regressado completamente. Raul viu-lhe a breve expressão de surpresa quando quis mover as mãos e sentiu que estava amarrada; mas claro, estava amarrada, como tinha sido possível esquecer-se? Para Raul, este foi o momento de começar a desatar os nós que a prendiam, agora que a tinha de novo no mundo de toda a gente. Soltou-lhe primeiros os pulsos, que ela esfregou para reactivar a circulação, e depois os tornozelos.

– Vou limpar o vibrador – disse ela por fim.

– Tens muito tempo para isso – respondeu Raul. – Agora quero que fales.

– Que fale de quê, meu amor? Meu senhor querido?

– Do que quiseres – respondeu Raul. – Ou da experiência extremamente cruel a que acabo de te sujeitar.

Teresa não se lembrava de há quantos segundos ou minutos tinha começado a retribuir as carícias de Raul, mas no momento em que deu por si a fazê-lo sentiu um desejo enorme de se explicar:

– Não sei… Não sei bem – respondeu. – A parte fácil é que foi mesmo uma experiência extrema; cruel, não sei bem se foi. E é claro que tens sempre o direito de dispor de mim como quiseres, e porque dispuseste de mim estou feliz agora, mesmo que já não saiba se o estava há poucos minutos.

– Mas há a parte difícil…

– A parte difícil é que foi uma experiência extrema sem a menor semelhança com outras experiências extremas. Não se assemelhou a nada. Já falámos nisto uma vez, e continuo tão incapaz de explicar o que senti como nessa altura. Foi uma coisa insuportável como a dor extrema, mas não foi dor. Foi uma coisa com o sabor do prazer, mas não foi prazer: pelo contrário, se não me tivesses amarrado, eu era capaz de ter fugido.

– E que mais?

– Não sei, meu senhor, não sei mesmo… o melhor é fazer agora o que mandaste, ir limpar o vibrador e depois voltar para te servires de mim.

– Sim, é o melhor – disse Raul.

Poucos minutos depois, agachada sobre o seu senhor, Teresa recebia na boca o jacto de esperma com que ele se derramava nela. Ainda sentia toda a zona do sexo a pulsar: se tivesse tido escolha, teria sido penetrada pela vagina, e quanto mais brutalmente, melhor. Mas não tenho escolha, pensou. É essa a minha liberdade. Aplicou-se a limpar o pénis do dono com a língua e com os lábios, pondo nesta tarefa toda a entrega que teria posto se lhe tivesse sido permitido servi-lo doutro modo. Depois, sem que ele lho ordenasse, foi deitar-se no catre aos pés dele. Já com a luz apagada, ainda lhe falou:

– Obrigada, meu senhor…

– Obrigada porquê, meu tesouro?

– Pela dificuldade. Por não me deixares ficar presa ao fácil.

– Então também eu te agradeço, minha escrava, e pelo mesmo motivo. Agora dorme.

Teresa bocejou de tal maneira que Raul mal compreendeu quando ela lhe disse boa noite. Poucos minutos depois, estavam ambos a dormir.

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(Do Capítulo 20)

O embrulho estava no quarto dos castigos. Teresa manteve-se de joelhos enquanto esperava, e Raul, retomando a solenidade com que tinha recebido a sua prenda, manteve-se de pé para lhe entregar a dela, que a recebeu nas duas mãos. Era um embrulho oblongo, que ela abriu para encontrar um cofrezinho de pau-rosa com embutidos de prata. Os embutidos formavam um desenho em trompe l’œil : visto duma maneira representava ramos e flores, visto doutra era uma paisagem de falos erectos que fizeram Teresa corar. No interior forrado a cetim Teresa encontrou, assente num suporte de prata, um vibrador como nunca tinha visto outro: o silicone de que era feito imitava jade, e a base, de enroscar, era em prata embutida com cristais Swarovski.

− Meu senhor, obrigada… é lindo…

Raul agachou-se para lhe dar um beijo.

− É lindo mesmo? Gostaste?

− Muito, meu senhor. É muito lindo.

E durante muito tempo ficou em silêncio, a passar os dedos pela macieza do silicone e a admirar a perfeição e a beleza do fabrico. Não tinha sido comprado numa sex-shop qualquer, de certeza, era demasiado bem feito e demasiado bonito para isso.

Raul sentou-se no sofá e ficou a admirar Teresa enquanto ela admirava a sua prenda. Sentia que ela tinha alguma coisa a dizer mas ainda não estava pronta a falar.

− Meu senhor… − disse ela por fim.

− Diz.

− Esta prenda… desculpa esta pergunta, é tão parva… Este vibrador é para eu usar, ou é para tu usares em mim?

− Nenhum vibrador que exista nesta casa é para tu usares – respondeu Raul. – Nem este, nem nenhum dos que estão guardados no quarto dos castigos. São todos para eu usar em ti. Não sei se já usaste algum, mas se usaste, ficas desde já proibida de o fazer de novo.

− Sim, meu senhor – disse Teresa.

Seguiu-se outra longa pausa, indicativa, para Raul, de que o assunto não estava encerrado.

− Meu senhor…

− Diz, meu amor – encorajou-a Raul.

− É que… É que quando estiveres a usar um vibrador em mim, vou ter que te dizer um segredo.

− Que segredo?

− Posso dizer-te só na altura? Posso, meu senhor?

Raul encolheu os ombros:

− Podes, mas a altura vai ser hoje mesmo. Esta noite vou usar em ti este brinquedo. Olha.

Raul pegou no vibrador, tirou-lhe a tampa, tirou do bolso uma embalagem e introduziu-lhe as pilhas, prestando atenção a que ficassem com as polaridades correctas.

− Anda – disse por fim. – Vamos para a cama.

No quarto, o vibrador ficou em cima da mesinha de cabeceira, no seu suporte de prata, enquanto na cama Raul e Teresa se acariciavam e beijavam. Não tinham televisão no quarto, mas tinham música, e Raul tinha posto um CD de Billie Holiday a tocar baixinho. O vibrador era de alta qualidade e muito silencioso: Teresa só o sentiu quando Raul lhe tocou com ele na comissura dos grandes lábios e a começou a massajar com ele ao longo dos grandes lábios, sempre pelo exterior da vulva. Depois, por um instante, sentiu-o nos lábios menores, e desejou que ele se demorasse por lá, mas a intenção de Raul era outra: com o vibrador assim lubrificado, massajou-lhe longamente o períneo antes de voltar a ocupar-se da vulva, que tinha entretanto florescido e apresentava, perfeitamente visíveis, os pequenos lábios e a abertura da vagina. O vibrador começou a percorrer-lhe os pequenos lábios, sempre de trás para a frente, passando ao lado ou por cima da uretra mas detendo-se todas as vezes, cruelmente, logo antes de chegar ao clítoris. Teresa tinha fechado os olhos, aberto as coxas o mais que podia, e entregava-se às sensações de prazer que Raul lhe provocava com sabedoria e crueldade. Por um momento, um momento só, sentiu que a ponta do vibrador lhe tocava o clítoris; só para a sentir recuar e procurar a entrada da vagina, onde começou a introduzir-se.

Foi neste momento que Teresa recuou com um espasmo e um grito, como se tivesse sido tocada, não por um instrumento de prazer, mas por um ferro em brasa.

− Que foi, meu amor? Fiz-te doer? – perguntou Raul, alarmado.

− Não, não é isso – respondeu Teresa. – É o tal segredo de que te falei…

− Diz-me.

− Sim, meu senhor. Mas continua a fazer por fora…

Raul continuou a acariciá-la com o vibrador, interrompendo a carícia apenas quando ela parecia impedir Teresa de falar.

− Devo ser única – disse Teresa. − Não suporto ser penetrada por um vibrador.

− Única? Nem penses – respondeu Raul. – Há muitas mulheres que também não suportam.

Teresa suspirou de prazer à medida que sentia o vibrador percorrer-lhe a zona genital.

− Mas essas não gostam muito de ser penetradas seja pelo que for. Aceitam um pénis um pouco porque tem que ser, desde que haja mais alguma coisa além da penetração. Mas eu gosto de ser penetrada, às vezes com preliminares, às vezes sem eles. Se sinto que pertenço a um homem, nem sequer sou capaz de distinguir o meu prazer do dele… Mas um vibrador na vagina provoca-me uma sensação que não consigo descrever.

− Sentes dor?

− Não, não é dor. Mas não consigo…

− Tenta explicar – decidiu Raul. – E vamos fazer assim: quando eu achar que não estás a conseguir explicar, meto-te o vibrador um pouco na vagina. Quando achar que estás a conseguir, acaricio-te o clítoris ou outros sítios bons…

− Não me faças isso, meu senhor…

Mas estas palavras só lhe valeram que ele cumprisse a sua ameaça. Descrever uma sensação física é sempre difícil, ainda mais quando outras se sobrepõem e embargam as palavras. Por fim Raul teve que se satisfazer com esta explicação: a sensação que Teresa não suportava era muito parecida com o mais intenso dos prazeres, mas era indubitavelmente um sofrimento; e embora não se parecesse em nada com alguma dor que ela alguma vez tivesse sentido, era mais insuportável que muitas delas.

− Pronto, meu amor – disse Raul, por fim. – Parece-me que já entendi tudo o que podia entender.

E começou a excitar-lhe o clítoris, entremeando esta carícia com breves incursões na zona da vulva e à sua volta, até a ver sacudir-se num orgasmo que se prolongou por minutos. Depois Teresa abraçou-se a ele, aos beijos:

− Agora tu, meu dono… Serve-te de mim…

− Vem tu por cima – disse Raul.

Teresa empalou-se nele, ainda um pouco dorida do orgasmo recente, e começou a fazer os movimentos de que sabia que ele gostava. Quando ele gozou, foi ao quarto de banho para se lavar e para se munir do necessário para o lavar a ele. Depois deitou-se ao lado dele e abraçou-o.

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Não se trata aqui dum excerto, mas de vários, tirados de capítulos diferentes do romance. Em todo o caso, espero que agradem aos meus leitores habituais.

Não custou tanto a Teresa percorrer descalça o caminho até ao carro como tinha custado à vinda. Tinha outra questão a preocupá-la: se o facto de ter posto um soutien por baixo da blusa transparente constituía ou não uma desobediência, e em caso afirmativo que punição iria receber. No carro ficou silenciosa: discutir esta questão com Raul seria indigno se não a discutisse primeiro consigo própria. Quando ele lhe tinha estabelecido a regra de nunca usar soutien na sua presença, isto aplicava-se em todos os casos, ou só a quando a roupa era opaca? Em todos os casos, é claro: se assim não fosse, ele tê-lo-ia dito. Decidiu não mencionar a transparência da blusa: isso seria uma mera desculpa e rebaixá-la-ia aos olhos dele e dos seus próprios. O facto que tinha que assumir é que não tinha tido coragem e por isso tinha desobedecido. Isto, sim, podia ser dito, porque era a verdade.

− Vais-me castigar, meu senhor, não vais?

Raul, que estava a manobrar para entrar na garagem do prédio, demorou um pouco a responder.

− Porque é que achas isso? – perguntou.

− Pois, porque eu mereço…

− Mereces, sem dúvida. Mas diz-me uma coisa: achas que te vou castigar sempre que mereceres?

Pergunta difícil, pensou Teresa. Calou-se para reflectir enquanto saiam do carro e entravam no elevador, e no fim deixou falar a intuição:

− Não, meu senhor. Acho que vai haver vezes em que eu vou merecer castigo e tu não mo vais dar. Sei que não és um homem cruel…

O elevador tinha chegado ao último andar; Teresa interrompeu-se enquanto Raul abria a porta; mas uma vez dentro de casa, e já com os agasalhos despidos, retomou o que tinha a dizer:

− Não és um homem cruel, e tenho a certeza que na altura certa és capaz de perdoar uma desobediência… mas esta não é a altura certa, e tu sabes isso tão bem como eu.

Foi a vez de Raul ficar sem palavras. Sabia que Teresa estava a falar por intuição, mas nem por isso era menos implacável na sua lucidez. Restava-lhe a ele confiar na sua própria intuição, que o mandava ser igualmente lúcido e igualmente implacável.

− Vai tomar um duche – ordenou. – Não te seques. Vem ter comigo toda nua, e ainda molhada. Traz um dos meus chinelos marroquinos. Estarei à tua espera na sala.

Enquanto Teresa se ia preparar, Raul serviu-se dum whisky e começou a beberricá-lo enquanto percorria a sala para trás e para diante, pálido e inquieto. Já tinha aplicado castigos dolorosos a mulheres, sempre a pedido delas ou com o seu consentimento; mas nunca o tinha feito a uma mulher que amasse, e estava agora a descobrir que neste caso o consentimento dela, ou mesmo o seu pedido explícito, não chegavam para que o fizesse de consciência perfeitamente tranquila. Lembrando-se que Teresa ia estar molhada quando viesse, foi ao outro quarto de banho buscar algumas toalhas com que proteger da água um dos sofás de couro. Quando ela se lhe apresentou, deixando um rasto de água no chão atrás de si, trazia, além do chinelo que ia servir para a punir, uma écharpe de seda.

− Meu senhor, desculpa, é para me servir de mordaça, se consentires. Tolero tão mal a dor física… não sei se me poderei impedir de gritar.

Raul acenou com a cabeça. Tinha os lábios apertados um contra o outro e notava-se-lhe uma palidez nas narinas e à volta da boca. Teresa aproximou-se dele e encostou-lhe a cara ao peito, sem se importar de o molhar.

− Não encontrei cordas em parte nenhuma… nem tenho mais écharpes; não me vais poder amarrar, meu querido, mas vou fazer tudo por tudo por não me debater.

Raul acenou de novo e disse:

− Abre a boca. Fizeste bem em arranjar uma mordaça. Trinca bem o pano.

Depois de lhe fazer uma festa na cara, amordaçou-a e ordenou-lhe que se debruçasse sobre o braço esquerdo do sofá, com os pés no chão e o peito e a cara apoiados no assento. Teresa assim fez, e Raul, vendo que o corpo dela começava a secar, passou-lhe a borda da mão pelas costas, empurrando para as nádegas as gotas de água que a salpicavam. Teresa, ajoelhada com o rabo para cima, gemeu um pouco, consciente que o castigo sobre a pele molhada seria mais doloroso.

Raul ainda demorou algum tempo a encontrar a melhor maneira de segurar o chinelo na mão. Depois, sem hesitar, deu o primeiro golpe com toda a força que tinha. Teresa deu um salto e deixou-se cair para o chão, mas logo se levantou e voltou a assumir a posição em que estava. Já tinha esquecido a dor provocada por castigos mais severos, e este parecia-lhe quase insuportável; mas estava decidida a não dar parte de fraca. Raul iniciou então uma série de golpes, num ritmo lento e regular que indicava não estar aqui em questão a obtenção de qualquer espécie de prazer, nem para a sua escrava, nem para si próprio. Durante todo o castigo não houve uma única vez em que Teresa se conseguisse manter quieta entre duas pancadas, mas conseguiu ao menos, com um esforço enorme, manter as nádegas em posição. Quando as lágrimas lhe vieram aos olhos, o que aconteceu logo aos primeiros golpes, virou a cara para as costas do sofá para que Raul as não visse; mas a certa altura não conseguiu mais evitar que os ombros se lhe sacudissem em soluços. O facto de Raul continuar o castigo sem ter estes soluços em consideração provocou nela um quase orgulho, um quase alívio: não seria pelas lágrimas que alguma vez o poderia controlar.

Não contou os golpes, nem se deu conta que ele os estivesse a contar. A dor tornou-se a tal ponto uma eternidade que a certa altura Teresa perdeu a expectativa, a esperança, e até o desejo de que ela alguma vez acabasse. Mas acabou: a primeira indicação que teve disto foi sentir a mão de Raul a desatar o nó da mordaça, e depois a mão dele a pegar-lhe no queixo e a virar-lhe o rosto, e depois os lábios dele a beijar-lhe as faces molhadas. Assim que pôde falar, murmurou:

− Meu senhor querido, perdoa-me…

Raul pôs-se muito sério:

− Ouve bem, Teresa D’Ávila. Nunca mais me peças perdão depois de eu te ter castigado. Um castigo decidido por mim e dado por mim apaga tudo, nem que seja só uma reguada na palma da mão: depois de terminar não tenho mais nada a perdoar-te.

Teresa, que entretanto se tinha estendido a todo o comprimento do sofá, ergueu-se sobre um cotovelo e ofereceu-lhe a boca para que ele a beijasse.

− Eu sei, meu senhor – disse-lhe por fim. – Não te estava a pedir perdão por ter ido de soutien, estava-te a pedir perdão por estar ainda a chorar…

Raul beijou-lhe de novo os olhos.

− Isso talvez seja porque este castigo foi um castigo mesmo – sugeriu. – Se tivesse sido para meu prazer ou meu capricho, acho que neste momento estarias já a sentir algum prazer, se é verdade o que me contaste de ti sobre este assunto.

− Sim, estaria a sentir prazer; mas agora não estou. Estou feliz, o que é diferente; mas prazer, não sinto. Era por isso que te estava a pedir perdão.

− Se é por isso, estás perdoada – respondeu Raul, rindo. – Quanto ao prazer, vamos já tratar disso. Pelo menos do meu, que é para o que tu serves.

Teresa riu-se também, por entre as lágrimas. Estendeu os braços para o abraçar e disse-lhe ao ouvido:

− Lá por isso, se sirvo só para o teu prazer, de que é que estás à espera para te servires de mim?

E foram os dois abraçados para o quarto, onde ele com efeito se serviu dela tão copiosamente que não adormeceram antes das cinco da manhã.

[ … ]

Nos dias seguintes Manfredi tratou de negócios: não só dos de Teresa, presumiu Raul, mas também dos doutros clientes que pudessem ter interesses no Norte de Portugal. Só no próprio dia da partida teve tempo para aceitar o convite de Raul. Para entrar no quarto dos castigos era necessário subir um degrau: isto, explicou Raul, porque o isolamento sonoro e o revestimento do chão tinham obrigado a levantar o pavimento doze centímetros. Ainda bem que a casa era antiga e o quarto grande, com tecto alto, de outro modo teria ficado minúsculo com a grossura do isolamento. As paredes estavam revestidas a tijolo maciço em cor natural, com um verniz mate.

– Só tive duas dificuldades – explicou Raul. – A primeira foi desmontar o pavimento irradiante para o instalar depois de novo sobre a camada de isolamento. Isto só o vai tornar mais eficiente, é claro, mas deu uma trabalheira. A outra foi explicar estas colunas – e apontou para duas grossíssimas traves de madeira que se erguiam, separadas uma da outra por pouco mais que um metro, do chão ao tecto – aos homens que cá andaram a trabalhar.

– Difícil, porquê? – perguntou Manfredi.

– Tive que as fixar ao chão original e ao tecto original, e isto só podia ser antes das obras. Gastei dezasseis cantoneiras de aço e 96 parafusos de 8x80mm. Quando os homens me perguntaram se eu queria isto para pendurar motores de automóveis, tive que inventar uma coisa qualquer, que ia fixar barras para fazer ginástica… Ficaram a olhar para mim como para um lunático.

Manfredi deu uma pequena risada:

– Pois é, as vicissitudes dum dominante… people have no idea.

[ … ]

O que Raul decidiu, afinal, em relação ao quarto dos castigos, foi construir uma plataforma resistente, assente sobre traves fixas às paredes e às colunas, onde Teresa, de pé, ficasse com as nádegas à altura mais conveniente para a mão dele. Sobre essa plataforma ser-lhe-ia possível fixar dois móveis pesados: num deles, uma espécie de divã abaulado, podia fazer deitar a sua escrava, de barriga para cima, com os quadris e o ventre a um nível meio metro mais alto do que a cabeça e os pés, de modo a poder fustigá-la comodamente no ventre e no peito. As pernas ficariam mais fechadas ou mais abertas conforme as argolas que ele escolhesse para lhe amarrar os tornozelos ou as coxas. A superfície deste móvel seria acolchoada de modo a que Raul não magoasse os joelhos ou os cotovelos quando a possuísse sobre ele. O outro móvel era um banco alto, também acolchoado, onde Teresa se podia debruçar de modo a ficar com o rabo empinado, e do outro lado com a cabeça livre de modo a poder ser possuída pela boca.

Raul, que queria que estes móveis fossem sólidos, bonitos, bem construídos, bem acabados, de madeira nobre e couro da melhor qualidade, não teve outro remédio senão mandá-los fazer em Paços de Ferreira, dizendo que os destinava a uma nova espécie de ginásio. As argolas que serviriam para prender Teresa – anéis metálicos com cinco centímetros de diâmetro e um de grossura, presos à madeira por uma haste em forma de parafuso com seis centímetros de comprimento e sete milímetros de espessura junto à base – teriam que ser de bronze, para que Teresa tivesse a responsabilidade de as manter sempre limpas e brilhantes. Além disso, por razões estéticas de que Raul não prescindia, a parte em forma de anel tinha que ser separada da parte em parafuso por um batente circular com doze ou quinze milímetros de diâmetro. Nas lojas de ferragens e de “faça você mesmo” que Raul visitou não havia nada disto. Foi às lojas de artigos náuticos mais tradicionais de Matosinhos, onde lhe disseram que noutros tempos, talvez, mas que hoje era tudo fibra de vidro e aço cromado. Acabou por ter de mandar fazer o que queria numa oficina de fundição.

Enquanto esperava que as argolas de bronze ficassem prontas, chegaram mais caixotes de Milão: chicotes, vergastas, canas, vibradores, algemas, correntes, cadeados, pénis de borracha ou silicone, cordas macias de seda ou abrasivas de cânhamo, sapatos, sandálias, botas, roupas de couro, de cetim, de seda, opacas, transparentes, soltas, apertadas, para além de uma série de outros objectos que Raul nem sabia para que serviam. Resolveu pendurar alguns em ganchos nas paredes, dispor numa bancada os que pensava utilizar, e comprar um armário com vitrina para expor os restantes. Para as roupas e sapatos, resolveu comprar um armário fechado, que não podia ser grande demais para não atravancar o aposento. Algumas destas roupas teriam que ficar, juntas com as do dia-a-dia, no roupeiro embutido do corredor, junto ao quarto, que tinha ficado reservado para Teresa e já continha algumas peças de roupa que ela tinha deixado ficar nas visitas anteriores.

[ … ]

Chegados ao apartamento, Teresa ficou encantada com o quarto dos castigos, embora tanto ela como Raul já tivessem a ideia muito nítida de que aquela decoração e aqueles instrumentos não correspondiam exactamente ao tipo de relação que tinham em mente. O que aquele quarto exprimia era um domínio e uma submissão formais, ritualizados, estilizados, balizados por regras e limites, e muito centrados na punição física; enquanto o que eles pretendiam era algo de muito menos formal e muito mais radical e consequente. Como Teresa disse a Raul, não era tanto um estilo de vida como uma opção de vida.

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