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Posts Tagged ‘voyeur’

À luz fraca das velas a penugem esparsa do baixo-ventre confundia-se com as sombras, mas ainda assim era possível descortinar, entre as coxas muito abertas, no sexo propositadamente exibido, um brilhozinho molhado que se assemelhava ao dos olhos e ao dos lábios. Mas este pequenino revérbero ocultou-se de novo quando Mariana, no fim do bolero, se endireitou, se inclinou para a frente, uniu os joelhos e ficou assim pelo momento que durou o silêncio.

Ricardo tinha uma predilecção especial, de entre os quartetos tardios de Beethoven, pelo Opus 132; e deste Mariana tinha escolhido, para continuar a sua dança, o terceiro andamento, Molto Adagio, Andante, Molto Adagio. Serenamente, molto adagio, levantou-se, caminhou em direcção a Ricardo, pegou-lhe nas mãos e sentou-se ao lado dele. Estava toda nua, mas evocava nos movimentos do corpo um vestido primaveril, que ajeitava com as mãos para se sentar. Murmurou-lhe ao ouvido:

– Às vezes, numas coisas que escrevo para mim, dou a mim mesma o nome de Mariana…

E Ricardo lembrou-se do dia em que ela tinha escolhido, em Coimbra, o seu nome de escrava: um dia em que ele estava doente, doente de solidão, doente de dormir sozinho com a mulher ao seu lado na cama. E Mariana tinha começado a curá-lo. Agora, ao ouvir este molto adagio de Beethoven, lembrou-se do título do andamento: Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit, Cântico de Graças de um Convalescente à Divindade. Bem escolhida, a música, apropriada às memórias que as palavras tinham convocado. Fez um movimento para beijar a amante mas esta escapou-se-lhe, rindo, e começou a caminhar pela sala como se o chão a magoasse. Praia pedregosa? Não: Mariana equilibrou-se num só pé e começou a examinar a sola do outro, como que a procurar um espinho. Um pinhal, uma mata? Mariana sentou-se no chão com as pernas cruzadas, alisou o pavimento à sua frente como se alisasse um tecido: um piquenique? Tinham feito tantos…

Entretanto o quarteto tinha parado de tocar. Durante a pausa Mariana ajustou inconscientemente a posição do corpo: o torso erecto, a inclinação elegante da cabeça, a segurança dos gestos, tudo nela era agora a anfitriã perfeita, senhora absoluta da sua mesa – esteja esta posta com todo o requinte na sala, com simplicidade na cozinha, ou consista apenas numa toalha num pinhal. Postura esta, porém, logo contradita pela música que agora jorrava dos altifalantes: a complexidade elaborada de Beethoven dava agora lugar ao simplismo quase idiota duma melodia popular alemã. «Ach, du lieber Augustin, Augustin, Augustin», reza a cantigueta (que, dizem os musicólogos, é a primeira valsa conhecida na Europa) e evoca camponeses bávaros moçoilas louras de tranças e Dirndl, e canecas de litro a abarrotar de cerveja; ou então, traduzida para «the more we get together, together, together», traz à lembrança as aulas de inglês da adolescência.

Mas para Ricardo e Mariana o que esta música evocava era o piquenique que tinham feito uma vez na Caparica, numa mata empoleirada sobre a praia, e o mirone que tinha andado de gatas à volta deles e a quem tinham posto a alcunha de Agostinho, porque era de Agostinho a cara dele. Subitamente, Ricardo recordou com toda a nitidez o calor do sol, a aragem, o cheiro da mata, a nudez de Mariana naquele dia. A mata era densa, e só se tinham apercebido da presença do voyeur depois de ele ter dado uma ou várias voltas à roda deles, de gatas. Ao vê-lo rir, Mariana abandonou a sua pose de grande dama, pôs-se de gatas (serigaita, serigaita) e começou a mover-se pela sala com ademanes exageradamente furtivos que depressa deram lugar a um saracotear descarado do rabo nu, que virara para o dono. A banda continuava a martelar o ritmo rudimentar da valsa: pum PUM, pum pum pum PUM pum pum, PUM pum pum, PUM pum pum; PUM, pum pum pum PUM pum pum, PUM pum pum PUM! E Mariana, perdida de riso, dançava de gatas, abanava os quadris, e fingia esconder-se por trás dos móveis como o outro, anos antes, por trás dos arbustos.

(Continua)

(Publicado no Blogger an 23/12/06)

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Eram nove horas da manhã, e Mariana, mesmo sabendo que Victor não chegava a Lisboa antes das dez e meia, sentia-se já à espera dele. Movia-se lentamente pela casa: hora e meia até ele chegar, mais dez ou quinze minutos para não ser a primeira a chegar ao lugar do encontro. Já tinha escolhido a roupa que havia de levar: era um dia cheio de sol, bom para passar na praia, e o vestido comprido em tons de terra que acabou por vestir tanto a protegeria do calor como do vento.

Quando chegou ao centro comercial o amante já estava à espera dela. O primeiro beijo que trocaram foi, como sempre, tingido de reserva e timidez; como se pedissem um ao outro perdão por uma ofensa que não sabiam bem qual era. Talvez a de terem estado tanto tempo afastados; ou a de não poderem, nesta cidade onde Mariana era conhecida, dar livre curso à ternura. Este constrangimento durou ainda enquanto transferiam de um automóvel para o outro o saco com as toalhas e os fatos de banho, mas depois, a caminho da praia, na intimidade do automóvel, começaram a redescobrir um no outro os traços e os gestos familiares: retoma, reencontro, reconhecimento.

Na praia estava vento, o suficiente para não lhes apetecer tirar a roupa; mas na esplanada abrigada onde tomaram um refresco e comeram uma salada o ar estava morno. De tarde voltaram para a areia. Ou porque o vento tivesse amainado, ou porque se tivessem habituado a ele, ou ainda porque o sol estivesse agora mais quente, puseram-se em fato de banho. Durante uma hora ou duas apanharam sol, conversaram, trocaram uma ou outra carícia discreta. Ainda não eram cinco horas quando Mariana se quis ir embora.

– Arranjei bilhetes para a ópera, e ainda quero ir a casa mudar de roupa.

Representava-se A Flauta Mágica no S. Carlos; Mariana e Victor tinham falado em ir lá, mas entretanto não tinham voltado a mencionar o assunto e ele já não estava a contar com isso. Se Mariana lhe tivesse dito mais cedo que tinha os bilhetes, ou se ele se tivesse lembrado de lho perguntar, não teria acedido em passar o dia na praia e na mata, ou teria trazido uma muda de roupa.

Assim como estava, sem gravata, empoeirado, ia sentir-se pouco à vontade.

– Não faz mal, – disse-lhe Mariana. – Podes tomar um duche em minha casa, e eu escovo-te a roupa. Vais ficar bonito, como sempre.

Victor nunca tinha estado em casa de Mariana. Era um grande apartamento luminoso, todo em vidros, mármores e madeiras claras, e tinha o ar vivido de toda a habitação em que há adolescentes. De momento estavam todos fora, o marido de Mariana no escritório e os rapazes na escola; mas Victor não pôde deixar de se sentir um intruso nesta casa, e tanto mais nervoso quanto mais tempo se demorasse nela. Não se sentiu capaz de beijar Mariana nem de falar com ela, a não ser por alguns constrangidos monossílabos que a deixaram obscuramente decepcionada, como que por uma traição.

Victor lavou-se e vestiu-se rapidamente, com a porta do quarto de banho fechada como se a amante nunca o tivesse visto nu; e só descansou quando se viu de novo na sala, completamente vestido.

Entretanto Mariana também se estava a preparar.

– Como ordena o meu senhor que eu vá vestida? – perguntou, faceira; mas já tinha escolhido um vestido comprido de seda, que pendurava diante do corpo para o amante ver. Era um atavio da maior simplicidade, azul-marinho, não muito decotado, seguro nos ombros por duas finas alças.

– Esse vestido serve – disse Victor, – mas quero que vás toda nua por baixo.

Mariana soltou o leve gemido de excitação que Victor aprendera a conhecer.

– Está bem, – murmurou, mais como quem acede do que como quem obedece; e depois de o beijar na boca desapareceu na direcção do quarto de banho. Quando reapareceu, vestida, maquilhada, penteada, ele levantou-se do sofá para lhe beijar a mão. Ao endireitar-se, desajeitado e nervoso, tocou com a cabeça no espanta-espíritos pendurado no tecto. Um harpejo de campainhas percorreu a sala, tão delicado que mais realçava o silêncio do que o quebrava. Victor ficou interdito por um momento, mas logo se recompôs.

– Estás linda, – disse; e tomando a amante nos braços correu-lhe uma mão exploratória sobre as costas e os quadris.

– Estou nua por baixo, estou – riu-se Mariana ao senti-lo. – Gostava de saber porque é que todos os homens têm esta fantasia. Até as minhas cunhadas… bom, mas não interessa.

Foram para o teatro no automóvel dela. O dele ficou estacionado nas traseiras do prédio, pronto para a viagem de regresso. No vestíbulo não encontraram ninguém que algum deles conhecesse, mas na plateia, tomando lugar na fila mesmo em frente da deles, depararam com um casal conhecido de Marta e do marido. Mariana apresentou-os a Victor: Pedro, Diana. E Victor, que tinha reparado no modo como Marta os tinha cumprimentado – um beijo só, na face – teve o cuidado de cumprimentar Diana do mesmo modo.

– O Gabriel…?

– Não pôde vir. E para não desperdiçar os bilhetes…

– Ah, pois claro. E em todo o caso a Marta vem muito bem acompanhada.

Isto dito pela senhora, que apresentava, não obstante a robustez saudável da figura, uma palidez de lua no semblante. Era uma mulher alta, mais fina de feições do que de corpo, com cabelos negros cortados curtos. Sobre o vestido negro trazia um bolero negro bordado a prata, como um colete de toureiro. Os modos, não obstante uma circunspecção de circunstância, denotavam um temperamento vivo. Enquanto durou a conversa mostrou-se animada e divertida; e os olhos negros chispavam recados na direcção dos amantes.

– Percebeu tudo, – segredou Mariana a Victor quando se sentaram.

Durante toda a primeira parte os dois amantes mantiveram a leveza de coração que tinham experimentado ao longo do dia. A serpente que ameaçava Tamino era um dragão de papel multicolor, e despedia pelas narinas, em vez de fumo e fogo, chispas festivas que evocavam um bolo de aniversário ou um cocktail estival. Mas o que sobretudo os divertiu foi a primeira aparição da Rainha da Noite, num vestido negro bordado a prata que fazia lembrar o de Diana. Impedidos de falar, Victor e Mariana trocaram um sorriso e apertaram a mão um do outro. A avaliar pelo aspecto e pelo vestido, Diana estaria tão bem para o papel como a cantora que agora prometia a Tamino, numa vigorosa ária de coloratura, a mão de Pamina.

Não se pode dizer que os dois amantes se sentissem muito incomodados pela ameaça ao seu segredo que este encontro representava. Pelo contrário, o picante da situação divertia-os e excitava-os. Mais tarde, durante o intervalo, foi com um riso mal contido que Victor segredou a Mariana:

– E mal sabe a tua amiga o que trazes – ou o que não trazes – por baixo do vestido.

– Não tenhas tanta certeza, – disse Mariana. – Olha que as mulheres vêem muito.

E apoiando-se-lhe no braço ousou dar-lhe um beijo, rápido e risonho, na face.

Nem a Flauta Mágica era novidade para Victor, nem o teatro em que se representava o era para Mariana. Ambos sentiam, contudo, que tudo à sua volta era novo. A música, o enredo, as personagens; e por outro lado o edifício, os espectadores, o champanhe no intervalo – tudo se encontrava transmutado e colorido pela aguda consciência que ambos tinham da nudez de Mariana por baixo do vestido. Para Victor era uma tortura não poder correr-lhe a mão pelo flanco; e para ela, que bem se apercebia de para onde a mão do amante lhe puxava, cada movimento dele era um delicioso sobressalto. No palco, na plateia, no teatro todo, não havia com certeza nenhuma outra mulher a quem tão pouco separasse da mais completa nudez: dois sapatos sem meias, um vestido sem forro, uma carteira minúscula.

– Se o vestido se te prendesse em qualquer coisa – segredou-lhe o amante, – e se rasgasse de cima a baixo, ficavas aqui como vieste ao mundo.

Mariana teve um arrepio ao imaginar-se toda nua no átrio do S. Carlos, autora involuntária do espectáculo do ano, exposta ao olhar de todos, desconhecidos, conhecidos, colegas, conhecidos de colegas. Corou, tanto de vergonha como de excitação, e para se recompor um pouco afastou o corpo do do amante. Sentia-se leve, leve, a flutuar no ar, levada por uma imaginação mais embriagadora que o champanhe.

Sentar-se na cadeira para a segunda parte foi um anti-climax, mas também um alívio. No palco, Tamino começava as suas provas de iniciação; e pouco tempo depois a Rainha da Noite, numa ária que Mariana sempre associara aos ralhos das mulheres, jurava vingança sobre Sarastro: “Die Hölle Rache kocht in meinem Herzen”, o inferno da vingança ferve-me no peito.

Um inferno assim exigia uma música que fosse em tudo contrária à natureza, à razão e à sabedoria, uma música em que não houvesse silêncios. Por contraste com este ralho ininterrupto, a mudez iniciática imposta a Tamino ecoava o silêncio dos templos e das bibliotecas, e dos grandes espaços virgens. Pelo menos soava-lhe assim a ela, Mariana, que era mulher mais de calar que de ralhar, e nunca tivera dificuldade em tolerar os silêncios masculinos; e com a ária desaustinada da Rainha da Noite ainda a soar-lhe nos ouvidos sentiu-se capaz de perdoar ao amante o silêncio embaraçado de horas antes.

Mais tarde, no carro, falaram da Rainha da Noite, do silêncio imposto a Papageno e exigido a Tamino, do facto de na ópera o próprio estar calado se exprimir por palavras e por música: “Schweige still… Schweige still…” Passava da meia-noite. Mariana parou o carro nos jardins da Cidade Universitária, meio escondido entre os arbustos, e sem quaisquer preliminares começou a desapertar as calças do amante. Depois, erguendo o vestido, encavalitou-se-lhe ao colo.

– Espera, – disse ele, e começou a tirar as calças e as cuecas de algodão branco. Mariana olhou à volta e viu que os vidros do carro já estavam a começar a ficar embaciados: era impossível que alguém conseguisse ver para dentro, e além disso estavam ambos vestidos da cintura para cima. Sem mais hesitação empalou-se no sexo erecto de Victor e começou a mover-se vigorosamente para cima e para baixo enquanto ele procurava segurar-se numa posição em que não tivesse que se contorcer demasiado.

Os olhos tinham-se-lhes já habituado à luz débil dos candeeiros distantes; e Victor conseguia distinguir no rosto da amante os traços mais vincados: o ricto na boca entreaberta, rosa martirizada; as rugas de concentração no sobrolho; os vincos de sofrimento entre as narinas e a boca. E o queixo erguido, os olhos semicerrados, davam-lhe o ar duma monja em êxtase. Mais uma vez Victor se maravilhou: dizia-lhe a experiência que todas as mulheres são belas no prazer, mas esta era uma beleza absoluta que evocava nele um sentimento de reverência e adoração.

A posição em que Victor se encontrava não era a mais favorável a um clímax rápido. Viu como o rosto e o pescoço da amante escureciam e soube que a uma luz mais intensa esse escurecimento seria um rubor; e num esforço arquejante aumentou o ritmo e a amplitude das estocadas que dava de baixo para cima no ventre empalado da amante. Mas estava cansado, o dia tinha sido longo, e por mais que tentasse não conseguia seguir nem controlar o furor dionisíaco com que ela o cavalgava. Por mais que uma vez saiu sem querer de dentro dela, com um ruído molhado de sucção, e então era a azáfama, a urgência, de procurar de novo a abertura, forçar de novo para baixo o pénis reteso, e pô-lo de novo no lugar, para de novo partirem de novo à desfilada, qual o cavaleiro, qual a montada rebelde, não o saberiam dizer.

Só mais tarde, passado o frenesim, quando já elanguesciam abraçados, se deram conta de que estavam a ser vistos. Um automóvel tinha estacionado em frente deles e, encostado a ele, um homem de calças escuras e camisa branca masturbava-se olhando na direcção dos amantes.

– Deixa-o – disse Victor. – Dali para aqui não consegue ver grande coisa.

Mas Mariana, rindo-se, tocou a buzina e acendeu os faróis. O homem compôs-se, entrou no carro e arrancou. Mas era tarde, Marta tinha que ir para casa, e Victor tinha ainda que ir para o Porto. Despediram-se no parque de estacionamento junto ao prédio dela. Victor ficou sentado no carro até ela entrar no prédio. Depois de ver apagar-se a luz do átrio, deu a volta à chave de ignição, arrancou, e procurou o caminho para a Segunda Circular. «Na primeira área de serviço vou tomar um café duplo», pensou. «Ainda são trezentos quilómetros até ao Porto.»

Publicado no Blogger a 23/08/06

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De gatas

Trezentos quilómetros até Lisboa. Encontro no parque de estacionamento dum centro comercial para deixar o meu carro e transferir a maleta para o teu. E depois um passeio até à outra margem.

Uma zona de pinhal – ou seriam outras árvores? – de onde era possível avistar, muito em baixo, o mar. A Caparica, disseste-me. Ou seria Sesimbra? Foi há tanto tempo…
Entrámos a pé pelo pinhal dentro até chegarmos a uma pequena clareira longe da estrada onde dispuseste o piquenique: iogurtes, fruta, tostas, queijo, e as framboesas que se tornaram parte do nosso ritual. Toalhas de praia para nos deitarmos. A roupa ficou pendurada pelos arbustos, e nós no nosso «Déjeuner sur l’Herbe» que em pouco tempo se transformou, perdoa-me o trocadilho, num outro tipo de esplendor na relva…
De súbito, um ruído, uma coisa esbranquiçada entrevista por entre o mato: um mirone. Como quem não quer a coisa, seguimos-lhe os movimentos: um círculo completo à nossa volta, num raio de pelo menos seis metros, entre vegetação espinhosa – FEITO INTEIRAMENTE DE GATAS!
Quase quarenta metros de gatas, e depois outros quarenta, até que, perdidos de riso, resolvemos dar a conhecer ao homem que tínhamos dado por ele.
Depois fomos a tua casa tomar duche, mudar de roupa e jantar. À noite fomos ver «Il Trittico». Tu nua por baixo do vestido («Porque é que todos os homens têm essa fantasia?», perguntaste-me). Apresentaste-me a um casal que conhecias: «Um amigo do Porto». Cumprimentaste só com um beijinho, e eu segui-te o exemplo.
A caminho do S. Carlos para o lugar onde estava o meu carro paraste e fizemos amor dentro do teu. Lembras-te do escrúpulo que tinhas de não fazer amor em tua casa nem na minha? E na aversão que tinhas a hotéis?
(Mas dois anos depois, em Paris… De novo nua por baixo do vestido… Dois screwdrivers no Crazy Horse, tu que praticamente não bebes… Eu a masturbar-te no banco de trás do taxi… Aí, no quarto do hotel, deste-me a tua versão – muitíssimo melhorada, minha querida – de certa parte do espectáculo a que tínhamos assistido).
Da margem Sul para tua casa; em tua casa, enquanto me mostravas os quadros; a caminho do S. Carlos; no meio do espectáculo; no intervalo; no teu carro de novo; e já no parque de estacionamento, enquanto mudávamos as coisas para o meu – não sei quantas dúzias de vezes, quando um de nós murmurava ao ouvido do outro as palavras «de gatas» era quanto bastava para nos desmancharmos os dois de riso.

(Publicado no Blogger a 08/11/05)

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